Dílson Lages Monteiro –  da Academia Piauiense de Letras

A crítica literária no Piauí estaria incompleta se cogitássemos concebê-la sem a presença das contribuições de Carlos Evandro Martins Eulálio. Ao longo de sua trajetória de dedicação aos estudos de escritores locais e ao magistério, como professor de Literatura, sobretudo, antes do professor existiu – e existe – o pesquisador inquieto que registrou, em sua escritura acadêmica, aspectos definidores do discurso literário em diversos autores vitais do cânone piauiense. Entre o grande número de literatos analisados em ensaios curtos ou longos, citam-se Da Costa e Silva, Félix Pacheco, Martins Napoleão, O. G. Rêgo de Carvalho, Ribamar Garcia, Paulo Machado, Elmar Carvalho, Rubervan du Nascimento...  A lista é longa.

Interrompemos o raciocínio inicial, por uma razão justa. Permitam-nos falar em primeira pessoa para uma pequena digressão. Também um depoimento dos mais sinceros, porque admiração por si, quando justificada pela grandeza das características pessoais e da inteligência do admirado, já se mostra por natureza sinceridade. Isso diz muito para afirmamos: tivemos o prazer – mais do que isso -- a oportunidade única da convivência profissional por quase duas décadas com o professor Carlos Evandro em escola privada de Teresina. Do professor Carlos Evandro, conhecíamos o sucesso de sua passagem como professor pelo Departamento de Letras da Universidade Federal do Piauí, atividade da qual se “afastaria” para atuar em  cargo de administração como bancário. O magistério e a paixão pela linguagem e pelos livros estavam em seu ânimo e afeto e à  sala de aula retornaria, com intenso labor, tanto no Ensino Médio quanto no Superior, atuando em ambos com dedicação incomum. Ser  professor  sempre foi, para ele, uma genuína vocação.

Com  esmero, exercia no Ensino Médio as coordenações de Literatura e Latim, além de ser professor dessas disciplinas e de Redação, vivendo o ofício em atenção frequente para a relação teoria e prática, para a observação cotidiana da aprendizagem.  Encontramos, em sua figura,  luz  e  instrução para os estudos; o estímulo para o sentido da vivência concreta da palavra, mas principalmente a fonte incansável de humildade, invenção, perseverança, integridade intelectual e tantos traços fundamentais para o magistério e para a pesquisa. Com o professor Carlos, aprendemos muito sobre o lugar do pesquisador. Nele, o didatismo e a sede em ver textos e autores tanto pela sua individualidade quanto pelo que ainda não se havia revelado a público, transformavam-se em satisfação para novas leituras. Sua maneira personalíssima de conceber o magistério e a pesquisa era, para nós, exemplo.

Voltando ao raciocínio inicial, cumpre se dizer que a inquietação de Carlos Evandro Martins Eulálio em enxergar o escritor piauiense sob novas lentes, visível em tudo que tem escrito sobre a literatura de autores do Piauí, é mais perceptível, principalmente, pela contínua e crescente pesquisa sobre um dos principais poetas piauienses: Mário Faustino. Tudo que já apresentou sobre o autor de “O homem e sua hora” poderia fazê-lo satisfeito, mas a vontade de contribuir mais e mais para o entendimento e discussão da obra do poeta continua a levá-lo a presentear os interessados pela obra de Mário ao conhecimento de novas percepções sobre o escritor, sua obra e seu tempo. Somente a dissertação A Educação pela Poesia: O Projeto Pedagógico de Mário Faustino para Poetas e Críticos Brasileiros, focalizando especialmente o didatismo de Faustino, já seria capaz de inserir a crítica de Carlos Evandro M. Eulálio como leitura fundamental para os estudiosos da obra faustiniana. Mas prof. Carlos Evandro não parou por aí: vieram a antologia comentada que organizou sobre a produção em versos do poeta (outra obra fundamental), além de ensaios e palestras de igual teor (também, indispensáveis), sempre revelando nuances ainda inexploradas ou rediscutindo saberes cristalizados, em diálogo permanente com as vozes de seu tempo.

Agora, a sistematização do que  o prof. Carlos Evandro escreveu e pesquisou sobre Mário Faustino ganha versão em Mário Faustino Revisitado: Textos Críticos e Antologia Comentada, ao mesmo tempo genérica e aprofundada, em volume único em que se desdobra o crítico em coligir a visão particular que empreendeu ao longo de todas as incursões que concretizou pelas páginas literárias de Mário. Não se tratam as anotações, porém, de mero resumo do já lido em outras obras de crítica ou artigos que escreveu – dada a qualidade e relevância das incursões, isso, até, bastaria para contentamento de quem acompanha o olhar de Carlos Evandro. Antes, trata-se de uma atualização de seu pensamento, para além de novos registros esparsos, muitos deles publicados na web ou exclusivamente divulgados em palestras; registros que se foram constituindo nos derradeiros anos ou que deram margens a acréscimos relevantes, à proporção que tecia leituras até então não materializadas em sua crítica.

Assim é que temos uma obra definitiva. Nela se concentram além de perfil biográfico completo, notas sobre a inclusão de Mário Faustino no panorama da poesia de 1945, com os desdobramentos de seu percurso teórico-poético, consumada, sobretudo, pela apresentação da gênese de sua criação, para apontar o que de modernidade e tradição faz da poética faustiniana singular na poesia brasileira. Além disso, Mário Faustino Revisitado: Textos Críticos e Antologia Comentada, de Carlos Evandro M. Eulálio, traz uma visão clara das influências configuradoras das escolhas e traços de estilo mais característicos. Nesse particular, "O homem e sua hora" é duplamente revisitado: para expressar as fases da produção literária do poeta e, ao mesmo tempo, a revisitação da antologia comentada que Carlos Evandro escreveu em momento não tão distante, agora, com leituras até então não realizadas por ele. Para coroar essa empreitada, além de reunir em livro palestras proferidas em Teresina pelos principais pesquisadores da obra de Faustino, organizou glossário comentado dos livros publicados por esse grandioso nome, que sendo piauiense aclamado em sua terra, consolidou-se como referência na literatura nacional, nome que afora o talento para a criação original em literatura, soube, com excepcionalidade, conforme Maria Engênia Boaventura, revelar intimidade com as correntes internacionais da teoria literária de sua época.

Razões há de sobra para se abrir as páginas desta obra definitiva. Que os olhos avancem sobre elas! É, reitera-se, definitiva! Ainda que o leitor possa subverter o texto literário ou mesmo apreciações críticas e encontrar para eles sentidos inesperados e renovadores, ou até discordar, há livros que nascem para permanecer. Este é um!