Reginaldo Miranda[1]

Ao redigir artigo reparador sobre o pioneirismo do Engenheiro Antônio José de Sampaio, na importação de quatro novilhos da raça simental, para as Fazendas Nacionais do Piauí, ocorreu-me de indagar sobre o cruzamento oriundo desses novilhos com as vacas curraleiras ou pé-duro, que então dominavam com exclusividade o cenário de nossas fazendas. E como um assunto puxa outro despertou-me a curiosidade sobre o gado malabar.

Quem é a pessoa com origem rural, descendente de família com tradição pecuarista que nunca ouviu falar em boi malabar? Existem muitas estórias exaltando a sua beleza e vigor, assim como a destreza de vaqueiros destemidos que os desafiavam. Eram assim chamados os novilhos mais formosos, as novilhas mais lustrosas e as vacas mais graúdas do rebanho, oriundos do cruzamento de nosso gado dito nativo com zebuínos oriundos da Costa de Malabar, no sudoeste da Índia.

O malabar fez história no Nordeste, existindo em sua homenagem até bloco carnavalesco no Recife. Em recente pesquisa para a elaboração dessas notas, encontramos anúncios de jornais da Bahia, no início do período imperial, oferecendo gado malabar em seus classificados. Este fato denota a precedência do malabar sobre muitos outros. Certamente, é descendente daquele primeiro casal de gado zebu que desembarcou na Bahia, em 1813, trazidos da referida Costa de Malabar. Assim como das importações de novilhos zebuínos feitas em 1816, oriundos da África, sobretudo do vale do rio Nilo, do Senegal, do Congo, da Nigéria e de Madagascar, de que nos fala a literatura histórica.  Em 22 de setembro de 1838, um morador da cidade de Salvador, assim anunciou: “Francisco Ezequiel Meira, à rua da Preguiça, tem seis bois da raça malabar, optimos carreiros, novos, e muito mansos; quem os quizer comprar, dirija-se ao mesmo, para vê-los, e ajustá-los” (Correio Mercantil, 22.9.1838).

Dois anos depois, na mesma cidade oferecia-se uma vaca malabar nesses termos: “Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, vende um carro de duas rodas de raio, com caixão, próprio para fazer qualquer condução, e uma vaca malabar muito mansa, do serviço do mesmo carro” (Correio Mercantil, 15.2.1840).

Em 9 de setembro de 1847, na mesma cidade: “Vende-se um touro da melhor raça, godma[2] e malabar, preto, com bonita estrela, muito elegante, gordo, grande, com idade de quatro anos; quem o quiser comprar dirija-se a esta typographia, que será informado” (Correio Mercantil, 9.9.1847).

Por fim, trazemos esse quarto anúncio de um jornal de Salvador, oferecendo boi malabar: “Nesta typographia se dirá quem vende um boi malabar, muito manso, para o serviço de canga, e de carro” (O Gaycuru, 3.4.1851).

Por esses anúncios pode-se perceber que o nosso zebu atual, sobretudo o guzerá, sindi, gir e nelore, que são os pioneiros da importação, não descende daqueles primeiros animais que entraram na Bahia, porque sua genética diluiu-se em meio à mestiçagem. Daqueles descende o gado mestiço que convencionou-se chamar de malabar, em homenagem à sua origem geográfica. E sobre este último, pode-se adiantar duas coisas: a primeira é que já existia àquela época, sendo o gado oriundo do cruzamento de nossos curraleiros com os primeiros zebuínos importados; e a segunda, que era animal graúdo, de força, geralmente utilizado no trabalho de canga e carro. Sobre isso em franco proselitismo político, no ano de 1865, o jornal O Liberal, do Recife, traz a seguinte nota: “Quando a família do ‘morador nacional ou estrangeiro’ for senhora, pelo foro, de qualquer recanto de terra, logo virá a troca do boi estafado, pelo malabar vigoroso; a do carneiro magro e nu de lã, pelo da Andaluzia e Grã-Bretanha; a do cavalo degenerado da América, pelo ginete fogoso e nervoso da Arábia;” (O Liberal, 22.5.1865).

Em Goiás, um Dr. Jaguaribe, no ano de 1893, fazendo um apanhado sobre a indústria pastoril brasileira em que condena a introdução do zebu, manifesta uma equivocada ideia sobre o malabar. Para ele esse gado, inclusive citando o Piauí, vem do período colonial. No entanto, essa informação não procede, pois conforme se disse, o malabar é fruto do cruzamento do gado nacional com os animais trazidos da Costa de Malabar, na Índia. No entanto, enfatizamos suas observações porque todas as possibilidades têm de ser analisadas pelos pesquisadores que se interessem em reconstituir a história de nossa pecuária. Segundo ele:

“O gado brasileiro, conforme se tem visto das disposições dos dignos criadores de vários Estados que tomaram parte nesta questão, é bem regular, tendo em Minas e São Paulo com a denominação de ‘Acaracu’ e ‘curraleiros’ excelentes typos.

‘No Piauhy, com este mesmo nome deste Estado o gado que proveio da raça ‘Malabar’, introduzida nos tempos coloniais, tem as melhores qualidades: é alto, bem encorpado, servindo bom para o açougue e carro’.

‘O leite do gado do Norte é rico de manteiga, mas o clima e as pastagens podem explicar esta riqueza de manteiga do que a raça” (Estado de Goyaz, 29.4.1893).

Sobre a origem do malabar, típico descendente dos primeiros zebuínos trazidos da Índia, o esclarecimento é feito pelo autor de um livro de propaganda do País. Comentando o livro com título ‘O Brasil, suas indústrias, suas riquezas’, especialmente na parte que discorre sobre a pecuária no Rio de Janeiro, um jornal fluminense voltado para o Brasil Central, transcreve o seguinte trecho da indicada obra: “A raça bovina predominante em Campos e outros municípios ao norte do Estado, foi sempre a ‘China[3]’, de que há igualmente bem disseminada a variedade conhecida por ‘Malabar’. Aqui ocorre dizer que tanto a ‘China’, como também o ‘Malabar’ são, nem mais nem menos que o famigerado zebu ou boi com bossa” (A Informação Goyana, editado no Rio de Janeiro, em dezembro de 1921).

Impossível melhor esclarecimento do que este feito por um pesquisador de nossa pecuária. Cinco anos depois o mesmo órgão de imprensa, citando outra fonte, volta ao assunto:

“Nos Estados do norte, particularmente na Parahyba, há uma raça bovina conhecida por Malabar, provavelmente de origem asiática” (A Informação Goyana, editado no Rio de Janeiro, em outubro de 1926).

Porém, essa última nota indica uma provável origem asiática, quando na verdade essa origem é certa, sem a menor sombra de dúvidas. Também, traz o equívoco de referir-se à raça, quando não passa de descendentes de cruzamentos entre raças zebuínas e nosso curraleiro pé-duro.

Concluindo, pode-se afirmar com segurança que o malabar não é raça bovina, mas o mestiço oriundo do cruzamento de nosso gado crioulo com os primeiros zebuínos importados da Índia e adjacências, ao que se sabe, desde o recuado ano de 1813. E que este fez história por ser um gado graúdo, com bossa, castanha ou cupim, diferenciando-se das espécies nacionais, oriundas do gado europeu. Ficam essas notas como contribuição à história da pecuária nacional.



[1] REGINALDO MIRANDA, é membro da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.

[2] Godman – “nome de um touro, dito nelore, que foi vendido com uma vaca da mesma raça, como despojos de um navio leiloado com sua carga, para pagamento de dívidas contraídas na sua permanência na Bahia, em cujo porto arribou tocado pelo mau tempo. Godman era o nome do comandante do navio. (...). Desse touro tirou-se descendência mestiça cujos machos eram reputados como bois carreiros (L. O. Mendes, 1942. A raça guadamar. Agronomia.1:80-81. Rio de Janeiro) mas da qual não seria possível surgir uma população de bovinos, com novas características a ponto de surgir uma raça. O nome do touro divulgou-se para nomear esses mestiços, cujas características desaparecerem, como seria natural, na voragem da mestiçagem”(sic). Existiu a corruptela guadamar, equivocamente tratada como raça. (DOMINGUES, Octavio. O gado nativo do Brasil: as supostas raças bovinas. Revista de Agricultura. 1926. 71-78). A informação de Octavio Domingues só erra no ano que diz ser 1870, pois o primeiro anúncio é de 1838 e não era um presente rainha Vitória, que assumiu o trono em 1837. Logo, se nos apresenta que este casal de zebus seja aquele mesmo de 1813, o que pode ser comprovado de pois de exaustiva pesquisa. 

[3] “Cremos estarmos certos em afirmar que esta denominação de ‘China’ nada mais é que a corruptela de ‘Sind’, como é denominado o afamado rebanho leiteiro do oeste indiano” (texto extraído do livro O ZEBU – na Índia e no Brasil, de Alexandre Barbosa da Silva, Rio de Janeiro, 1947. Fonte: http://girpontocom.blogspot.com. In: http://bahiaredsindi.blogspot.com/2011/08/zebu.html).

4. A fotografia que ilustra a matéria foi colhida livremente na Internet (site: malabar red brahmans).