O mago Gianfranco, subiu ao seu quarto, após um passeio pelo cemitério de Veneza.
Ele contemplava distraidamente uma caixa de prata, em que guardava abotoaduras.
Veio-lhe à lembrança, a imagem de Clara, a pequena Clara, de longas tranças de cabelo castanho.
Onde estaria Clara?
Gian, como era conhecido na cidade, dera à Clara, um cortador de papel, cujo cabo, era como o "amarrador" de madeira da ré das gôndolas; isto é, como um "pente" entre cujos dentes, ao encostar a gôndola, amarrava-se o barco, passando a corda por entre os "dentes de madeira" ao mastro do ancoradouro.
Por onde andaria Clara?
Deitou-se o mago em sua cama de madeira dourada, contemplando o teto, pintado de azul.
Seu pensamento viajou ao encontro de Clara.
Ele a encontrou, aparentando uns trinta e poucos anos, pensativa, com uma cruz de madeira negra, engastada numa cruz estojo, de prata.
Parecia solitária, não aparentando que tivesse casado ou morasse com outras pessoas na casa onde residia.
O mago encostou seu corpo fluido junto ao corpo carnal da jovem.
Ele a sentiu muito triste e projetou em seu espirito, a idéia de que poderia se locomover sem o corpo carnal, para muitos lugares, onde observaria paisagens do outro lado da materia.
Logo, Clara saiu de seu corpo e o espirito de Clara, encarou o espirito de Gian. O mago fez um sinal com a mão, para a janela aberta do quarto, intuindo-lhe a possibilidade da liberdade em espirito.
Clara logo percebeu que tinha de reter a parte alquímica do novo ambiente: a parte alquímica, não tinha nada de comum com o ambiente material conhecido. Clara se tornara "outra pessoa", leve, sem um resquício de mágoa ou ressentimento. Como se tivesse recebido um banho de eflúvios revificadores, ela se recompunha num estágio semelhante aos que entram em êxtase.
O mago a contemplava bela, magnifica, emanando uma luz reconfortante, da qual Clara poderia usufruir e também enviar para outros seres.
O mago em espirito, regressou à Veneza, estando ciente de que agora teria uma fada à sua disposição.