Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 23 de junho de 2017

Sabor dos Sentidos

Poemas completos

 

TERAPIA
 
Consigo me ver nos seus olhos.
Neles me vejo
como quem vê a si no silêncio.
 
Consigo ser o sal de seus sentidos
e o sol das emoções
vestidas pelo suor suave
que me confunde os verbos.
 
Consigo tocar a lucidez da sua face
e a loucura dos pensamentos
mergulhados no mar
que nos atira à areia.
 
Consigo o céu pousa
na palma de minha mão.
Eu astro e rei
brinco de tiro ao alvo.
 
 
CEM PALAVRAS
 
Por que a palavra?
Se os pulos param a garganta
se as mãos se pregam ao rosto
e os pés tocam o ar
como quem vê
na fonte dos olhos
a visão da serpente?
 
Por que a palavra?
Se o coração da falta se desfez
se o cérebro despedaçou o silêncio
como quem pisa
o brinquedo da criança?
 
Por que a palavra?
Se a fala esgotou o peito
e as gotas do olhar
fertilizam o corpo
de fúria e desgosto?
 
 
SIM
 
Amar assim
como mar à tona
na frágil maratona
do naufrágio em sim.
 
Amar assim
os cabelos da beldade
nas pedras das montanhas
o impulso do olhar
na impureza do céu
a pele de papel
nos lírios da luz.
 
Amar assim o ar
tão visceralmente sim
o fogo, a água, o ser.
 
 
 ROSAS NO CÉU
 
A mulher manda uma mensagem
aos olhos do oleiro
e acende rosas no céu dos corações.
 
Os rostos transpiram o sabor dos sentidos
e ardem de emoção
no silêncio da hora vadia.
 
Os corpos navegam na sensação
e a distância que os une
eterniza o noite.
 
E tateia o vento
e seus suspiros. 
 
 
(IN)CERTEZA DA ILUSÃO
 
Entrego a ti
o trajeto de minha emoção
e naufrago no afeto de teu tribunal.
 
Teu coração pequeno não comporta
o compasso de meus passos
e machuca o caminho das sensações.
 
Entregou-me a ti teu coração
cortado pelo olhar da tarde
que desce no degrau do firmamento.
 
Entrego-me a teu coração
o curso do sol que divide o hoje
entre o ontem e o amanhã.
 
 
SOMBRA DE EROS
Para Aldairis
 
A tua alma brilha
nas paredes do meu quarto
no silêncio da noite escura.
 
E os raios de teu riso
oferecem ao ar
os riscos de tuas cores:
 
O vermelho paira na pele
e o calor róseo
de preto e branco
veste a luz.
 
Ofusco-me com o rumor
de tua presença
e a alma de teu sorriso ilha
brilha na lembrança
livre de impedimentos.
 
 
TEMPESTADE
 
O tempo traz
o temporal de teus cabelos
para a miragem de minha face
e desfaço-me em silêncio
enquanto mudo o mundo
com os olhos mudos
e adormeço tua solidão
no rio dos lábios
dos nossos destinos.
 
TAL VEZ
 
Um dia talvez
a tarde se deite
debaixo do meu lençol
e o corpo do tempo
seja  o seio
que seguro
em minhas mãos.
 
Um dia talvez
Os versos do olhar
liguem o céu à terra
e o corpo do tempo
seja o seio
que desliza
em meus lábios.
 
Um dia talvez
teus labirintos
sejam a linha
line(ar)
do pensamento
e o presente reviva
colorindo o peito.
 
 
DELÍRIO
 
 
Sepultei o silêncio dos versos
para perfurar a sala
com minha luz de lua.
 
E a aventura voando veloz
nas nuvens vestidas de sombras
deixou para trás o amor em chamas.
 
Agora sepulto os prédios da cidade
nas curvas do teu alvorecer
e as pálpebras sentem
a distância da união que nos separa.
 
Sepulto os presentes do teu perfume
e fumo a fumaça
do ar que restou
depois da noite.
 
 
SUSPIRO
 
Tudo o que em ti
me vive
respiro em mim.
 
 
POR-VIR
 
I
A brisa dos cabelos
luminosos da praça
suaviza
o vício de te ter
em sonhos.
 
II
O ar da noite
lilás dos lábios
lança
as labaredas do corpo
ao vício de em sonhos
te ter.
 
III
A nuvem dos olhos
lobos do tempo
in(ter)liga
o feitiço das horas
ao sonho de te ter
em ví-cio.
 
IV
A nuvem, o ar, a brisa
reduzem-me ao delírio
de ser
uma redoma
diante de ti.
 
LEI DA NATUREZA
 
O girassol dos teus cabelos
deixa tonto o ar
e o rastro de luz na escuridão
de meus pensamentos
claros de amor e fogo.
 
O girassol nos meus olhos
gira o sol
no sangue do desejo
de me completar
em ti.
 
O girassol
dos teus cabelos nos meus olhos
transcende o céu
sobre nossos pés.
 
 
MULHER DE NEON
 
Folhas mortas se es(palha)vam pelo jardim
quando a flor irrompeu
e invadiu o vazio da casa.
 
As plantas
(re)vigoraram as graças do sol-riso
e o espaço cedeu ar
para a luz do céu azul.
 
A luminosa-idade encontrou abertas
as portas do (re)cinto
e as paredes estremeceram
ante o corpo e a alma
imaginariamente nus.
 
Mas o brilho partiu
e o jardim ag(ora) perfumado
de cores feneceu
na escuridão dos cômodos
desabitados.
 
Folhas mortas se espalhavam pelo jardim
e a mulher de neon
o vento que abriu as janelas.
 
 
ASSIM
 
Não se entregue assim
por inteiro
se a tarde demora
e o demônio mora
na hora mórbida
desse momento.
 
Não se entregue assim
passageiro
se o pássaro pousa
em sua audição
o som triste
da natureza.
 
Se entregue assim
por inteiro
se o coração suspira
o suor do silêncio
e a noite diz sim.
 
ANATOMIA
 
o olhar vermelho
trilha o papel
de tua tez de teias
e armações.
 
Trilha a ponte
da amizade que as mãos uniu
sobre os escombros
dos ombros cansados.
 
O olhar vermelho
trilha a trajetória
da bala ardendo em teu peito.
 
 
CONJUGAÇÃO
 
Eu te per-tenso
Tu me pertences
Nós nus pertencemos
Em todos
Os tempos
Verb-ais
 
 
CORAÇÃO SEM FRONTEIRAS
 
Vou viajar pelas curvas de teus beijos
e me perder nas alças da tua blusa.
 
Vou velejar pelos traços do teu corpo
e ouvirei a rua ri para meus desejos.
 
Vou viajar pela tua pele de pólvora
enquanto a avenida verseja a sinfonia da noite.
 
Vou velejar pelas cachoeiras dos teus cabelos
e adormecerei sob o céu dos teus olhos.
 
 
SENHORA DE MIM
 
O espaço cola minha alma à tua
e sou presa fácil
do olhar fixo dos passarinhos.
 
O ar acaricia teu rosto
e a febre da tua boa
esfria meu estômago quente.
 
Sou presa fácil:
meus pés pisam o asfalto
que cola minha alma à tua.
 
 
JANELA DO INFINITO
 
Árvore que brilha sob o cabelo
o galho de flores ilumina a noite
de cinzas e estrelas.
 
Sob o cabelo
a beldade se debruça em sonhos
nas sombras
do presépio de Natal.
 
Sob o cabelo
a beleza é uma mulher
de asas e delírios.
 
 
ALMA (DES)ENCONTRADA
 
Arranquei os espinhos do teu corpo
com os dentes
e lambi meus lábios
com os tentáculos de minhas mãos vazias.
 
Arranquei os dentes de teus espinhos
e pisei as tuas curvas de serpente
que me furaram a pele
e me deixaram surdo
 
Arranquei o corpo dos teus espinhos
e a essência do teu perfume
cegou-me o ego.
 
Arranquei os espinhos do teu corpo
com os dentes
e tento sair do labirinto
de não ser mais eu.
 
 
POEMA ENTRE QUATRO PAREDES
À Alda – de meus olhos – Íris
 
Em meu lençol
o suor se dis-sol-vê
sobre o teu perfume.
 
Em meu lençol
teus olhos brasas
de asas
na pele do ar.
 
Em meu lençol
tuas mãos
travesseiros na noite
insone.
 
Em meu lençol
condeno-me
a imaginar-te assim
como a manhã sem fim.
 
FELIZ ANIVERSÁRIO
 
não velarei o amor perdido
na cratera do coração
e no corpo sem voz.
 
Não velarei o amor perdido
se as sementes das cicatrizes
morrem entre rochas
e o ontem testemunha
a hora colorir-se
no calor da Surpresa andante.
 
Não velarei o amor perdido.
Velarei o Presente da noite solitária 
que se atira em meu colo nua.
 
 
LUZ PARA A ALMA
 
A flor nasce nos olhos da lua
diante do espelho que sou.
 
O jardim (re)vela portas
para as lembranças das folhas
flutuando em silêncio.
 
O jardim diante do espelho que sou
soa o tom das tardes de abril
e suga do céu todas as nuvens
para o verde nascer nos olhos da rua.
 
 
O NECTA DA MIRAGEM
 
As flores da paisagem extravasam
as vozes da estrada
e caem sobre mim
os ruídos da tarde.
 
Fico surdo
mas a rua é ruínas
e vejo o sol nas penas dos pássaros
devorando o gosto da viagem.
 
E vejo versos
no vento que queima
o calor dos corpos.
 
 
COLHEITA
 
Recolho os resíduos do dia
antes que a noite anoiteça
a cor de minha alma.
 
Recolho as mãos da janela
os olhos do telhado
a voz da mesa
e desapareço
nos rostos dos fantasmas
que me perseguem.
 
Recolho os resíduos do dia
 e me escondo nas sombras
dos versos que soluçam
o trânsito do vento.
 
 
(DES)EQUILÍBRIO
 
 
A rotina armou o círculo
no curto espaço que respiro.
 
O cheiro das ruas ruiu
 no ritmo das calçadas
e o gosto do grito
gira em meu beijo.
 
Já não navego o ego
 para o norte da noite
e o ar desarma
o destino que respiro.
 
 
SINESTESIA
 
 
A minha face se refaz
nas pedras das tuas palavras
e o suor segue os trilhos
das nossas almas incertas.
 
No caminho
as trevas descortinam
as vertes do inconsciente
e liberta o medo que nos apavora.
 
Somos criatura da noite
devorando a dor
que nos alimenta.
 
E os defeitos
desfeitos de todos os sons
diluem-se na confusão
dos sentidos.
 
 
PERMANÊNCIA
 
 
Minha pele não vê
a superfície oculta
e o tato toca o corpo
sem sentir
o tom das tuas mãos.
 
Meu nariz não respira
o cair de tua presença
como sombra de meus passos
nem o olfato fala
teu cheiro de flores do campo.
 
Meus olhos não degustam
a grama da cama macia
e o paladar mastiga os lábios
sem engolir o gosto
dos beijos de açúcar.
 
Mas a pele, o nariz, os olhos
em meu coração, poesia.
 
 
ETERNO REGRESSO
 
 
O tecido do sofá continua a lua de ontem
mas o violino parou de tocar
e o som é a gota do rio
no contraste silencioso da consciência.
 
As lembranças
teimam em repetir-se:
o sofá
na lua de ontem
continua
na linha contínua
e nua
do pensamento.
 
O violino parou de tocar
e a música do silêncio
cura da loucura de (re)viver
o eterno regresso a si mesmo.
 
 
GOSTO DE AUSÊNCIA
 
A dor do sol no céu
desenha dunas no horizonte
do vago olhar dos girassóis.
 
O eu percorre a areia
e como água some
no seco deserto
que deserdou os sonhos de deus.
 
O eu silencia o soldado de si
no mundo em brasas
abafado no peito.
 
O eu busca o dia
no corpo da praia
e arde em angústia
o gosto da ausência.
 
 
A GÊNESE DA ORAÇÃO
 
 
Em estado de poesia
a palavra procria a imagem
e semelhança do homem.
 
Em estado de poesia
a imensidão dança pequena
no infinito dos olhos
e os pensamentos emoções
molham de lágrimas
as lembranças alegres.
 
Em estado de poesia
o poeta menino
colhe música com o tato
e a tristeza é canção.
 
 
REDENÇÃO
 
 
No divã divagam os versos
da viagem infinita
e finda o tempo e recomeça de novo
na noite voraz do pensamento.
 
Divagam as vagas do corpo
os espelhos da vidraça
a visão de Van Gogh
em-louco-sido.
 
Divagam devagar
os braços da lua
que clareia a cama
com o mar sem ondas.
 
 
 
(EN) LATA (DO)
 
Sob o signo das horas
o sol solto em minha
s(ali)va segue
o livro torto
de tuas leis.
 
Minhas palavras
de rótulos e lavras
nem (sen)tem
tuas mãos
e o sal do silêncio
seca a garganta.
 
Sob o signo das horas
minhas palavras
(des)confiam
dos olhos livres da luz
que me incendeia
o céu sem nuvens.
 
 
O ENIGMA DO OLHAR
 
o amor dorme entre as estrelas
e a terra arrisca
os riscos do sorriso.
 
Somente o céu socorre
a expressão da face
 na distante contemplação
dos astros.
 
Somente o corpo sente
a poeira dos poros
e a possível arte de se reencontrar
no toque dos olhares.
 
 
CARNE DE PAPEL
 
 
Sem o corpo
o espírito vaga no ar
da paisagem oculta.
 
Sem o corpo
o espírito vaga
por onde crescem os fantasmas
de tuas fortalezas.
 
Sem o corpo
a paisagem oculta
a sinuosa curva do sonho
que se dissolve pelo chão.
 
Sem o corpo, a noite
escurece o céu de silêncios
e o espírito se perde
entre as estrelas
para te encontrar
onde a memória alcança.
 
 
 
SOU MAIOR DO QUE SINTO
 
Paro para explodir
o que em mim sobrevive
depois da tempestade.
 
As ruínas do eu naufragam em minhas veias
e o sorriso se desfaz no vento que leva
a voz do sonho.
 
Fico a esperar os raios da manhã
rirem da vaidade dos deuses
enquanto bebo a fumaça do ar.
 
O silêncio me serve de consolo
e me abraça
com a vontade de devorar o mundo
e arrancar o coração das paredes.
 
Paro para explodir
o que em mim sobrevive
mas sou maior do que eu sinto.
 
 
A (RE)INVENÇÃO DO HOMEM
 
A água na vidraça
despedaça o desejo
e desce pelo seio da parede
e despe o peito da distância  
e a ti me une.
 
A água na vidraça
despedaça o desejo
e abre em pedaços
o guarda-roupa
de faces e disfarces
no céu que nos une.
 
 
 
PASSOS DE ANDARILHO
 
 Piso nas palavras
com a pólvora do dia-a-dia
e dissolvo o sol do pensamento
no brilho da tarde passageira.
 
 
BLECAUTE
 
Apago o pensamento
como quem parte para longe
e ponho na terra
o pó do poente.
 
Apago o pensamento
como quem volta da guerra
vencido por muitas batalhas
e ponho-me no deserto
incerto do destino.
 
Apago a escuridão
como quem acende dúvidas
no dilúvio das certezas
e ponho o pensamento
na poeira que dissolve
o meu coração.
 
 
 
ARTIFÍ(CIO)
 
Arranjo de anjo na sala
de estar.
Flores do silêncio
no ar.
 
Pairam no peito todos os deuses.
 
Pecam as mãos sobre
a maciez das maçãs
no rosto que cai
no colar dos olhos.
 
Eros arrota risos
e sonhos de projetos
per(feitos) nos braços do céu.
 
Pairam no peito todos os demônios:
arranjo de anjo na sala
de estar.
 
 
 
A MIOPIA DA IMENSIDÃO
 
O sol cega os galhos da casa
com cinzas das estrelas
e o céu se decompõe
no mar dos olhos do míope.
 
 
 
A NUDEZ DA MADRUGADA
 
O devaneio despe os passos
do homem que vaga na noite.
 
A madrugada se molha de chuva
e as gotas da tarde
reacendem na memória
o dia correndo sobre rodas
o beijo da aventura vagando no peito
e o tédio da hora intacta.
 
A madrugada se molha de chuva
e sobre o tapete de lembranças
levitam na visão
o dia rindo da rua
o beijo da aventura voando na face
e o tédio da hora intacta.
 
A madrugada se molha de chuva
e o devaneio despe os passos
do homem que sendo muitos é ninguém.
 
 
PAREDES QUE DESABAM
 
 
A rotina da tarde despe o dia
e atormenta o tempo
da casa em pesadelos.
 
O mundo cai sobre as paredes
e os degraus do pensamento
diluem-se em tormentas.
 
A rotina da tarde despe o dia
e anuncia o tédio no vazio da chuva
que serena na minh’alma.
 
 
 
PARANÓIA
 
 
Há um monstro no armário
entre as paredes
no rio da infância
um monstro no ar.
 
Por que não me beijo
se o vente ferve
as veias
e o animal que sou
serve-se do som da noite?
 
Há um monstro
um monstro que se mostra
na frágil aparência da pena
em cada extensão
de meus dentes.
 
 
 
ROTINA
 
A solidão do domingo
prega peças no peito
da casa vazia.
 
Os cômodos se calam
à sinfonia das janelas
abertas ao sinal do dia
no céu do telhado.
 
O silêncio percorre
a transparência das paredes
e a ciranda do tempo
anuncia o sol
no céu do telhado.
 
 
 
 
(RE)PRESA
 
A água debaixo da ponte
agita-se com o reflexo do céu
e devora a noite
tecendo o rio de estrelas.
 
Debaixo da ponte
os lábios das margens
molham-se de delírios
e os lírios olham a imensidão.
 
Debaixo da ponte
o corpo da água escorre
entre os dedos de concreto
e esbarra no beijo da vegetação.
 
 
 
ONDAS DA PAISAGEM
Ao lado do lago
os vultos da vegetação se vestem
na vertigem das horas.
 
O reflexo das águas
flui flores
na fuligem dos olhos.
 
A sombra das árvores voa
na superfície do céu
e no sono do silêncio.
 
Ao lado do lago
a distancia entre os amantes
amor-tece
as cores da natureza.
 
 
 
DES-TINO
 
No livro de lírios
leio rios
de águas barrentas.
 
E na paisagem
o barro seca
a terra racha
em tênue canção.
 
Leio rios
onde as casas se chamam
abandono
e as dádivas da natureza
o destino colheu.
 
Leio rios
nas estradas da infância
por onde meninos
em seus cavalos d’pau
fabricam poeira
e oásis.
 
Leio rios
nas fazendas ricas
de miragens
que o tempo comeu.
 
 
 
MANTO DE SOMBRAS
 
Como os pardais
nos fios da estação
o pensamento pousa no pôr-do-sol
e vigia as janelas adormecidas.
 
A cidade muda se multiplica
na multidão sem voz
e a pele dos prédios
sufoca a luz.
 
A cidade muda esconde o céu
e a escuridão dos apartamentos
cala para celebrar
o silêncio das nuvens.
 
 
 
CÉU DE ASAS
 
Como a manhã sem pressa
no alto da colina
nasce a palavra na retina
onde crescem a lavoura
e vôo do céu.
 
Nasce sem presa a manhã
no leito lento do rio
onde reses ruminam
a mina do sol.
 
Nasce sem pressa a manhã
nos palácios de palha
onde o corpo repousa
o silêncio do cio.
 
Como a manhã sem pressa
no coração da imagem
crescem a lavoura
e o vôo do céu.
 
 
 
MARATAOÃ
Para José do Rêgo Lages
 
o rio corre em meu coração
e separa os sentimentos da areia.
 
A vaga das águas vai
virando pó em pensamento
e a estrada encurta distâncias.
 
O rio viaja no horizonte
onde dançam os cabelos das carnaúbas
e soluçam os olhos do sol.
 
O rio corre em meu coração
e deságua nas correntezas do caminho.
 

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