O homem mergulha na imensidão do livro
e as letras agigantam-se
diante dos olhos.
Letras gordas, dançantes, temíveis
sob a retina do observador
valsam no velejar da aventura.
As palavras marcham nas páginas da mesa
e misturam histórias diferentes
ligadas pelos laços do amor.
O vaga-lume veste a tarde
com as cores da noite
e compõe no asfalto
a trajetória do dia.
Mas o brilho do sol
amanhece nos edifícios
e despacha as sombras
que escurecem o caminho.
O vaga-lume veste a tarde
com as cores da noite
e sua luz luta
contra a loucura da manhã.
O vaga-lume veste a tarde
com as cores da noite
e a claridade da cidade
some no clarão
das praças solitárias.
A palavra seca
o rio que nasce
nos meus olhos.
Semeio suor
nos ombros do tempo
e a vida do silêncio
brota nos jardins
que o olhar esconde.
No banco da praça
o corpo da árvore rega
a galáxia onírica dos namorados.
O pecado cai das nuvens
feito chuva passageira
e arrasta a tábua da salvação.
As portas do céu abrem-se
para a dama de branco dançar
com o anjo do apocalipse.
O poeta se veste de padre
e a poesia do paraíso
soa o sermão do juízo final.
Quebro a cabeça
no quebra-cabeça que montei
na água do riacho.
A correnteza fria
gela-me o corpo
cansado da última batalha.
Tento tolerar
a imagem de pedra desfazendo-se
na descida do precipício.
De repente me misturo à terra
e atiro-me dos penhascos do sonho.
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