Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 25 de maio de 2017

Sabor dos Sentidos

Por: Tal vez talvez

Ricardo Araújo

No campo da poesia, pode-se aplicar uma máxima que é inversamente proporcional a um piedoso ditado popular: “de boas intenções o inferno está cheio!”. Na poesia, ao contrário da regra religiosa, a intenção faz a diferença, ou seja, o resultado é uma projeção de uma boa intenção que tal vez não leve ao ápice, ao céu da poesia, mas que se incorpora à tradição de toda poesia, da poesia no sentido mais amplo, mais lato possível. Estas linhas iniciais são apenas divagações sobre o que penso particularmente de poesia.
E, antes de julgarmos, pré-julgarmos um fenômeno cuja gênese não conhecemos de todo, faz-se mister tentar entender os jogos, as articulações, as proposições de um material que surge, que se forma a partir de uma espécie de “fiat lux” momentâneo, com pretensões de cristalização em uma forma mais ampla e assumindo sem nenhum escândalo, mas com um certo ti ti ti, o lugar devido. Assim é a poesia, a forma ampla, lata, dos formatos individuais, das células-poemas que a compõe.
A poesia está para a peça individual do poema, assim como o poema está para a forma da poesia. Quando surge um novo poema, toda a poesia, em sentido amplo, lato, genérico se reorganiza para re-acomodar a novíssima forma. A forma da poesia é a imagem do ser incompleto, da qual o poema é a força dinâmica que aponta para a sua potencialidade e para a sua possibilidade atual. Sua “forma” está em sempre adquirir uma outra “forma” graças à “forma” específica do poema. O poema é, portanto, o recorte específico da “forma” da poesia. O poema é aspecto concreto, substrato, e irreversível de uma “forma” que nunca se “forma” plenamente porque sua ambição, sua expressão está em uma “forma” que se revela sempre no futuro.
Voltemos ao raciocínio original: na poesia o que vale é a intenção. Intenção enquanto ação mais tensão: poesia. O resultado específico dessa equação: poema. O poema é o resultado de uma forma não definida. Portanto, a poesia enquanto intenção tem existência, mas não existe concretamente. Seu existir depende de uma coisa que sempre irá existir, ou seja, a confecção individual do poema. O ser da poesia está no existir do poema. Temos a explicação desse fenômeno em uma brincadeira infantil que mais parece uma parábola poética. Todos devem lembrar a brincadeira infantil que apresenta a seguinte música: “vamos passear na praia enquanto Seu Lobo não vem”. A poesia é este ato de passear na praia que, na linguagem da criança, só serve como não momento, não tensão, não existência. Somente quando se grita “está pronto, Seu Lobo?” é que se passa concretamente a existir na brincadeira. É neste momento que a existência se encontra consigo mesma na existência do outro. Assim, quando ocorre a pergunta numinosa que o poeta faz para sua própria existência é que se tem a poesia propriamente dita: “está pronto seu poema?”. A partir daí, a poesia passa a ter existência na existência do poema.
Mas o que estas divagações tem em comum com a poesia de Dilson Lages? Ora, os poemas de “O Sabor dos Sentidos” estão carregadas destas marcas de intencionalidades, cuja fonte reside nas imagens sinestésicas que o poeta emprega com muita originalidade e que apontam para um dos principais artifícios da poesia, a metáfora. A poesia de Dilson Lages, melhor os poemas, estão prenhes destes recursos.
Esta inclinação pessoana é retomada nos versos do poema “A Nudez da Madrugada”. Nos dois primeiros versos imagens antitéticas se complementam em uma proposição verdadeira no campo da imaginação. A seguir a temporalidade noite –“do homem que vaga na noite”-, que inicia o poema, passa paradoxalmente, para dia – “a madrugada se molha de chuva”, apontando novamente para a junção de antinomais. Este exercício de “coincidentia opositorum” culmina com a solução existencial das possibilidades de miríades de seres estarem contidas em apenas um ser. Neste poema, o último terceto propõe uma permuta de sensações entre seres ou coisas que se transforma em seguida em jogo metafórico: “A madrugada se molha de chuva/e o devaneio despe os passos/ do homem que sendo muitos é ninguém”. Temos uma troca de sensações que paulatinamente se transforma em mudança de sentidos ou de existencialidade. No caso dos versos aludidos, o resultado é uma espécie de máxima pessoana expressa na dicotomia “muitos/ninguém”.
A poesia de Dílson Lages, portanto, tenta recuperar através do sentidos “O sabor das imagens” (sic), propondo novas associações de imagens e aumentando, ampliando o horizonte de possibilidades metafóricas, ou seja, Lages cria novas metáforas buscando ilações inusitadas e auscultando os diversos sons provenientes destes seres peculiares que integram a personalidade humana de cada um de nós. De novo, recuperamos, como no jogo infantil, a tensão, a espera, a surpresa proveniente do momento em que a existência se faz presente: “está pronto, Seu Lobo” eqüivale, neste sentido, à passagem da poesia para o poema. Ou: se se entende com palavras o que se imagina: Tal vez, talvez.
  Ricardo Araújo é poeta, professor de Teoria Literária da Universidade de Brasília e pós-doutor em Semiótica pela  PUC-SP. Ensaísta, autor de Poesia visual, vídeo poesia, pela editora Perspectiva.
 

Por: Wanderson Lima

A RAZÃO E O DELÍRIO EM
O SABOR DOS SENTIDOS, DE DÍLSON LAGES


O filósofo alemão Friedrich Nietzsche prestou relevante serviço à Estética quando em sua obra “O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música” contrapôs o apolíneo e o dionisíaco, tomando por base os arquétipos dos deuses gregos Apolo (a Razão, o Equilíbrio) e Dionísio (a Imaginação, a Loucura).

Partindo desta distinção estabelecida por Nietzsche, podemos dizer que, na história da arte e da literatura, há períodos de franca inclinação apolínea, como o Classicismo e o Realismo e outros de tendência dionisíaca, como Romantismo e o Simbolismo. Haveria, também, períodos de síntese entre o espírito apolíneo e o dionisíaco, como o Modernismo.

Mas em que este paradigma nietzschiano nos servirá para compreender a poesia de Dílson Lages? É fácil responder: a refinada poética do autor de “O Sabor dos Sentidos” funde, paradoxal e magistralmente, o elemento apolíneo (isto é, a sobriedade, a harmonia e a ordem) com o elemento dionisíaco (a imaginação, a música e o delírio).

Dílson Lages é um poeta da linhagem de João Cabral e Paul Valéry: um “algebrista a serviço de um sonhador refinado”. Dílson não faz versos ao sabor de epiteliais devaneios líricos nem tão pouco é um daqueles poetas cerebrais, mero preenchedor de formas ou arquiteto de brinquedos mais ou menos engenhosos. Dílson inspira e transpira, trabalha e delira, ergue um altar ao deus Apolo e outro ao deus Dionísio:

ALMA(DES)ENCONTRADADA

Arranquei os espinhos do teu corpo
com os dentes
e lambi meus lábios
com os tentáculos de minhas mãos vazias.

Arranquei os dentes de teus espinhos
e pisei as tuas curvas de serpente
que me furaram a pele
e me deixaram surdo.

Arranquei o corpo dos teus espinhos
e a essência do teu perfume
cegou-me o ego.

Arranquei os espinhos do teu corpo
com os dentes
e tento sair do labirinto
de não ser mais eu.

Não nos é difícil aproximar o Dílson de “O sabor dos Sentidos” (e também o do livro anterior, “Os Olhos do Silêncio”) do João Cabral de Melo Neto de “Pedra do Sono” e de “O Engenheiro”: percebemos em ambos que a profusão de imagens desconcertantes não são “vomitadas” ao bel-prazer, como faria um surrealista típico, mas que, por espantoso que seja, são rigorosamente pensadas e construídas. Fazer com que Apolo e Dionísio andem de braços dados a serviço do desvelamento do ser – eis o milagre que a poesia de vates como Dílson Lages é capaz de obrar.

Não obstante a pouca idade, Dílson Lages é arguto e experimentado (além de poeta, é um notório professor-pesquisador) e já sabe o que muitos poetastros sentimentalóides ou pseudo-socialistas estão longe de saber: que a poesia empobrece à medida que se torna confissão ou lição de moral. O poeta de “O Sabor dos Sentidos” recusa-se ao tom didático, edificante e professoral: ele sabe que a poesia – como disse uma vez Manoel de Barros – é para “desexplicar”, isto é, ela tinge a realidade de mistério, revelando que nem tudo que existe entre o céu e a terra pode ser desvelado pela nossa vã filosofia.

Dílson Lages não explica: complica. Graças a Deus! À maneira dos poetas expressionistas, ele primeiro constrói a imagem, o sentido vem depois. A conseqüência disso é que sua poesia atinge um alto grau de ambigüidade, possibilitando várias leituras e exigindo um leitor ativo e corajoso, que se predisponha a viajar “por mares nunca dantes navegados”:

SINESTESIA
A minha face se refaz
nas pedras das tuas palavras
e o suor segue os trilhos
das nossas almas incertas.

No caminho
as trevas descortinam
as vestes do inconsciente
e liberta o medo que nos apavora.

Somos criatura da noite
devorando a dor
que nos alimenta.

E os defeitos
desfeitos de todos os sons
diluem-se na confusão
dos sentidos.

É claro que alguns espíritos pragmáticos, acomodados aos vôos rasos da imaginação burguesa, logo acusarão Dílson Lages de hermético. Mas o hermetismo em Dílson não é defeito. Nosso vate é senhor de seus recursos e escreve sempre em linguagem simples e concisa, evitando o uso de vocábulos eruditos. Seu hermetismo é conseqüência da originalidade de suas metáforas e da maneira sutil e inusitada como aborda velhos temas como o amor, o erotismo, os conflitos do eu, a memória da infância e o apego à paisagem da terra natal. O hermetismo na poética de Dílson é, enfim, o mesmo de Rainer Maria Rilke, Pablo Neruda, Eugênio Montale e Mário Faustino.

Dentro desta breve explanação, não poderia deixar de tocar em dois outros pontos da poesia de Dílson Lages em “O Sabor dos Sentidos”. O primeiro deles é a ”pansensualização” que se percebe ao longo de quase toda a obra, inclusive em poemas que se distanciam da temática amorosa. Eis um exemplo nesta estrofe de “Tal vez”:

“Um dia talvez
a tarde se deite
debaixo de meu lençol
e o corpo do tempo
seja o seio
que seguro
em minhas mãos”.

O segundo ponto relevante de que gostaria de tecer breve comentário é sobre a presença do sensacionismo da primeira à última página de “O Sabor dos sentidos”. Neste ponto, Dílson Lages é exímio continuador de uma tradição que em língua portuguesa encontrou no heterônimo pessoano Alberto Caeiro e em Almada Negreiros suas mais altas expressões. É Caeiro, aliás, que empresta epígrafe ao livro:

“Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca”

Esta epígrafe foi inteligentemente escolhida, porque prepara o leitor para o delírio sensorial que ele irá encontrar em todo o livro, como bem nos mostram estas estrofes de “Permanência”:


“Meu nariz não respira
o cair da tua presença
como sombra de meus passos
nem o olfato fala
teu cheiro de flores do campo

Meus olhos não degustam
a grama da cama macia
e o paladar mastiga os lábios
sem engolir o gosto
dos beijos de açúcar.”

Com “O Sabor dos Sentidos”, Dílson Lages reafirma o título de maior poeta de sua geração, o Milenismo, como a chamou Herculano de Moraes.
Manoel de Barros diz, em um de seus célebres poemas, que “os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas”. Pois tenham certeza de que o mundo está bem maior agora, graças a esse suculento “O Sabor dos Sentidos”, fruto do labor apolíneo e do delírio dionisíaco do vate Dílson Lages.

Wanderson Lima é poeta e professor de Literatura



Por: Francisco Miguel de Moura

O SABOR DOS SENTIDOS

O sabor dos sentidos é o sabor da linguagem primeira, própria da arte. Nome mais próprio não haveria para o livro de Dílson Lages Monteiro, que explode no segundo poema com o verso: “se os pulsos param a garganta...”

Mas assim é que começa o livro, no poema “Terapia”, que talvez nem seja o melhor embora seja o mais denso do ponto de vista de imagens superpostas: “Consigo ver nos seus olhos / neles me vejo / como quem vê a si no silêncio.”

Ora, quem acha que nos três versos não há poesia é porque não tem mesmos olhos/ouvidos/pele para os sentimentos. Ver no que vê é ver nos olhos – semelhança; ver-se neles não é ver apenas o objeto, mas ver também o sujeito; a comparação final (do verso) excele por causa da sibilação da palavra “silêncio” e do “si” que, em si, já é silencioso – comparação de sons, comparação de sentidos. Poderia dizer de outro modo, em vocabulário técnico, mas prefiro a palavra comum para que seja por todos os leitores compreendido.

Logo na segunda estrofe, “consigo ser” em contraste com “consigo ver” da primeira. “Ser o sal dos sentidos” é uma metáfora sinestésica que garante também a eufonia da frase, sua musicalidade, sua plenitude, tudo o que o leitor inteligente quer para gostar e guardar.

Caminhando mais, vejamos o “consigo tocar a lucidez...” , outra imagem, agora cenestésica de quem se olha nos outros e assim pode se ver olhado: o toque, o objeto, a vida sentida por todos os sentidos, especialmente por aquele que “nos atira à areia.”

Final do poema: inicia o verso da última estrofe um “consigo” transformado de um verbo anterior em pronome pessoal transferido e transferidor, como pássaro que voa de um a outro ente, de um a outro amante, na eterna evasão de brincar do “tiro ao alvo” que é a própria vida: seus mitos, o astro e o rei e a mão que faz a poesia e constrói com o pensamento todos os demais mitos.

Num estilo elegante, conciso, harmonioso e correto, denuncia logo o professor que há por trás do poeta. Se isto por um lado é muito bom por causa do conhecimento dos recursos da língua, por outro lado pode ser uma faca de dois gumes, deixando o poeta à mercê dos tropos que aprendeu e vir a repetir-se constantemente.

Eis aqui as poucas e breves palavras da análise de apenas um poema, se bem que o inicial, de “O sabor dos sentidos” (e dos dissentidos também), do recente livro do jovem poeta Dílson Lages, que vai na vanguarda de nossa poesia. E, pelo que sei, esse não é o da sua estréia, portanto poeta jovem mas já experiente. Uma explicação quase que escolar do poema “Terapia” = poesia, amor, canção, vida.

Poderia ter me valido de qualquer poema do livro, do começo, do meio ou do fim, seria mais ou menos igual o resultado. Cheio de metáforas visuais, auditivas ou de linguagem-pensamento, quase repleto de outras figuras, as mais sensíveis, de sons e silêncios, de dor e alívio, de belezas (singelas ou ásperas), mas sempre poesia, dentro do poema-pérola, de tal forma que ninguém sabe avaliar qual o melhor porque todos o são.

Neste livro, Dílson Lages é um verdadeiro poeta na forma em que Ezra Pound compreende como a grande literatura: “linguagem carregada de sentido, no mais alto grau possível”, daí a polivalência e a superposição de imagens e tropos, metáforas e metonímias. Dílson Lages é, aqui, um verdadeiro poeta, e creio que o foi nos demais. Só temo pelo esgotamento dessa fonte. Só temo que a certeza do crítico e do professor quebre o ímpeto do poeta na busca de imagens e símbolos sempre ousados, cada vez mais distintos.

Neste ponto, quero que não me tome por mal, mas acho que já há tempo suficiente para ir diversificando seu rumo, de aplicar mais variedade a seu estilo muito denso e por isto mesmo já sem espaço para crescer, pelo menos nessa linha.

No entanto, é bom acreditar que o poeta é também um mágico e certamente encontrará saída para os seus dilemas.

Portanto, parabéns, poeta. Nem sempre a doçura nos importa, pois nós somos o sal da terra, o sal da lágrima, o sal de tudo.

Francisco Miguel de Moura é escritor e membro do Conselho de Cultura e da Academia Piauiense de Letras.

Por: Ricardo Araújo


TAL VEZ TALVEZ


No campo da poesia, pode-se aplicar uma máxima que é inversamente proporcional a um piedoso ditado popular: “de boas intenções o inferno está cheio!”. Na poesia, ao contrário da regra religiosa, a intenção faz a diferença, ou seja, o resultado é uma projeção de uma boa intenção que tal vez não leve ao ápice, ao céu da poesia, mas que se incorpora à tradição de toda poesia, da poesia no sentido mais amplo, mais lato possível. Estas linhas iniciais são apenas divagações sobre o que penso particularmente de poesia.

E, antes de julgarmos, pré-julgarmos um fenômeno cuja gênese não conhecemos de todo, faz-se mister tentar entender os jogos, as articulações, as proposições de um material que surge, que se forma a partir de uma espécie de “fiat lux” momentâneo, com pretensões de cristalização em uma forma mais ampla e assumindo sem nenhum escândalo, mas com um certo ti ti ti, o lugar devido. Assim é a poesia, a forma ampla, lata, dos formatos individuais, das células-poemas que a compõe.

A poesia está para a peça individual do poema, assim como o poema está para a forma da poesia. Quando surge um novo poema, toda a poesia, em sentido amplo, lato, genérico se reorganiza para re-acomodar a novíssima forma. A forma da poesia é a imagem do ser incompleto, da qual o poema é a força dinâmica que aponta para a sua potencialidade e para a sua possibilidade atual. Sua “forma” está em sempre adquirir uma outra “forma” graças à “forma” específica do poema. O poema é, portanto, o recorte específico da “forma” da poesia. O poema é aspecto concreto, substrato, e irreversível de uma “forma” que nunca se “forma” plenamente porque sua ambição, sua expressão está em uma “forma” que se revela sempre no futuro.

Voltemos ao raciocínio original: na poesia o que vale é a intenção. Intenção enquanto ação mais tensão: poesia. O resultado específico dessa equação: poema. O poema é o resultado de uma forma não definida. Portanto, a poesia enquanto intenção tem existência, mas não existe concretamente. Seu existir depende de uma coisa que sempre irá existir, ou seja, a confecção individual do poema. O ser da poesia está no existir do poema. Temos a explicação desse fenômeno em uma brincadeira infantil que mais parece uma parábola poética. Todos devem lembrar da brincadeira infantil que apresenta a seguinte música: “vamos passear na praia enquanto Seu Lobo não vem”. A poesia é este ato de passear na praia que, na linguagem da criança, só serve como não momento, não tensão, não existência. Somente quando se grita “está pronto, Seu Lobo?” é que se passa concretamente a existir na brincadeira. É neste momento que a existência se encontra consigo mesma na existência do outro. Assim, quando ocorre a pergunta luminosa que o poeta faz para sua própria existência é que se tem a poesia propriamente dita: “está pronto seu poema?”. A partir daí, a poesia passa a ter existência na existência do poema.

Mas o que estas divagações tem em comum com a poesia de Dilson Lages? Ora, os poemas de “O Sabor dos Sentidos” estão carregadas destas marcas de intencionalidades, cuja fonte reside nas imagens sinestésicas que o poeta emprega com muita originalidade e que apontam para um dos principais artifícios da poesia, a metáfora. A poesia de Dilson Lages, melhor os poemas, estão prenhes destes recursos.

Esta inclinação pessoana é retomada nos versos do poema “A Nudez da Madrugada”. Nos dois primeiros versos imagens antitéticas se complementam em uma proposição verdadeira no campo da imaginação. A seguir a temporalidade noite –“do homem que vaga na noite”-, que inicia o poema, passa paradoxalmente, para dia – “a madrugada se molha de chuva”, apontando novamente para a junção de antinomais. Este exercício de “coincidentia opositorum” culmina com a solução existencial das possibilidades de miríades de seres estarem contidas em apenas um ser. Neste poema, o último terceto propõe uma permuta de sensações entre seres ou coisas que se transforma em seguida em jogo metafórico: “A madrugada se molha de chuva/e o devaneio despe os passos/ do homem que sendo muitos é ninguém”. Temos uma troca de sensações que paulatinamente se transforma em mudança de sentidos ou de existencialidade. No caso dos versos aludidos, o resultado é uma espécie de máxima pessoana expressa na dicotomia “muitos/ninguém”.

A poesia de Dílson Lages, portanto, tenta recuperar através do sentidos “O sabor das imagens” (sic), propondo novas associações de imagens e aumentando, ampliando o horizonte de possibilidades metafóricas, ou seja, Lages cria novas metáforas buscando ilações inusitadas e auscultando os diversos sons provenientes destes seres peculiares que integram a personalidade humana de cada um de nós. De novo, recuperamos, como no jogo infantil, a tensão, a espera, a surpresa proveniente do momento em que a existência se faz presente: “está pronto, Seu Lobo” eqüivale, neste sentido, à passagem da poesia para o poema. Ou: se se entende com palavras o que se imagina: Tal vez, talvez.

  Ricardo Araújo é poeta, professor de Teoria Literária da Universidade de Brasília e pós-doutorando na PUC-SP, ensaísta, autor de Poesia visual, vídeo poesia, pela editora Perspectiva.



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