Dilson Lages Monteiro Quarta-feira, 23 de maio de 2012

O morro da casa-grande

Por: Airton Sampaio

 Airton Sampaio

Li a novela O Morro da Casa-Grande, de Dílson Lages Monteiro (Teresina, Nova Aliança, 2009) de um só fôlego, para pura fruição. Depois, reli-a e tresli-a, com olhar crítico. Trata-se, a meu ver, de uma novela em tom de crônica porque os personagens e os três núcleos tramáticos não ousam deixar, ou deixam apenas timidamente, a condição de RELATO para alçar-se à de NARRATIVA . É que uma narrativa, por mais descritiva (sim, há descrições de ações) que seja, resulta de uma CRISE no desenrolar normal dos eventos, tornando-se um NÓ a ser desatado, quer para os lados, em forma de novela, quer para a profundidade, em forma de romance.

O problema, se isso for um problema, é que em O Morro da Casa-Grande o relator (não me atrevo a chamá-lo de narrador) insiste em privilegiar mais a descritividade de um lugar (Barras-PI) num dado tempo (década de 1950) do que ariadnicamente puxar, até maiores consequências, os fios que saem dos três núcleos referidos (a derrubada da igreja-matriz, o sumiço e morte de Clemílson e a passagem, aliás excelente prosa poética, dos ciganos pela cidade). Isso só é feito timidamente, mais à maneira de um relator que de um autêntico narrador, com pequenas vantagens narrativas. Frente a frente com o goleiro, Dílson Lages perde o gol.

Questão de escolha. Entre uma novela mais densa ou até um romance, o autor optou por nos dar uma crônica de mais ou menos 130 páginas. Nada contra a crônica, que é um grande gênero, mas talvez a literatura brasileira de autores piauiense estivesse agora mais enriquecida se o vezo narrativo houvesse, em O Morro da Casa-Grande, predominado sobre a cronicidade. Não que não tenhamos ganhado: a novela é boa, bem escrita, e está acima da média do que vemos comumente aparecer aqui nesta terra de muito sol e, entra governo sai governo, sempre pobreza tanta. Mas...

Também há, penso eu, o desperdício de grandes personagens, dos quais o mais pobre é o próprio relator, um menino que só não chega a ser piegas porque o autor, ainda bem, o controla e não o deixa desandar para a nostalgia, que existe, porém é, graças a Deus, contida. Os coronéis Firmino e Custódio e o trabalhador Tonho são, por exemplo, personagens de grandeza potencial que aparecem, na novela, apenas como esboços. Ora, mesmo numa novela os personagens podem crescem verticalmente, como é exemplo palmar o Ulisses de Ulisses entre o Amor e a Morte, de O. G. Rêgo de Carvalho, um monumento da literatura brasileira. Nem se trata de uma sugestão de que a novela O Morro da Casa-Grande se converta no romance O Morro da Casa-Grande: não raro a emenda sai pior que o soneto.

Como o que faz de um texto um texto literário é, a rigor, a estilização da linguagem que, por isso, atrai para si mesma as atenções da recepção, desviando-as de outros elementos secundários, como o enredo, patente é que, em O Morro da Casa-Grande, Dílson Lages Monteiro nos brinda com uma linguagem enxuta, escorreita, precisa. É claro que me causa estranheza qualquer lugar, no caso Barras, em qualquer época, no caso a década de 50, desprovido de palavras e expressões interditadas, como gírias (não precisa exagerá-las) e palavrões (idem), a denunciar a onipresença, decerto IRREAL, de um formalismo lingüístico e de uma assepsia que, espera a literatura, não advenham de nenhum moralismo, com ela incompatível. No entanto, meu maior medo, ao saber que a trama, afinal pouco desenvolvida, se passava no interior do Piauí, foi o de termos ao fim e ao cabo mais uma obra caudatária de um regionalismo tacanho, com expressões regionais metidas a fórceps no texto, à Fontes Ibiapina. Isso NÃO ocorre em O Morro da Casa-Grande, que tem evidentes marcas regionais sem ser, meramente, regionalista.

Recomendo a leitura de O Morro da Casa-Grande e saúdo a boa estreia de Dílson Lages Monteiro na prosa de ficção. O Piauí, tão infelicitado por maus políticos, cada qual disputando quem é o pior, o Piauí também carece de bons ficcionistas. Você é bom, Dílson. Avante!

Diário do Povo do Piauí, Teresina, 13 abr 2010, p. 18.


Por: Manoel Hygino dos Santos

Coroneis e camaleões

 
Dilson Lages Monteiro multiplica-se por quatro para seu projeto de vida: como poeta, cronista, professor e editor. Desde 2004, mantém o Portal Entretextos, para reunir autores de prestígio nas letras do Brasil e Portugal.

De dois em dois anos, publicou poesia: "Mais hum', "Colmeia de concreto", "Os olhos do silêncio", "O sabor dos sentidos", em 1995, 1997, 1999 e 2001, respectivamente, para, em 2009, apresentar o seu "Adiante dos olhos suspensos".

Professor há praticamente 20 anos, editou o livro didático "Texto argumentativo - teoria e prática", o ensaio "A metáfora em textos argumentativos" e "Entretextos - artigos e entrevistas". Pelo que aqui se informa, constata-se ser Dilson Lages Monteiro um devotado cultor da literatura e da língua pátria.

Agora ele se dispôs a ingressar num campo novo: o romance, e assim apareceu "O morro da casa-grande", 2009, pela Nova Aliança, de Teresina. Porque o autor é do Piauí e, ao entrar novo gênero, decidiu prestar homenagem tolstoiana à sua cidade natal - Barras.

No pequeno volume, bem elaborado, quase uma extensa crônica de uma cidade que se deixa envolver pelo fascínio do progresso, esquecendo velhas tradições e procurando, com sua população, um novo lugar ao sol do desenvolvimento.

Com esse propósito e diante da indesviável destinação, vê ruir costumes e construções, e entre estas a igreja de Nossa Senhora da Conceição das Barras, no morro da casa-grande.

É um trabalho interessante, a que não faltam vocábulos praticamente não usados no Sudeste e no Sul, expressões bem próprias do interior piauiense. Mas um texto agradável, com uma narrativa que faz sentido e tem propósitos claros, entre os quais o de proteger tanto quanto possível o legado das velhas gerações.

Primeiro, perdeu-se o cemitério "onde uma geração inteira se fechava, uma geração apagava o tempo. A filha Perpétua partiu primeiro. Antes dela, os dois netos: um, quase anjinho, de doença feia; outro, rapazote feito, de desastre".
 
Os personagens são típicos, como aqueles meninos que mataram o gordo camaleão na mangueira do quintal e o arrastaram com uma embira presa ao pé até uma palhoça. Lá, Maria abriu o bicho, tirou as carcaças de couro, limpou as impurezas e jogou a carne sem cor numa panela. Enquanto ela ria, Marciano, um dos curiosos, contorcia-se em náuseas, por muitos dias revolvendo na memória de criança a imagem do bicho fervendo.

Será que fariam isso com criança também?

Houve o dia em que um bando de ciganos cruzou a cidade, obrigando a população a se esconder em suas casas.

Temiam-se furtos, inclusive de meninas desprevenidas. Eram mais de cem e, da última vez em que por ali passou um grupo, levaram até as galinhas de Alzira.

O menino se perguntava: por que não davam para eles um pedacinho de chão para morar, já que eles corriam o mundo atrás de um quinhão de terra? As janelas ficavam fechadas, enquanto os menores se indagavam sobre as razões que levaram aquelas pessoas a perambular.

O adolescente, ou quase, se interessava por tudo e todos os detalhes. Atanava-lhe a figura do coronel, a gente que dava ordens. O que era mesmo um coronel? "Gente que mandava: mandava em gente, em bichos e na própria terra".

No entanto, o coronel já não tinha interesse em mandar. "Ele conhecia bem os sentidos dessa palavra, mas a substância dela perdera o gosto. Não mais desejava mandar no que fosse. Que mandassem os filhos, os netos. Queria somente - e não cansava de isso repetir - saborear o tempo que lhe sobrava... Vivia mastigando isso: Já não decido mais nada. Vivo para viver!"

O lugar mudava. Ele, coronel, queria paz de espírito, duvidando que os bisnetos conseguissem viver no campo. A vida passaria a ser nas cidades - vida de escolas, eletricidade, automóveis, rádio". Não iriam querer disputar espaço com árvores, bichos e escuridão".

Assim é esse livro, agradável, uma história bem alinhavada e descrita.
                                                                                            
Publicado originalmente no jornal Hoje em Dia (BH-MG), em 11.02.2010.


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