Onde vão parar as histórias que ouvimos na infância?

Por Sandra M. Murakami Medrano

 

“Vão para o coração e lembramos delas quando o coração se conecta com a mente, com a nossa memória. E a gente faz essa conexão quando quer lembrar de alguma coisa que não consegue sozinha”. (Juliana Medrano, 9 anos, estudante)

 

“As histórias da infância vão parar ou no esquecimento ou no inconsciente, transformando-se em sonhos, lapsos, fantasias. Para muitos outros elas viram memória, nostalgia. Para outros, e acho que me incluo entre esses, elas viram outras histórias.” (Noemi Jaffe, escritora)

 

“Vai saber onde vão parar as histórias quando se perdem olhar adentro, por aqueles olhos profundos e tão atentos [de sua filha bebê quando ele lê para ela]. O que sei é que, ainda que esquecidas, não se dissipam por completo: deve restar sempre o som de uma palavra, a cadência de uma frase, a excitação da aventura, a compaixão no insucesso, a alegria ambivalente diante de um bom desfecho.” (Júlian Fúks, escritor)

Para compor este texto, recorri a educadores, escritores, ilustradores, jornalistas, bibliotecários e a uma criança, a minha própria filha, com a intenção de melhor ilustrar os argumentos para o que gostaria de apresentar. As respostas foram muito além disso, trouxeram – afora da fundamentação almejada – um compartilhamento generoso de vivências pessoais que suscitam belas imagens, reflexões e lembranças afetuosas sobre o lugar que ocuparam e ocupam as histórias na vida de cada um. 

Assim, gostaria de agradecer imensamente a cada um dos envolvidos! Todos são unânimes em afirmar que as histórias ficam em algum lugar dentro de nós e as acessamos de diferentes formas e em muitos momentos, mesmo quando não temos consciência delas. Mas será que isso é realmente importante para a vida das pessoas?

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Antonio Candido, pensador brasileiro mais importante no assunto, indica que a ficção e, portanto, as histórias têm o mesmo valor que os sonhos para a vida dos homens. Ele nos conta que, assim como o sonho durante o sono é fundamental para nosso equilíbrio psíquico, também precisamos de ficção, da literatura em sentido amplo, para nossa humanização. E por esse motivo, vale ressaltar, a literatura é um direito!

Isso se relaciona à pergunta feita pela educadora Patrícia Diaz em sua resposta ao meu pedido, “o que seria de nós se vivêssemos completamente na mais pura, crua e dura realidade o tempo todo?”. E ela nos proporciona uma resposta, indicando que as histórias ouvidas na infância nos constituem como adultos possibilitando resistir a essas durezas, ajudando a crescer, recordando a fantasia e criando contornos para compreender melhor a nós mesmos e o mundo que nos cerca.

Nessa mesma direção, a poeta e educadora Alda Beraldo nos indica que as histórias ajudam a compreender o “conceito de ‘bem’ e ‘mal’” e também “a entender o pensamento, os sentimentos e as ações humanas em diversas situações de adversidade”. Acrescenta ainda que “as histórias colaboram para enfrentarmos as dores do amor, do abandono, nos expõem à crueza do destino que as próprias mãos ajudam a desenhar, nos ajudam a compreender a importância da justiça, a apreciar o regozijo da vitória. Vão parar na certeza de que a fantasia acolchoa a realidade e faz compreender como essas instâncias convivem. Elas ajudam a amar o final feliz e a respeitar os tristes finais – a ter compaixão pelos que sofrem, a aceitar que se morre simbolicamente de amor e há inúmeros renascimentos em vida. Elas nos apresentam a amizade, a solidariedade, a perseverança. Apresentam a maldade, antes que possamos prová-la e nos ajudam a enfrentá-la. Nos ensinam sobre o direito de sonhar. E sobre a solidão”.

E como é que as histórias podem auxiliar nesta constituição humana? Júlian Fuks, em sua resposta, nos indica que as histórias ajudam a construir “uma sensibilidade, um repertório de emoções e vivências”. O escritor segue contando que as histórias promovem “uma abertura de mundo: a percepção de que a vida é mais vasta do que as paredes que nos cercam, e de que a planície de cada página esconde uma imensidade”.

Segundo Graciela Montes, especialista argentina em literatura infantil, as artes (e a literatura aí incluída) são como o espaço descrito por Winnicott ao abordar a terceira zona, ou lugar potencial, ao se referir ao desenvolvimento infantil. A literatura seria, assim, a “delgada fronteira de liberdade que há entre a subjetividade e o mundo” (1999, p.95). É um “lugar de negociação, de transação entre o sujeito e os rigores do mundo, onde se constroem as coisas pessoais (...) um espaço circunscrito onde cada um se constrói, onde não se está subordinado por um momento, nem às exigências da própria subjetividade, nem às exigências de acomodação ao mundo; um lugar neutro” (Montes, 2010, p.162).

As histórias ouvidas na infância nos permitem ainda ingressar no universo cultural do qual fazemos parte, por possibilitar acesso a um patrimônio construído e compartilhado. Quando se conta ou se lê um conto tradicional, criamos um círculo, como nos indica Daniel Goldin, traz uma voz que vem de longe, pois mesmo que esteja representada pela voz de alguém que está em nosso cotidiano (a mãe, o pai, ou outra pessoa próxima), não é a mesma voz que fala, ela vem de outro lugar, carregada do arsenal de histórias contadas e recontadas até então.

“Trata-se de um encontro entre o passado, o presente e o futuro que não ocorre em um lugar físico e, sim, na linguagem e no cenário da mente. Isso, ao fim e ao cabo, é a literatura” (2010, p. 51), segundo Yolanda Reyes.

Jean-Paul Sartre, compartilha em seu livro exatamente este processo:

 

Anne-Marie fez-me sentar à sua frente, em minha cadeirinha; inclinou-se, baixou as pálpebras e adormeceu. Daquele rosto de estátua saiu uma voz de gesso. Perdi a cabeça: quem estava contando? o quê? e a quem? Minha mãe ausentara-se: nenhum sorriso, nenhum sinal de convivência, eu estava no exílio. Além disso, eu não reconhecia sua linguagem. Onde é que arranjava aquela segurança? Ao cabo de um instante, compreendi: era o livro era falava. (...) Anne-Marie era outra, com seu ar de cega superlúcida: parecia-me que eu era filho de todas as mães, que ela era mãe de todos os filhos.

 

E esse círculo remete a afetividade, a memórias felizes de momentos vividos na infância, que é fundamental para a constituição das pessoas: sentir-se importante, considerado.

Daniel Goldin nos conta: “Encantava-me sentir meu pai dessa forma, dedicado a nós. Enquanto lia em voz alta, sua presença se expandia até um território inóspito, longínquo e tentador. Sua figura crescia ainda mais, porque eu intuía que ele lia para nós algo que lhe era importante” (2012, p.28). Essa mesma memória afetiva podemos encontrar também nos depoimentos recebidos:

>> “Lembro-me da minha mãe, da minha avó e de um carrinho que tocava a coleção ‘disquinho’.” (Patrícia Diaz)

>> “O maravilhamento que eu sentia quando lia histórias na infância, não sei se vou sentir de novo. Tudo era livre de juízos. Só novidade e alegria.” (Noemi Jaffe)

>> “O ‘Era uma vez’ da infância poderia ser o ‘Era uma voz’. Ouvi isto em certa ocasião, durante um encontro sobre literatura. E as vozes de minhas avós me chegaram com contos de seus cotidianos numa pequena cidade no interior da Bahia. Historias vividas em primeira pessoa ou que alguém contou que ouviu de alguém que contou que ‘era uma vez’.” (Bel Santos)

>> “Cresci ouvindo as narrativas que minha mãe e minhas tias contavam, eram histórias de assombrações e causos cheios de personagens esquisitões que rondaram a infância delas e passaram a rondar a minha e a dos meus primos também. A gente se reunia, uma família de muitos parentes, e ficava ouvindo as acontecências reais ou inventadas.” (Gabriela Romeu)

Talvez por esse teor afetivo, sejam as lembranças que mantemos mesmo quando envelhecemos ou quando um mal acomete nosso cérebro, como ocorre com o Alzheimer. María Teresa Andruetto, em seu livro A leitura, outra revolução, nos conta que uma amiga vivencia com sua mãe, que sofre dessa enfermidade, a alegria ao reler algumas histórias antigas compartilhadas entre elas. Percebe na literatura uma interação, “os olhos brilhando de sempre, esse lugar no mais fundo, já quando a razão vai se retirando (...) um lugarzinho ensolarado” (2017, p. 27).

E por fazer parte dessa fronteira indômita – como indica Graciela Montes – e com essa intensidade afetiva, algumas histórias podem nos tocar de maneira mais profunda ou viver em nós de maneira mais intensa, sem que possamos necessariamente explicar seu motivo.

Em sua resposta, a crítica literária Cris Tavares, indica que “as histórias que ouvimos dos livros, aqueles que algum adulto, professor, amiga, irmã, leu pra gente (...)guardam a intenção no tom de voz de quem leu, misturada à dicção de quem escreveu e podem ou não reverberar na gente quando nos tornamos adultas. Quando isso acontece, quando a duração permanece, é porque algo muito libertador havia ali. Algo da ordem do irrestrito, indomável por princípio, incapturável como os desejos selvagens que habitam a infância.”

O ilustrador Renato Moriconi também compartilha dessa reflexão quando explica como a história do Apocalipse o marcou na infância. “Desde de muito pequeno, tive uma certa atração pelas religiões e por tudo aquilo que é místico. Talvez esse seja o motivo dessa história narrada por João ter encontrado um terreno fértil em minha mente. Os livros, os filmes, as pinturas que mais me impactaram foram aqueles que dialogaram com meu lado ‘doente’. Seria uma forma de a minha mente procurar alívio, cura? Não creio que a arte tenha essa função nem esse poder. Talvez o que me atraia nesse tipo de obra, tal qual fui atraído pela leitura do texto de João, é o encontro com um artista com doenças de alma parecidas com as minhas.” Renato nos recorda que as artes (incluindo a literatura) não estão a serviço de nada.  

Gianni Rodari, em sua Gramática da fantasia, se referindo à criatividade e à arte, aborda o valor da liberação que a palavra pode ter e indica a importância de seu acesso, não para que todos sejam artistas, mas para que ninguém seja escravo. Assim, militemos para que as crianças de hoje e de sempre possam ter acesso aos contos, à literatura, para que possam fazer deste mundo um lugar cada vez melhor para se viver e conviver.

 

“Ao ler histórias, oferecemos às crianças um arsenal de vivências e de personagens para brincar de viver. São como tapumes com os quais construirão casas, cidades e avenidas onde morar e por onde transitar.

O mais decisivo, porém, durante esses anos, talvez nem sejam esses tapumes, mas a argamassa com a qual eles se sustentarão”. (Daniel Goldin)

 

Para encerrar, compartilho as respostas completas que recebi. São lindas, reflexivas e tenho certeza que irão gostar de ler!

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Alda Beraldo (poeta e educadora)

Naquele tempo em que ouvi contos de fadas, não existia floresta amazônica nem mata atlântica – existiam bosques, onde caminhos levavam a choupanas de madeira. As histórias ouvidas foram parar no caderno de uma geografia onírica, em que as paisagens eram bordadas com troncos de árvores frondosas, com o mistério dos cogumelos brotando na terra, com pássaros, coelhos alvos, esquilos mimosos e lobos escuros...  Essas histórias foram dar em uma geografia com vales, montanhas e castelos, um reino visual construído internamente tão rico quanto os reinos mostrados em filmes e ilustrações. As histórias vão parar nessa preciosa geografia interna que, mais tarde, contracena com geografias reais. Não importa se a realidade quer passar a perna em nossos sonhos. Aquelas paisagens permanecem. Na geografia real, vim a conhecer paisagens europeias. Mas não aniquilaram minha geografia de sonho, que me fez apreciar ainda mais as viagens ao Velho Mundo - ele não seria tão belo se não tivesse existido uma geografia dos contos de fadas.

As histórias vão parar na compreensão do conceito “bem” e “mal” e é certo que ajudam a entender o pensamento, os sentimentos e as ações humanas em diversas situações de adversidade. As histórias ouvidas e lidas vão parar em uma caixa de palavras ricas, benditas (que não me abandonaram jamais e só enriquecem meu jeito de sorver os dizeres belos): havia o encantador sorriso nos lábios da princesa adormecida, havia um séquito junto ao príncipe que se extraviou nas imediações do castelo onde a essa princesa dormia em um leito de rosas. Havia cabelos cor de ébano, havia maçãs rubras e miosótis. As histórias culminam na apropriação do literário, geram um desenho estético que passa a morar em nossos ouvidos e em nossos corações.

As histórias colaboram para enfrentarmos as dores do amor, do abandono, nos expõem à crueza do destino que as próprias mãos ajudam a desenhar, nos ajudam a compreender a importância da justiça, a apreciar o regozijo da vitória. Vão parar na certeza de que a fantasia acolchoa a realidade e faz compreender como essas instâncias convivem. Elas ajudam a amar o final feliz e a respeitar os tristes finais – a ter compaixão pelos que sofrem, a aceitar que se morre simbolicamente de amor e há inúmeros renascimentos em vida. Elas nos apresentam a amizade, a solidariedade, a perseverança. Apresentam a maldade, antes que possamos prová-la e nos ajudam a enfrentá-la. Nos ensinam sobre o direito de sonhar. E sobre a solidão. As histórias ouvidas na infância vão parar na aprendizagem do amor pelas crianças.

Bel Santos (educadora)

O "Era uma vez" da infância poderia ser o "Era uma voz". Ouvi isto em certa ocasião, durante um encontro sobre literatura. E as vozes de minhas avós me chegaram com contos de seus cotidianos numa pequena cidade no interior da Bahia. Histórias vividas em primeira pessoa ou que alguém contou que ouviu de alguém que contou que "era uma vez". Estávamos em meados dos anos 1970, na periferia leste de São Paulo. Nossa casa não tinha livros literários. Isso mudaria por volta dos meus 9 anos, quando o pai e a mãe se renderam à insistência das meninas (5) e de um vizinho para a compra de livros à prestação de um vendedor que passava de porta em porta. Uma Bíblia ilustrada e a coleção de Jorge Amado, todos em capa dura, passaram a decorar a pequena sala. Outras historias chegaram: "Capitães da areia" e "Dona Flor e seus dois maridos", contadas em flashes pelo pai.  Os contos das avós, cheios de humor e metáforas, repetidos para nossa alegria, deram lugar a alguns dramas sociais como o abandono de crianças à própria sorte, e seus modos de enfrentar a vida é a morte. Com os livros de Jorge Amado, descobri a grafia de um sotaque que eu e minhas irmãs mais velhas conhecíamos muito bem. As reinações de Narizinho" e outras histórias das personagens de Monteiro Lobato, disponíveis na casa de uma tia que fazia alguns pedidos antes de liberar o acesso ao livro, também chegou na infância. Posso dizer que não tive acesso a muitas histórias na infância, mas as que tive foram colocadas nas estantes da minha vida, seguem de certo modo até hoje. Mesmo aquelas distantes das coisas que faço, das minhas escolhas... me ajudam a diversificar meu acervo interior.  

Cristiane Tavares (escritora e educadora)

Quando a gente é criança, tem história que ouvimos atrás da porta, sem que os adultos saibam que estamos ali, de ouvidos atentos. Essas, parece que duram para sempre porque permanecem inconclusas, secretas, podendo, por isso mesmo, sobreviver às “explicações”. Tem história que ouvimos da nossa própria cabeça, no sussurro da voz de dentro. Essas, fragmentadas que são, talvez se colem àquelas histórias inconclusas, compondo algo novo. Tem também as histórias que ouvimos dos livros, aqueles que algum adulto, professor, amiga, irmã, leu pra gente. Essas, guardam a intenção no tom de voz de quem leu, misturada à dicção de quem escreveu e podem ou não reverberar na gente quando nos tornamos adultas. Quando isso acontece, quando a duração permanece, é porque algo muito libertador havia ali. Algo da ordem do irrestrito, indomável por princípio, incapturável como os desejos selvagens que habitam a infância.

Gabriela Romeu (jornalista, escritora e investigadora sobre as infâncias)

Cresci ouvindo as narrativas que minha mãe e minhas tias contavam, eram histórias de assombrações e causos cheios de personagens esquisitões que rondaram a infância delas e passaram a rondar a minha e a dos meus primos também. A gente se reunia, uma família de muitos parentes, e ficava ouvindo as acontecências reais ou inventadas. Já as histórias de papel foram o melhor antídoto para uma menina tímida que fugia muitas vezes para a biblioteca da escola no recreio, quando não era escolhida para o time de basquete por ser baixinha e pouco habilidosa com esportes. Eu abria as portas da biblioteca, meio escura e tacanha, e adentrava outros mundos, podia fugir daquele que por vezes era hostil. Também me lembro dos livros apoiados na estante sobre a minha cama. Meu maior prazer é que estavam ao alcance das mãos muitos livros que eu lia a relia. Quase um alento. Ali ficava, entre outros livros, uma coleção chamada O Mundo da Criança, que tinha um volume sobre histórias de outrora (eu achava esse nome tão lindo...). Essas histórias todas (de boca e de papel) eu carrego comigo, às vezes posso transpirá-las pelos poros até. Elas me constituem e, em momentos difíceis, tento me lembrar dessas narrativas tão lá do início - e ainda tão dentro de mim.

Patrícia Diaz (educadora e diretora da Comunidade Educativa CEDAC)

Acho que elas nunca nos deixam... elas nos constituem como adultos que podem resistir às “durezas” da vida, recordando a fantasia e as memórias afetivas construídas pelas histórias e pela relação com quem nos faziam chegá-las até nós. No meu caso, lembro-me da minha mãe, da minha avó e de um carrinho que tocava a coleção “disquinho”. Com menos nitidez, lembro-me das histórias contadas na escola, que acompanhavam a projeção de slides. Também me lembro da capa de alguns livros e, em especial, dos livros de Monteiro Lobato que herdamos de crianças mais velhas da família.

Fecho os olhos, mentalizo minha infância e me lembro das vozes dos personagens, das aventuras perigosas nas florestas e nos personagens heroicos que sempre apareciam para salvar tudo e deixar a paz voltar, após o medo que algumas situações geravam. E por mais medo que passasse, queria ouvir de novo... passar por aquele medo... muitas vezes, até torna-lo conhecido e me sentir mais forte e “pronta” para enfrenta-lo.

Acho que as histórias e, mais que isso, o ato de escutá-las de alguém por quem tem uma relação de afeto intensa, ficam cristalizadas na memória e representam nosso crescimento... Isso, nos ajudam a crescer. Por meio dessas histórias fomos elaborando a vida, abrindo a imaginação, sonhando e ampliando a visão do mundo. Por isso nos fazem crescer, mas, ao mesmo tempo, nos deixam com “um pezinho” na infância, no mundo em que “tudo pode”. Um gigante que sobe num pé de feijão; um pequeno polegar que ocupa o lugar de filho para um casal que não os tinha; a casinha feita de doces que João e Maria encontram na floresta... O que seria de nós se vivêssemos completamente na mais pura, crua e dura realidade o tempo todo? Manter as histórias infantis guardadinhas com carinho na memória nos ajuda a questionar se de fato a fantasia se perdeu, se ela não existe mesmo. De uma forma ou de outra, acho que essa dúvida permanece e nos ajuda a viver.

As narrativas que escutamos na infância, penso eu, também nos ajudam a compreender os diferentes tempos, épocas, lugares, culturas... e isso vai sendo sempre rememorado e criando contornos de mais conhecimentos sobre o mundo. Assim, acho que as histórias não vão pra nenhum lugar... Ficam conosco!

Renato Moriconi (escritor e ilustrador)

Das histórias que ouvi na infância a que mais me marcou, sem sombra de dúvida, foi o relato sobre o fim do mundo narrado em Apocalipse, o último livro da Bíblia, escrito pelo mesmo autor do chamado evangelho do amor, João. É um livro amedrontador, especialmente para uma criança de 8 ou 9 anos, idade que eu tinha quando escutei pela primeira vez essa história. Não consigo mensurar o impacto dela em meu mundo na época – nem mesmo atualmente. É como se eu tivesse passado a habitar a pintura O Juízo Final, do Bosch, e, pra me livrar daquela angústia que as imagens de monstros, demônios – e o livro de Apocalipse é cheio delas –, e o caos por eles causados, fosse obrigatório buscar o céu e o deus sereno que lá habita.

Reconheço que fui uma criança atípica. A morte e o fim do mundo estavam muito presentes em minha mente. Me sentia como um escolhido, um ser salvo, que deveria salvar outros também. Não por acaso, desde de muito pequeno, tive uma certa atração pelas religiões e por tudo aquilo que é místico. Talvez esse seja o motivo dessa história narrada por João ter encontrado um terreno fértil em minha mente. Os livros, os filmes, as pinturas que mais me impactaram foram aqueles que dialogaram com meu lado ‘doente’. Seria uma forma de a minha mente procurar alívio, cura? Não creio que a arte tenha essa função nem esse poder. Talvez o que me atraia nesse tipo de obra, tal qual fui atraído pela leitura do texto de João, é o encontro com um artista com doenças de alma parecidas com as minhas.

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Referências bibliográficas

Antonio Candido, “O direito à literatura”. Em: Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 5a ed, 2001

Daniel Goldin, Os dias e os livros - divagações sobre a hospitalidade da leitura. São Paulo: Pulo do Gato, 2012.

Gianni Rodari, Gramática da fantasia. São Paulo: Summus, 1982.

Graciela Montes, La frontera indómita. México: Fondo de Cultura Económica, 1999.

_________ “La literatura, la infância, el arte. Entrevista a María Emília Lopes”. In: Lopes, María Emília. Artepalabra - vocês en la poética de la infancia.Buenos Aires: Lugar editorial, 2010.

Jean-Paul Sartre, As palavras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. 7aedição.

María Teresa Andruetto, A leitura, outra revolução. São Paulo: Edições Sesc, 2017.

Yolanda Reyes, A casa imaginária. São Paulo: Global, 2010.

 

Publicado originalmente no Blog das Letrinhas.www.blogdaletrinhas.com.br