Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Tamanho da letra A +A

Retrato de um Artista quando Jovem

Retrato de um Artista quando Jovem

[Halan Silva] 

 
Reporto-me ao título de uma obra de James Joyce (1882-1941), A portrait of the artist as a young man (Retrato de um artista quando jovem), para falar do romancista piauiense O. G Rego de Carvalho (1930) que, em 1967, envolveu-se numa acalorada polêmica literária veiculada em dois importantes órgãos da imprensa local, os jornais O Dia e O Piauhy, à época sob a responsabilidade de Leão Monteiro e de José Camilo da Silveira Filho, respectivamente. 
 
A polêmica teve início quando O. G. Rego de Carvalho, sabendo que Dom Avelar Brandão Vilela (1912-1986) pretendia criar uma faculdade de filosofia em Teresina, publicou em março de 1967, no jornal O Dia, o artigo Convite à humildade. Nesse artigo, defendeu a ideia de que somente metade das vagas de professor da faculdade de filosofia deveria ser preenchida por piauienses. Necessariamente, a outra metade deveria ser ocupada por professores oriundos da região sudeste. Para O. G. Rego de Carvalho, deveria prevalecer aqui algo semelhante ao que prevaleceu durante a fundação da Universidade de São Paulo (USP) em 1934, ou seja, a contratação de renomados professores estrangeiros, como foi o caso do etnólogo Claude Lévi-Strauss (1902-1985), do historiador Fernand Braudel (1902-1985), do geógrafo Pierre Monbeig (1908-1987), do filósofo Jean Maugüé (1904-1985) e do sociólogo Roger Bastide (1898-1974), todos integrantes da missão francesa que aportou no Brasil em 1935. Do outro lado da querela, mormente, sob pseudônimo (Vespasiano, Ayres, Conselheiro Acácio), respondiam aos artigos de O. G Rego de Carvalho importantes intelectuais da cidade: Clemente Honório Parentes Fortes, M. Paulo Nunes e Valdemar Sandes (Carlos Eugênio Porto era parte na polêmica, mas optou por não responder às críticas de O. G. Rego de Carvalho). Não tardou para que a polêmica perdesse o foco, as respostas a O. G. Rego de Carvalho passaram a não mais versar sobre questões ligadas à fundação da faculdade de filosofia, mas sobre a qualidade da obra de estreia de O. G. Rego de Carvalho na literatura, o romance Ulisses entre o amor e a morte (1953) que, em 1967, achava-se em sua segunda edição[1]. Embora tenha sido bem recepcionado por críticos e escritores consagrados, no Piauí o romance Ulisses entre o amor e a morte foi duramente atacado. No Brasil, a introdução de novas mentalidades nos meios acadêmicos parece algo quase sempre tardio e dificultoso. Em seu Antes del fim, Ernesto Sábato noticia que o filósofo Schiller (1759-1805) e o astrônomo Hartmann (1882-1959) lecionaram numa das mais tradicionais universidades da Argentina, na Universidad de La Plata. 
 
A polêmica alcançou seu termo em outubro de 1967, quando O.G. Rego de Carvalho, no artigo Não Ceder, Lutar sempre, despede-se de seus leitores e anuncia sua partida para a cidade do Rio de Janeiro. A vida de O. G. Rego de Carvalho foi marcada por dois fatores, a precocidade e a atuação. Entre 1949 e 1950, na casa dos vinte anos, ao lado de H. Dobal (1927-2008) e M. Paulo Nunes (1925), dirigiu o Caderno de letras meridiano, que era o reflexo de uma onda de publicações literárias encabeçadas por jovens escritores. Em depoimento, o poeta Ferreira Gullar (1930) declarou-me que, em São Luís do Maranhão, nesse mesmo período, ele e Lago Burnett (1929-1995), lançaram três revistas: Saci (1948), Letras da Província (1949) e Afluente (1950) e, que, paralelamente, José Sarney (1930) e Bandeira Tribuzzi (1927-1977) fizeram uma revista literária intitulada A Ilha. Quando saiu o terceiro e último número do Caderno de letras meridiano, em 1950, Lago Burnett veio a Teresina e manteve um ligeiro contato com os diretores do Caderno de letras meridiano. No Rio de Janeiro, O. G. Rego de Carvalho deu curso à sua carreira literária. Publicou suas obras num dos mais importantes registros editoriais do país, a editora Civilização Brasileira, e conquistou, com o romance Somos todos inocentes (1972), obra escrita deliberadamente para calar seus detratores, que afirmavam que O. G. Rego de Carvalho só escrevia sobre si mesmo, o cobiçado prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras[2]. De volta ao Piauí, O. G. Rego de Carvalho, nos anos setenta, envolveu-se em mais uma polêmica literária, desta vez com intelectuais da Academia Piauiense de Letras (a questão versava sobre a existência ou a não existência de uma literatura piauiense). Enquanto a saúde permitiu, O. G. Rego de Carvalho revisou e cuidou pessoalmente de sua obra literária. Durante anos, sem impor nenhum ônus a seus leitores, distribuiu seus livros na intenção de difundi-los o máximo possível, uma vez que as escolas (públicas e privadas) e a Universidade Federal do Piauí não valorizavam satisfatoriamente os autores piauienses. 
 
Diversamente do que costuma acontecer no Piauí, em face da boa receptividade de que dispõem, os escritores gaúchos não são constrangidos a deixar os pagos do Rio Grande do Sul ou a ganhar prêmios literários excepcionais. Confirma o que eu digo a trajetória literária de Érico Veríssimo (1905-1975), de Josué Guimarães (1921-1995), de Mário Quintana (1906-1994), de Dyonélio Machado (1895-1985), de Luís Fernando Veríssimo (1936), de Augusto Meyer (1902-1970), de Raul Bopp (1898-1984), de Lila Ripoll (1905-1967), de Cyro Martins (1908-1995), de Luís Antônio de Assis Brasil (1945), de Moacyr Scliar (1937-2011), de Caio Fernando Abreu (1948-1996) e de tantos outros que não convém citar por agora. Não tivessem Da Costa e Silva (1885-1950), O. G. Rego de Carvalho (1930), H. Dobal (1927-2008), Assis Brasil (1930), Carlos Castelo Branco (1920-1993), Francisco Pereira da Silva (1916-1985), Permínio Asfora (1913-2001), Esdras do Nascimento (1934), Mário Faustino (1930-1962), Ávaro Pacheco (1933) e Torquato Neto (1944-1972), a despeito do talento e da tenacidade, ganhado prêmios literários ou sido aclamados nos grandes círculos literários do país, talvez hoje restassem no lugar destinado à maioria dos escritores piauienses - no ostracismo. Portanto, o pior lugar para um escritor piauiense é o Piauí.
 
 

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (1)

Halan Silva: Em boa e oportuna hora vem o seu veemente e polêmico artigo, que põe a nu a situação ambígua e provavalemente hipócrita de uma vaga posição de intelectuais piauienses, ainda muito colados à ideia de que um escritor piauiense deva ser sempre um piauiense, morar na terra de berço ou vindo se estabelecer no Piauí a fim de que possa ser acolhido no mundo movediço e cheio de preconeitos e provincianismo como, em geral, são as regiões do interior do país, e aqui incluo as capitais. Você, que já deu provas suficientes de que é um ensaísta sério e atualizado, amante da produção cultural piaiuense, vem levantar todas estas questões conernentes a valores da terra mafrense e ainda a alguns tópicos fndamentais de historiografia literária e de julgamento crítico no Piauí intelectual. A sua última afirmação, no lúcido e fundamentado artigo, resume bem o cerne de todas as polêmicas e malentendidos que cercam a vida literária piauiense cujos nós e quiproquós(vale a rima) ainda estão muito presos a um passado que não tem sentido agora. Se a Universidade Federal do Piauí não deu(ou ainda não dá o justo valor a alguns autores locais, vlehos ou novos, ou "novíssmos", como diria Tristão de Athayde, a culpa é dela e da falta de abertura despreconceituosa para questões basilares deste porte. O que, a meu ver, precisa ser disseminado aí no Piauí (desculpe-me a inoportua rima) é não só valorizar o escritores antigos e novos surgidos, mas tambmém abrir-se para a compreensão de que o fenômenos literário não pode se limitar a um juízo meramente regionalista, cerceador da criação literária em sua dimensão universalista. A questão discutível de se denominar "literatura piauiene", "literatura de autores piauienses", "literatura brasileira de expressão piauiense" e outras denominações pouco en riquecedoras, só tende a insular os escitores da terra a um maniqueísmo inoperante e carente de solidez. A questão do valor estético no julgamento literário-crítico é o protocolo mais coerente da historiografia literária. O seu desabafo é justo e coerente. Se não houver mudança progressita e despreconeituosa com o fato cultural-literário vindo dos centros universitarios locais, públicos e privados, não se poderá ir muito longe em direção a uma pesuisa autêntica e imparcial reconhecendo os vlores da terra, sua produção , sem cerceamentos de qualquer naturea, porquanto o escritor deve ser medido pelo valor de sua obra em si, sem julgamentos aprorísticos e paroquiais subjetivistas e cheios de tabus crítics atingindo até a individulaidade civil e as opoções morais de um escritor. Nada de patrulhamentos ideológicos( como justamente se queixava o poeta e sociológo piauiense Clóvis Moura) a nenhum autor. Nada de beletrismos que só abastardam e vilipendiam os valores da terra. Que os escritores piauienses sejam simultaneamente divulgados tanto no seu estado de origem quanto nos centros mais adiantados do país. Sem parti-pris, igrejinhas, grupelhos de índole facistóides - esses sim, os inimgos do saber e da pesquisa competente. Diferentes de você, que publica o que vale a pena e, assim, engrandece a cor local. Seu artigo deveria ser mais divulgados , sobretudo no Piaui. Cunha e Silva Filho

Cunha e Silva Filho
postado:
27-01-2012 12:57:19

Deixe o seu comentário


Reload Image









Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas notícias

15.02.2012 - Revista Presença 47

Será lançada no próximo dia 16 (quinta-feira), às 9 horas, no Conselho Estadual de Cultura

14.02.2012 - Não conhecemos o Brasil literário

Crise é um sintoma de algo que está vivo.

14.02.2012 - Pesar: morre o escritor William Palha Dias

O acadêmico Palha Dias escreveu obras importantes da literatura piauiense

12.02.2012 - Em vídeo, a gênese de O Amante das Amazonas

Rogel Samuel em entrevista

11.02.2012 - Árvores do Alentejo

Árvores! Corações, almas que choram

10.02.2012 - Belo texto; é exemplar, leitor!

Como enriquecer o vocabulário

10.02.2012 - Revista Bibliotecas Universitárias

Periódico aborda temas pertinentes às bibliotecas universitárias

Listar mais

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br