Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 11 de março de 2010
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Reflexões sobre a notícia de um poeta morto

Reflexões sobre a notícia de um poeta morto

Cunha e Silva Filho

Morreste, poeta! Tinhas valor, deixaste obras, traduziste autores célebres. Até escreveste uma obra com título que, aglutinados nos seus elementos léxicos, forma o nome de tua pequena terra natal no interior do Paraná. Uma  cidade com pouco mais de cem anos. Cidade acolhedora, muito fria e, às vezes, muito quente.


Te desenraizaste do teu berço natal. Mudaste para a cidade grande, grande e maravilhosa, embora vítima da mais cruel violência  de que já se teve notícia ultimamente. Cidade também acolhedora, cálida, de tantos imigrantes que nela se fixaram em definitivo. Quem bebe das suas águas e respira os seus ares, dificilmente regressa ao berço natal. Faz como os saudosistas da  poética Galícia.


Na cidade grande viveste. Pouca gente talvez te conheça – quem, porém, conhece hoje em dia os poetas? -, mas estás citado nas melhores histórias da literatura brasileira. Pela crítica especializada, eras considerado grande poeta.


Na tua terrinha natal, pessoas com certo conhecimento da cidadezinha, do seu povo, da sua história e da sua cultura, te conheciam, mencionavam com respeito teu nome. No ano passado, nesta coluna, fiz uma crônica, na qual mencionei, de passagem, um texto teu que um amigo, já falecido, me presenteara. O texto se encontra numa revista da tua cidadezinha, e fala teoricamente sobre poesia. Texto instigante, onde revelas conhecimento profundo da arte poética e de literatura.
Texto primoroso. Poeta foste por vocação e por conhecimento de causa. Te preparaste e te atualizaste para fazeres poesia.


Como outros grandes poetas brasileiros, não entraste para a Academia Brasileira de Letras. Será que desejavas nela entrar? Não sei, nem me interessa sabê-lo.Não quero me meter nessa seara.
 

Poeta morto,  foste  para a morada dos mortos e deixas a “morada do ser” em forma de poesia e de cuidados com a palavra e a cultura literária.
 

Hoje, no JB, Idéias & Livros, na seção Informe Ideias, sob a rubrica “lágrima”, da coluna do editor Álvaro Costa e Silva, há um breve registro do teu falecimento, mencionando algumas de tuas obras e traduções que realizaste


Conheci tua terra natal. Até lá morei por uns poucos dias. Comprei lá uma casinha que, pouco tempo depois, vendi. Como o teu, o meu destino é a cidade grande.


Que posso fazer por ti? Ora, que pergunta tola me faço agora! A única coisa que posso fazer por ti é ler teus livros, conhecer-te mais pela lado magnífico da Arte Poética. Só esta aproxima os sensíveis, os não-pragmáticos, os que pouco dão importância às glórias fátuas e efêmeras do hedonismo contemporâneo e pressurosa.


Nunca nos vimos nem nos falamos.Oh, cidade grade das distâncias interpessoais! De ti nem conheço a obra toda deixada. Só ti vi numa foto antiga, com alguns traços particulares como um bigodinho, um rosto meio cheio, cabelos lisos penteados para trás.
 

Li, no entanto, alguns poemas teus, Têm valor. Soube que trabalhaste no comércio, que não te formaste, que também ganhaste, em 1958, o Prêmio Olavo Bilac. Além deste prêmio, ganhaste outros prêmios graças ao valor da tua poesia 


Escreveste alguns livros de poesia: Melodias de estio (1952); Iniciação ao sonho (19550; O poder da palavra (1959); Ir a ti (1969); O andarilho e a aurora (1971); Sons de ferraria (1989) Publicou ainda Pedra de transmutação (1984). Traduziste A feiticiera, de Michelet; O livro dos demônios, de Sinistrati de Ameno, Bucólicas, de Virgílio e Arte de amar, de Ovídio.

Na pesquisa sobre a  tua produção poética, anotei algumas discrepâncias entre historiadores quanto a datas de publicação das obras das tuas obras.         

O nome do poeta recentemente falecido no Rio de Janeiro, onde morava desde 1941, é Foed Castro Chamma, nascido em Irati, Paraná, em 1927. Aos leitores meu convite ao conhecimento da poesia de Foed.

 

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