(Em memória a Gonçalo Soares do Rego Monteiro)

 

Dílson Lages Monteiro - da Academia Piauiense de Letras

 

Ah, meu pai, tu pedalas a rapidez da madrugada

em tua farda de caqui e cheiro de orvalho

na porta que se ilumina

a casinha de largo corredor e meia-banda

nas encostas do rio

pertinho da igreja.

 

Ah, meu pai, pedalas

as batidas de meu coração

na janela da sala

as cócegas de tuas lembranças

e o sereno arrastar de passos

vida adentro do dia infindo

 

Pedalas as veredas de teu intinerário

estreito, currais novos, são joão

e todos os lugares em teu abraço:

tanta água despejada nos caminhos

da respiração em fôlego

o sangue das lâminas

os comprimidinhos na bolsa marrom

de poeira e  pó de sol

na pele encarnada

morena de suor e sonhos.

 

Ah, meu pai, tu pedalas as cidades

de onde as brasas das asas ti tragaram:

Amarante, Angical,

São Pedro, Água Branca

O nome doce e feroz das fazendas:

baixão do coco, lagoa da vida

tanque, canto da onça

 

Sacode os chinelos, sacode

e acode quem mais precisa

de palavra e pão

 

Ah, meu pai, pedalas os conselhos

e a ordem de não olhar para trás.

A madrugada vem ali

no sorriso tranquilo e terno

a voz inteira da esperança

em minha humildade de teu dna.

 

Tu pedalas em tua farda de caqui

o cheiro de orvalho

 e os teus sonhos em mim.