Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 21 de outubro de 2014
Tamanho da letra A +A

Planejando o ensino de Línguas

Planejando o ensino de Línguas

Por Heloísa Amaral

A orientação para o trabalho de ensino de língua a partir do uso de diferentes gêneros textuais no ensino fundamental é relativamente recente. Embora as pesquisas nessa área sejam anteriores, é com os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (publicados pelo Ministério da Educação – MEC, em 1996), que essa proposta de trabalho começa a circular em âmbito nacional. De acordo com as orientações dos PCNs, os diferentes gêneros textuais devem ser trabalhados no ensino fundamental, desde as séries iniciais.

No Brasil, desde meados da década de 90, circulam artigos, teses, livros e materiais didáticos inspirados nessa abordagem. Essas produções procuram explorar diferentes aspectos do trabalho com gêneros textuais. Um desses aspectos estudados é a progressão curricular em espiral dos gêneros no ensino de língua, que procura responder a uma pergunta que se repete entre os professores: quais os gêneros mais adequados para cada série do ensino fundamental?

As propostas de progressão curricular resultantes desses estudos têm como parâmetro, em geral, um quadro publicado no artigo Gêneros e progressão em expressão oral e escrita: elementos para reflexões para uma experiência suíça, escrito por Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly em 1996. Nele, os autores propõem agrupamentos de gêneros – Narrar, Expor, Argumentar, Instruir e Relatar, organizados pelas semelhanças que as situações de produção dos gêneros de cada um dos agrupamentos possuem.

No agrupamento Narrar, são colocados os gêneros da cultura literária ficcional, como contos, lendas, romances, fábulas, crônicas. A situação de produção desses gêneros sempre envolve a ficção e a criação.

No agrupamento Expor, estão agrupados os gêneros científicos e de divulgação científica, e os didáticos constituídos para o ensino das diversas áreas de conhecimento. Estão nesse agrupamento os artigos científicos de todas as áreas do conhecimento, os relatos de experiências científicas, as conferências, os seminários, textos explicativos dos livros didáticos, os verbetes de enciclopédia e outros afins. A situação de produção desses gêneros sempre envolve a necessidade de divulgar um conhecimento resultante de pesquisa científica.

 No agrupamento Instruir ou Prescrever figuram os gêneros como os manuais de instrução de diferentes tipos, inclusive aqueles que acompanham máquinas, ferramentas e eletrodomésticos, as bulas de remédio, as receitas culinárias, as regras de jogo, os regimentos e estatutos e todos os demais gêneros cuja função é estabelecer formas corretas de proceder. A situação de produção desses gêneros sempre envolve a necessidade de informar como deve ser o comportamento daqueles que vão usar um equipamento ou medicamento ou realizar um procedimento.

No agrupamento Relatar estão os gêneros relacionados com a memória e as experiências de vida, como memórias literárias, diários íntimos, diários de bordo, depoimentos, reportagens, relatos históricos, biografias e outros semelhantes. Nas situações de produção desses gêneros está a necessidade de contar alguma coisa que realmente ocorreu, o que torna os relatos diferentes das narrativas, que são ficcionais.

No agrupamento Argumentar ficam os gêneros que têm origem nas discussões sociais de assuntos polêmicos, que provocam controvérsias. Estão nesse agrupamento as cartas de solicitação, cartas de leitor, cartas de reclamação, os debates políticos, os artigos de opinião jornalísticos, os editoriais e outros semelhantes. Nas situações de produção desses gêneros existem questões polêmicas que estão sendo discutidas em sociedade, e que exigem dos autores um posicionamento e a defesa desse posicionamento.

Os agrupamentos podem facilitar a escolha de gêneros adequados para cada série da Educação Básica, possibilitando uma progressão em espiral para seu ensino. A expressão “progressão em espiral” significa que podemos criar eixos no planejamento do ensino de gêneros, um eixo para cada agrupamento. Criados os eixos, é possível escolher os mais adequados de cada agrupamento para cada série, retomando gêneros do mesmo agrupamento a cada ano que passa, para que os alunos possam ampliar, gradativamente, o domínio das capacidades de narrar, argumentar, expor, instruir e relatar.

Tomando o agrupamento Argumentar como exemplo, podemos afirmar que, até pouco tempo, qualquer pessoa diria que não se deve trabalhar argumentação nas séries iniciais. Hoje, porém, é outra a resposta. Ensinar a argumentar é um trabalho que pode ser feito com diferentes gêneros textuais, e é possível começar bem cedo, já nas séries do primeiro ciclo, com os debates orais, cartas de leitor e cartas de solicitação, por exemplo.

Todos os outros agrupamentos possibilitam reflexão semelhante. É possível um trabalho com gêneros expositivos nas séries do primeiro ciclo, se iniciarmos sua exploração por verbetes de enciclopédia; com gêneros narrativos, podemos começar com pequenos contos, como os contos acumulativos, aqueles em que há uma espécie de refrão que se repete, ótimos para o período de alfabetização; com gêneros do agrupamento instruir, podemos começar com as receitas culinárias; com gêneros do relatar, podemos trabalhar com as crianças menores lendo e escrevendo pequenas biografias, por exemplo.

Se trabalharmos com muitos gêneros narrativos ao longo do Educação Básica, nas séries finais poderemos trabalhar com a leitura de romances, por exemplo, e obter ótimo aproveitamento. Se começarmos a trabalhar com gêneros expositivos a partir de pequenos verbetes de enciclopédia infantil, lá no início do Fundamental, e formos ampliando o estudo desses gêneros ao longo das demais séries, poderemos trabalhar textos de informação científica nas séries finais com tranqüilidade.

Se o leitor desejar maiores informações sobre o assunto, pode ler o artigo da professora doutora Roxane Helena Rodrigues Rojo Elaborando uma progressão didática de gêneros – aspectos lingüísticos-enunciativos envolvidos no agrupamento de gêneros “Relatar”, clicando no link: http://www2.lael.pucsp.br/~tony/intercambio_anteriores/08rojo.ps.pdf (para visualizar este arquivo é necessário ter o Adobe Acrobat Reader instalado)

Pode, também, ler o livro indicado abaixo, composto por artigos de Schneuwly&Dolz e colaboradores, que tratam de diferentes aspectos do ensino de gêneros textuais na escola.

  (1) SCHNEUWLY, B., DOLZ, J. & colaboradores. Gêneros orais e escritos na escola. Trad. e org. de Roxane Rojo e Glais Sales Cordeiro. Campinas: Mercado de Letras, 2004.

 

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

São Bernardo no olhar de Ricardo Ramos Filho


(Dê)pois, poema de Dílson Lages


Listar todos
Últimas notícias

11.10.2014 - Matusalém das Flores, novo romance de Nejar

Segundo Fajardo, o romance é fértil em situações absurdas.

11.10.2014 - Dicas para quem quer escrever um livro

Qual o segredo para escrever um bom livro?

09.10.2014 - João Anzanello Carrascoza estreia no romance

Um belo romance de estreia que reforça o talento literário do exímio contista.

09.10.2014 - Os contos de Cummings

Essas quatro fábulas não foram escritas com o objetivo inicial de virar livro

30.09.2014 - A eleição é uma revolução democrática

A eleição substitui as armas pelo voto.

26.09.2014 - Os presidenciáveis e as políticas do livro

A pedido do jornal O globo

26.09.2014 - Entre a Literatura e a Psicanálise

Alfredo Bosi abre conjunto de ensaios

Listar mais

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br