Dilson Lages Monteiro Domingo, 26 de maio de 2013
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“Pássara Ritita, a nuvem”

“Pássara Ritita, a nuvem”

[Rosidelma Fraga]

“Pássara Ritita, a nuvem”, presente no livro Os da minha rua, do angolano Ondjaki (2007),  participa do hibridismo que teorizou Emill Staiger (1997). Há uma narrativa banhada pela reinvenção da linguagem com ênfase no delírio da personagem Ritita, responsável pelo imaginário e fantasia. Sobre tais aspectos nas narrativas africanas Benjamin Abdala Junior (2005), ao escrever na orelha da obra Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários, de Rita Chaves, destacou que várias obras são arquitetadas sob a égide de “formulações da utopia libertária com imagens literárias artisticamente elaboradas”[i].
A linguagem de Ondjaki é artisticamente elaborada e abre as cortinas do imagético através de um lirismo quase poesia se não fosse prosa. Ao ler o conto, nota-se uma similaridade com a personagem do conto “A menina de lá”, de Guimarães Rosa e com “A menina avoada”, de Manoel de Barros, embora não seja este o objetivo desta recomendação de leitura, mas apontam-se tais convergências com o intuito de asseverar que a narrativa de Ondjaki tem uma construção poética de qualidade tanto quanto a dos brasileiros mencionados.
 Segundo Artur Pestana dos Santos Pepetela (2007), Ondjaki é um jovem que escreve uma ficção viçosa e jovem, que fornece a frescura e a alegria a um texto[ii]. Com toda a frugalidade da narrativa ondjakiana, o conto eleito emana de um trabalho com a linguagem poética que o aproximaria também do angolano José Luandino Vieira e do moçambicano Mia Couto.
Curiosamente,“Pássara Ritita, a nuvem” inicia-se com a seguinte epígrafe da obra de Manoel de Barros: “o que sinto mesmo é a incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida” (p.223). A citação estabelece uma inteira relação com o enredo, uma vez que, nas primeiras linhas, o leitor tem acesso a tal incompletude que o indivíduo busca no sonho e na existência do ser que, numa analogia a personagem G.H de Clarice, estará sempre sendo. É sobre o sonho de querer ser nuvem que o narrador onisciente descortina a história de névoa:
 
 
“Está é uma estória muito vaporosa, em tom de névoa. Nem lhe procurem nexos: eu própria lhes proibi de aqui estarem, irritantes. Trata-se da minha afilhada, única e sonhadora: queria ser nuvem! Tentei lhe desconvencer, mas nada: ninguém sabe combater um sonho” (ONDJAKI, 2007, p. 223).
 
 
A instauração do sonho confunde-se com a personagem central do conto. Ritita “manifestava muito aérea, vias do céu; a moça afinal também é pássara, quer só voar” (ONDJAKI, 2007, p.223). Desde o começo, o narrador mostra que desferir a imaginação está no consciente da menina voadora e “seu voo era mesmo constante, ocupador dos todos momentos”. O conto toma verossimilhança no absurdo da linguagem quando o leitor degusta a transcrição do olhar do narrador sobre Ritita que se mistura à madrinha-nuvem:
 
 
“Um dia acreditei-me de sua paixão tendencial: lhe vi poisar numa nuvem. É possível sentar na nuvem? [...] estou-lhe bençoar. Vá lá onde é esse seu lugar, no canto de um céu. Só lhe recomendo: não esqueça seus antigos seus. Na chuva me mande seus recados; no vento, griete sua sípida voz. Lhe escutarei, muito atenta. Em caso disso, lhe ajudarei. Bênção!” (ONDJAKI, 2007, p.223- 224).
 
 
A utopia constitui-se como um percurso lírico e imagético e amplia-se pelo ensinamento dado pela bênção magnífica da madrinha, a que representa o papel do mais velho, tendo em vista que ela endossa o sonho da menina ao atribuir-lhe conselhos e designar a bênção maternal. A resposta encontra-se na própria imaginação e no neologismo poético:
 
“Se bicho vira nuvem, vira tudo, sonhacreditantemente. Meus olhos incrédulos, tudo registraram, com minha boca berta: Ritita, ex-pássara, se esvoava, semi-humida, nebulosa. Bênção!” (ONDJAKI, 2007, p.224).
 
 
O conto transmite a visão de que o sonho vai além da fronteira do voo do imaginário: ele reside no plano da verdade instaurada na poesia que é descortinada na alma da menina Ritita e transcende na veracidade da existência mesmo que seja pela veia da invenção expressa no advérbio de modo sonhacreditantemente. Sonho e utopia mesclam-se em linguagem de poesia. Com suas pinceladas poéticas, a personagem, nomeada pelo narrador, diz e acontece, nomeia e assim se faz. E o leitor sente-se banhado pelo dilaceramento desse mundo utópico para onde o texto ondjakiano consegue transportá-lo. Ler este conto de Ondjaki é navegar pelo caminho do sonho, cujo resultado é a soma da gradação dos verbos "sonhar", "acreditar" e "realizar", da mesma forma que disse Ana Paula Tavares (2008): "Os da minha rua é o milagre das flores do embomdeiro: habitam o mundo em concha por breves momentos e vêem através da luz o milagre das pequenas coisas".
  Fica aqui então mais uma recomendação de leitura de um dos mais belos contos, dentre outros significativos de Os da minha rua, de Ondjaki (2007). Aliás, um livro que emprestei a um leitor (em 2010) e não recebi de volta.
 
Por Rosidelma Fraga
30/05/2012.
[Meu Blog: http://rosidelmapoeta.blogspot.com]
 


[i] Cf. O paratexto orelha, do livro supracitado, sem número de página.
[ii] Op. Cit. Prefácio a uma antologia do conto angolano, por Zetho Cunha Gonçalves, publicado em 06 de setembro, 2010. Disponível em: <http://www.buala.org/pt/a-ler/prefacio-a-uma-antologia-do-conto-angolano>. Acesso em: 15 de dez, 2010.

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