Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Tamanho da letra A +A

Parabélum de Enéas Barros

Parabélum de Enéas Barros

Dílson Lages Monteiro

Enéas Barros é uma das gratas revelações da literatura piauiense dos últimos anos. Tem produzido sem interrupções, estabelecendo liames  entre história e literatura. Fazendo do texto, além de componente estético, o que não se pode negar em sua prosa de ficção, propôs-se a mergulhar pelo prisma da literatura, entre temas vários de relevância social, no que ficou sem respostas em um dos episódios mais cruéis registrados na memória coletiva do Piauí, o assassinato do motorista Gregório, na década de 20 do século passado.

Mergulhando em documentos e na memória oral, que reconstruíram os passos de Gregório e de seus algozes, Enéas refaz, em seu Parabélum, o tecido social do Piauí, e mais particularmente de Barras, nas primeiras décadas do século XX. O dia a dia de uma cidade sem grandes novidades que não os banhos no marataoã e a recreação de um povo festivo,  que não a chegada de um automóvel e todos os desdobramentos reais e simbólicos advindos do inesperado atropelamento de uma criança.  Porém, o escritor vai além da história em si, para ingressar precisamente na literatura ao construir, por exemplo, o perfil de personagens como Gregório, Monsenhor Lidolfo, Rosalice, Floretino, Severão, Maria Teresa e, com efeito, possibilitar reflexões sobre as relações de poder, sobretudo.

Gregório é o indefeso, incapaz de esboçar qualquer reação, a fim de atenuar o drama que vive. È o motorista habilidoso, servil, interessado apenas em cumprir o que a ele compete. Monsenhor Lindolfo, o padre que tenta evitar a injustiça, no que é seguido por Arimathéa Tito. Rosalice, a amante, numa sociedade em que era trivial “o homem de muitas mulheres”. Maria Teresa a namorada que sonha com o dia de amanhã. Floretino e Severão, perversos em sua condição de poder. Emocionam não somente pelas ações que vivem na condição que lhes é atribuída na narrativa, mas principalmente pela inserção deles em descrições dinâmicas e verossímeis dos espaços, originárias de sugestões que tocam a imaginação.

Nesse particular, o texto é límpido, linguagem leve e fluente, sem hermetismos de falsos arroubos vanguardistas ou de modismos literários: “Julho de 1927. As águas de março foram deixadas para trás. Com o final das festas juninas, renascia o verão plenamente abastecido da fartura que as chuvas irrigaram. A feira de Barras apresentava uma grande variedade de frutas e hortaliças, vindas de todos os rincões(...)”.

A isso se acrescente que Enéas é um típico contador de histórias. Interessa ao narrador principalmente construir os desdobramentos dos plots, para manter em suspense a atenção do leitor. Ele, a propósito, enfatiza isso em entrevista ao Portal Entretextos: “(...) Há um estilo que me acompanha, que me facilita escrever. Veja que o primeiro capítulo chama a atenção para a fuga do tenente, que ocorreu em 1928, quase oito meses após o assassinato. Esse capítulo ajuda a gerar uma expectativa no leitor. Os capítulos seguintes são fatos isolados que se cruzarão num momento futuro, para dar uma dinâmica à trama e levar à prisão e ao julgamento do assassino. Esse sistema de condução da narrativa prende o leitor, tornando a leitura agradável."

Por essas razões, leio e releio Parabélum. Leio e releio como o faço com textos que  despertam o diálogo com a memória coletiva e fazem do próprio enredo um exercício de metalinguagem, a fim de superar a história pela força que somente a literatura é capaz de gerar.

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image









Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas notícias

06.02.2012 - Japão: Toshiba lança e-reader no dia 10

A Toshiba está se antecipando ao lançamento do Kindle Fire, da Amazon

06.02.2012 - Portal de rádio cria espaço para literatura

O rádio ainda explora pouco esse tema, tão caro ao público jovem.

06.02.2012 - Flipoços 2012 define temática e homenageados

Veja aqui alguns dos nossos convidados

06.02.2012 - Bartolomeu Campos de Queirós - entrevista l

Quando escrevo procuro exercer o melhor de mim.

01.02.2012 - Novas tecnologias e a cultura letrada

É triste ver as livrarias desaparecerem, mas a cultura letrada está certamente se expandindo

31.01.2012 - Os 90 anos da Semana de 22

O livro de Marcos Augusto Gonçalves, editorialista e repórter da Folha*, será lançado na primeira se

31.01.2012 - Sobre "O sonho do celta"

Ao longo do livro, o autor constrói uma imagem do ser humano que nada tem de elogiosa

Listar mais

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br