[João Pinto}
É assim a visão quase romântica que se tem dela. Mas, por trás dessa sujeira, sai o rosto dócil do manauara, que me parece perdeu a essência de ver sua cidade ao transitar entre caixas de papelões, sacos de lixo, bosta de cães, o óleo de odor insuportável que vem das batatas ou bananas, ou dos jaraquis. Que traz a febre cancerígena oculta. Ou entre os vendedores nas calçadas, os donos com o alvará do gestor.
Se você anda pelo centro ou, na periferia dela, o camelô te sufoca com os espaços, com os badulaques da China. Quem mora num espaço, que aceita a sujeira, acaba perdendo a capacidade de indignar-se. O manauara não só aceita a condição como contribui como agente que suja. Perdão apenas para os que não sujam.
E parece que esse lado porco da cidade se acentua mais no inverno. O gestor nunca aparece com os garis. Com o inverno o casario de Manaus fica mais doentio com as paredes enegrecidas e os telhados cheio de lodo e poeira causado pela umidade. Os esgotos, meu Deus, que a gente tenha sorte de não atolar o pé neles. Quem anda de carro, fecha os vidros, pouco tem interesse pela paisagem. Os ônibus desceram do céu com a carga gética lotada de passageiros invisíveis, aqui também há sujeira e demora, ou raiva.
Estou farto de ser manauara adotado. Já moro mais 20 anos no Manoa. Ao lado de casa tem um beco que, de manhã espio do meu muro o matagal que oscila o pigmento das folhas com a maior paciência e muito lixo que os próprios moradores desovam sem piedade.
Mas, continuo a dizer, quem convive com o lixo um dia pode acordar e protestar. Deixar de sujar e culpar quem suja. Voltar a artilharia contra o mal gestor que nunca anda pelas bibocas da sua cidade. Só para enganar os tolos
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