Natureza e data do texto:

 [Marcos Alvito Pereira de Sousa]

Crônica publicada por Machado de Assis na Gazeta de Notícias, seis dias após a Abolição da Escravatura. Em abril daquele ano de 1888 o escritor havia iniciado uma coluna de crônicas intitulada Bons dias! e que duraria até agosto de 1889. É preciso notar que as crônicas eram atribuídas a “personagens-narradores” (Chalhoub, 2005:67) e os próprios leitores do jornal desconheciam seu verdadeiro autor. Apenas na década de 1880 foram quatro: Lélio, João das Regras, Malvólio e Policarpo, suposto autor da crônica abaixo. Policarpo se apresentava como um relojoeiro que desistira da profissão pelo fato dos relógios não marcarem sempre a mesma hora e tornara-se cronista pelo fato do gênero prescindir de precisão. Os “personagens-narradores” permitem a Machado alternar pontos-de-vista (Policarpo por vezes assume a postura de um trabalhador, doutras vezes de um membro da classe senhorial) para bem melhor criticar, de forma direta ou irônica, exatamente como é o caso da crônica a seguir.

Gazeta de Notícias, 19 de maio de 1888

Bons dias!

Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta Lei de 13 de Maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia a que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…

— Oh! meu senhô! fico.

— … Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…

— Artura não qué dizê nada, não, senhô …

— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do Diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do Céu.

Boas noites.

Fonte: ASSIS, Machado de. Obras completas. Volume III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006. pp. 489-491.

Bibliografia:

CHALHOUB,Sidney (2005) “A arte de alinhavar histórias” In: CHALHOUB et alii (Orgs) História em coisas miúdas. Campinas: Editora UNICAMP. pp. 67- 85.

Como citar: ALVITO, Marcos. “Machado e a falsa Abolição”. Página do Facebook – Marcos Alvito – Professor, julho/2016. Disponível no link. (acessado em …/…/…).