Dilson Lages Monteiro Quarta-feira, 23 de maio de 2012
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Lavadeiras

Lavadeiras

               Laerte Magalhães

Lavar e passar, dia após dia. Horas a fio na beira do rio, batendo roupa, literalmente, até que os braços não mais deem conta. Enquanto a roupa é batida, o sol açoita os corpos desnutridos e resseca a pele tal qual faz com o leito seco dos lagos: queima que racha. Um dia os panos são reclamados por uma família, noutros, por outras. Mas a rotina repete os gestos, repete as roupas e até mesmo os pensamentos que consomem o tempo.
À beira do rio, só as cantigas mal cantadas, os benditos murmurados desfiam o silêncio. Afora isto, o ruído das águas ou a algazarra dos pirralhos que se banham um pouco mais além, na água turva. A roupa batida contra a pedra solta um repique seco e ritmado e ecoa nos arredores como um fazer de costume, sem surpresa alguma.
A blusa que antes foi nova, recebeu recomendações para secar à sombra, agora, desbotada, parece ter perdido o seu sentido na espuma do sabão e no enxágue das tantas vezes que mergulhou nas águas do rio e de outras tantas que foi torcida até que pingasse a última gota, antes de ir-se ao varal para a secagem. O sol se entranha no tecido e sorve tudo o que é líquido. E o vento transpassa as malhas esmaecendo as cores e a resistência dos fios.
A roupa limpa e passada desfilará pelos dias, pelas ruas, pelas paragens inimagináveis ou, até mesmo, inconfessáveis. Vai adquirindo cheiros ou fedores dos perfumes e dos suores. Vai adquirindo estampas de coisas escorridas em ocasiões diversas: alimentos, bebidas, batons e outras intimidades. Depois retornará ao rio para o lavado e novas recomposições. No e vir se faz o seu desgaste e, ao mesmo tempo, desgasta o tempo e a vida no esforço repetido e nas horas somadas em que ficará estendida.
Por vezes surge um cerzido reunindo no pano puído as margens do que rompeu no uso e na batida contra a pedra. Por outras vezes, por descuido, um puxãozinho, o tecido preso à farpa do arame se esgarça. Quando não, o ferro mais aquecido, ou esquecido sobre a roupa, queima enrugando ou ou rompendo em pequenos furos. De qualquer modo, embora tudo isto faça parte deste rito, também faz parte ouvir queixas, lamentos e ameaças, cobranças: “era a minha melhor roupa”. Parece coisa feita, é sempre esta que se rasga.
Na hora da paga, os caraminguás, como bem se diz, mínguam. O bem calcular, cada batida na pedra vale pouco mais que a fração mínima. Mas também isto já está ajustado, não há novidade alguma. Como que por determinação da sequência, ou melhor, da consequência, aquelas poucas cédulas e as moedas adjunto vão se transformar em alimento, sustento para que no dia seguinte se possa lavar a roupa que está ajustada de muito antes com a família daquele dia.
O sono da noite vira sonho que gira em torno das águas do rio: uma roupa vestida sem consentimento e o flagrante da dona que reage aborrecida. Tudo o que foi desejo não realizado no decorrer do dia inventa de acontecer como experiência enquanto o corpo adormece, no instante da noite dormida. As festas, as brincadeiras, as cores estampadas nas melhores roupas. Até mesmo a companhia desejada. É no tempo dos sonhos que se materializam.
As mães passam o ofício de lavar e passar para as filhas numa história interminável, como um destino sem apelação. Uma ou outra menina foge deste determinismo, quando migra para outras paragens ou quando lhe falta mesmo a vontade e se dedica a fazer outras coisas. Por vezes, coisas tão repetitivas quanto, mas dá-se a buscar outros destinos para si.
As lavadeiras nem se dão conta de que os destinos das peças de roupa repetem de certa maneira os seus próprios destinos. Se por um lado, as roupas vão e voltam às suas mãos enquanto perdem a cor e se diluem no tempo, a vida de cada uma das mulheres que batem a roupa contra a pedra também vai-se desgastando no trabalho repetido, no esforço dos dias, dos anos, até que tenha que repassar às gerações mais novas a tarefa de lavar e passar.
As roupas em seus ritos de ir e vir, de bater contra a pedra e de consumir a força e a vida enquanto se consomem, desenham o destino das lavadeiras e das famílias a que servem, no mesmo diapasão. 

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