[Maria do Rosário Pedreira]
Numa mesa-redonda reunindo cinco escritores não muito conhecidos de vários países (que a Feira denominou, com outros vinte, «os 25 segredos mais bem guardados da América Latina» – a precisarem de divulgação, em suma), o moderador perguntou se havia alguma coisa neste mundo globalizado que de certa forma influenciava a sua escrita. A chilena e o mexicano falaram de infâncias passadas a ver televisão e referiram-se também à leitura e à Internet, da qual o segundo foi muito crítico, dizendo que gerou dúzias de jornalistas instantâneos que retiraram à escrita informativa o que ela tinha de belo. Por seu turno, o guatemalteco disse não precisar mais do que a realidade do seu país para escrever, contando que, na semana anterior, numa prisão, os guardas tinham andado a jogar à bola com a cabeça de um homem que haviam eles próprios decapitado; a hondurenha – que não consegue publicar o que escreve no seu país – pareceu saber o que isso era, explicando que, em sua casa, referindo-se às pessoas que são mortas todos os dias, já só perguntam: hoje foram quantas? E o jovem equatoriano explicou que, dois dias antes de chegar a Guadalajara, fora à padaria e a rapariga que lhe vendera o pão tinha marcas de uma corda grossa no pescoço; e que, no regresso a casa, construiu um conto na sua cabeça sobre ela. Realmente, com um quotidiano assim, quem precisa de outra inspiração?
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