Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
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Horácio no Amazonas

Horácio no Amazonas

Horácio

 

Outro naufrágio no Amazonas. Estou novamente escrevendo neste blog. Andei muito ocupado. O calor volta. A internet falha. Muito se fala, pouco se faz. Quando vemos, o dia passa, a hora e a vez. Estava lendo:

HORÁCIO

Ode III

AO NAVIO DE VERGÍLIO

Trad. Elpino Duriense, Lisboa, 1807.

Assim a deusa poderosa em Chipre,
Assim os irmãos de Helena, brilhantes
Astros, e o rei dos ventos, só com japis,
prendendo os mais, te reja,
Ó nau, que és de Vergílio devedora,
Que a ti se confiou, rogo-te, o ponhas,
Salvo nas terras áticas, e guardes
metade de minha alma.
Enzinho e tresdobrado bronze havia
Em torno ao peito, quem ao pego iroso
O baixel frágil cometeu primeiro;
Nem já temeu o ábrego.
Com os aquilões brigando impetuoso,
Hiadas tristes, nem de Noto a raiva;
Que é da Ádria o mór senhor, ou erguer queira,
Ou amainar as ondas.
Que gênero temeu de morte aquele,
Que a olhos secos viu nadantes monstros,
Que viu túrgido mar, e Acroceraunos
infamados cachopos?
Em vão próvido Deus com o oceano
As terras retalhou insociáveis,
Se contudo os baixéis ímpios trespassam
os não tocandos mares.
Audaz a sofrer tudo, a gente humana
Por defezas maldades se despenha;
Audaz a prole de japeto às gentes
com fraude iníqua o fogo.
Trouxe: depois que o fogo à casa etérea
Se furtou, a magreza e nova tropa
De febre sobreveio à terra, e o fado
vagaroso da morte.
Dantes remota, apressurou o passo
Tentou com penas ao mortal não dadas,
Dédalo o ar vazio: o Aqueronte
rompeu trabalho hercúleo.
Nada aos mortais é árduo: cometemos
Loucos o mesmo Céu; e não deixamos
Com os nossos crimes, que deponha Jove
Os iracundos raios.

[HORÁCIO. Obras completas. São Paulo, Cultura, 1941. p. 24-25.]

Sim, diz o poeta, nada é árduo demais para tentarmos. Cometemos mesmo o céu. Fomos à lua e estamos indo a Marte. Assim vem o fado da morte. O poeta pede pelo amigo, posto ao mar. Como os irmãos de Helena. Que a nau de Vergilio seja guiada pela deusa poderosa, pelos astros e pelo rei dos ventos.
O amigo, metade da alma. Quem foi o que ousou primeiro enfrentar o mar?
Como amainar as ondas? enfrentar a ira dos ventos. Já o deus retalhou a terra com os oceanos, que a raça humana ousa atravessar. O poema é todo de mitologia feito.

O inicio da Ode III de Horacio assim traduzimos e nos diz:

Para a nave que leva Virgilio


Nave, que leva Virgilio, você leva
A metade de minha alma.
Por isso peço à amorosa deusa
de Chipre e ao pai dos ventos
que o restituam a salvo
para as areias Áticas
Como fizeram aos irmãos da bela Helena,
brilhantes astros.


Camões parodiou esses versos n´Os lusídas:

Canto IV
— "Ó maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas pôs em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto e profundo,
Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória.


"Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande Arquiteto co'o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha condição!" —
 
Navegar é sempre perigoso, mas preciso.

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