Dilson Lages Monteiro Domingo, 23 de abril de 2017
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Graciliano olha e escreve por nossas frestas

Graciliano olha e escreve por  nossas frestas
[Allan da Rosa]
 
Existem pessoas demasiado sensíveis que estremecem vendo a fotografia de cabeças fora dos corpos. Essas pessoas necessitam de uma explicação. Cortar cabeças nem sempre é barbaridade. Cortá-las no interior da África, e sem discurso, é barbaridade, naturalmente: mas na Europa, a machado e com discurso, não é barbaridade. O discurso nos aproxima da Alemanha. Claro que ainda precisamos andar um pouco para chegar lá, mas vamos progredindo, não somos bárbaros, graças a Deus.
 
(Graciliano Ramos, sobre os castigos ao cangaço, em Viventes das Alagoas)
 
 
***
 
 
Ê Graciliano... Igual não houve ainda não. Que jeito de absorver a gente.
 
Cada detalhe e fluência fascinam... Elegância no linguajar com seu serrote e formão. Que fraseado, que coceira escondida debaixo da pedra. Nítido, límpido, conciso, não tem pirueta nem ferrolho o seu texto, compõe com rigor para que o caminho não tenha buraqueira nem engano de rumo.
 
Decidiu não abraçar maniqueísmo e arcar suas consequências. Acompanhou o ser humano na pisada magoada, nos brinquedos que logo se despedaçam e nos sonhos vacilantes. Observou o gentio e seus esquemas como o jangadeiro mira a água vasta e suas manhas e deslimites. No verbo, colheu o que cada pessoa garante em integrar a manada, os seus preços, o que se finge no enxame e a zonzeira de cada vivente.
 
Tinha tudo pra folclorizar sua quebradinha e se negou. Se meteu na chuva do ciúme, no patético da ganância, no esfolado do orgulho e no bambu da dignidade, a que se curveia inteira e estala, mas não trinca. Não carimbou nas decisões de seus personagens nenhum determinismo geográfico. Pegou a areia do contexto, pôs numa concha da mão e com o canudinho da caneta foi abrindo túnel, dichavando os cristais. Demonstrando quão frágil e arrogante pode ser cada vidrinho. Mestre em demonstrar, dilapidando sutil, como as máscaras se costuram à cara e o medo se enquizila nas unhas do ser humano.
 
Se dizem que Nelson Rodrigues riscava pelos vãos das fechaduras, Graciliano escreve pelas frestas dos paralelepípedos empoeirados, pelas cascas das mãos que se apertam em conluio de falsidade, pela vibração de quem gagueja assustado e esconde seu espanto enquanto vai carpindo o dia. Mas é texto úmido, mesmo na obsessão pela ferrugem que há na semente do entusiasmo. Só vê secura em Graciliano quem confunde fogueira com fogos de artifício. Talvez seu grande tema tenha sido a teimosia e por vezes o seu final de linha, a sua coroa de papel molhado arrematando os capítulos de ensaios, memórias e novelas, é o que há de persistência, mesmo que patética, entre tanta falcatrua e cobiça.
 
Até nas suas histórias de meninos de cabeça pelada desliza aquele que saboreia o linguajar e o que abre as danças que os réus cotidianos tocam entre os tribunais que beliscam e humilham quem põe o nariz pra fora do portão. Nas suas crônicas de carnaval, não falta o julgamento, o bochicho violento e o inchaço dos calombos que se acaricia mudo na varanda, após a saída pela porta arrombada dos porretes malpagos. Às vezes, ali se espicha um cadáver na valeta, mas não pelo defunto e seu fedor, pelo aroma grã-fino dos mandantes ou pelo rude sovaco dos patrões que já foram carregadores de sacas, e, sim, pela lupa que apresenta no gesto curvado do peão as estruturas de seu tabuleiro. Em época de linchamentos digitais, de justificativas eriçadas para chacinas e pescoços amarrados em postes, o texto de Graciliano urge porque toca ali na minúcia, no miolinho da sanha de pancada e mostra também as partituras e a harmonia das orquestras do medo, do ódio e da covardia.
 
Num café com Lima Barreto, entre um gole de agonia e outro de ironia, iriam prosear sobre as negociatas dos palacetes, a astúcia dos cartolas e a frouxura empinada dos escrivães oficiais que assoam uma tal independência na função. Ao papear sobre as correias da família, falariam de dengo? Talvez... mas não esquivariam de recordar a mesquinharia encontrada também nos pé de chinelo, para após um trago de silêncio enaltecerem reticentes o que há de solidariedade encasulado em cada vivente, germinando doidices no miolo da solidão, do gole na beiradinha de uma xícara de café.
 
Seus traços e personagens lembram revoada de passarinho colorido - como seu vocabulário. Há os azuis, os cinzentos, os roxos. Vem até passarinho transparente na sua lábia, alguns nunca cantaram e só lhes resta uma palha no bico. Há os que comeram seus filhotes e mal se lembram. Os que não dormem e os que só assoviam se tiver plateia.
 
Perdem as chaves na banguela noturna da estrada. Estacionam possantes e seus faróis de sol brilham em todo o asfalto, uns se arrogam de seus rugidos, outros de sua marcha silenciosa. Ambos encharcam o asfalto de dourado e não encontram. Vem Graciliano Ramos com seu farol baixo, carro simples, e recolhe as chaves, além de ensinar jeitos de abrir cada poizé com os olhos e cada limusine com os dedos. Perscruta na postura de cada piloto a história da aquisição dos automóveis. Ensina sobre a maquinaria e mostra aos donos, sem alarde, os pneus murchos ali em flor ,nas patas de cada carruagem. Antes de zarpar, sutil demonstra que estão em uma curva e um precipício, e não em uma reta. Os proprietários sentem num instante uma ponta de vontade de seguirem a pé, mas logo disfarçam e penetram em seus bibelôs.
 
Conversam mudos com Graciliano pela carreteira, chegam a soltar a voz quando observam detalhes das cidades por onde resvalam. Comentam sobre o que se oculta e o que se escarra naqueles povoados, dialogam consigo e com aquele homem imaginado que lhes pega no pensamento de um jeito que não se consegue largar e que levam plantado em seus bancos de passageiros e suas mentes.
 
Viventes das Alagoas é livro de crônicas e ensaios menos conhecido que seus romances e até mesmo do que seu Linhas tortas, coletânea póstuma também de 1962 com considerações sobre obras, celebridades e políticas. Nessa compilação sobre traquejos e encrencas da Alagoas do início do século XX, saboreamos e encasquetamos com traços próprios da obra inteira de Graciliano. Há de detalhes de seu prisma sobre o cangaço, a politicagem regional, as folias, o ensino e a economia - das velhacas importações aos mistérios, garantias e desobediências nas instigas do jogo do bicho. Desfrutamos de personagens em semente pra explodir e de novelas condensadas em 3 ou 4 páginas. Doutores de rua, rábulas, brincantes brutais, fazendeiras de mão de ferro, prefeitos concatenando imensas obras cambaias pra sua posteridade, poetas enganadores, professores analfabetos, negociantes de cavalos e pacatos ingleses que num gesto elegante decretam falências, arrendamentos e finados. Além das análises sobre rapazes bem cuidados e mimados que desbocam pra vida loka de bandoleiros.
 
Graciliano pincela rente alguns alicerces embolorados da politicagem nacional, hoje ainda viscosos e berrantes, mesmo quando tentam se ocultar atrás de cortinas. Entre o íntimo pessoal e o político que se escancara, na fronteira que borbulha manhosa nas águas do truque, seu garfo espeta tanto características seculares de nossa governança e de suas cortes como engloba a hipocrisia humana mais elementar, que destaca por se agarrar às altas esferas do poder, seja na aldeia ou no âmbito federal:
 
“Pessoas que uma semana antes cochichavam na sala de jantar do palácio surgiram fardadas, com energia e galões. Vários se acautelavam, pensando no Rio, e, bastante dignos para renegar de chofre convicções antigas, limitavam-se a introduzir no bolso um lencinho encarnado. Via-se dele uma ponta discreta que, em conformidade com as notícias, mergulhava ou reaparecia. Depois da vitória, foram esses os mais afoitos e intransigentes”.
 
Os notórios relatórios de 1929 e 1930 que Graciliano fez quando prefeito em Palmeira dos Índios ao governador alagoano são peça rara. Revela-se enfronhado numa incessante e viciada tramoia, pelejando contra a desconfiança e resignação geral de um lado, o esfomeado, e os boicotes de outro, o acostumado a não pagar impostos e a orquestrar o gabinete precário:
 
 
 
REFORMADORES:
 
“O esforço empregado para dar ao município o necessário é vivamente combatido por alguns pregoeiros de métodos administrativos originais. Em conformidade com eles, deveríamos proceder sempre com a máxima condescendência, não onerar os camaradas, ser rigorosos apenas com os pobre-diabos sem proteção, diminuir a receita, reduzir a despesa aos vencimentos de funcionários, que ninguém vive sem comer, deixar esse luxo de obras públicas à Federação, ao Estado ou, em falta destes, à Divina Providência”.
 
Detalhando dificuldades em aplainar estradas de boi, assear cemitérios, administrar escolas sertanejas, aprumar currais e desviar águas de enchentes fatais, ainda suava a convencer os cidadãos das bibocas e distritos sobre a justiça das multas que aplicava. Aqui, Graciliano relata os porquês de tantos custos acumulados a limpar:
 
 
 
ILUMINAÇÃO – 7: 800$000 
“A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá”.
 
 
 
Hoje, 2017, ao findar a leitura desta obra, me arrepio pela análise minuciosa que Graciliano faz de seus arredores e também pelo faro aceso nos labirintos da intimidade humana, a pitoresca que se corta com pétalas na praça pública ou a dos gestos escamosos e tramas secretas. Eu, leitor, me banho de compreensão, de graça e de espanto, seja pela boniteza de seu estilo, pela regularidade de seu ritmo, pela variedade e precisão de seu vocabulário ou pela capacidade crítica aguda que aflora em seus parágrafos, por vezes tão crus mas também irônicos sem alarde. Em nossa época de leituras superficiais e aceleradas, de escritores encastelados em seus privilégios mimados, de braços platinados dados aos seus agentes literários enquanto calculam meticulosamente seus pretensos riscos que sejam bem vendáveis na vitrine, caminhar pelas crônicas de Graciliano nos ensina sobre os pilares de uma arte regida por autocrítica intensa e rigor ideológico e estético que exigiu entalhe, coragem e até leveza ao pisar nos barreiros e lameiros dos abismos de ser gente.
 
Publicado originalmente no Suplemento Cultural de Pernambuco.

 

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