Eliana Bueno-Ribeiro
Université Lumière Lyon, França

Eliana Bueno Ribeiro - Graduação em Letras Portugues Literaturas de Lingua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense (1970), mestrado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1979) , doutorado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1989) et pos-doutorado em Literatura Comparada na Université de Paris III - La Sorbonne Nouvelle, em 1991 e 1992. Atualmente é pesquisador associado na Universite de Rennes II. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura e Historia, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura brasileira contemporânea, anos 30, memoria e formaçoes identitarias, teatro brasileiro do século XX.

"Veja bem, nao digo, modestamente, que acho magnifico: afirmo que é magnifico, afirmo o que me parece uma evidência. Trata-se de uma obra-prima!" (ELIANA BUENO-RIBEIRO, de Paris)

Queria te dar algumas impressoes primeiras, de primeira leitura, sobre seu romance que como lhe disse é magnifico.

Veja bem, nao digo, modestamente, que acho magnifico: afirmo que é magnifico, afirmo o que me parece uma evidência.

Vou listar livremente alguns dos elementos que chamaram minha atençao.

1-Em primeiro lugar, a estrutura: casos. A Amazônia que nao tem ordem, nao pode ser ordenada, lida, explicada, so tem veredas, furos. Uma historia através de historias, como diz Rosa em Tutaméia. A presença de Rosa é percebida no bom sentido. Você é um herdeiro mas um herdeiro traidor. Rosa é ascendente, você descendente, ele seria digamos "positivo", solar, você "negativo", crepuscular. Sua Amazonia é também um mundo mas um mundo que se nega ao homem. Ao menos ao homem tal como o conhecemos, com o qual nos identificamos. Os Numas serao homens como nos?

A noçao de" fechamento", nao acho a palavra técnica, é obsedante. A Amazônia aparece maravilhosa no sentido de atraente e apavorante. O principio do mundo, disse você em algum momento. O principio de tudo.

2- O assunto: a Amazonia tratada como nunca li. Campo de luta. Natureza e Cultura mas também brancos e indios, ricos e pobres. Você escapa do chavao de opor homens e mulheres, homens e prostitutas. Nada do folclorico de Cruls, nada do todo branco de Hatoum. Nao é também a visao amorosa e compreensiva mas "de fora" de Darcy Ribeiro. Seu narrador fala ao mesmo tempo de fora e de dengtro. E Ribamar mas é também Benito Botelho, bebe até morrer no Bacurau e lê grego e latim ( perdoe-me a ignorância, de quem sao os versos que ele declama, que nao identifiquei?).

3- Os personagens: o intelectual, o politico, o negociante falido, as mulheres todas diferentes, o travesti mulher ( incrivel), o herdeiro. Sobra - sobra- finalmente o filho bastardo, desamparado, sobrante depois que tudo acabou que todo o romanesco desapareceu: o filho da puta.

4- A linguagem: meu amigo, a linguagem parece copiar a natureza que inspira o relato: esplêndida. A riqueza vocabular envolve , seduz o leitor, enlaça-o . Que frases! O primeiro paragrafo agarra o leitor e nao o deixa mais escapar. Li o livro em três dias porque tenho a rotina doméstica que nao pode ser rompida se nao o dia da familia nao anda. Se nao, teria lido em um so dia, de uma tacada so. Deixei o livro a cada vez com pena, contando o tempo para me reencontrar com a historia. O ritmo é ao mesmo tempo lento e impetuoso, impelindo a leitura, como parece ser o ritmo dos furos que o narrador descreve. Você tem frases, periodos, de cortar o fôlego ( nao vou parar para copia-los agora, farei isso depois). Nao é necessario que você diga que levou 10 anos escrevendo: é claro que um livro como esse nao se fez num dia. O trabalho sobre a linguagem é grande e tao grande que alcança a simplicidade enganosa.

5- As referências: vejo o especialista de Rosa. Mas como disse, o filho perverso. Vi também Conrad. A apariçao do Palacio através da mulher vestida de verde é impactante. E vi cinema. E um livro que parece inspirado pelo cinema e pronto para ser filmado. Imagistico.