Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
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Dezembro, no Chão de Nossa Senhora

Dezembro, no Chão de Nossa Senhora

[Dílson Lages Monteiro]

Dezembro de Dasinha e de Nossa Senhora. O ano se encerrava ali, em dezembro, nas comemorações de Nossa Senhora da Conceição. Dizia papai. Era a confirmação de que se tinham esticados os dias; a oportunidade para rezar para os anos se repetirem em forma de novos amanheceres.

Em 2005, papai pressentiu que não voltaria mais à praça na próxima versão da festa. Nem sequer seguiu a procissão pelas ruas principais da cidade. Preferiu vê-la desfazer-se no adro da Igreja. Disse-me, com uma clarividência estranha, que não sabia se ali estaria no ano seguinte. Eu respondi que era tolice. Que até os 100 anos ainda haveria umas trinta procissões.

         Ele, porém, não esteve mais. Fisicamente não esteve. Ele não viu mais, a partir do ano seguinte, a multidão desfazer-se para saudar o fim das novenas e dos leilões. Para suplicar pelas graças celestiais.

Dezembro é mês de rituais. Mês em que o ano dá vários sinais de que o tempo se desfaz, sinais de nossa efemeridade. Mais rugas, mais alguns cabelos brancos. A juventude dobrando esquinas para nascer em faces sóbrias, em seus óculos de graus a cada ano ampliados. Felizmente, também mais vivência e ânimo para enfrentar os desafios desconhecidos..

O ritual maior do mês está na lembrança. Dasinha, a bisavó, viveu todos os alvoreceres em favor do sobrenatural. Praticamente sozinha no lar, ocupava-se de rezar, de fazer rosas e principalmente das causas da Santa Igreja. Dezembro, mais do que qualquer recordação, significa o presépio de Dasinha.

A antessala da casa se transformava numa imensa sala de brinquedos. Nela, minha imaginação circula até hoje; circula à procura dos carneirinhos e anjinhos que eu imaginava ter em minha posse. Luzes que piscavam; berimbelos de toda espécie; e olhos fascinados pela fusão entre religião e fantasia.

Dezembro de Nossa Senhora está correndo. Antigamente eu esperava o ano todo voar, para ir às missas, rodear as praças e botequins onde se vende até a sorte. Hoje há um certo vazio na essência do evento – ou o vazio de minha descrença na fé e boa vontade das criaturas - talvez na certeza de que a Santa Festa  sirva para, também, garantir a supremacia dos interesses ou do fingimento de grupos políticos que desejam o poder para enricar ou perpetuar-se em um ciclo de vícios que, historicamente, corrói consciências e reproduz a ciranda da miséria e da dependência econômica.  

Ainda assim, relevo quaisquer intenções mal-vindas. Sei que existem muitos como eu; são uma maioria, dispostos a cantar o Hino da padroeira, sem nada esperar que não a fraternidade e a igualdade entre os homens.

 

Na foto, a antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, demolida pela comunidade de Barras, em 1963.

 

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