Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Tamanho da letra A +A

Coronéis e camaleões

Coronéis e camaleões
Manoel Hygino dos Santos
 
Dilson Lages Monteiro multiplica-se por quatro para seu projeto de vida: como poeta, cronista, professor e editor. Desde 2004, mantém o Portal Entretextos, para reunir autores de prestígio nas letras do Brasil e Portugal.

De dois em dois anos, publicou poesia: "Mais hum', "Colmeia de concerto", "Os olhos do silêncio", "O sabor dos sentidos", em 1995, 1997, 1999 e 2001, respectivamente, para, em 2009, apresentar o seu "Adiante dos olhos suspensos".

Professor há praticamente 20 anos, editou o livro didático "Texto argumentativo - teoria e prática", o ensaio "A metáfora em textos argumentativos" e "Entretextos - artigos e entrevistas". Pelo que aqui se informa, constata-se ser Dilson Lages Monteiro um devotado cultor da literatura e da língua pátria.

Agora ele se dispôs a ingressar num campo novo: o romance, e assim apareceu "O morro da casa-grande", 2009, pela Nova Aliança, de Teresina. Porque o autor é do Piauí e, ao entrar novo gênero, decidiu prestar homenagem tolstoiana à sua cidade natal - Barras.

No pequeno volume, bem elaborado, quase uma extensa crônica de uma cidade que se deixa envolver pelo fascínio do progresso, esquecendo velhas tradições e procurando, com sua população, um novo lugar ao sol do desenvolvimento.

Com esse propósito e diante da indesviável destinação, vê ruir costumes e construções, e entre estas a igreja de Nossa Senhora da Conceição das Barras, no morro da casa-grande.

É um trabalho interessante, a que não faltam vocábulos praticamente não usados no Sudeste e no Sul, expressões bem próprias do interior piauiense. Mas um texto agradável, com uma narrativa que faz sentido e tem propósitos claros, entre os quais o de proteger tanto quanto possível o legado das velhas gerações.

Primeiro, perdeu-se o cemitério "onde uma geração inteira se fechava, uma geração apagava o tempo. A filha Perpétua partiu primeiro. Antes dela, os dois netos: um, quase anjinho, de doença feia; outro, rapazote feito, de desastre".
 
Os personagens são típicos, como aqueles meninos que mataram o gordo camaleão na mangueira do quintal e o arrastaram com uma embira presa ao pé até uma palhoça. Lá, Maria abriu o bicho, tirou as carcaças de couro, limpou as impurezas e jogou a carne sem cor numa panela. Enquanto ela ria, Marciano, um dos curiosos, contorcia-se em náuseas, por muitos dias revolvendo na memória de criança a imagem do bicho fervendo.

Será que fariam isso com criança também?

Houve o dia em que um bando de ciganos cruzou a cidade, obrigando a população a se esconder em suas casas.

Temiam-se furtos, inclusive de meninas desprevenidas. Eram mais de cem e, da última vez em que por ali passou um grupo, levaram até as galinhas de Alzira.

O menino se perguntava: por que não davam para eles um pedacinho de chão para morar, já que eles corriam o mundo atrás de um quinhão de terra? As janelas ficavam fechadas, enquanto os menores se indagavam sobre as razões que levaram aquelas pessoas a perambular.

O adolescente, ou quase, se interessava por tudo e todos os detalhes. Atanava-lhe a figura do coronel, a gente que dava ordens. O que era mesmo um coronel? "Gente que mandava: mandava em gente, em bichos e na própria terra".

No entanto, o coronel já não tinha interesse em mandar. "Ele conhecia bem os sentidos dessa palavra, mas a substância dela perdera o gosto. Não mais desejava mandar no que fosse. Que mandassem os filhos, os netos. Queria somente - e não cansava de isso repetir - saborear o tempo que lhe sobrava... Vivia mastigando isso: Já não decido mais nada. Vivo para viver!"

O lugar mudava. Ele, coronel, queria paz de espírito, duvidando que os bisnetos conseguissem viver no campo. A vida passaria a ser nas cidades - vida de escolas, eletricidade, automóveis, rádio". Não iriam querer disputar espaço com árvores, bichos e escuridão".

Assim é esse livro, agradável, uma história bem alinhavada e descrita.
                                                                                            
Publicado originalmente no jornal Hoje em Dia (BH-MG), em 11.02.2010.
 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (1)

Li O Morro da Casa Grande duas vezes e sempre com novas sensações. É um poema em prosa, no qual a força do léxico vem das perplexidades que marcaram uma gente,um tempo, mas que, pela universalidade com que é tratado cada capítulo, ainda surpreende nossos anseios, como uma coincidência de vida. Eu senti no final das duas leituras, a ânsia e a procura como temáticas nucleares que decodificam uma Barras a fazer fluir o sentimento de agora interligando perenidade e mudança.

Geovane Monteiro
postado:
14-02-2010 12:22:35

Deixe o seu comentário


Reload Image









Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas notícias

06.02.2012 - Japão: Toshiba lança e-reader no dia 10

A Toshiba está se antecipando ao lançamento do Kindle Fire, da Amazon

06.02.2012 - Portal de rádio cria espaço para literatura

O rádio ainda explora pouco esse tema, tão caro ao público jovem.

06.02.2012 - Flipoços 2012 define temática e homenageados

Veja aqui alguns dos nossos convidados

06.02.2012 - Bartolomeu Campos de Queirós - entrevista l

Quando escrevo procuro exercer o melhor de mim.

01.02.2012 - Novas tecnologias e a cultura letrada

É triste ver as livrarias desaparecerem, mas a cultura letrada está certamente se expandindo

31.01.2012 - Os 90 anos da Semana de 22

O livro de Marcos Augusto Gonçalves, editorialista e repórter da Folha*, será lançado na primeira se

31.01.2012 - Sobre "O sonho do celta"

Ao longo do livro, o autor constrói uma imagem do ser humano que nada tem de elogiosa

Listar mais

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br