[Fernando Campanella - especial para Entretextos]

O menino da casa ao lado solta uma pipa vermelha - descarrega, puxa, assovia. Testa a liberdade ao vento como se com uma lua, agora cheia, brincasse. 

Já quase noite, a mãe, da janela, o chama várias vezes para o lanche e a rotina dos deveres escolares. 

Esse casulo, sob o acalanto da lua, reminiscências de minha infância, totalmente feliz me poria, não  fossem meus pensamentos de outras pipas, outras janelas, não tão longe, de geografias mais desprovidas, onde mães em pavor invocam seus santos, chamando os filhos para dentro, para o incerto abrigo embaixo da mesa, atrás do sofá, sob a ameaça de balas perdidas de um tiroteio a começar.  

Meninos voam com sonhos, talvez de um Einstein, um Mandela, ou mesmo de um cidadão do bem, como seu pai, quando infantes. Porém, às vezes, cordéis se envenenam, as pipas desgarram e vão, sabe lá Deus aonde, à revelia da infância, pousar.  

(Certas ruas
 certas ruas têm um bosque
 - armadilhas - que se chamam
 que se chamam exclusão...)