Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
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Começos de livros

Começos de livros

 [Bráulio Tavares]

O que faz um bom começo de um livro? Um começo tem que ter algo de sólido e bem construído, que faça o leitor sentir firmeza. Tem que revelar de imediato alguma coisa sobre a história que vai ser contada; e tem que colocar uma interrogação, um mistério, que faça o leitor querer descobrir a resposta. Tem que parecer uma informação completa em si mesma; e tem que estar ligado ao resto do livro de tal forma que a gente só entenda por completo aquele parágrafo quando tiver lido o livro inteiro.

O romance A Child Across the Sky de Jonathan Carroll (1989) começa assim: “Uma hora antes de se suicidar com um tiro, meu melhor amigo, Philip Strayhorn, me telefonou para falar sobre polegares. – Já notou que quando a gente lava as mãos a gente na verdade não lava os polegares?”. Tragédia e banalidade surgem juntas nesse trecho, juntamente com a primeira insinuação de um mistério. O telefonema (que se estende por umas duas páginas) já está contaminado por essa notícia do suicídio, que o personagem-narrador sabe que aconteceu, mas o personagem-ator da cena não pode saber, pois o suicídio só acontecerá depois. E o livro inteiro consiste no desvendar dos mistérios (um tanto tenebrosos) da vida de Strayhorn, um diretor de filmes B de terror.

Gertrude Stein começa The Making of Americans (1912) assim: “Uma vez um homem raivoso arrastou seu pai ao longo do próprio pomar. ‘Pare!’ gritou por fim o velho que gemia. ‘Eu não arrastei meu pai para além dessa árvore”. É um começo com algo de brutal e algo de cômico. Tem algo de “conto de exemplo” insinuado pela abertura com “Uma vez...”. E, sendo a saga de duas famílias, sugere o tema da repetição cíclica de tragédias e glórias, típica do gênero.

Uma das vantagens da ficção científica sobre outros tipos de literatura é a possibilidade de dizer coisas de dimensões cósmicas, coisas que se referem à própria natureza do Universo, numa linguagem simples, direta, aparentemente banal. Robert Charles Wilson começa desta forma seu romance Spin, de 2005 (na verdade este é o início do Capítulo 2, mas o Capítulo 1 é um mero preâmbulo, preparando o flash-back que remonta ao início da história): “Eu tinha doze anos e os gêmeos tinham treze, na noite em que as estrelas desapareceram do céu”. Samuel Delany dizia que na FC podemos interpretar literalmente frases que na literatura comum são meras metáforas. “Spin” conta exatamente isto: o desaparecimento de todas as estrelas (inclusive o Sol) por uma ação extraterrestre. E este fato avassalador é contado a partir da infância e da vida adulta desses três protagonistas, e de como esse aparente “fim do mundo” determina suas vidas.

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