Para o francês Alain Badiou (1937, foto), o mundo contemporâneo não quer e não gosta de filosofia*, porque é avesso à revolta, à lógica, à universalidade e à aposta – segundo ele, os quatro pilares do desejo do exercício filosófico. Badiou alerta para a necessidade de um pensamento que escolha a revolta, ou seja, que não aceite o mundo tal como ele é; e que essa opção não descambe em anarquismo cego, mas sim em um impulso mediado por argumentos convincentes.
 
Talvez possamos dizer que o inédito deste sábado se encaixe neste ímpeto de urgência. O trecho abaixo é do livro Em busca do real perdido, que a editora Autêntica lançou recentemente. Nele, Badiou se aventura a pensar o real e o poder que temos de modificá-lo. A tradução é de Fernando Scheibe.
 
 
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Hoje, o real, como palavra, como vocábulo, é utilizado essencialmente de maneira intimidante. Devemos nos preocupar constantemente com o real, obedecer a ele, devemos compreender que não podemos fazer nada contra o real, ou – os homens de negócios e os políticos preferem esta palavra – as realidades. As realidades são impositivas e formam uma espécie de lei, da qual é insensato querer escapar. Somos atacados por uma opinião dominante segundo a qual existiriam realidades impositivas a ponto de não se poder imaginar uma ação coletiva racional cujo ponto de partida subjetivo não seja aceitar essa imposição.
 
Pergunto-me então diante de vocês [nota 1]: a única resposta possível para a questão “O que é o real?” deve assumir como evidência que só se pode falar do real como suporte de uma imposição? O real nunca é encontrado, descoberto, inventado, mas sempre fonte de uma imposição, figura de uma lei de bronze (como a “lei de bronze dos salários”, ou a “regra de ouro” que proíbe qualquer déficit orçamentário)? Será preciso aceitar como uma lei da razão que o real exige em toda e qualquer circunstância uma submissão mais do que uma invenção? O problema é que, em se tratando do real, é muito difícil saber como começar. Esse problema atormenta a filosofia desde suas origens. Onde começa o pensamento? E como começar de maneira que esse começo ajuste o pensamento a um real de verdade, um real autêntico, um real real? 
 
Por que é tão difícil começar quando se trata do real? Porque não se pode começar nem pelo conceito, a ideia, a definição, nem pela experiência, o dado imediato ou o sensível. É fácil demonstrar que começar pela definição, o conceito, a ideia leva a uma construção que é na verdade o contrário do que acredita ser, que é uma perda ou uma subtração do real. Afinal, como posso alcançar o real, encontrar a prova do verdadeiro real, se me instalei justamente, e de maneira peremptória, naquilo que aceita existir – ao menos aparentemente – sem prova do real, ou seja, justamente a ideia, o conceito ou a definição? A simples realidade do conceito não pode valer como uma autêntica prova do real, já que, precisamente, supõe-se que o real seja aquilo que, à minha frente, resiste a mim, não é homogêneo a mim, não é imediatamente redutível a minha decisão de pensar. Quando muito, posso pretender formular, com semelhante ponto de partida, uma hipótese sobre o real, mas não uma apresentação do próprio real. Assim, a filosofia, exageradamente racional, ou tentada pelo idealismo, careceria de real, porque em sua própria maneira de começar ela o teria rasurado, obliterado, dissimulado sob abstrações fáceis demais.
 
Ora, assim que se diagnostica esse defeito, essa falta idealista de uma prova do real, é o real como imposição que vai voltar. O poder de intimidação do uso da palavra “real” vai levantar precisamente o “concreto” como bandeira. Vai se opor à mania idealizadora, que costuma ser chamada hoje de utopia criminosa, ideologia desastrosa, devaneio arcaico... Todos esses nomes estigmatizam a fraqueza da tese que pretenderia começar a busca pelo real com a figura da abstração. Ao que oporão então um verdadeiro real, autêntico e concreto: as realidades da economia do mundo, a inércia das relações sociais, o sofrimento das existências concretas, o veredicto dos mercados financeiros... Oporão tudo isso, que efetivamente tem um grande peso, à mania especulativa, à ideocracia militante, que – dirão – nos meteu em tantas aventuras sangrentas ao longo do século XX.
 
Há algo que, desse ponto de vista, desempenha hoje um papel decisivo: o lugar ocupado pela economia em toda e qualquer discussão que diga respeito ao real. Parece até que o saber do real foi confiado à economia. É ela que sabe.
 
E, no entanto, tivemos, não faz muito tempo, diversas oportunidades de constatar que ela não sabia grande coisa, a economia. Ela não sabe nem sequer prever desastres iminentes em sua própria esfera. Mas isso não mudou quase nada. É ainda e sempre ela que sabe o real e o impõe a nós. É aliás muito interessante constatar que a função da economia em relação ao real sobreviveu perfeitamente à sua incapacidade absoluta não apenas de prever o que ia acontecer, mas até mesmo de compreender o que estava acontecendo. Tudo indica que, no mundo atual, o discurso econômico se apresenta como o guardião e o fiador do real. Enquanto as leis do mundo do Capital continuarem sendo o que são, a prevalência intimidante do discurso econômico não será desbancada.
 
[…]
 
É uma lição extremamente interessante: a economia como tal não nos ensina de maneira alguma como poderíamos sair da concepção intimidante e, em última instância, opressiva do real a que essa mesma economia consagra seu desenvolvimento e a sofisticação de sua “ciência” impotente. Isso é muito importante, porque a questão do real é evidentemente também a questão de saber que relação a atividade humana, mental e prática, mantém com o referido real. E, mais especificamente, se ele funciona como um imperativo de submissão ou se pode ou poderia funcionar como um imperativo aberto à possibilidade de uma emancipação.
 
Digamos que a questão filosófica do real é também, e talvez sobretudo, a questão de saber se, estando dado um discurso segundo o qual o real é impositivo, podemos – ou não podemos – modificar o mundo de tal maneira que se apresente uma abertura, anteriormente invisível, através da qual se consiga escapar dessa imposição sem contudo negar que haja real e que haja imposição.
 
 
 
* A síntese sobre o pensamento do filósofo francês que abre esta postagem é fruto da leitura do artigo Filosofia, política e verdade em Alain Badiou, cujo autor é Francisco Guedes de Lima. A íntegra do texto está neste link.
 

[nota 1] Antes de se tornar um livro, em 2015, este texto foi apresentado como conferência inaugural do evento Citéphilo, de 2012, que tinha por tema a pergunta “Quel réel?” (que real?). (Nota do tradutor)