George Mendes

No final do ano passado recebi uma ligação telefônica da querida Ana Duarte, viúva do Tor-quato Neto, propondo que eu re-cebesse em Teresina o seu acervo. Perguntava-me se aceitaria. Surpreso com a proposta, mas feliz, disse que sim, claro, aceitaria desde que ela em mim confiasse. Refeito, entendi o óbvio: Ana dava por encerrado o ciclo de publicações do que Torquato tinha produzido por considerar que o mais relevante a ser levado a público já tinha sido feito.


Nos primeiros dias e às pressas, a editora Eldorado lançou "Os Últimos Dias de Paupéria", reduzida a 115 páginas; a Max Limonad ampliou a edição para 360 páginas. Ambas tiveram a coordenação da própria Ana Duarte e do amigo Waly Salo-mão; por último, o jornalista Paulo Roberto Pires deu a tacada final lançando os dois volumes da Torquatália - Do Lado de Dentro e Geléia Geral.
 

Por todo esse tempo, podemos dizer que Ana e amigos, jus-tamente, exerceram o papel que julgaram essencial: preservar o que  de melhor havia, numa espécie de tutoria plural. O que ganhou luz passou pelo crivo de tantas sensibilidades reunidas.


Ao longo dos anos, entretanto, manuseando aqueles conteúdos, Ana já não lhes atribuía  o  valor compatível com as pos-sibilidades criativas do Tor-quato, também, creio, pela colaboração artística por ele  dada à cultura brasileira.


Nem de longe entristeci, ao contrário, alegrei-me com o contato que poderia vir a ter com todo o material em estado bruto.


Ana e eu sempre fomos próximos e amigos. Dela recebi carinho, atenção e cuidados. Até mesmo a deferência da escolha para ser padrinho do Thiago, único filho deles, coube a mim e à Yarinha. O rito religioso, entretanto, não poderia ser somente tradicional. Fizemos a diferença numa farra monumental iniciada às 21 horas do dia anterior ao batizado e que se prolongou até as  5 da matina num  restaurante - bar de fim-de-noite - o Curral das Éguas. Alegres e ressacados, às 8h30 lá estávamos na Igreja das Dores confirmando a vontade do Thiago que nos havia escolhido como padrinhos.


Marcamos tudo para facilitar o transporte do Rio para Te-resina. Não demorou nada, chegou. Junto com a poeira, certamente os ácaros que me cobram elevado preço pela convivência. Desarrumei tudo na ânsia de conhecer mais rápido o que havia recebido e logo percebi que Ana não tinha mandado "umas coisas de Torquato" como dizia, tinha mandado tudo que havia, mesmo. Nada restou no Rio: sejam inéditos, publicados, originais ou cópias.


Cartas, bilhetes, recortes de jornais, jornais inteiros, fotos, negativos, slides, postais, rascunhos de textos, textos inéditos em papeis amarelecidos, cartazes, posters e postais, caderninhos de notas, a série completa da coluna Geléia Geral, desenhos, etc, etc.


Primeiro ímpeto: digitalizar tudo sem olhar o quê para depois selecionar o que guardar por mais alguns anos. Seria bobagem. Melhor faria, com calma, conhecer mais para tentar dar uma forma aos arquivos.


Assim tenho feito. Demos início à recuperação das imagens existentes: digitalizar, limpar, emendar. Tudo com muito cuidado, com ajuda do fotógrafo Luciano Klaus. Depois, os textos dele surgidos em diversas formas e os textos dos outros so-bre ele. Claro, pedi ajuda de mais amigos para que o trabalho avançasse rápido e para definirmos não só a melhor forma de guardar, mas também a de mostrar.


No Espaço ÊPA! mantido pela  PLUG Propaganda e UPJ Produções, temos área reservada para exposição e consulta; Paulo José Cunha está rodando um documentário em vídeo que certamente será muito enriquecido com todo esse material e aqui será editado e finalizado; vamos encarar a realização de um almanaque dedicado a ele, sob  coordenação  conceitual do Lucas Falcão, inspirado na concepção de absoluta liberdade criativa expressada na  Navelou-ca; e ainda a edição de um livro, que o Durvalino Filho ensinou-me tratar-se de juveníleas.


Tenho muito clara a noção de que o Piauí não deverá funcionar como uma clausura do acervo. Longe de nós a idéia do "descanse em paz". Preferimos continuar inoculando o vírus da liberdade criativa, desatando nós, sem julgamentos pré ou pós. Quem juntou, guardou e até roteirizou não estava disposto a ser esquecido.


Vamos encontrar caminhos certos não só para publicar como também distribuir de maneira que ampliemos os horizontes da percepção e curiosidade sobre a trajetória artística multimídia vivida pelo Torquato. Nosso trabalho é dar curso, deixar fluir, inspirar, será deixar correr solto, sem qualquer tipo de amarras.


Ana e Thiago por todos os motivos não deixarão de ser ouvidos. Como disse ao Thiago de outras vezes, da minha parte vou estimular a presença deles entre nós. E a melhor maneira certamente será através da obra do nosso anjo torto.

(*) George Mendes é publicitário