Por Flávio Bittencourt - especial para o Portal Entretextos
Esse obelisco foi inaugurado no Retângulo Cruls, ao meio-dia de 7 de setembro de 1922, pelo presidente Epitácio Pessoa e pode ser visitado por quantos queiram, residindo na Capital do Brasil ou durante visita, conhecer a centralidade planaltinense na previsão dessa utopia-concretizada chamada Brasília.
Assim é que não se pode admitir que uma cidade histórica, com tradição e centralidade em termos de fundação, seja considerada “satélite” de um Plano Piloto que meramente a sucedeu.
Um tarimbado escritor, professor, crítico literário e poeta planaltinense, nascido, a propósito, antes da fundação de Brasília – pode-se afirmar, dessa forma, que ele é simultaneamente goiano e brasiliense (porque a Nova Capital já estava sendo construída) –, soube, com evidente capacidade de produzir robustas-ainda-que-breves análises literárias, em formato (nesse caso) sintético-textual, bem apreciar a nova novela de Miguel Carqueija, que o crítico chama de conto (se conto A Batalha do Poder é, certamente trata-se de um grande, também em dimensão textual, conto).
Escreveu Geraldo Lima sobre A Batalha do Poder:
“Breve comentário sobre conto de Miguel Carqueija
“Miguel Carqueija é escritor experimentado e domina bem o seu oficio. É assim que faz desse conto A Batalha do Poder um texto interessante, uma alegoria do poder que oprime e precisa ser deposto pela ação revolucionária. O aspecto religioso está presente, talvez explícito demais, deixando claro, quem sabe, a oposição do autor aos Estados que tentaram (ou tentam) se erguer sem a presença da religião. O texto tem lá os seus clichês, mas nem isso tira o seu poder de sedução. Cumpre bem o seu papel de formar leitores e despertar-lhes o poder da imaginação.”
Dando prosseguimento ao que, assim pensamos, deve ser neste momento declarado sobre A Batalha do Poder, passamos a uma reflexão mais prolixa – porque, por um lado, falta-nos a capacidade de síntese de Geraldo Lima e, por outro, devemos cumprir a promessa do Prefácio, de pelo menos tentar empreender uma tarefa com alguns traços de profundidade teórica –, que se nos afigura agora, aliás, como necessária e urgente.
De acordo com Ana Lucia Santana, em sua resenha sobre o romance O símbolo perdido, de Dan Brown, o personagem Robert Langdon, um especialista em “simbologia” (interpretação de símbolos visuais, gráficos), teria moldado sua mentalidade “a partir de um viés intelectual de natureza essencialmente materialista, dominante no mundo moderno". A entrada em cena de certo personagem materialista em certo romance não é, per se, suficiente – acrescentamos nós, neste momento – para fazer desse romance (no caso citado, de grande aceitação popular) uma obra literária materialista.
Essa observação preliminar é advertência para o fato de que este Posfácio é necessariamente incompleto (como, de resto, são todos os textos críticos e analíticos): falamos agora exclusivamente de uma única personagem, a surpreendente Faisão Verde, que, a propósito, mesmo sendo central na narrativa, pode não coincidir – existencialmente, digamos – em gênero, número e grau com o que consideramos ser a postura ideológica/teológica do autor do livro que ora tentamos analisar, ainda que parcialmente, como se afirmou.
Sendo Miguel Carqueija um ser católico apostólico romano (praticante, leal e fiel) não é descabido que percebamos sua última novela como texto propriamente literário-católico-teologizante. Mas será a personagem principal também católica? Quem é essa desconcertante Faisão Verde? – poder-se-ia, a título de provocação teórico-crítica, imediatamente indagar.
Como nos propusemos – talvez de forma excessivamente ambiciosa (mas não erudito-pedante) – tentar fazer um mergulho com certa densidade teórica pelo menos em certo aspecto de A Batalha do Poder (pensamos numa abordagem antropocomunicológica possível da citada personagem, central na novela de Carqueija), na medida em que não dominamos profundamente a doutrina religiosa que Carqueija estuda e pratica há mais de meio século – porque Miguel Carqueija tem mais de sessenta anos de idade e nunca abandonou a sua fé –, cabe imediatamente mencionar o solo teórico sobre o qual nos movimentamos, aqui: fundamentação teórica que pode, por seu turno, terminar apontando para uma recusa, digamos, político-existencial, tanto do citado Robert Langdon (se é ele materialista, não pode captar certas nuances dos grandes símbolos mágicos e teológicos), quanto da própria Faisão Verde como uma personagem possivelmente religiosa, confesse-se imediatamente.
Todos os resumos são redutores, desafortunadamente redutores. Todavia, para que cheguemos logo à aproximação a possível explicação teórica do fenômeno literário-antropológico sob observação, ainda que essa explicação apareça como introdutória, da misteriosa e fascinante Faisão Verde, pede-se a benevolência do leitor para a rapidez com que passamos a mencionar claras posições do filósofo esloveno Slavoj Zizek, ao abordar obras de ficção científica, vale dizer, conhecidas produções culturais que guardam uma correlação de gênero com o (por enquanto) último livro de Miguel Carqueija. Enquanto Zizek recorre aos exemplos de Guerra nas Estrela, saga cinematográfica de George Lucas, de Solaris (romance) e de Solaris (filme, o primeiro, soviético) – como nós, a propósito, preferindo o livro de Stanislaw Lem ao filme de Andrei Tarkovsky –, o foco do presente texto é centrado na personagem Faisão Verde, da admirável novela de ficção científica e ficção política A Batalha do Poder, de Miguel Carqueija.
(Continua)
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- Daise Castelo Branco
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