Fico imaginando Bezerra da Silva ainda vivo, porém ainda não convertido como no fim da sua carreira, convocando alguns de seus compositores para criar mais um samba sobre ser dedo-duro. As delações premiadas seriam uma fonte de inspiração. O dedo de gesso de muita gente hoje aponta as falcatruas dos outros, falcatruas das quais também o mesmo dedo participou. Tudo pra se safar, diminuir pena e provar que o crime compensa, sim.

Não há uma ex-bandida que lançou livro, inspirou uma personagem de novela e, num programa de TV dominical, arrancou lágrimas de emoção da atriz que a interpreta? Um jogador de futebol assassino não foi recebido de braços abertos pela torcida de um time de futebol com direito a “selfies” de crianças? Um ex-presidente corrupto, réu em tantos processos e condenado em primeira instância em um deles, não tem sérias chances de voltar a ser eleito para o cargo mais importante da nação? Pois este mesmo cargo não é ainda ocupado por um presidente igualmente corrupto a quem se destinava uma mala de meio milhão de reais como propina? Pastores que enganam as pessoas com falsas promessas, seja de um céu perfeito ou mesmo uma vida de prosperidade aqui na Terra mesmo, não enchem os seus bolsos de dinheiro? Ser criminoso compensa, sim.

Como não sirvo para essa vida (ok, ok, minto, já baixei na internet uns filmezinhos, algumas músicas e um tanto de livros, mas não espalhem), acabo sendo um daqueles brasileiros que se contentam com uma vida simples, sem luxos, sempre com o saldo no banco negativado. Meu dedo de gesso aponta apenas alguns crimes contra a língua portuguesa, contra a má literatura e contra os que querem destruir a educação. Não vou mais longe do que isso, apesar de uma outra vez me meter em coisas de que não entendo muito, como a política.

Então fico lendo e escrevendo. Ultimamente não vou a teatro, cinema, encontros de leitura, lançamentos de livros (e por isso o meu lançamento foi um fracasso) salvo eventos que deem um pequeno cachê para dar um gás no saldo do banco. Só saio da toca para dar aulas e mesmo nas aulas me encasulo, porque a escola é uma miniatura da vida em sociedade, com todos os seus problemas dos quais tento, sem sucesso, fugir.

Saio do meu mundinho quando publico as coisas que escrevo. Esta coluna é mais uma forma de encontrar outros leitores, ou melhor, de outros leitores me encontrarem. Atendendo ao convite do escritor Dílson Lages Monteiro, inauguro este espaço cujo nome, “Uma biblioteca na cabeça”, é inspirado em duas fontes. A primeira, é o romance Auto de fé, de Elias Canetti, em que o protagonista, o erudito Peter Kien, apaixonado por livros, é expulso de casa por Therese Krumbholz, governanta que se tornou sua esposa pois cuidava com muito zelo de sua biblioteca de 25 mil volumes. Perambulando pelas ruas, entra em livrarias, compra livros imaginários e os guarda na cabeça, com medo de que sejam roubados.

A segunda inspiração vem da série de ilustrações de Paul Rumsey, “Libray Head”, em que se vê uma cabeça formada por estantes de uma biblioteca com diferentes formatos: hexagonais, com escadas, circulares, etc. Um paraíso, segundo Borges.

Pois é o que tenho na cabeça, uma biblioteca, pois penso em livros e em literatura durante boa parte do meu tempo. Quero aqui compartilhar com os leitores as minhas leituras ou reflexões provocadas por estas leituras, em texto inéditos ou antigos e esquecidos, garimpados no meu blog (www.cassionei.blogspot.com).

Mas voltando ao início deste texto inaugural: o que tudo isso tem a ver com delação? Acontece, caríssimos leitores, que gostaria que vocês fossem acaguetes, X-9 mesmo, e colocassem a boca no trombone, delatando esta coluna para que todo mundo a leia. Quero ser delatado, por favor! E não me declaro inocente.

Cassionei Niches Petry