O movimento simbolista europeu nas histórias literárias e mesmo no estudo da periodização nas obras de teoria literária, nas literaturas inglesa, americana, portuguesa e a hispano-americana, para permanecermos nos limites desta exposição, apenas nestes quatro exemplos, não aparece como capítulo nem mesmo subcapítulo de desenvolvimento autônomo do tema. Vejo nisso uma lacuna voluntária ou uma questão importante a que não se tenha ainda querido atribuir justo valor1. 
                    Na literatura brasileira, pelo menos nas histórias literárias mais influentes, inexiste praticamente essa ausência. A questão que levanto é: será que só os historiadores brasileiros reconheceram esse estilo literário como um movimento que desempenharia, com o tempo, um papel cada vez mais saliente nos estudos de periodização literária? Ou seria uma tema ainda não bem resolvido de classificação de estilos de autores de uma época literário-cultural de transição, na qual diferentes estilos coexistiram e, portanto, sofriam influências recíprocas de prógonos e epígonos, envolvendo o Romantismo tardio, o Realismo em sua manifestação poética, isto é, o Parnasianismo, e finalmente o Simbolismo?A questão a deslindar me parece situar-se particularmente no campo da teoria literária, mas não exime também a discussão detida no domínio da historiografia literária.
                    O certo é que nos livros didáticos de literatura francesa escritos por brasileiros tal omissão, até onde pude alcançar, inexiste. Servem perfeitamente de exemplos, as obras Littérature française (Editora Nacional, 1966, de Maria Junqueira Schmidt, ou France immortalle (Livraria Acadêmica, 1945, 2 volumes), de Cleófano L. de Oliveira. Da mesma sorte, as escritas por estrangeiros, como o Manuel des littératures françaises (Librarie Hachette,1966), de P. G Castex e P. Surer perfilam semelhante divisão de períodos literários.
                    Entretanto, se deslocarmos nossa atenção para os compêndios didáticos ou não de língua inglesa, não encontraremos nenhuma referência explícita ao estilo simbolista.
Pensemos, por exemplo, no velho volume de Neif Antônio Alem, An outline of English literature (Edições Melhoramentos, 1942), ou mesmo em outros autores didáticos brasileiros ou não, nos quais não encontramos nenhuma referência ao Simbolismo. A divisão proposta por Neif Antônio Alem é a seguinte: Renascimento, Século XVII, Classicismo, 1ª metade do século XVIII, 2ª metade do século XVIII, Romantismo, Era Vitoriana e literatura contemporânea. Conforme se vê, após o Romantismo, nunca surge a denominação Simbolismo. Podemos constatar neste sentido um aspecto da questão em estudo : no domínio da literatura de língua inglesa, o estilo simbolista não é mencionado explicitamente. Vejamos, agora, na literatura americana, tendo por base de confronto uma obra didática relativamente nova, An outline of American literature (Longman, 20020), de Peter B. High. Nesta obra ainda mais surpreendente é o fato de que a periodização tradicional nem sequer é citada. A divisão do conteúdo se faz por épocas temático-cultural~históricas ou sem definir os estilos literários canonicamente conhecidos entre nós. 
                   Consideremos, agora, na literatura de expressão portuguesa, três obras não didáticas. A primeira, a clássica e conceituada História da literatura portuguesa (Porto Editora, 13 ed. corrigida e aumentada), de Antonio José Saraiva e Óscar Lopes. Nela também a divisão de movimentos literários se apresenta bastante diversa, senão completamente diferente daquela prevalente entre os historiadores brasileiros. Em linhas gerais, os autores dividem a referida obra por épocas, seis ao todo, com segue: 1ª época – Das origens a Fernão Lopes; 2 época – de Fernão Lopes a Gil Vicente; 3ª época – Renascimento e Maneirismo; 4ª época – Época Barroca; 5ª época –O século das Luzes; 6ª época – Romantismo, que, por sinal, é a derradeira do volume.
A segunda obra, é a História literária de Portugal (Companhia Editora Nacional, 1966), de Fidelino de Figueiredo, a qual, para não fugir à regra de diferenciação em relação a nós na divisão de estilos literários, oferece a seguinte periodização: Era Medieval (das origens a 1502); Era clássica (1502-18250); Era Romântica (1825 – Atualidade). Claramente aqui estou somente aludindo aos três grandes períodos ventilados, sem levar em conta as subdivisões internas.
                   A terceira obra é a de Joaquim Ferreira, História da literatura portuguesa (Editorial Domingos Barreira, 4 ed. revista e atualizada pelo autor). A divisão dos estilos proposta pelo autor é a seguinte; Época Medieval; Época Clássica, Século XVI; Época Clássica, Século XVII; Época Clássica, Século XVIII; Época Contemporânea: Período do Romantismo; Época Contemporânea: Período do Realismo.
                    A quarta obra, o volume História da literatura hispano-americana(Vozes, 1971), de Bella Jozeff, segue, porém, em parte a divisão periodológica literária brasileira, com a exceção de que, após o Realismo-Naturalismo, segue-se o Modernismo, não fazendo nenhuma menção ao Simbolismo.
                            Examinando com atenção a divisão de estilos literários nas literaturas ventiladas neste estudo, e tendo em conta o estilo simbolista explicitamente ausente, constituindo objeto de capítulo autônomo no conjunto dos movimentos literarios, chego à conclusão de que, em nossos estudos de periodização brasileiros, nossos historiadores em geral têm optado pela divisão que nos parece ser a mais indicada e a que menos dificuldades e embaraços oferece não só ao estudante do nível médio, mas também, e sobretudo, ao de nível universitário.
                         Fica evidente que nossos historiadores reservaram um papel de maior proeminência ao movimento simbolista, posto saibamos que, entre nós, esse movimento teve, a princípio, grande resistência, se excetuarmos o crítico Nestor Vítor, entre críticos brasileiros de grande prestígio como Araripe Jr.(1848-1911), José Veríssimo (1857-1916) e Sílvio Romero (1851-1914). Mesmo na França, o Simbolismo, no início, foi subestimado como movimento literário. Ronald de Carvalho (1893-1935), na sua Pequena história da literatura brasileira, cita uma desdenhosa e injusta nota de rodapé de um certo Camille Mauclair2, para quem o movimento simbolistas não existia nem tinha sentido. 
                           Após o alentado estudo sobre o movimento simbolista, Panorama do movimento simbolista brasileiro (INL, 1952, 3 vols.) empreendidos por Andrade Muricy, autor capital a qualquer estudioso que se debruce a pesquisar aquele estilo literário, inegavelmente cresceu a importância dada aos principais poetas simbolistas brasileiros e se alargou o conhecimento de outras regiões no país por onde o movimento se irradiou. 
                           Pesquisando a bibliografia relativa ao Simbolismo brasileiro, já podemos notar que a fortuna crítica nesta área está bem desenvolvida quantitativamente falando e, numa obra, a meu ver de consulta obrigatória, porém pouco divulgada e recomendada, Introdução à literatura no Brasil(Editora Distribuidora de Livros Escolares Ltda., 1968), de Afrânio Coutinho (1911-2000) o estudioso dispõe de uma farta relação de obras de autores em inglês e francês sobre o Simbolismo. Aliás, o crítico Afrânio Coutinho, na mencionada Introdução, reserva uma riquíssima bibliografia sobre estudos literários, sobretudo estrangeiros, de grande importância ao pesquisador. Igualmente, as histórias literárias de Alfredo Bosi, Massaud Moisés, Aderaldo Castelo, Sílvio Castro, Nelson Werneck Sodré (1911-1999), Luciana Stegano-Picchio contêm vasta bibliografia sobre o Simbolismo. Massaud Moisés, por exemplo, tem uma obra toda dedicada ao Simbolismo, O Simbolismo, v. IV (Cultrix, 1966) valorizada por uma boa bibliografia especialmente destinada a esse movimento literário.
                     Os estudos brasileiros, segundo pudemos esquematicamente demonstrar, se posicionam, assim, à frente dos avanços conquistados para balizarem com uma visão didaticamente mais efetiva no que tange às pesquisas sobre esse movimento oriundo da França e que aqui teve, entre outros, seguidores talentosos como Cruz e Sousa (1861-1898) e Alphonsus de Guimaraens (1870-1921) que, ajustando o ideário simbolista europeu ao temperamento artístico brasileiro, produziram obras reconhecidas por estudiosos estrangeiros como foi o caso de Roger Bastide (1898-1974),3 o qual, em relação à obra de Cruz e Sousa, colocou-a ao lado de grandes simbolistas europeus do nível de Stefan George (1864-1933), que era alemão,  e  o francês Mallarmé (1842-1898) 
                        Estas reflexões aqui delineadas tiveram por objetivo discutir a questão da inserção do Simbolismo como estilo literário nas obras de natureza historiográficas e de teoria literária no sentido de que seus autores repensem o lugar de inegável relevância daquele movimento literário no corpus dos estudos literários, destinando a ele um espaço explícito a ser desenvolvido de forma autônoma e com a profundidade que está a merecer. Naturalmente respeitando as particularidades estilístico-temático-culturais de cada literatura, seja ela inglesa, americana, espanhola, portuguesa, hispano-americana, latino-americana, ou literaturas derivadas ou não da matriz européia, acredito que a pesquisa de natureza comparativa muito poderia contribuir para uma melhor convergência ou até maior uniformidade metodológica no terreno da periodologia literária. O modelo brasileiro, que mal esboçamos nesta discussão, foi escrito com a intenção de atingir esse propósito.

NOTAS
1 Á exceção da França, esta lacuna de classificação periodológica diz respeito às  literaturas consideradas neste estudo. Entretanto reconheço que a pesquisa merece maior aprofundamento. Ela pode ser estendida ao Parnasianismo, tendo em vista a mesma omissão periodológica atinente a este movimento. 

 2 Cf. Pequena história da literatura brasileira, de Ronald de Carvalho. 12 ed. ver. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia. Editores, 1964, p. 345.



3 Roger Bastide, sociólogo francês, veio para o Brasil fazer parte do corpo docente da recém-fundada Universidade de São Paulo, em 1938, e aqui se integrou à nossa vida cultural. Tornou-se um estudioso da afro-poesia brasileira, especialmente do Simbolismo, legando-nos obras valiosas como Poesia afro-brasilelira ( São Paulo, Martins, 1943), Poetas do Brasil (Curitiba: Guairá, 1947), “Cassiano Ricardo”, in "A Manhã," Supl. de Letras e Artes, 21 e 289-1947. As informções bibliográficas sobre Bastide extraí da História concisa da literatura brasileira., de Alfredo Bosi. 38 ed. São Paulo: Cultrix,  2001, passim.

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