O CASTELO DOS CÁRPATOS DE JÚLIO VERNE

Miguel Carqueija

 

Resenha do romance “O castelo dos Cárpatos”, de Júlio Verne. Editora Clube do Livro Ltda., São Paulo-Sp, 1979, sem indicação do título original. Prefácio de Rubens Teixeira Scavone. (obs. o título original, não mencionado na citada edição, é “Le chateau des Carpathes).

 

            Anos atrás li um comentário de que Júlio Verne (aliás Jules Verne; é um dos poucos autores estrangeiros, senão o único que é conhecido entre nós com nome aportuguesado) previu o cinema em “O castelo dos Cárpatos”. Agora que finalmente li esse livro, acho que houve exagero. Aliás, apesar do prefácio assinado pelo nosso velho e bom Scavone, parece-me discutível que essa obra seja de ficção científica. As invenções de Orfanik provavelmente já eram todas exequíveis, ainda que dificilmente reuníveis àquele grau de sofisticação, no ano de 1891, quando Verne preparava a versão final do livro. Talvez “O castelo dos Cárpatos” possa se enquadrar melhor como novela de tecnologia de ponta (para a época), a um passo da ficção científica como as recentes novelas de espionagem.

            Efetivamente, o cinema da história é a projeção de monstros em movimentos na atmosfera, e da foto em tamanho natural de uma cantora lírica num espelho, acompanhada pela gravação fonográfica de uma de suas árias (nesse último caso, portanto, sem a ilusão do movimento). O resto é uma história de superstições, crendices, bravatas e poltronarias (principalmente da parte do Dr. Patak) e ainda de maluquices e paixões mórbidas no longo e pouco movimentado duelo entre Franz de Télek e o Barão Rodolfo de Gortz,  ambos apaixonados mas cada um a seu modo, pela cantora Stella, duelo que alcança o seu clímax no Planalto de Orgall, no confuso interior do sinistro Castelo dos Cárpatos, residência do demônio conhecido como Chort, na crença dos habitantes da aldeia de Werst. Detalhe: a trama se passa na Transilvânia, terra de Drácula. Autor cosmopolita, Verne, talvez mais que qualquer outro literato, escreveu histórias passadas em inúmeros países.

            Esse livro, em particular, difere um pouco do comum verneano, mas o estilo é bem dele. O destino do personagem central lembra um pouco “O Capitão Háteras” e mesmo “Vinte mil léguas submarinas”, pois Franz e Rodolfo são os típicos indivíduos que se agarram a uma obsessão até ao ponto da perda da razão, da autodestruição.

            Há uma cena engraçada no quarto capítulo da obra. É quando o juiz Koltz, o estalajadeiro Jonas, o professor Hermod, o pastor Frick e demais poltrões da aldeia se reúnem na estalagem para discutir a situação, já que o castelo assombrado, situado a boa distância e de difícil acesso — e onde, de resto, ninguém se aventurava a ir — estava soltando fumaça. A idéia geral era de que seres malfazejos o estavam habitando, e isso poderia prejudicar o turismo local. Então o juiz diz que é “gravíssimo”, o professor concorda que é “gravíssimo” e todo o resto da assembléia repete que é “gravíssimo”. Só um pouco adiante dessa brilhante conversação é que Frick, muito a medo, faz a sugestão óbvia: “Talvez fosse melhor ir lá ver.” Mas não se oferece. E a história só tem continuidade graças á teimosia do menos covarde da aldeia, o guarda florestal Nic Deck.

            Um livro para quem gosta de boa leitura, mesmo sem ser uma obra-prima. Afinal o autor é um mestre do entretenimento.

JÚLIO VERNE (1828-1905) — Um dos mais famosos escritores de todos os tempos e dos mais prolíficos na ficção científica e de aventuras, deixou obra tão volumosa que seus inéditos (como, recentemente, “O Tio Robinson”) ainda estão sendo lançados na França.

(Rio de Janeiro, 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 1992)