A cultura piauiense está mais pobre. Faleceu no último dia 25 de abril(de 2007) o homem de letras, José Gomes Campos. O velório ocorreu em Teresina, onde residia e o sepultamento deu-se no dia seguinte, no cemitério municipal de Regeneração, sua cidade natal. E no mesmo jazigo de sua mãe, ao lado do pai, do avô e do tio, padre José Gomes da Silva. Aliás, ainda não pude testemunhar um amor filial mais forte e duradouro do que o de José Campos por sua genitora, D. Maria Gomes Baptista Campos (D. Mariquinha Campos, que fora casada com o juiz Raimundo Campos). Por mais de trinta anos, desde o óbito daquela pranteada mãe, José Gomes Campos, todos os anos, na data de seu aniversário natalício, ia a Regeneração, o único motivo de visita à cidade, rezar-lhe o terço e acender velas. Agora com o repouso eterno, descansa o filho dileto no túmulo da mãe. Celibatário, não deixou descendentes.

José Gomes Campos era um homem extremamente católico. Embora tenha rejeitado a ordenação sacerdotal, concluíra todos os estudos no Seminário. Era, assim, padre por formação. Desde cedo deixara a cidade natal, para estudar no Seminário de Belo Horizonte, onde cursara Filosofia e Teologia. De volta a Teresina, cursou Pedagogia, com especialização em Administração Escolar e o bacharelado em Direito, preferindo, porém, enveredar pelo campo educacional e do teatro. Até a sua morte, lecionou Cultura Popular no Seminário Maior de Teresina. Aliás, no início do ano próximo passado ali estive, a seu convite, proferindo palestra sobre genocídio indígena e colonização do Piauí.

O Professor Campos, como era conhecido entre os alunos, encarnou verdadeira vocação educacional, vivenciando o magistério como poucos. Professor de várias escolas secundárias no início de sua atividade profissional, inclusive em Minas Gerais, de regresso ao Piauí, entre outros, lecionou no Colégio Diocesano São Francisco de Sales, na Universidade Federal do Piauí e no Centro Federal de Educação Tecnológica do Piauí – CEFET. Aposentado nesses empregos, nos últimos anos se dedicava apenas ao magistério no Seminário de Teresina.

Complementando essa intensa atividade educacional, José Gomes Campos, também chamado Gomes Campos no meio cultural, voltou-se para o teatro desde os tempos de estudante, quando fundou a União dos Moços Católicos. Para Gomes Campos o teatro era uma ampliação da sala de aula. E suas peças foram montadas com objetivo educacional. Auto do Lampião no Além, a mais famosa peça de um dramaturgo piauiense, desde cedo deixou as fronteiras piauienses e ganhou o mundo. Foi aplaudida no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, premiada com o troféu “Negrão de Lima”, do governo do Rio de Janeiro, traduzida para o inglês e espanhol, tem sido apresentada nos EUA. Seu autor ganhou o prêmio Lusófono, do Consulado de Portugal no Brasil e, mais recentemente, a comenda da Ordem Estadual do Mérito Renascença do Piauí, mais alta condecoração do governo piauiense. Seu nome foi homenageado com uma escola municipal de Teresina e uma escola estadual de teatro. Indubitavelmente, Gomes Campos deu uma nova dimensão ao teatro piauiense.

Homem de cultura geral, de leitura profunda, conhecedor do latim, dominava a língua vernacular como poucos. Com a sua morte, perdi um competente e abnegado revisor de minhas obras. E o Piauí perde um homem de cultura, um intelectual na acepção da palavra, um homem simples e bom. José Gomes Campos deixa, assim, uma lacuna irreparável no campo educacional e cultural piauiense. Resta, porém, dizer que a sua obra permanecerá no tempo dando continuidade à missão de formar e educar a juventude brasileira.

(Diário do Povo, 3.5.2007).