Nas cabeceiras do rio Poti, em território tomado aos índios Crateús, iniciou-se uma povoação que recebeu o nome de Piranhas, elevada à categoria de vila em 1832, com o nome de Príncipe Imperial e território desmembrado do velho município de Marvão. É hoje a cidade de Crateús, em mau hora dada ao Ceará através da Lei n.º 3.020, de 22.10.1880, por errônea política para reaver o que já era nosso, o território da litorânea vila de Amarração, hoje cidade de Luís Correia. Bem merecido seria um movimento de revisão histórica, retomando nosso antigo território sem entregar o que já era nosso no litoral, bastando provar o pioneirismo da ocupação piauiense nas duas faixas territoriais. Na verdade, o Piauí tem sido a Bolívia brasileira, perdendo extensões de seu território para todos os vizinhos. Não satisfeito com a sua política invasora do passado, o Ceará ainda hoje nos incomoda fixando marcos divisórios em pleno território piauiense, em vários pontos, debaixo da Serra de Ibiapaba, avançando nas vertentes da bacia parnaibana, inclusive um deles fincado quase na zona urbana da cidade de São João da Fronteira. Até o jovem Estado do Tocantins vendo a inércia piauiense já está botando as unhas de fora, contestando nossa posse nas nascentes do rio Parnaíba. É hora do Piauí acordar e fazer valer os seus direitos.

Pois bem, aí nesse território, na fazenda Boa Vista, então município de Marvão, hoje Castelo do Piauí, e não de Príncipe Imperial, como querem seus biógrafos, em 29 de outubro de 1829, nasceu José Coriolano de Souza Lima, que se revelaria magistrado e poeta de raro talento. Era o caçula de uma geração de sete filhos dos fazendeiros Gonçalo Correia Lima e Anna Rosa Bezerra. Anos mais tarde, quando faleceu o genitor ele assim pranteou:

 

“Ó meu pai, que me educaste

Na santa lei de Jesus;

Que me deste bons exemplos,

Os olhos fitos na Cruz;

Por que deixaste este mundo

Tão solitário e cruel,

Onde sinto só tristezas,

E sorvo somente fel?

 

‘Morreste... e eu sei que tua alma

Descansa eterna e feliz;

Mo dizem tuas virtudes,

Tua vida santa me diz;

Porém tua ausência eterna,

Tão saudosa, tão fatal,

Me dilacera as entranhas

Com uma dor sem igual”.

 

Sobre a terra natal soube cantar tão estremecidamente:

 

“Lindo sertão meus amores,

Crateús, onde nasci,

Que saudade, que rigores,

Sofre meu peito por ti!

São amargos dissabores

Que em funda taça bebi!

Que saudade, ó meus amores,

Crateús, onde nasci!”.

 

Assim, conclui o mesmo poema:

 

“E adeus, terra, onde a alvorada
Primeira pra mim raiou!
Onde a primeira morada
Meu pai querido assentou!
Onde o galo, à madrugada
Cantando me despertou!
Onde à primeira alvorada
Ouvi-lhe o có-corô-cô!”.

 

Aí viveu sua infância e iniciou os estudos até a idade de 16 anos, entre seus familiares que eram também dos primeiros desbravadores da região, inclusive, por via materna descendia dos Mourão, velho tronco sertanejo iniciado com o português Alexandre da Silva Mourão, em 1720, tendo mais tarde sustentado acirrada contenda com os Gadelha, que muita intranquilidade levou àqueles longínquos sertões de Crateús.

Por decreto da regência do Império de 6 de julho de 1832, foi a povoação de Piranhas elevada à categoria de vila e freguesia com o nome de Príncipe Imperial, com câmara municipal e os ofícios de juízes ordinários, tabeliães e mais oficiais de justiça: “Art. 3.º - É igualmente erecta a notável povoação de Piranhas, em vila de Príncipe Imperial, e freguesia de Bom-Jesus do Bonfim, ficando desmembrada da vila de Marvão toda a ribeira de Crateús, de que se formará a nova vila”.

Dessa forma, o poeta precedeu à vila em três anos. Esta somente recebeu o nome de Crateús através do decreto n.º 1, de 2 de dezembro de 1889, de forma que ao cantar Crateús, o poeta está referindo-se ao sertão de mesmo nome e não à vila.

Nos pagos natais viveu até o ano de 1845, quando, aos 16 anos de idade muda-se para a freguesia de São Raimundo Nonato, no lugar Jenipapo, nas cabeceiras do rio Piauí, em companhia de um irmão mais velho, o cônego Sebastião Ribeiro Lima, que ali ia exercer o paroquiato, em cujo mister demorou-se muitos anos. Sobre essa mudança cantou o poeta:

 

“Dos pátrios lares saudoso,

Chorando me despedia;

Saudosos meus pais deixava,

A longe sertão partia.

 

De meus irmãos me apartava,

Deles que eu tanto queria,

Por seguir a um somente

Que triste também partia”.

 

A nova morada é por ele assim descrita:

 

“Depois de longa viagem

Eis que uma várzea se via.

Um povoado no fundo

Grosseiramente se erguia.

 

Eram as casas pequenas,

Sem ordem, sem simetria:

A telha cobria algumas,

A casca outras cobria.

 

..........................

 

A coisa mais pitoresca

Qe no povoado havia

Era um grande juazeiro

Que entre dous oitões jazia”.

 

Com esse irmão prosseguiu nos estudos pelo tempo de seis anos, mudando-se para São Luiz do Maranhão em 1851, a fim de estudar Humanidades.

Três anos depois, em 1854, o jovem poeta muda-se para Olinda, onde conclui o curso de Humanidades e presta exames preparatórios. No ano seguinte inicia o curso jurídico na tradicional Faculdade de Direito, que então mudara para Recife, concluindo-o em 16 de dezembro de 1859, aos trinta anos de idade. Fora, portanto, um aluno temporão.

Ainda durante o curso jurídico casou-se no período de férias do último ano do curso, em 24 de janeiro de 1859, em Príncipe Imperial, com sua sobrinha D. Maria Cesalpina Correia Lima, que a acompanhou para o Recife. Esse casamento fora um arranjo de família quando ainda crianças: “Eu contava dous lustros, tu dous anos,/Quando nosso himeneu foi resolvido”. Com ela teve cinco filhos.

José Coriolano de Souza Lima foi sempre de saúde frágil, padecendo de várias doenças ao tempo dos estudos no Recife, chegando mesmo a lamentar esse fato em forma de poesia. Por essa razão, faleceria ainda moço, apenas exercendo a profissão jurídica por dez anos.

De retorno à terra natal, “dedicou-se à carreira da magistratura e da política, sem contudo entrar no jornalismo”, conforme anotou Clodoaldo Freitas.

Em 1860, foi eleito deputado provincial à Assembleia Legislativa do Piauí, sendo reeleito para a legislatura iniciada em 1864, quando assumiu a vice-presidência da Assembleia Legislativa na primeira legislatura(1860 – 1861) e a presidência na segunda (1864 – 1865).

Nomeado promotor público da comarca de Piracuruca, ali exerceu suas funções de 1862 a 1863, passando em março desse último ano para o cargo de juiz municipal de Codó, no Maranhão. Por decreto de 14 de janeiro de 1864, foi removido para Príncipe Imperial, hoje Crateús, sua terra natal, no sudeste do Piauí. Depois de cumprir as etapas necessárias, por decreto de 1.º de maio de 1865, foi nomeado juiz de direito da comarca de Pastos Bons, no sul do Maranhão. Embora com a referida nomeação, nesse ano ainda tomou parte ativa nos trabalhos da Assembleia Legislativa do Piauí, de que era presidente. É que naquele tempo era permitido aos magistrados atuarem na política.

Em sua judicatura na comarca de Pastos Bons viveu dias felizes e tranquilos até que, em princípio de 1869, entrou em atrito com o também bacharel José Belisário Henrique da Cunha, então juiz municipal em termo da mesma comarca, sustentando apaixonada contenta que resvalou para o plano pessoal. Contra o mesmo, em desabafo compôs alguns versos satíricos que o ridicularizavam. Porém, de saúde frágil desde os bancos escolares, não resistiu às emoções e apreensões da luta, sofrendo congestão cerebral. Levado para Caxias, ali foi medicado pelos competentes médicos Mendes Viana e Pimentel Beleza, obtendo melhoras. Em seguida, buscando descanso no ar puro da fazenda familiar, situada nos sertões de Crateús, passou por Teresina em julho daquele ano, permanecendo alguns dias hospedado em casa do colega de turma jurídica, compadre, amigo e correligionário político, Dr. José Manuel de Freitas, também magistrado e um dos líderes do Partido Liberal. Em 1.º de agosto já estava em seu sítio Veremos, no sertão Crateús, onde aguardava a chegada da esposa com as filhas que vinham de Pastos Bons. Porém, faleceu em 25 de agosto de 1869, antes da chegada daquelas, com apenas 40 anos de idade, quando muito ainda poderia contribuir com a literatura piauiense. Em carta do Dr. José Manuel de Feitas, assim avisou o bacharel e então deputado provincial Manuel Ildefonso de Souza Lima, primo do falecido: “Dou-lhe a tristíssima notícia de ter falecido ontem pela manhã o nosso amigo José Coriolano. Agravando-se os seus incômodos, em virtude de uma constipação que apanhou, sobrevieram-lhe males tais que dentro de dois dias deram cabo de sua existência. (...). O nosso amigo faleceu como uma criança, sem fazer o menor movimento  sem ser visto pelas pessoas que estavam em seu quarto”.

José Coriolano foi, sobretudo, poeta, um dos precursores e principais representantes da escola romântica no Piauí, compondo desde a mocidade. Porém, a força de sua poesia deu-se na fase de academia, no Recife, desde o primeiro ano até o casamento, compondo belas poesias onde canta o sertão e mesmo, cria uma identidade toda nossa. Um poema que lhe deu notoriedade foi o Touro Fusco, composto durante as férias do primeiro ano do curso jurídico em Olinda, belo poema em oitavas rimadas.

Mais tarde, foi organizada sua produção poética, cerca de 250 poesias, sendo publicado um primeiro volume sob o título de Impressões e gemidos, postumamente em 1870, subvencionado pelo Governo do Maranhão, por iniciativa de seu amigo José Manuel de Freitas. O volume foi apresentado pelo jornalista republicano Davi Moreira Caldas. Foi reeditado pelo Governo do Piauí em 1973 e uma terceira edição foi organizada pela Academia Piauiense de Letras(2015), como parte das comemorações alusivas ao seu primeiro centenário de fundação. O restante de sua poesia perdeu-se no tempo, sendo salva apenas uma pequena parte pela família.

José Coriolano de Souza Lima foi um grande poeta do Piauí, cujo nome merece ser guardado com carinho. A ele, em nome de nossa gente, rendo as mais justas homenagens, compondo esse perfil para uma galeria de notáveis. E não lhe faço nenhum favor, senão reconhecer o talento de um poeta primoroso que tão bem soube cantar os nossos sertões, exaltar os nossos costumes e traduzir o nosso jeito de ser. Inspirou-se nas suas raízes para traduzir a nossa alma tipicamente sertaneja. Assim cantou:

 

“Nasci e criei-me nas bastas catingas,

Nas selvas umbrosas de meu Piauí.

Não gosto das praças, seus usos detesto,

Que males e dores não sofrem-se aí!

Ditoso me julgo, tocando a viola,

Cantando os amores que temos aqui”.

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*Perfil composto para o livro Piauienses notáveis, a ser publicado brevemente pelo autor.

**REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br