DOIS:  A PANTERA

 
Nesse casebre, à noite, sentimo-nos ameaçados.
Sabemos estar sobre o Eldorado. Pepitas de ouro no leito do lago.
Animais noturnos nos espreitam. O cântico da mãe da lua aterroriza, o urutau canta suas três oitavas horrorosas.
Eu durmo com Jara numa rede alta, encostado no seio do muro do seu silêncio.
As estrelas são vivas. E gritam.
Não há mosquitos, mas um frio que vem do calor da noite, dos ventos sinistros dos Andes.
 
Naquela noite novamente ouvimos a presença noturna da pantera negra, ao redor da casa.
Naquela noite, ouvimos gritos e silvos, gemidos, assobios.
Miracã-uera, o cemitério.
Moramos em cima do cemitério do Eldorado.
Isso nos assusta, nos ilude, no escuro, no miúdo.
Por aqui, a floresta aparece num grande mapa, protegida.
Nenhum civilizado pisou esses solos amaldiçoados, protegidos por demônios encharcados de ouro.
Jara quase não fala, companheira silenciosa.
Não sei de onde ela veio, não sei quem é. E temo que possa matar-me, enquanto durmo.
Mas fazemos o amor selvagem.
Quando ela vê a minha depressão, mergulha no leito do lago e vem com uma pepita de ouro puro que vou acumulando numa mochila já tão pesada.
Depois acende um cachimbo de ipadu, uma espécie de coca, sopra na minha face. E me obriga a mascar algumas folhas amargas, misturadas com cinzas da palmeira motaçu, e um cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, sinto uma embriaguez deleitosa, súbita euforia, e adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, e eu me recupero.
 
Sei que ela pressente o perigo, a guerra. O incompreensível perigo.