Bráulio Tavares

Posso estar dizendo uma besteira descomunal, mas irei em frente.  Se for besteira mesmo, aparecerão dúzias de críticos e resmas de correções, o que pelo menos me impedirá de continuar repetindo a besteira velhice afora.  A besteira se refere à canção clássica de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, “Assum Preto”, com seus versos inesquecíveis: “Tudo em volta é só beleza / céu de abril e a mata em flor / mas assum preto, cego dos olhos / não vendo a luz, ai, canta de dor...”  Assum preto é o passarinho que não somente é trancado numa gaiola: furam-lhe os olhos para que ele cante de maneira mais sofrida, mais bela.  Como não lembrar dos “bluesmen” cegos do Mississipi?  Como não lembrar dos “castrati” da ópera italiana (a quem arrancavam algo talvez mais estimado do que os globos oculares)?


A história é esta.  A besteira é: existe de fato um pássaro chamado “assum”, ou “assum preto”?  Eu, pelo menos, nunca ouvi falar.  Vou logo avisando que minha ignorância de assuntos da Natureza é de proporções enciclopédicas.  Mas foi justamente nas enciclopédias que procurei essa nobre ave – e não a encontro.  Não há menção de “assum” ou “assum preto” na Wikipedia online, bem como no meu “Dicionário Houaiss”.  
 

Há, sim, menção (nessas e em várias outras fontes) a um pássaro chamado “anum preto”.  Anum, sim, eu ouço falar desde pequeno, inclusive na expressão levemente ofensiva e brincalhona “bufa de anum”, que dirigimos a uma pessoa com intenção provocativa.  Anum-preto (ou anu-preto) é um pássaro com cerca de 36 cm de comprimento, que vive em bandos, alimenta-se de insetos, e com um cheiro forte que atrai morcegos.  O saite da Embrapa (http://www.faunacps.cnpm.embrapa.br/ave/anupreto.html) refere-se assim à sua voz: “O anu-preto possui mais de uma dúzia de vozes diferentes. Tem dois pios de alarme: a um certo grito todos os componentes do bando se empoleiram em pontos bem visíveis, examinando a situação; outro grito, emitido quando um gavião se aproxima, faz desaparecer num instante no matagal todo o grupo. Eles se divertem cavaqueando baixinho, de modo bem variado, causando às vezes a impressão de estar tentando imitar a voz de outra ave.”


Eis a questão: embora ninguém se refira a um possível hábito de se engaiolar e cegar o anum-preto, não será ele o mesmo pássaro a que se refere Humberto Teixeira em sua música?  Minha teoria é que Humberto entregou a Luiz a letra manuscrita, em que se referia ao “anum preto”.  Ora, em letra manuscrita um “n” muitas vezes pode ser confundido com dois “ss”.  Já vi isto (e o vice-versa disto) acontecer mais de uma vez.  Luiz, ou alguém que o acompanhava, leu “assum” em vez de “anum”.  Humberto não quis, ou não conseguiu, corrigir o parceiro (isto acontece).  Em vez de “Anum Preto”, a canção passou a chamar-se “Assum Preto”.  E um pássaro fictício, inexistente nos dicionários e enciclopédias, enriquece hoje com seu canto a história da MPB.  Será que foi isso, ou estarei “variando”?