Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
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Teatro na feira

      De manhã. A feira. Burburinho intenso. Vaivém de pessoas. Um homem alto em cima de uma picape, vestindo um paletó surrado, faz propaganda de ervas medicinais, banhas, pomadas e gororobas. Usa um microfone preso ao pescoço por uma alça, para lhe facilitar os gestos e melhorar a comunicação com a platéia. 
      Matutos param em redor do carro. Meninos engrossam a roda da alegria. O homem é bom de gogó, retira um teiú de uma maleta e fala desenvolto, sem fazer pausas.
      - É hoje, é hoje que o teiú vai fumar e dançar forró! Venham ver, venham ver, a verdadeira banha do pirarucu, tirado das profundezas do Rio Amazonas. Serve pra tudo: doença do jeca-tatu, resguardo de mulher feia, amarelão, frieira, olho-grande, inveja de vizinho. Quem rouba sol alheio não é feliz, não. Serve até pra’quele bichinho coceirento, que não vou dizer o nome porque é chato! Olhem, olhem, a legítima banha do pirarucu!
      O homem se abaixa, pega as ervas, os vidros de beberagens, e os mostra ao povo. E arremeda uma mulher doente com dores nos quartos, um velho cansado cheio de lombrigas. O homem é um comediante dos bons, um palhaço de estirpe. E assovia no microfone, e grunhe e mia e late e geme. Tudo isso com muita arte e, ainda, por cima, vendendo os produtos, passando troco, negociando os preços, medindo as cotas das pílulas, a quantidade das raízes, sem parar. Dançando. Se agachando. Falando. Contando histórias.
      Os caboclos riem, batem palmas. Os meninos adoram, enredados no script hilariante.   
      - Arreda, menino! Arreda! Com menino nem o Cão pode. Um dia, o Cão ia indo numa estrada e longe avistou um bando de meninos vindo em sua direção. O Cão pensou: “Lá se vem o diabo! Vou me virar num cupim pra esses capetas não me verem”. E o Cão se virou. Os meninos chegaram no local e um deles apontou para o cupim e disse: “Olhem, seus meninos, aquele cupim! Vamos jogar pedra nele?”. E se puseram a jogar pedra no cupim. É por isso que minha avó diz: com menino ninguém pode. Nem o Cão. Vão comprando, vão comprando, a legítima banha do pirarucu. Daqui a pouco, o teiú vai fumar e dançar forró!
      O homem sacode o réptil no ar. A turba ri. Um menino é chamado a subir no carro e a contracenar no picadeiro. Um matuto mais despachado aceita a graça e também sobe – e as risadas dos circunstantes tornam mais cômicos os efeitos da comédia. 
      Na platéia, um menino meio tímido se esquiva ao convite. O homem tira umas pilhérias. O menino está maravilhado e nunca vai esquecer esses acontecimentos incomuns.

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