Dilson Lages Monteiro Quarta-feira, 26 de novembro de 2014
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Relatos e depoimento de amigos

O Bartolomeu não existe. Ou, podemos dizer: já não há mais ninguém como o Bartolomeu. Discordo. Ele existe, definitivamente, e não tem nada deste negócio saudosista de se dizer que já fomos melhores. Estamos vindo por aí, bons e maus, doces e amargos, tristes e alegres. O Bartolomeu é poeta, nasceu com alma de poeta, o que o salvou. Ele é um homem generoso, que transformou suas dores em esperanças e afeto. E faz livros para crianças.

Ziraldo

Num país de nome vegetal uma protagonista de nome Flora deseja o apodrecimento, instante de transito entre matérias. É a poesia caminhando do céu, para a terra, rumo ao inferno.

Gabriel Vilela

 

Poesia.
Preservação da Infância

 

Sem desconhecer a aspereza dos nossos tempos, a poesia permanece no campo do existir como fenômeno de equilíbrio, compensação e recompensa, com a faculdade de preservar a infãncia. Eventualmente, a poesia pode inspirar-se em tom menor - por que não? - e revestir-se de ternura.

É através da imaginação que se atinge, muitas vezes, a etapa da lucidez. Assim, dar asas à imaginação não é fechar os olhos a verdades patentes, mas abri-los para o mundo subjetivo, sempre mais vasto, profundo e sutil, capaz de enfrentar, interpretar, compreender, remover e reformular circunstâncias exteriores.

Em meio a tantas mutações sociais e revoluções tecnológicas, o homem, natureza perene, tanto mais consciente de seu destino humano e de sua vocação integral, resguarda e restaura (pelo menos tem a possibilidade de fazê-lo) os dons essenciais do sentimento e da sensibilidade, sempre susceptíveis de aperfeiçoamento. Por isso, a devoção às letras de um poeta como Bartolomeu Campos Queirós, educador por acréscimo e coincidência, é claramente auspiciosa para a formação de almas em flor e para o envolvimento de criaturas sensíveis.

Este seu novo livro, Coração não toma sol (porém sim amor), comprova e documenta sua íntima força lírica, seu infalível bom gosto e sua original capacidade inventiva, em estilo que se distingue pela singeleza. Tal poema, pela mesma autenticidade e espontaneidade, não possui destinatário. É como o azul do céu, propicio a todos. Tem o dom de atrair a criança pela graça ingênua da narrativa; e o adulto afeiçoado à naturalidade das origens, pelo que oferece de transparente. O esquema do texto é simbólico e revela, sem acabar de revelar, um segredo de amor. "Não era fácil ser coração." Em verdade, não é fácil ser coração. A menos que se transfigurem em música, assim como faz Bartolomeu, os momentos angustiantes da existência.

Com moderação e segurança, o ritmo participa fundamentalmente desse processo criador. O enredo, mais do que tênue, pleno de sugestões e não de peripécias fantasiosas, flui pelas entrelinhas em atmosfera de penumbra, aqui e ali pontilhada de rápidas lucilações, entre uma lâmpada que se acende e o mistério que se protege. Dessa forma, o leitor é conduzido a um estado de espírito que será, para a criança, um toque de alvorecer; e, para o adulto, uma aura de serena meditação.

Henriqueta Lisboa

 

"É preciso prezar a coragem das sementes. Apodrecer para inaugurar o fruto."

Como se fosse uma epígrafe, com estes dois versos Bartolomeu nos introduz a uma das mais delicadas obras da poesia brasileira contemporânea. Bucólica, e assim o é, também, a edição de "Flora", que nos provoca o estado de estar vivo. O tempo entre ter nascido e morrer. Que "...o tempo - esse relógio sem ponteiro..." - e o vento propaguem a aragem de Bartolomeu Campos, que nos remete a Virgílio, que nos lembra Leminski, tanto pela concisão, quanto pelas tantas janelas que seus versos abrem. E as deixa abertas. Bucólica, delicada, adjetivos que devem ser entendidos na sua acepção maior. Na vontade, de num mundo tão controverso, que o verso sirva de cutelo na luta pela paz e pelo amor entre os homens. "Flora", me seduz assim, como Persefone, a filha da Terra, que seduzida, por Hades, cria em acordo com a sua mãe as estações. A "Flora" de Bartolomeu, essa menina doce é, entre outras coisas, o beijo de carinho que tanto necessitamos.

Adyr Assumpção

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