Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 21 de maio de 2013
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O poder da literatura

                   [José Castello]

           Em um século dominado pelo virtual e pelo instantâneo, que poder resta à
literatura? Ao contrário das imagens, que nos jogam para a fora e para as superfícies, a literatura nos joga para dentro. Ao contrário da realidade virtual, que é compartilhada e se baseia na interação, a literatura é um ato solitário, nos nos aprisiona na introspecção. Ao contrário do mundo instantâneo em que vivemos, dominado pelo "tempo real" e pela rapidez, a literatura é lenta, é indiferente às pressões do tempo, ignora o imediato e as circunstâncias. 

          Vivemos em um mundo dominado pelas respostas enfáticas e poderosas, enquanto a literatura se limite a gaguejar perguntas frágeis e vagas. A literatura, portanto, parece caminhar na contramão do contemporâneo. Enquanto o mundo se expande, se reproduz e acelera, a literatura se contrai, pendindo que paremos para um mergulho "sem resultados" em nosso próprio interior. Sim: a literatura - no sentido prático - é inútil. Mas ela apenas parece inútil.

          A literatura não serve para nada _ é o que se pensa. A indústria editorial tende a reduzi-la a um entretenimento para a beira de piscinas e as salas de espera dos aeroportos. De outro lado, a universidade _ em uma direção oposta, mas igualmente improdutiva _ transforma a literatura em uma "especialidade", destinada apenas ao gozo dos pesquisadores e dos doutores. Vou dizer com todas as letras: são duas formas de matá-la. A primeira, por banalização. A segunda, por um esfriamento que a asfixia. Nos dois casos, a literatura perde sua potência. Tanto quando é vista como "distração", quanto quando é vista como "objeto de estudos", a literatura perde o principal: seu poder de interrogar, interferir e desestabilizar a existência.

          Contudo, desde os gregos, a literatura conserva um poder que não é de mais ninguém. Ela lança o sujeito de volta para dentro de si e o leva a encarar o horror, as crueldades, a imensa instabilidade e o igualmente imenso vazio que carregamos em nosso espírito. Somos seres "normais", como nos orgulhamos de dizer. Cultivamos nossos hábitos, manias e padrões. Emprestamos um grande valor à repetição e ao Mesmo. Acreditamos que somos donos de nós mesmos!

         Mas leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa, leia Clarice _ e você verá que rombo se abre em seu espírito. Verá o quanto tudo isso é mentiroso. Vivemos imersos em um grande mar que chamamos de realidade, mas que _ a literatura desmascara isso _ não passa de ilusão. A "realidade " é apenas um pacto que fazmos entre nós para suportar o "real". A realidade é norma, é contrato, é repétição, ela é o conhecido e o previsível. O real, ao contrário, é instabiliade, surpresa, desassossego. O real é o estranho. 

         É nas frestas do real, como uma erva daninha, que a literatura nasce. A literatura não é um divertimento; tampouco é um saber especializado. Ela é um instrumento, precário e sutil, de interrogar a vida. Desloca nossas certezas, transformando-as em incertezas. Em vez de nos oferecer respostas, nos faz novas perguntas _ desagradáveis e perturbadoras. Leia "Crime e castigo", "O castelo", o "Livro do desassossego", ou "A paixão segundo GH". Se você ler para valer, se neles mergulhar como quem se lança em um abismo, e a literatura é um abismo, sairá da leitura transformado e atordoado, sairá um outro homem, ainda que no corpo do mesmo homem.

         A literatura é, antes de tudo, uma máquina de transformação. Se você não deseja se modificar; se não pretende correr riscos; se teme as perguntas que não comportam respostas _ então, eu aconselho, afaste-se da literatura. A literatura é, sim, perigosa, porque tem mo poder de nos desestabilizar e desassossegar. Se você aprecia sua vida banal e rotineira, fuja! Ao contrário, se você sente um grande incômodo com o mundo, se você se incomoda com o tédio das imagens e da repetição, se você deseja se modificar e modificar o pequeno mundo que o cerca, então leia.

        A literatura não tem o poder dos mísseis, dos exércitos e das grandes redes de
informação. Seu poder é limitado: é subjetivo. Ao lançá-lo para dentro, e não para fora, ela se infiltra, como um veneno, nas pequenas frestas de seu espírito. Mas, nele instalada pelo ato da leitura, que escândalos, que estragos, mas também que descobertas e que
surpresas ela pode deflagrar! 

        Não é preciso ser um especialista para ler uma ficção. Não é preciso ostentar
títulos, apresentar currículos, ou credenciais. A literatura é para todos. Dizendo melhor: é para os corajosos ou, pelo menos, para aqueles que ainda valorizam a coragem. Se você deseja sair de si e experimentar novas possibilidades do existir, então leia. Se deseja correr riscos e perder-se um pouco no instável e no precário, leia. Se você acha a vida insuficiente e deseja o inesperado, leia. Este é o pequeno, mas também precioso, poder da literatura.

         * Este texto é o rascunho que preparei para minha fala na mesa "O poder da literatura", realizada, no mês de abril passado, na Bienal do Livro do Amazonas, em Manaus. Mesa que tive a alegria de dividir com a escritora Carola Saavedra, sob a mediação sempre hábil de Rogéro Pereira.

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