Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 26 de junho de 2017
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Discurso de posse na Academia Brasileira de Letras

Neste momento, em que assumo a honrosa condição de membro da Academia Brasileira de Letras, agradeço a generosidade dos acadêmicos que votaram em apoio de minha candidatura, aceitando-me como seu companheiro nesta Casa, a que já pertenceram e pertencem nomes significativos de nossa literatura e de nossa história cultural.
 
Agradeço particularmente a alguns dos membros atuais que, durante anos, pela amizade que a eles me liga, insistiram incansavelmente para que me candidatasse à ABL, como Eduardo Portella, José Sarney, Antonio Carlos Secchin, Cícero Sandroni, Ana Maria Machado, sem contar os amigos que já se foram, como Antônio Houaiss, Jorge Amado e próprio Ivan Junqueira, a quem tenho a honra – mas não alegria, nestas condições – de substituir. Aproveito a ocasião para pedir-lhes desculpas por tanto ter me esquivado àsua paciente generosidade
 
Mas isso é passado e, como minha vida tem se caracterizado, não pelo previsível, mas pelo inesperado, ao decidir-me pela candidatura a que nunca aspirei, não fiz mais do que agir como sempre agi, ou seja, optar pelo imprevisível. E, por isso mesmo, aqui estou, feliz da vida, uma vez que, aos 84 anos de idade, começo uma nova aventura, tomo um rumo inesperado que a algum lugar desconhecido há de levar-me. Pode alguém se espantar ao me ouvir dizer que posso encontrar o novo nesta Casa, que é o reduto mesmo da tradição. E pode ser que esteja certo. Não obstante, como a vida é inventada,em qualquer lugar e em qualquer momento, algo inesperado pode acontecer. Espero que aconteça, mas que seja uma surpresa boa.
 
Bem, este é o meu discurso de posse que, como manda a tradição, deve falar das personalidades que me antecederam nesta Cadeira – que é a de número 37 – e falar também do respectivo patrono. Neste caso, trata-se de Tomás Antônio Gonzaga, autor do célebre livro Marília de Dirceu, que foi bem recebido pelos leitores da época e se mantém até hoje como uma referência antológica da poesia brasileira.
 
Não diria que foi um grande poeta, mas tampouco enveredou pela falsa retórica e pelos falsos sentimentos. Sua linguagem é despojada, uma poesia de alguém que está de bem com a vida, coisa rara nos poetas, particularmente naquela época.
 
Gonzaga não nasceu no Brasil, mas em Portugal, na cidade do Porto, de pai brasileiro e mãe portuguesa, e morou no Brasil os nove primeiros anos de sua vida. Voltou para Portugal e ali se formou em Direito, retornando ao Brasil, em 1768, onde exerceu o cargo de juiz de fora e, depois, o de Ouvidor de Defuntos, na Comarca de Vila Rica. Ali, enamorou-se de uma jovem de dezesseis anos e de boa família, de quem ficou noivo e estava de casamento marcado, quando foi preso, sob a acusação de ter participado da Inconfidência Mineira. Foi levado para a Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro,onde ficou preso durante três anos e, depois, mandado para o desterro em Moçambique, para cumprir dez anos de pena.
 
Conta a lenda que Gonzaga viveu ali na miséria e, até morrer, penou com saudades do Brasil e de sua amada Marília. Mas não foi nada disso o que ocorreu: Gonzaga se deu muito bem em Moçambique, casou com uma moça rica e, mesmo cumpridos os dez anos de desterro, decidiu continuar ali, onde morreu rico e bem considerado por todos.
 
O fundador desta Cadeira, ou seja, o acadêmico que foi o primeiro a ocupá-la, chamava-se Júlio da Silva Ramos, gramático e filólogo, de consistente formação, diplomado em Coimbra e que, por suas qualidades intelectuais, gozou de grande prestígio no meio cultural de sua época. Foi naturalmente um defensor da língua portuguesa e um precursor na luta pela adoção de uma ortografia simplificada, tese essa que terminou prevalecendo.
 
Essas e outras qualidades de Silva Ramos foram destacadas por José de Alcântara Machado, que o sucedeu na Cadeira 37. Foi ele autor de obras históricas, que contaram com o indiscutível reconhecimento de seus contemporâneos como, por exemplo, Sérgio Milliet, que sublinhou a importância de sua obra Vida e morte do bandeirante, que, segundo ele, terá sido o precursor da nova visão histórica do Brasil, que irá se consolidar nas obras de Capistrano de Abreu e Paulo Prado e, particularmente, em Casa Grande e senzala, de Gilberto Freyre.
 
José de Alcântara Machado será substituído, na Cadeira 37, por Getúlio Vargas, que não foi escritor, mas uma figura de marcante significação na vida política e social brasileira. É sabido de todos que ele governou o Brasil, de 1930 a 1945, período histórico marcado por mudanças e conquistas sociais, como também por sublevações e rebeliões. Esse período coincide, no plano internacional, com a vigência e expansão de regimes ideológicos que pretendiam substituir o regime democrático por outros, autoritários e personalistas, como o regime soviético, implantando na URSS, e o nazifascismo, que surgiu e se enraizou na Alemanha e na Itália.
 
Getúlio Vargas, logo após assumir o governo, teve de enfrentar a revolução paulista de 1932; em seguida, a Intentona Comunista, em 1935, e a tentativa de golpe integralista, dois anos depois. Após essa última rebelião,Vargas implantou o Estado Novo, regime autoritário, que perseguiu, prendeu, torturou e matou muitos de seus adversários políticos. Com a derrota do nazifascismo, em 1945, tornou-se inviável a permanência de Vargas no poder. Ele foi deposto, voltou para sua cidade no Rio Grande do Sul, donde regressaria, cinco anos depois, como candidato à presidência da República. Os políticos – dentre os quais o jornalista Carlos Lacerda e os militares que haviam conspirado para tirá-lo do poder – não toleraram sua volta à vida política, e muito menos ao governo, graças ao voto popular.
 
Pois bem, a campanha promovida para tirar Getúlio Vargas do poder agravou-se radicalmente com o atentado da rua Tonelero, quando Carlos Lacerda levou um tiro no pé e um major da Aeronáutica, que lhe servia de guarda-costas, foi morto. A consequência final da crise nascida aí deu-se numa reunião, na noite do dia 23 de agosto de l954, quando os ministros militares exigiram que Vargas se licenciasse do governo até que o atentado fosse esclarecido. Naverdade, ele estava sendo deposto. Terminada a reunião, Vargas se recolheu a seu quarto ali mesmo no Palácio do Catete e, horas depois, suicidava-se com um tiro no peito.
 
Contarei agora um pequeno fato, sem qualquer importância, mas que foi uma espécie de sinal do que iria ocorrer naquele 24 de agosto de 1954 em todo o país. Eu morava numa pensão de estudantes, situada na rua Buarque de Macedo, que ficava a duas quadras do Palácio do Catete. Embora não fosse um militante político, acompanhava com interesse o desenrolar daquela crise, que tomara conta da vida nacional.
 
Acordei muito cedo, naquele dia, e me dirigi para um café que ficava quase na esquina do Palácio. Da mesa em que me sentei, ouvia a conversa dos outros fregueses que, sem exceção, criticavam Getúlio Vargas, acusando-o de serresponsável pelo atentado da rua Tonelero. Foi quando se ouviu a característica musical do Repórter Esso no rádio que estava na prateleira. O dono do café aumentara o volume do rádio: “O repórter Esso informa em edição especial. O presidente Getúlio Vargas acaba de suicidar-se, em seu quarto, no Palácio do Catete”. Fez-se um momento de silêncio, estavam todos perplexos. Foi quando alguém gritou: “Mataram o velhinho!” Daí a instantes todos gritavam indignados e saíram à rua em direção ao palácio.
 
Esse fato, ocorrido num boteco do Catete, no Rio de Janeiro, se repetiria por todo o país. Dentro de algumas horas, aquela região da cidade estava tomada por uma multidão revoltada. O suicídio de Vargas mudou o rumo que o país tomaria. Ele impediu, com esse gesto, que seus inimigos ocupassem o poder, mantendo, assim, a sobrevida do getulismo, que iria sair de cena com o golpe militar de 1964.
 
Morto Getúlio Vargas, assume a Cadeira 37 o jornalista e empresário Assis Chateaubriand, que marcou a vida nacional por sua capacidade profissional, por seu caráter polêmico e, como empresário, pela vasta rede de jornais, revistas, estações de rádio e de televisão, por ele fundada, e que se estendia por todo o território nacional. É desnecessário acentuar a influência que teve, dispondo de tais meios, na vida política, jornalística e cultural da nação.
 
Assis Chateaubriand era uma personalidade que nada tinha de timidez e modéstia, não apenas nas opiniões que emitia, como nas iniciativas que tomava, às vezes fora de seu campo profissional. Exemplo disso é o Museu de Arte de São Paulo (MASP), por ele criado em 1947. E que se tornou um marco na vida cultural brasileira, particularmente pelo acervo ali reunido, que o situa entre um dos mais importantes museus do mundo.
 
Nesse acervo há obras de mestres como Rafael e Ticiano, de El Greco, Goya e Velásquez, como também de Rembrandt e Franz Halls, Delacroix e Renoir, Manet, Monet e Cézanne, além de Turner, Constable, Gauguin, Van Gogh, Toulouse-Lautrec e Modigliani. Realmente, é quase inacreditável que, àquela altura do século XX, alguém tenha podido formar um acervo de tamanha importância estética e de tal valor econômico.
 
Assis Chateaubriand morreu em 1968 e seu sucessor nesta Cadeira foi o pernambucano João Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas da língua portuguesa. A sua poesia se distingue por qualidades muito particulares e pelo rigor artesanal que a torna uma expressão inconfundível na literatura brasileira. Se no seu primeiro livro, Pedra do sono, ainda não se encontra plenamente presente o poeta que se tornará mais tarde, não obstante, já ali se percebeum modo próprio de lidar com a palavra e com as metáforas.
 
O livro seguinte, O engenheiro, resulta da descoberta que faz da arquitetura de Le Corbusier, caracterizada pela funcionalidade e o rigor formal. Mas é mais tarde, na Psicologia da composição, que ele se entrega à realização do verso “nítido e preciso”, para usar suas próprias palavras:
 
 
 
Cultivar o deserto
 
como um pomar às avessas:
 
então nada mais
 
destila; evapora:
 
onde foi maçã
 
resta uma fome,
 
onde foi palavra
 
(potros ou touros
 
contidos) resta a severa
 
forma do vazio.
 
 
 
O poema seguinte, Antiode, pretende desmistificar a chamada “poesia profunda”:
 
 
 
Poesia, te escrevo
 
agora: fezes, as
 
fezes vivas que és.
 
 
 
Parece inevitável que, depois de formar da poesia essa visão negativa, o poeta tomasse o caminho que tomou: a partir de então, o assunto de seus poemas é a realidade – e frequentemente a realidade pernambucana, com seus rios, seus canaviais e, sobretudo, sua gente pobre, que se confunde com a paisagem nordestina, com as usinas de açúcar, moendo a cana mas também a vida dos que nelas trabalham e cujo destino se confunde com a paisagem devastada pela seca e com os bagaços da cana que as usinas mastigam.
 
No poema Morte e vida severina, de 1954-55, essa visão crítica da realidade social está mais explícita do que em qualquer outro texto anterior do poeta. Mas essa visão crítica vai ressurgir e explicitar-se em várias outras obras suas, como em Dois parlamentos. Deve-se assinalar, porém, que essa preocupação social nunca se tornou exclusiva em sua obra, onde muitos outros temas são versados, mostrando a riqueza temática de sua poesia.
 
Como as senhoras e os senhores devem ter observado, não pretendo realizar aqui uma exegese da obra poética de João Cabral de Melo Neto. Apenas pretendo esboçar o curso que ele imprimiu a seu trabalho de poeta. A análise de sua obra poética já foi realizada com agudeza e competência por vários dos melhores críticos literários do país, entre eles Antonio Carlos Secchin. É unânime a constatação, da parte desses críticos, que esse poeta dava particular atenção à construção do poema, para evitar a fluência espontânea do verso,que era, na sua opinião, a negação da arte poética.
 
Não se deve, porém, confundir essa exigência formal, essa necessidade de realizar o poema como uma elaboração consciente, antiespontânea, com a natureza do conteúdo poético – ou seja, com o que o poema diz. Na verdade, a construção do verso cabralino é racional, mas o que ele diz nem sempre o é, como, por exemplo, no poema Uma faca só lâmina:
 
 
 
Qual uma faca íntima
 
ou faca de uso interno,
 
habitando num corpo
 
como o próprio esqueleto
 
de um homem que tivesse,
 
e sempre, doloroso
 
de homem que se ferisse
 
contra seus próprios ossos
 
 
 
Ao dizer isto, lembro-me de uma visita que fiz ao apartamento de João Cabral, em Barcelona, quando desempenhava a função de cônsul. Ao ver que as paredes de sua sala estavam cobertas de quadros concretistas, isto é, de
 
composições geométricas, disse-lhe em tom de brincadeira:
 
– Oh, João, você podia pôr em sua sala alguma pintura menos fria, menos racional.
 
A que ele respondeu, rindo:
 
– Cara, tenho que pôr ordem em algum lugar, porque na minha cabeça a
 
confusão é total.
 
Parece uma conversa sem importância mas, a meu juízo, não é. O que ele disse, naquele momento, era a pura verdade. Daí a autenticidade de sua postura em face da poesia. Nele, a construção consciente do poema não era apenas uma opção estilística. Era uma necessidade profunda. João Cabral necessitava pôr ordem na matéria contraditória de sua mente de poeta.
 
Parece-me que a riqueza e complexidade dos melhores poemas de João Cabral derivam certamente dessa personalidade rica e complexa que era a sua e que evoluiu para o discurso poético, cada vez mais distante da clareza que marcara os poemas das fases iniciais, em que ele mesmo explicitava a necessidade da elaboração nítida e clara do verso.
 
Em um de seus últimos livros, A educação pela pedra, há numerosos poemas de difícil entendimento e de elaboração formal rebuscada e, por assim dizer,barroca. A propósito disso, numa conversa que mantivemos em seu apartamento,já aqui no Brasil, no bairro do Flamengo, disse-lhe isso: que alguns dos poemas daquele livro me lembravam Góngora. Ele riu e começou a recitar um célebre poema do poeta espanhol:
 
 
 
Era del año la estación florida
 
Quando el mentido robador de Europa...
 
 
 
E eu me juntei a ele, declamando Góngora. Contado assim, até parece mentira, não é mesmo?
 
Cabe-me agora falar de Ivan Junqueira, a quem tenho a honra e a dor de suceder na cadeira 37 desta Casa. Dor por ter sido ele um amigo querido, e honra pelo que significa na literatura brasileira de hoje, como poeta, como tradutor, como crítico literário e ensaísta. Posso garantir-lhes – e isso conforme a releitura de sua obra – que Ivan Junqueira foi um verdadeiro homem de letras e, sobretudo, um grande conhecedor da arte poética e, sobretudo, uma pessoa que tinha, na literatura, o seu verdadeiro universo. Foi ali que ele encontrou os valores que lhe revelaram o sentido da existência.
 
Sua obra de ensaísta abrange o estudo crítico e analítico de importantes escritores, poetas e ficcionistas. Vou aqui me ater a dois estudos críticos, que me parecem exemplares, não só porque se trata de poesia da mais alta
 
No estudo A arte de Baudelaire, Ivan Junqueira não se limita a examinar a arte poética do autor, uma vez que a vincula a certos aspectos biográficos que estariam na origem mesma de sua poesia. Certamente, Ivan não estabeleceuma relação simples, de causa e efeito, entre os elementos biográficos e literários, consciente que era da complexidade da obra poética baudelairiana. De qualquer modo, aqueles fatores biográficos, que mostram o menino problemático que ele foi, como a complicada relação com a mãe, de uma maneira ou de outra, influíram no trabalho literário do poeta.
 
Se o exame desse problema já é, por si, instigante, a revelação da matéria temática inovadora faz desse ensaio um trabalho substancial e revelador do crítico de poesia que foi nosso saudoso companheiro. Como não poderia deixar de fazê-lo, ele naturalmente se refere à natureza inovadora da obra poética de Baudelaire, consagrada por figuras como Paul Valéry, que o considera o fundador da poesia moderna, ao afirmar que, sem sua poesia, Verlaine, Rimbaud e Mallarmé não teriam escrito o que escreveram.
 
Ivan, no final de seu estudo, afirma: “Quase sempre mal lido, mal compreendido e mal traduzido, Baudelaire chega ao Brasil na última década do século XX pelas mãos dos simbolistas. Os parnasianos – à exceção de Bilac, que lhe parafraseou A caldeira – pouca atenção prestaram aos poemas de As flores do mal, que nenhum interesse despertou entre os modernistas”.
 
O outro ensaio de Ivan Junqueira que escolhi para ressaltar suas qualidades de crítico literário intitula-se Eliot e a poesia do fragmento, em que ele nos revela a riqueza poética e a complexidade desse grande escritor anglo-americano. Este estudo crítico difere do anterior sobre a poesia de Baudelaire, não apenas porque se trata, naturalmente, de outro grande poeta, mas também porque Eliot, com sua poética do fragmento, reinventa o poema moderno, incutindo-lhe um novo modo de construí-lo – pela junção inesperada de fragmentos de outros poemas e de outros poetas – mas também pela mestria como os articula para surpreender-nos com uma nova visão de mundo, inusitada e comovente. No entanto, se nos comove, não é fazendo-nos reviver momentos já vividos e, sim, por nos colocar diante do inesperado, ainda que revelador, de nossa humanidade.
 
No propósito de abranger os diversos elementos, sejam estilísticos, sejam referenciais, contidos na obra poética de Eliot, Ivan nos revela desde a influência primeira por ele bebida em Jules Laforgue, como as outras tantas advindas da leitura de Dante, Virgílio, Milton, Heráclito, Pascal, Baudelaire, Mallarmé. Mas observa que Eliot não apenas bebeu neles como, sobretudo, os “eliotizou”, o que se define como um fenômeno único na literatura. Nasce daí o método de construção do poema com fragmentos, que são, na verdade, a memória revivida da leitura e assimilação comovida de textos que a sua vida se integraram. Para um espírito como o de Eliot, essa leitura é, ao mesmo tempo, o resgate da época mudada em palavras. De tudo isso resulta a diversidade de técnicas que distingue a sua poesia, conforme observa Ivan Junqueira.
 
E acentua também a importância do poema longo eliotiano, dos quais alguns se tornaram obras-primas da poesia contemporânea, como A terra arrasada, Os homens ocos e, particularmente, Os quatro quartetos, no seu entender e da maioria dos críticos, o ápice alcançado pelo poeta. Atrevo-me a me associar a eles e evoco um dos momentos mais belos desse poema:
 
 
 
E o tanque inundado pela água solar
 
E os lótus se erguiam, docemente, docemente.
 
A superfície flamejou no coração da luz.
 
E eles, atrás de nós, no tanque refletidos.
 
Passou então uma nuvem e o tanque se apagou.
 
Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de crianças,
 
Excitadamente escondidas, contendo o riso.
 
Vai, vai, vai, disse o pássaro: a espécie humana
 
Não pode suportar tanta realidade.
 
 
 
Juntamente como esse ensaísta e crítico literário, em cujos textos se reconhece um Ivan Junqueira sensível e erudito, com amplo conhecimento da história literária e das obras fundamentais dessa história, conviveu o poeta Ivan Junqueira, em quem a paixão literária deixa de alimentar-se da leitura e descoberta da criação alheia para tornar-se a entrega total à criação própria e inventar seu universo poético. É difícil dizer a qual das duas paixões ele se entregou mais integralmente. Apesar disso, tendo a crer, pelo fato mesmo do que seus poemas nos dizem, que como poeta é que nos mostrava quem verdadeiramente era – ou queria ser – com suas perplexidades e um certo desencanto em face da existência.
 
Se, como ensaísta, buscava ele a compreensão objetiva das questões que analisava, como poeta, às vezes, tentava ultrapassar os limites da lógica e da objetividade. Naturalmente, como acontece com frequência, os poemas iniciais de Ivan refletem a influência de outros poetas mais experientes; neles já se percebe o poeta que está nascendo e que irá percorrer longo e inquieto caminho. Mas, por conhecer tão fundamente as questões envolvidas na criação poética, foi movido muitas vezes a descer a um nível em que o pensar poético põe em questão a compreensão racional da existência.
 
Não se trata, porém, de abordar esses problemas filosoficamente, de enfim tentar explicá-los e compreendê-los, já que a poesia quer ser o inexplicável, a expressão do que espanta e fascina, sem ter explicação. Nesse particular, há uma das fases de poesia de Ivan Junqueira em que o som das rimas sonantes determina a formulação dos versos e do poema, sem qualquer compromisso com o discurso lógico. Assim que, guiado não pela sintaxe mas pela fonética, provoca a superação do discurso e produz uma fala inusitada que se apoia não na lógica da linguagem e, sim, no encadeamento inesperado dos fonemas.
 
Eis um exemplo:
 
 
 
O que se foi nem mesmo o mar apaga
 
porque habita e insufla suas águas
 
contra o marasmo das marés que baixam
 
e sobem mas ao ermo cais não trazem
 
senão mensagens mortas, astrolábios
 
constelações de bocas devoradas
 
esfera armilar, bússolas sem braço
 
neblina, solidão – o itinerário
 
dessa viagem que jamais se acaba
 
 
 
Mas há outros poemas, como a série de sonetos sobre a figura poética de Inês de Castro, em que a tessitura dos versos obedece a uma reinvenção daquela figura histórica, tornada poética pelo gênio de Camões. Devo acrescentar,a esse propósito, que outra característica marcante de sua poesia é a preponderância da temática literária, nascida do convívio constante do poeta com o universo da literatura. Raramente surge em sua produção um poema nascido da experiência cotidiana e, quando isso ocorre, o tema é transfigurado em matéria preponderantemente literária. Neste particular, o poeta Ivan Junqueira se identifica com o ensaísta e o crítico, como, aliás, não podia deixar de ser, uma vez que vivia permanentemente mergulhado no universo fictício da literatura.
 
Não resta dúvida, porém, que a criação poética era a razão fundamental de sua vida de escritor. Tanto assim que, pouco antes de morrer, afirmou que pretendia dedicar o tempo de vida que restasse, exclusivamente, à poesia. Por isso mesmo, talvez, a obra inédita que nos deixou é um livro de poemas, Essa música, escrito de 2009 a 2013.
 
Pois bem, com alguns versos desse livro derradeiro e belo, encerro meu discurso:
 
 
 
Não sou eu quem escreve meu poema:
 
ele é que se escreve e que se pensa
 
............................................................
 
Ele é que se escreve com a pena
 
da memória, do amor e do tormento
 
Discurso de Posse DO s r . ferreira gullar  15
 
de tudo o que aos poucos se relembra:
 
um rosto, uma paisagem ou a intensa
 
pulsação da luz manhã adentro.
 

Muito obrigado. 

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