Conhece-se o trabalho executado por um profissional conhecendo como vê a atividade que exerce. Nessa entrevista, realizada pela jornalista Glínia Cronemberg, o professor Dílson Lages expõe um pouco de suas idéias sobre o universo da sala-de-aula.
Glínia - Que profissional é o professor e por que, na sua opinião, ele exerce um fascínio para com seus alunos?
Prof. Dílson Lages - Conheço muitas pessoas que cursaram licenciatura, mas que não enveredaram pelas trilhas da docência por acharem que o professor é um profissional que se repete o tempo inteiro. Ensinar, para elas, é repetir. Pois penso um pouco diferente; ensinar não se resume a repetir, é sobretudo criar, ativar operações de pensamento, renovar.A criação é, portanto, uma condição básica, penso eu, para o exercício do magistério. Ela é porta aberta para a subjetividade e, por extensão, para a pesquisa, que vai construir educandos autônomos. É ela também, sobre minha ótica, um dos fatores capazes de despertar encantamento sobre os alunos, porque favorece a descoberta da individualidade. Afinal, o ato de ensinar não significa apenas uma atividade racional, é também feito de sensações, de afetividade. Creio que adotar uma postura anti-mecanicista torna-se princípio fundamental para motivar e encantar os alunos.
Glínia - Em quem o Sr. Se espelhou para seguir a carreira?
Prof. Dílson Lages - O professor que existe em mim é um prolongamento do ser que se satisfaz pensando na palavra – nos seus usos, na sua (in)exatidão, no seu som, no seu significado, enfim, nas possibilidades de sentidos. Desde criança – e não vai aqui nem uma intenção de colorir e tornar romântica essa conversa – sou apaixonado por ler – ler é quase tudo; Ziraldo disse certa vez que é mais importante que estudar. Diria, entretanto, a leitura é tão relevante quanto estudar. Foi, pois, descobrindo o real significado da leitura que aprendi a valorizar também o magistério, esse espaço sagrado de diálogo com o homem e tudo que diz respeito a ele. Devo essa descoberta a figura de José de Arimathéa Tito Filho, Precisamente, em minha adolescência. Certa feita, nos meus 14 anos escrevi para ele, comentando uma de suas crônicas publicadas em O dia. Poucos dias depois, recebi retorno da correspondência, na qual o cronista manifestava, modestamente, satisfação pela leitura de seus textos. E procurava estimular-me para o exercício da linguagem escrita. Seguiram-se a essa várias correspondências; todas respondidas sem demora. Numa delas, uma grande surpresa – junto ás cartas costumava enviar alguns fragilíssimos “textos”, pois não é que, certo dia, abro as páginas do jornal e me deparo com construção de minha autoria publicada... Apesar da fragilidade do texto(meu Deus, como era horrível), professor A Tito Filho, na sua bondade, mandara publicar. Desse dia em diante, meus esforços se dobraram, e o Dílson encantado pela leitura se verteu no não menos obstinado pela linguagem – tanto que aos 16 anos estava estudando Letras, não somente por questão de oportunidade, mas também pela grande vontade de conhecer os caminhos da linguagem escrita. Daí, nasceu também o fascínio pelo magistério, fascínio que se acentuou pelos compromissos que abracei junto a escolas de Teresina.
Glínia - Em muitas profissões como a de médico, por exemplo, a satisfação está nos olhos de agradecimento, de admiração do cliente. No seu caso, o cliente tem percepções contraditórias às vezes, porque nem sempre é fácil ensinar ou aprender. Qual sua opinião na visão de professor?
Prof. Dílson Lages - Penso que a satisfação do professor está em ter ensejado respostas e criado indagações. Nesse sentido, educar consiste em algo lúdico e dialético – a muitos caminhos para se chegar a determinado resultado e, às vezes, muitos resultados. A satisfação do professor é a sede do aluno em conhecer.
Glínia - O que o amedronta com relação ao futuro e o que, ao mesmo tempo, o conforta?
Prof. Dílson Lages - Imagine uma porta aberta. Você passa por ela e, de repente, vê-se surpresa com o ambiente – não é o mesmo de outras ocasiões, apesar de a organização física permanecer semelhante à maneira como se organizou nas oportunidades em que lá esteve . Você percebe detalhes nunca vistos antes. É assim que funciona a dinâmica da sala de aula – em cada aula, uma nova aula (mesmo que o conteúdo já tenha sido ministrado em outras salas), de tal maneira que, contraditoriamente, o inesperado amedronta e conforta ao mesmo tempo; habilita o professor a estar permanentemente recomeçando, porque é de seu ofício a sensação de que falta sempre algo..
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Glínia – Como o professor hoje se antepõe a uma realidade cada vez mais recheada de informações e de novidades?
Prof. Dílson Lages - Instrumentalizando-se para lidar com as novas linguagens, sem perder de vista a dimensão humana de seu trabalho. Afonso Romano de Santana, em crônica dirigida aos novos escritores, alerta-os para não caírem no automatismo. Penso que o conselho aplica-se ao professor – é preciso que cumpra sua missão, colocando a alma em cada palavra, em cada gesto, em cada conceito e não se renda a tentação de apenas “passar” conteúdos. Para isso, é necessário levar também a vida para a sala de aula e ensejar a manifestação oral do aluno quando sempre for possível.
Glínia – Como se preparar para uma aula? É meditação, inspiração ou transpiração?
Prof. Dílson Lages - No caso dos que labutam com o texto, o meu caso, se reveste de esforço dobrado, porque o trabalho começa muito antes da aula não somente com a definição de objetivos e conteúdos a partir das orientações dos programas. Começa com a escolha de textos interessantes que, por sua vez, possam dialogar e motivar o aluno a envolver-se com o conteúdo e/ou habilidade que pretende exercitar. E não pára por aí. Textos produzidos pelo aluno, pautados no material levado para a sala, retornam às mãos do professor para serem comentados (corrigidos e avaliados) e, em seguida, vem um novo desafio, a reescritura (desafio também do professor, que deve ter sido capaz de fazer observações suficientes ao aluno dialogar com o escrito, eliminando os problemas por ventura apontados). Portanto, só posso afirmar que é um processo árduo, porque envolve pesquisa e criação. Como se sabe, aquela exige tempo e dedicação, já a criação não ocorre do nada, mas de outras vivências, de outras leituras somadas aos condicionamentos portos pelo e ao professor.
Glínia – Que recursos a aula de hoje exige?
Prof. Dílson Lages - Os recursos não se constituem em essência e, muitas vezes, podem até ser desprezados, exceto em ocasiões especiais em que a distância ou outras limitações impedem a aproximação física; nesse caso, a Internet e as teleconferências são de valor inquestionável.Independente disso, imprescindível mesmo é o professor preparado. Mas o que é um professor preparado? Aquele que pesquisa, que cria, que reavalia frequentemente a prática e, principalmente, que está disposto, com humildade, a aprender sempre
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