Autor de mais de vinte livros, o poeta, romancista, contista e crítico literário Francisco Miguel de Moura, lançou, em 1972, pela Editora Arte Nova, o ensaio Linguagem e comunicação em O G. Rego de carvalho, estudo essencial para se compreender um dos autores fundamentais da literatura piauiense, Orlando Geraldo Rego de Carvalho. autor do clássico Rio Subterrâneo. Hoje, o ensaio é editado pela Editora da UFPI. Nesta entrevista, Francisco Miguel fornece informações relevantes ao que pretendem mergulhar na instigante ficção de O G.
Dílson Lages – O senhor escreveu, citando Fausto Cunha, que considerava O G. Rego de Carvalho um daqueles cinqüenta romancistas brasileiros em produção, com um acervo considerável, mas sem crítica. Podemos dizer hoje que o autor de Rio Subterrâneo ainda não recebeu, por parte da crítica especializada, a atenção que realmente merece?
Francisco Miguel de Moura - Podemos dizer sim, porque O G. Rego de Carvalho é um autor que já devia ter sido traduzido para duas ou três línguas, para o francês, o inglês e o espanhol. Na verdade, O G. Rego de Carvalho, hoje, se circunscreve aos leitores do Piauí, e aos de alguns estados aqui mais próximos, como o Maranhão, o Ceará e o Pernambuco, porque as edições são limitadas. São edições custeadas no Piauí. Mas ele já foi editado, na época da edição de Linguagem e Comunicação em O G. Rego de Carvalho, pela Editora Civilização, que era na época uma editora famosa, depois saiu de circulação (voltou agora, mas sob uma nova direção), de forma que a editora do Rio, já não mais o reeditou e nem outra editora, somente a Editora Corisco, aqui de Teresina. Assim, a crítica que temos de O G. Rego de Carvalho continua sendo aquela crítica dos anos 70 e um pouco dos anos 80.A restante crítica que tem aparecido é composta de alguns ensaios acadêmicos de professores que fazem mestrados e doutorados e escolhem O G. Rego de Carvalho como seu autor predileto.
Dílson Lages – Quais são na sua análise as principais características da prosa de O G. Rego de Carvalho?
Francisco Miguel de Moura – A primeira característica é que é uma prosa limpa, séria e tem aquele toque do estilista, porque O G. Rego de Carvalho é sobretudo um estilista. Ele trabalha até a exaustão, trabalha todos os seus escritos até chegar a um ponto limite em que não é mais possível trabalhar. Eu consideraria, então, O G. Rego de Carvalho o maior estilista da língua portuguesa na atualidade. Não podemos desconhecer o trabalho estilístico de Eça de Queiroz (foi excelente), mas Eça de Queiroz é um estilista da Era Clássica; O G. Rego de Carvalho é um estilista da língua portuguesa da Era Moderna.
Dílson Lages – O senhor escreveu que o romance de O G. Rego de Carvalho é um romance "de personagem e tem como base a própria concepção de arte" do referido autor. Gostaria que o senhor esclarecesse esse ponto de vista.
Francisco Miguel de Moura – Pelos meus conhecimentos da teoria do romance, que usei na época em que escrevi Linguagem e Comunicação em O G. Rego de Carvalho, eu citava muito Fosters (um teórico do romance, um romancista inglês). Ele classificou o romance em dois tipos, como romances de personagem e romances de enredo, de história, em que sobressai mais o enredo, a história, do que o personagem e, nesse caso, eu classifiquei O G. Rego de Carvalho no romance de personagem. Por quê? Por que ele se aprofunda no personagem, nos personagens. O personagem principal de Rio Subterrâneo é Lucínio, E Lucínio é se não o alter ego de O G. Rego de Carvalho, é o personagem principal e o que mais se identifica com o autor. Eu não diria que é um alter ego, porque seria um pouco menor essa classificação, porque, geralmente, se dá essa classificação naqueles romances em que o enredo, os personagens são mostrados de uma forma menos profunda, linear, digamos assim, e no caso da ficção de O G. Rego de Carvalho, os personagens, até os menores, são redondos, redondos no sentido em que eles nunca param de viver, de sentir e de mostrar faces desconhecidas e de até esconder a face mais profunda. Esses são traços de personagens de O G. Rego de Carvalho em Rio Subterrâneo e, por isto, é um romance de personagem certamente. Naturalmente, que ele não enfoca, quer dizer, não é criando tipos, não é o romance que cria tipos, cria símbolos, é diferente.
Dílson Lages – Nesse ensaio que o senhor escreveu sobre a obra de O G. Rego de Carvalho, o senhor declara que há em Rio Subterrâneo um contraste entre temas e linguagem. Percebe-se, segundo suas palavras, "uma problemática de desespero, medo, incompreensões, casos patológicos", mas O G. Rego de Carvalho os revela em um "estilo doce, musical, leve". Por que, então, o escritor, optou por uma linguagem dessa natureza, tendo em vista o tipo de conteúdo de Rio Subterrâneo?
Francisco Miguel de Moura – Isso aí é explicável psicologicamente. Aliás, eu li recentemente um artigo do Artur da Távola, que é psicólogo, se ele não é, mas é um grande conhecedor da psicologia, escreve umas crônicas interessantíssimas, que normalmente a pessoa procura aquilo que é. Então, o que O G. Rego de Carvalho é? Ele é uma pessoa boníssima, uma pessoa espetacular, e, naturalmente, pessoa muito boa, e na sua escrita procurou colocar toda a sua entranha. Em Rio Subterrâneo, principalmente. Eu dizia no meu artigo que saiu ontem no Diário do Povo, intitulado Por que você escreve, que quando escrevemos, escolhemos dois caminhos: um caminho é o outro, o não se voltar a si, o não-eu, o de fora; o outro caminho é conhecer a si mesmo. E nesta direção é que O G. Rego de Carvalho se encontrou enquanto escritor, ou seja, procurando dentro de si, e não dentro de uma história e não numa história, o conhecimento do outro, da loucura, do amor, do sofrimento e da morte – pelo menos em teoria, porque a morte só se conhece, feliz ou infelizmente, na própria morte (risos). Então, o que O G. Rego de Carvalho fez? Na minha concepção, quando escrevi Linguagem e Comunicação em O G. Rego de Carvalho, este contraste era justamente para anular o sofrimento interior dele, de quando se escavava interiormente para escrever Rio Subterrâneo. Então, para anular – anular é maneira de dizer – para minimizar, minorar aquela dor de todo escritor, principalmente o seu eu, ele procurou resolver esse contraste com uma linguagem muito suave, muito doce; além de já ter a tradição da leitura profunda, desde a juventude, de estilistas como José de Alencar, como Eça de Queiroz, como Machado de Assis e outros grandes estilistas e escritores da literatura brasileira e mundial. É um grande leitor O G. Rego de Carvalho. Então, ele enveredou por este caminho e este contraste acho que deu realmente força e vigor a sua ficção.
Dílson Lages – Na sua análise, escritor, que visão O. G. Rego projeta sobre a loucura, o amor e a morte, temas principais de Rio Subterrâneo?
Francisco Miguel de Moura – Os temas principais são esses mesmo. Claro que aparecem outros variantes, mas esses são os temas principais de todo os grandes romances. O amor e a morte, todo romance sério eles têm que aparecer. A loucura, esse é que é o tema específico de Rio Subterrâneo. Sobre a morte, a visão de O G. Rego de Carvalho é uma visão realista e, por incrível que pareça, acho que é uma visão otimista também, porque O G. Rego de Carvalho é católico, católico praticante, um homem de fé e ele projeta isto. Agora, com relação ao amor, é bastante pessimista. Com relação à loucura, ele como que pede socorro. Coloca este problema que até então, quando ele escreveu, era bastante desprezado no Brasil, que é o problema da loucura. Hoje, com os avanços da medicina, com os avanços das ciências sociais, já há um pouco de melhora, mas O G. Rego chamou a atenção para esse problema, e esse problema continua: loucos, temos tantos por aí, não mais loucos de correntes; essa não é mais a maneira de tratar a loucura . Os problemas da saúde mental não são mais aqueles de antigamente, mas são os problemas que O G. Rego de Carvalho sentiu na infância em Oeiras, no interior do Piauí, e que sentiu também quando chegou em Teresina. Aqui, só muito depois chegou um médico chamado Clidenor de Freitas Santos, que mandaria tirar as correntes dos pés e das mãos dos loucos no Hospital de alienados, naquele tempo se chamava Hospital de Alienados... Então, houve uma melhora muito grande com relação à loucura na visão do Estado e da humanidade, mas O G. Rego de Carvalho foi esse grito, essa grande obra Rio Subterrâneo foi esse grito. Essa visão não é uma visão pessimista, é uma visão muito boa, mas é uma visão desesperada do problema. E acho que ele tinha razão, porque sofreu inclusive na própria carne.
Dílson Lages – Em Rio Subterrâneo, O G. escreve: "Teresina é uma cidade nova, enquanto Oeiras se ressente de vida: flores murchas num túmulo" Que leitura o senhor faz sobre Oeiras e Teresina presentes no livro?
Francisco Miguel de Moura – É exatamente aquela visão de quando ele escreveu – seus livros são da década de 50, 60; 60 especialmente. Então, qual a visão de O G. Rego de Carvalho sobre Oeiras? É a visão de Oeiras da sua infância. Olhe, qual a visão de O G. sobre Teresina? É a visão de sua adolescência, quando ele chegou em Teresina para estudar, acho que transferido para morar mesmo. Isso é marcante na obra de qualquer escritor. O que é marcante na obra de qualquer escritor é a infância. A infância não existe objetivamente. Ela existe idealmente. Isso porque ela é uma idéia. Daí porque não existe literatura efetivamente infantil, ou seja, escrita por criança. Quando ela escreve, essa criança já está se projetando um adulto. A infância é a origem do ser, é onde ele se forma, daí que não pode ser considerada objetivamente na literatura. Pode ser considerada ideal. Então, Oeiras de O G. Rego de Carvalho, em Rio Subterrâneo também, nos observamos esses contrastes, é próprio da natureza humana agir através dos contrastes. Por quê? Porque só há duas formas de conhecimento assim estabelecidas: ou pela semelhança, ou pelo contraste. Então, no caso dos conflitos, tem que haver contrastes; todo romance é conflito, O G. Rego de carvalho mais conflito ainda, porque o conflito da loucura consciente.
Dílson Lages – É notório a quem lê Rio Subterrâneo que as ações ocupam um plano secundário na obra. No primeiro degrau, está o fluxo da consciência das personagens (os conflitos interiores expostos). E, apesar de Rio Subterrâneo não ser um romance de história, há um fato curioso no "enredo" – particularmente quanto ao desfecho de Lucínio e Helena. A professora Maria Figueiredo Reis, organizando as seqüências narrativas da obra, afirma que Lucínio e Helena se casam (isto estaria evidente na terceira parte da obra) O senhor concorda que Lucínio e Helena se casam ou o desfecho deles fica em aberto, sujeito a várias leituras?
Francisco Miguel de Moura – A minha leitura de Rio Subterrâneo não foi essa da Maria Figueiredo. Mas eu posso até concordar com ela em parte. Por quê? Porque segundo o próprio autor O G. Rego de Carvalho, Rio Subterrâneo é uma noite, uma noite que pode se prolongar por várias noites. É uma noite, uma noite de conflitos, uma noite de sonhos e pesadelos, os mais diversos, e a interpretação da professora Maria Figueiredo de que Helena e Lucínio se casam é possível. Mesmo em sonho, eles podem ter-se casado. Não foi essa a minha leitura. A minha leitura foi mais objetiva, mais comparativa, mais, digamos assim, ao pé da letra. Quero dizer: foi uma busca de como ele tecia a frase, de como ele tecia o personagem, uma coisa assim mais próxima do concreto, mas o leitor pode fazer essas suposições. Eu acredito. Por exemplo, em Machado de Assis temos aquela história de Capitu e Bentinho – se Capitu traiu ou não Bentinho. Há leitores que acham que sim; há leitores que acham que não; aquilo foi apenas coisa psicológica. Isso faz parte do romance moderno. O romance de O G. Rego de Carvalho é um romance moderno, de personagem, O fluxo das ações dos personagens se intercruzam com o fluxo do pensamento de forma tal que não se sabe ou é muito difícil de se saber o que é pensamento e o que é ação no intercurso do romance. Joyce, que foi digamos assim o inventor do romance moderno, foi quem criou essa história de fluxo do pensamento. E O G. Rego de Carvalho tem muito essa lição Clássica de Joyce.
Dílson Lages – Há em Rio Subterrâneo muitas passagens oníricas. Qual a importância do sonho nessa obra, escritor?
Francisco Miguel de Moura – Acho que a importância é toda. Há um capítulo lá, passeio a Timon, em que, como nós falávamos quando conversamos um dia desses, é uma montagem, mas o romance moderno é montagem; o romance moderno ganhou muito do cinema. O romance Rio Subterrâneo não foi editado da maneira como foi escrito a primeira vez, ele fez várias montagens, montagens que são para fazer diversos contrastes, acordar o leitor daquela leitura comum, antiga, de começo, meio e fim; para fazer com que o leitor pense mais e sinta mais. Então, o sonho tem toda a importância. Há um suicídio no romance Rio subterrâneo, o suicídio de Benoni, que é outro símbolo – aliás Benoni existiu com esse mesmo nome e se suicidou – como que houvesse uma premonição de que haveria de se suicidar. O Passeio a Timon, que antes era um conto, O G. Rego de Carvalho adaptou, reescreveu, colocando como se aquilo fosse uma premonição do que iria acontecer com alguém. E há como que uma espécie de premonição de suicídio em Passeio a Timon; E esse suicídio está no livro. Isso é comum na técnica do romance moderno.
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