Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 01 de maio de 2017
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Zito Batista

AMOSTRAGEM

O Carnaval

 

Põe a máscara e vai para a folia,

Na afetação de uns gestos singulares,

Esquecido dos íntimos pesares

Que te atormentam todo santo dia ...

 

Homem doente, perdido nesses mares

Tenebrosos da dúvida sombria,

Vê que há lá fora um frêmito de orgia,

Mesmo através das coisas mais vulgares!

 

Põe-te a cantar, desabaladamente!

Vai para a rua aos trambolhões, às tontas,

Como se enlouquecesse de repente ...

 

Agarra-te à alegria passageira:

Olha que o que te espera, ao fim de contas,

É o triste Carnaval da vida inteira ...

 

 

Monólogo de um Cego

 

Falaram-me do sol! Maravilhoso sol

Refulgindo na altura ...

Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol

Imenso e inacessível

Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!. ..

E — eterna desventura —

Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível

Não rasga o negro véu de minha noite espessa

Quando brilha na altura?

 

Falaram-me das florestas e das aves!

Das aves, cujo canto

Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves

De vaga nostalgia ...

Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!

Soberbo o meu encanto!

Se eu pudesse aclarar ã minha noite sombria,

Quando ouvisse enlevado em delírios e festas

Num soberbo canto 

Todo poema de amor das aves nas florestas!

 

E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?

O mar é um rebelado!

Que vive noite e dia "em soluços gemendo

         De cólera incontida,

A investir contra o céu como um tigre esfaimado!

É lindo o mar no seu desespero tremendo!

Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos

E escuto alucinado

A música fatal dos seus grandes gemidos!

Há toda uma história enorme a interpretar

Nesse choro convulsivo e incessante do mar ...

 

Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte

Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!

Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,

A escuridão sem fim ...

Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.

 

E falam-me do céu, das aves e das flores;

E dizem que o mundo é um paraíso, assim,

Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!

E eu creio! Eu creio em tudo ...

Os homens têm razão! eu creio e desejara

Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara

Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo

A brilhar!... a brilhar ...

 

Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito

É outro, um outro ainda: o que me faz chorar

E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito

Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,

É a ânsia indefinida, o desejo profundo

De conhecer o que há de mais original no mundo,

De conhecer a mim mesmo!

 

Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime

Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.

Na eterna expiação do mais nefando crime

Atado ao poste real de minha dor enorme!...

 

 

(Harmonia Dolorosa, 1924) 



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