Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 25 de maio de 2017
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Oton Lustosa

Oton Lustosa BIOGRAFIA

 Nome completo: OTON MÁRIO JOSÉ LUSTOSA TORRES. Natural de Parnaguá, pequena cidade do extremo sul do Piauí. Nasceu a 6 de agosto de 1957.  Filho de Otacílio Torres de Sousa e de Maria de Nazaré Lustosa Nogueira. Esposa: Lindaurinha. Filhos: Heitor, Aymée e Sybylla. 
 Órfão de mãe aos quatro anos de idade. Viveu a infância e parte da  sua adolescência no campo (lugar Fazenda do Meio, município de Parnaguá).  Não decepcionou o pai extremoso, cheio de esperança: saiu-se bem nos estudos primários e secundários, subiu à universidade, cursou Direito. Bacharelou-se e após exame na OAB, no qual obteve o primeiro lugar, formou-se advogado. Por concurso público no qual obteve o primeiro lugar, fez-se julgador. Exerceu a judicatura nas seguintes comarcas: Itaueira, Regeneração, Simplício Mendes, Oeiras e Parnaíba. Desde 2002, é juiz de direito titular da 2a. vara de família e sucessões de Teresina.  Escritor. Sócio do Instituto Histórico de Oeiras(PI);  Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba(PI); Instituto dos Magistrados Brasileiros(IMB); União Brasileira de Escritores(UBE-PI); Associação Nacional de Escritores(ANE); Membro da Academia Piauiense de Letras Jurídicas (cadeira 14); Academia da Magistratura do Piauí (cadeira 35); Academia Piauiense de Letras (cadeira 5, sucessor de J. Miguel de Matos). Cidadão honorário de Regeneração, Isaías Coelho, Simplício Mendes, Oeiras e Parnaíba. Mestre instalado da Grande Loja Maçônica do Piauí. Publicou as seguintes obras jurídicas: Petições e Sentenças (duas edições - 1988 e 1989);  Ações Possessórias (1990);  Da Propriedade Imóvel (1996). Tem vários artigos jurídicos publicados em revistas, jornais e na Internet.  Desde cedo, ainda adolescente, alimentava tendências literárias.  Declamava poesias nas festas de 7 de Setembro, realizadas pelos colégios São José e Instituto Batista, na cidade de Corrente(PI), onde estudou.  Ainda secundarista, escreveu uma novela rural e um romance urbano, que permaneceram inéditos e já se perderam.  Finalmente, em 1999, estreou com Meia-vida, romance urbano, que focaliza uma capital nordestina(Teresina-PI) e lhe mostra as entranhas sociais e sociológicas.   
 Em 2000, publicou O Pescador de Personagens, que reúne doze contos e tem como personagem central um certo juiz de direito fictício dr. Dionísio Trajano de Mendonça Abreu.
 Em 2003, numa edição da Editora da UFPI em parceria com a Academia Piauiense de Letras, publicou Vozes da Ribanceira, romance social urbano, com 261 páginas, uma narrativa que transfigura a realidade da vida do povo do bairro Poti Velho, em Teresina(PI), no final da década de 70 e início da década de 80. Este último romance, mais do que as obras anteriores do autor, tem recebido inúmeras opiniões de leitores e críticos, tendo sido objeto de estudo por duas turmas (2004 e 2005) do Curso de Letras/Português da Universidade Federal do Piauí.
 Co-autor de Apontamentos para a história cultural do Piauí (organização de R. N. Monteiro de Santana, FUNDAPI, 2003). Incluído em Contistas do Piauí, com o conto Duas bolas, na edição de nº 35 da Revista da Literatura Brasileira (organização de Aluysio Mendonça Sampaio, SP, 2005). Tem crônicas e ensaios publicados em jornais e revistas. Integra a atual diretoria da Academia Piauiense de Letras (biênio 2004/2005).



FORTUNA CRÍTICA

Senhor OTON LUSTOSA, sede bem-vindo à Academia!” (Discurso de Recepção do Acadêmico M. PAULO NUNES* ao novel Acadêmico OTON LUSTOSA, em solenidade de posse na Cadeira n° 5 da Academia Piauiense de Letras, realizada em 5.4.2001, no auditório Wilson Brandão da APL). Senhoras e Senhores: Em meu último livro dado à estampa, há um capítulo dedicado às aproximações espirituais, aquelas a que nos levam os contactos com autores de nossa preferência, pessoas de nossa amizade ou ainda com livros de nossa predileção, ao qual denominamos – numa homenagem a GOETHE – de As Afinidades Eletivas. “Em suas conversações com Eckermann – digo eu ali – que resultaram na famosa obra Conversações com Goethe, publicada por aquele, em 1837, o genial poeta alemão revela o seu acentuado interesse pelas novas tendências literárias e o seu ideal de uma comunidade literária de todas as nações, na qual se reuniriam espíritos com as mesmas afinidades, em matéria de sensibilidade e gosto literário. Não seria o caso de denomina-la pela expressão tomada de empréstimo ao título de um dos mais apaixonantes romances – As Afinidades Eletivas -, embora este trate de coisa bem diversa, ou seja, da análise psicológica de um caso de adultério?” Para concluir: “Acho que são essas afinidades eletivas que nos fazem aproximar-nos pela lembrança das figuras que de certa forma se associaram à nossa vivência literária e participam, como nos diz o poeta CARLOS NEJAR, desse sentimento que congrega os que são de uma mesma tribo errante, com a pátria no coração da linguagem”. (Modernismo & Vanguarda – Nova Série, pp. 210-11). Ao que bem me lembro, senhor OTON LUSTOSA, foi esta a forma de nossa aproximação ou o início dessa afinidade espiritual, com a pátria no coração da linguagem, que passamos a ter, quando retornei a esta querida terra, depois de ausente dela por mais de duas décadas, para continuar a convivência com velhos amigos, alguns apenas presentes na lembrança, pois que já estudam a geologia dos campos santos, como diria o Bruxo de Cosme Velho, ao aposentar-me no Serviço Público efetivo, embora continue minhas atividades funcionais sob novas formas, quais as que se realizam na esfera específica da cultura. Contarei como o fato se deu. Já no início da minha serventia na presidência desta Casa, em substituição ao preclaro e inolvidável presidente ARIMATHÉA TITO FILHO, manuseando um dia a vasta correspondência que diariamente chega à Academia, deparei-me com uma carta de pessoa por mim ainda desconhecida, escrita em linguagem escorreita, manifestando acentuada preocupação com o fenômeno literário e dizendo-me, entre outras coisas, ter sido juiz de direito de minha terra, da qual ostentava, com orgulho, o título de cidadão honorário. Tratava-se do então juiz de direito de Simplício Mendes, OTON LUSTOSA. Ao responder-lhe, com a maior presteza, aquela agradável missiva, em tudo diferente das outras, convidei-o a visitar nossa Academia, quando viesse à Capital, visita esta que se verificaria pouco tempo depois. Datam daí, senhor OTON LUSTOSA, nossas afinidades eletivas, para continuarmos usando a linguagem goethiana. Depois tomaria eu conhecimento com a obra literária do recipiendário, inicialmente com a obra jurídica, pela qual começaria suas atividades de autor, depois pelos livros de ficção, que integram seu acervo bibliográfico e constituem, já agora, sua preocupação obsedante. Em nossos rápidos encontros em Teresina e em nossas conversas literárias, que estas são infindáveis, quando as pessoas se envolvem com literatura, dizia-me sempre o neo-acadêmico que tinha idéia de escrever romances, o que achei, na ocasião, um tanto despropositado. Lembro-me, a propósito, da fala de um dos personagens desse saboroso livro de contos, que vem em último lugar em sua produção literária – O Pescador de Personagens - tão bem recebido pela crítica autorizada, que assim se manifesta, em relação à figura central da trama de todos aqueles contos, o juiz de direito Dionísio Trajano de Mendonça Abreu, uma espécie de alter ego do autor: “Dr. Dionísio defende pontos de vista e prova-os. É juiz correto e bom. Conhece as leis e o Direito. Tem livros jurídicos publicados, escreve nas revistas especializadas de doutrina.” “A literatura é que lhe estraga tudo... – diz, em suspiros, o Dr. Fredinho, candidato derrotado na campanha para prefeito de Pereira da Rocha.” ( ob. cit. p. 41). Eis aí o homem. Um dia recebo, com outra carta do recipiendário, como anteriormente prometera, já como juiz de Parnaíba, depois de haver passado pela comarca da velha Capital, Oeiras, alguns capítulos de um romance, de forte sabor humano, que seria o romance Meia-vida, publicado em 1999, e recebido com os maiores elogios da critica literária, daqui e de fora do Estado. Comecemos por sua obra jurídica, pela qual teve início sua atividade intelectual. Escreveu ele um livro de caráter doutrinário – Da Propriedade Imóvel – aquisição, perda, meios de defesa (Livraria Editora Universitária de Direito Ltda. LEUD, São Paulo, 1996), e dois outros, de caráter prático, destinados a orientar os que buscam o ofício judicante – Petições & Sentenças (JULEX, São Paulo, 1988-1989), já em segunda edição; e Ações Possessórias (LEUD, São Paulo, 1991), este também estribado na melhor doutrina jurídica. O seu livro Da Propriedade Imóvel é um verdadeiro tratado sobre o instituto da propriedade no Direito brasileiro. Recenseando sua remota origem, desde as Ordenações do antigo Direito português, acompanha sua evolução e suas transformações em nosso Direito. Parindo das sesmarias, fundamento das capitanias hereditárias, fonte de toda a injustiça social do nosso Direito Positivo, consolidado com o já rançoso Código Civil, que um código de proprietários, chega aos dias atuais e ao processo da chamada legislação extravagante que o tem subsidiado, fruto de decisões criteriosas que emanam das sentenças de juízes com visão prospectiva como a do já citado juiz Dionísio, êmulo de OTON LUSTOSA, que teve a coragem de ditar uma sentença expropriatória de um terreno, embora contra a paróquia de Pereira da Rocha e em favor de um miserável – Chico Preá -, que lhe detinha a posse incontestável, como está em um de seus contos, no livro já mencionado. Não lhe falta neste livro doutrinário e também prático a visão social da propriedade ao afirmar ali: “Vimos que a propriedade evoluiu do coletivo para o individual. É verdade: houve tempo em que o caráter individual e absoluto da propriedade era o traço que mais a identificava. Entretanto, podemos dizer que este aspecto absolutista da propriedade tende a esmaecer. O proprietário não mais pode tudo e não mais pode sempre sobre a coisa. Em verdade, nesse sentido de tudo poder sobre a coisa, pelo menos entre nós, o direito de propriedade nunca foi absoluto. Restrições à propriedade sempre houve... etc.” (Ob. cit., p. 17). Também inclui o autor neste seu livro, que eu chamaria de Tratado sobre a Propriedade, tal a amplitude de seu estudo, os meios de defesa da propriedade imóvel, com as diferentes ações através das quais ela pode ser assegurada ao seu detentor, objeto do capítulo III e dos subseqüentes, até o final da obra. Como não sou jurista, mas apenas bacharel formado e só venho estudando ultimamente o nosso Direito no contexto das demais instituições que compõem o tecido de nossa vida social, justamente para criticá-las, no que têm de injusto e perverso, darei a palavra aqui a um dos nossos grandes juristas, CELSO BARROS, que à sua formação weberiana alia uma visão prospectiva do Direito brasileiro, como relator que foi, no Parlamento Nacional, de um dos capítulos do novo Código Civil que há uns vinte anos ali transita, o que representa o poder de nossas elites conservadoras e egoístas contra qualquer atitude que implique na perda de seus privilégios imemoriais de classe ou de casta. Assim ele se manifesta sobre este livro no novel acadêmico: “O livro do Dr. OTON, orientado mais para a solução de problemas do que para a exposição de doutrinas, teve a preocupação de oferecer um quadro em que tais problemas se situam na área forense e bem ao alcance dos que se iniciam no estudo da matéria. Nem por isso deixa de ser rico em investigações teóricas indispensáveis à compreensão do conteúdo da propriedade e da posse.” (Correio do Piauí, 02.4.1996). E mais: “Como juiz de direito de comarca do interior do Estado do Piauí, dedicado ao exame de casos concretos, à luz da compreensão dos problemas que a propriedade encerra em sua ampla variedade, soube o autor levar a cabo um trabalho de estrutura eminentemente prática e que, por isso mesmo, oferece excelente adminículo aos estudiosos desse ramo do Direito Civil, mormente aos alunos de nossas escolas e advogados.” (Idem). E passemos à parte literária na obra do recipiendário. Já falei na gênese de seu romance Meia-vida, um painel da vida de nossa Capital, tendo como cenário o mercado de trocas do chamado Troca-troca, localizado em um trecho da avenida Maranhão. Dali partem todas as ações e por ali perpassam os personagens da trama novelesca, os quais incursionam pelos velhos cabarés da rua Paissandu ou do Morro do Querosene. Das duas vertentes do romance brasileiro, a do romance-espetáculo, de ALENCAR e a do romance-problema, de MACHADO DE ASSIS – a que neste auditório há pouco já aludi - e cuja presença, em nossa romancística, se acentua, ora mais, ora menos, dependendo às vezes da complexidade dos personagens, OTON LUSTOSA segue deliberadamente a primeira, a do romance social, na linha da romancística inaugurada, a partir de 1930, com a geração representada por JORGE AMADO, GRACILIANO RAMOS, este filiado à segunda das tendências antes apontadas, de RACHEL DE QUEIROZ, AMANDO FONTES, JOSÉ LINS DO REGO e outros mais. Como romancista de temas piauienses ou de nossa Capital, segue a trilha aberta por ABDIAS NEVES, com Um Manicaca, agora recém-descoberto e estudado em nossas Universidades, e conta ainda com continuadores como FONTES IBIAPINA, SALOMÃO CHAIB e, leas but no least, O . G. REGO DE CARVALHO. Não me lembro de outros mais, ou pelo menos não os conheço. Uma particularidade verificada neste romance, obra seminal de outras que já estão a caminho, é a do herói fracassado ou do anti-herói, que está presente em nossa moderna romancística. Está ela contida no romance inaugural desta fase, A Bagaceira, de JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA, na figura de Lúcio, que fracassa no seu empenho para preservar o amor de Soledade, seduzida pelo pai herói, Dagoberto Marçau; no Carlos de Melo, da saga dos romances do ciclo da cana-de-açúcar – Menino de Engenho, Doidinho e Bangüê, de JOSÉ LINS DO REGO; e no personagem agônico de Angústia, de GRACILIANO RAMOS, um dos mais densos romances da ficção brasileira e universal, Luís da Silva. Mas, de onde vem afinal a inspiração do anti-herói de nossa ficção? Acho que essa tendência se radica ainda no velho MACHADO DE ASSIS, em suas obras seminais da segunda fase, que se abre com Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881 e depois continuada por Quincas Borba e Dom Casmurro. Que seria Brás Cubas, não obstante a posse há muito desejada de Virgília, senão um fracassado, um indivíduo que se tem na conta de superior, mas não chega sequer a exercer o ambicionado cargo de secretário de província, porquanto a presidência que seria atribuída ao marido de sua amante, nunca sairia e vive ele, até o fim de seus dias, até o delírio final, uma vida inútil de dissipações e tédio? E que seria Bentinho, senão um fracassado, em seu amor por Capitu, o amor de toda a sua vida, que supostamente o trai com o seu melhor amigo, Escobar? E Rubião, em sua paixão obsedante pela mulher do Palha, a divina Sofia, paixão que o leva à loucura e à decadência moral? Acho que este filão vem daí, embora nunca tenha encontrado essa opinião em nenhum dos nossos críticos literários. OTON LUSTOSA, em sua novelística, segue esta linha e está assim em muito boa companhia. Santino, seu anti-herói, não se realiza, e fica, como Bentinho, a meio caminho, entre a sedução da mulher amada e a dúvida atroz de uma suposta infidelidade sua. Mas, não apenas o personagem ora citado se constitui numa figura de anti-herói, mas heróis fracassados são todas as almas que transitam por este impressionante afresco da vida cotidiana de nossa Capital, dessas criaturas sofridas e miseráveis, parias desamparados de uma vida sem horizontes, mas pelos quais o autor nutre uma profunda simpatia humana. CUNHA E SILVA FILHO, professor universitário e crítico dos mais argutos, em um estudo exaustivo sobre o livro inaugural deste autor que comentamos, foi quem melhor destacou as qualidades mestras do novel acadêmico, na técnica da ficção novelesca: “Duas qualidades vejo, antes de tudo, no estreante OTON LUSTOSA: o domínio na manipulação da trama, do plot, e a capacidade de criar personagens, alguns dos quais, pela força dramática de construção, de certo permanecerão em nossa memória de leitor: Zezão, Belim e Maria de Fátima são bons exemplos de personagens convincentes e que têm vida própria. A outra qualidade diz respeito à visão social que o ficcionista parece desejar transmitir como elemento-chave de sua literatura e aqui, de certa forma, se nos impõe um impasse para a classificação dessa obra que reuniria traços de romance de costumes, de romance político e de romance social. Nele se divisam tipos diversos do ambiente social, o engraxate, a prostituta, o vagabundo, o camelô, o feirante, o político, o delegado, o estudante, o marginal, o viciado, enfim, uma gama imensa de tipos sociais que nos vão permitir uma radiografia de um período determinado da vida social de Teresina, a década de oitenta.” (Os Anti-heróis de OTON LUSTOSA – in Jornal Meio Norte, etc.). Porém não abusemos mais da análise espectral dessa obra, porque assim estaremos incorrendo naquele pecado sobre o qual nos exorcisa veementemente MARIO VARGAS LLOSA, em seu último livro de ensaios – Cartas a um Novelista (Ariel, Barcelona, 1997): “Y es que la ‘tecnica’, la ‘forma’, el ‘discurso’, el ‘texto’, o como quiera llamárse-le – los pedantes han inventado numerosoas denominaciones para algo que cualquer lector identifica sin el menor problema – es un todo irrompible, en el que separar el tema, el estilo, el orden, los puntos de vista etcétera, equivale a realizar una disección en un cuerpo viviente. El resultado es, siempre, aun en los mejores casos, una forma de homicidio. Y un cadáver es una pálida y tramposa reminiscencia del ser vivo, en movimiento y plena creatividad, no invadido por la rigidez ni indefenso ante el avance de los gusanos.” (Ob. cit., pp. 187-88). Leiamos o livro e fruamos o gosto da leitura de um bom texto, igual a quantos em nossa moderna literatura têm sido capazes de criar arte perfeita, utilizando um material tão pobre como este, seguindo de perto a lição do velho GRACILIANO RAMOS, ao criar, no dizer de um crítico – CASSIANO NUNES -, a sua arte pobre, que resultou em grandes livros, como que enriqueceu, de forma definitiva, nosso patrimônio cultural. Passemos a seu livro de contos, já aqui anteriormente referido, O Pescador de Personagens. Das duas formas de contos existentes na literatura – a do conto-história, como começo, meio e fim, à maneira de MAUPASSANT e entre nós, de MACHADO DE ASSIS, ou do chamado conto psicológico, criado por KATHERINE MANSFIELD e TCHEKHOV, OTON LUSTOSA opta pela segunda, pois os seus contos em vez de representar um enredo e uma história, traduzem antes flagrantes do cotidiano de uma pequena cidade do interior. O nobel de literatura ISAAC SINGER chamou ao conto moderno, representativo daquela segunda variante acima referida, de uma “fatia de vida”, de certo em oposição ao romance que seria, pelo que se deduz, a “vida toda”. Mas esta fatia terá de ser, pois, altamente significativa, como entende um outro autor, o romancista português FERNANDO NAMORA, em sua prosa diarística e em quem colhemos aquela referência. Na sua concisão, no seu ângulo de focagem restrita, acrescenta o autor de O Trigo e o Joio, o conto precisa ser tão eloqüente que o leitor através de uma breve personagem captada num instante decisivo e num contexto delimitado, consiga reconhecer ali a verdade da paisagem humana e a vida tal como ela é, na sua infinita complexidade. Daí, conclui ele, que se possa entender muito bem que haja quem prefira MAUPASSANT a VICTOR HUGO ou BALZAC, e TCHEKHOV ou GOGOL a TOLSTÓI ou DOSTOIEVSKI (Jornal sem Data, p. 146, Publicação Europa-América, Lisboa-Portugal). Assim se houve o autor neste seu primeiro livro de contos, nestas suas historietas de Pereira da Rocha. Ao retratar a vida, em seus mais variados e pitorescos aspectos, da comunidade perdida de Pereira da Rocha, que poderia muito bem representar uma das pequenas cidadezinhas perdidas da nossa hinterlândia, pelo autor percorridas em seu difícil ofício de julgador, como juiz íntegro, correto e digno, ele o faz de maneira exata, fiel à realidade observada e utilizando um estilo que constitui, a meu ver, uma das boas realizações literárias, no âmbito da história curta. Seu estereótipo parece ser a figura do personagem central que, num discurso indireto livre, perpassa por todas as narrativas desse livrinho aliciante, tal a força expressiva do narrador, o Dr. Dionísio Trajano de Mendonça Abreu. Seu currículo, dos mais ricos e brilhantes dentre os muitos já apresentados nesta Casa, será apenas aqui respigado em seus aspectos essenciais, para não tornar por demais enfadonho este despretensioso discurso de saudação. A Academia, na oportunidade que lhe parecer oportuna, o divulgará em nossa Revista, para conhecimento de seus inúmeros leitores. OTON MÁRIO JOSÉ LUSTOSA TORRES nasceu em Parnaguá, neste Estado, a 6 de agosto de 1957, filho de Otacílio Torres de Sousa e de Maria de Nazaré Lustosa Nogueira. Fez os estudos primários na Escola Paroquial de Parnaguá, o ginásio no Colégio São José de Corrente, e o de Contabilidade na Escola Técnica de Comércio Dom José Vazquez, daquela mesma cidade. Bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal do Piauí, em 1983, com notas de aprovação as mais distintas. Foi aprovado em 1° lugar no Exame de Ordem da OAB-PI. Exerceu o cargo de Procurador Autárquico da Universidade Federal do Piauí e a advocacia nas comarcas de Corrente e cidades do extremo sul piauiense. Em 1987, submeteu-se a concurso público para ingresso na magistratura, em nosso Estado, sendo aprovado em 1° lugar. Em 1994, submeteu-se a concurso público para professor de Direito Privado do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Piauí, tendo sido aprovado em 2° lugar e deixando de exercer a função em virtude de estar residindo, à época, na comarca de Oeiras, de que era titular. Exerceu a judicatura nas comarcas de Itaueira, Regeneração, Simplício Mendes e Oeiras. É atualmente juiz de direito de 4a. entrância, como titular da Vara do Juizado Especial de Parnaíba, desde maio de 1997. Títulos e comendas: Cidadão Honorário de Regeneração, Simplício Mendes, Isaías Coelho e Oeiras. Detentor das comendas Ministro Souza Mendes Júnior, da Associação dos Magistrados Piauienses; e Simplício Dias da Silva, do município de Parnaíba. É membro da UBE-PI, do Instituto Histórico de Oeiras, do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba (cadeira 18), do Instituto dos Magistrados do Brasil, da Associação Nacional de Escritores(ANE). Maçom, foi Venerável Mestre no biênio 1998-2000, da loja maçônica Mestre Francisco Correia, de Parnaíba. É membro da Academia Piauiense de Letras Jurídicas (cadeira 14) e desta Academia (cadeira 5), hoje aqui recebi com louvor. É participante de 4 Antologias Literárias e tem inúmeros artigos publicados em revistas e jornais literários e jurídicos. Além das obras jurídicas e literárias aqui já referidas, tem em preparo um outro romance, Ribanceira. É casado com D. Lindaura Júnia Nogueira de Oliveira e Torres e tem o casal três filhos: Heitor Caetana, Aymée e Sybylla. Aqui chegais, senhor OTON LUSTOSA, no instante solar de vossa vida mental, quando já tendes uma obra que vos recomenda aos ilustres pares desta confraria, que em vós descobriram as eminentes qualidades de escritor e por isso com os requisitos básicos de uma academiável, como costumo dizer. Em vossa geração sois um dos mais notáveis e aqui entrais seguramente como um de seus porta-bandeiras. Aqui passareis a ocupar a cadeira n° 5, que tem como patrono um dos pro-homens de nosso Estado, Areolino Antônio de Abreu. Orador fluente e inspirado poeta, homem público que prestou ao Piauí os mais assinalado serviços, seja como parlamentar ou governador do Estado, ao substituir, por morte deste, o governador Álvaro de Assis Osório Mendes; seja também como psiquiatra de renome, formado pela tradicional Faculdade de Medicina da Bahia e criador do serviço de assistência psiquiátrica no Estado, ao fundar a instituição que hoje tem o seu nome. Seu primeiro ocupante foi, por muito tempo, um dos fundadores desta Casa, Edison da Paz Cunha, jornalista e professor, integrante de uma geração das mais brilhantes do Piauí. Seu último ocupante, o saudoso J. Miguel de Matos, cujo perfil literário e humano acabais de traçar com tanta sabedoria, distinguiu-se em vários gêneros literários e deixou, como romancista, uma obra de denso conteúdo social, Brás da Santinha. Como juiz, no instante em que o alto desempenho da magistratura brasileira é seriamente posto em questão, conforme já o disse anteriormente, em comentário de imprensa, quando do aparecimento de vosso livro de estréia, no romance, sois daqueles que exercem o seu ministério com correção, coragem e independência. Sois, na opinião unânime de todos que o conhecem, um juiz reto, digno e íntegro. Praza aos céus que continueis assim, em meio à crise dos valores morais de nossa sociedade, tão ferida em sua essencial dignidade por aqueles que a maculam, no exercício da função pública, com as más ações e a conduta suspeita, corroendo a gênese de nossos valores essenciais, num flagrante desrespeito aos direitos humanos, fundamento da ética na vida em sociedade. Como juiz reto que sois, não tendes feito outra coisa senão lutar para defendê-los e preservá-los, granjeando assim o respeito e a admiração de vossos concidadãos. Sois assim, como juiz e homem de bem, a última desesperadora esperança dos que como nós outros envelhecemos, mas porfiamos na crença nesses valores essenciais do homem que são o fundamento das nações livres. Tendes ainda outra qualidade que vos alenta ao aqui entrardes – a vocação literária que FLAUBERT definia, nos seguintes termos: “Escrever é uma maneira de viver.” E MARIO VARGAS LLOSA, na obra citada, ao dizer: “La vocación literaria no es un pasatiempo, un deporte, un juego refinado que se pratica en los ratos de ocio. Es una dedicación exclusiva y excluyente, una prioridad a la que nada puede anteponerse, una servidumbre libremente elegida que hace de sus víctimas (de sus dichosas víctimas), unos esclavos.” (Ob. cit., p. 19-20). Estareis aqui, eu vos asseguro, na melhor companhia, entre aqueles que elegeram esta vocação como a sua própria razão de viver. Além do mais, aqui sereis continuador de uma tradição de magistrados ilustres que remonta aos primeiros ocupantes de cadeiras desta Casa, desde o seu fundador e patrono, o excelso poeta LUCÍDIO FREITAS, que foi juiz-substituto de Belém do Pará; de MATIAS OLÍMPIO DE MELO, seu ex-presidente, que exerceu as funções judicantes como juiz federal no antigo território do Acre e em Salvador, na Bahia; de SIMPLÍCIO DE SOUSA MENDES e de PAULO DE TARSO MELO E FREITAS, ambos integrantes do Egrégio Tribunal de Justiça, que também exerceram a presidência desta Casa, o último em caráter temporário, como substituto do então titular; ou ainda de juristas eminentes que exerceram sua presidência, como nosso primeiro presidente CLODOALDO FREITAS, HIGINO CUNHA, que a exerceu, por dois mandatos; MARTINS NAPOLEÃO, WILSON BRANDÃO e CELSO BARROS COELHO. Em um livro de entrevistas recentemente publicado sobre este autor admirável, dentre outros, de um grande livro ultimamente aparecido – A Caverna -, JOSÉ SARAMAGO, uma parábola que se inspira em PLATÃO e denuncia a sufocante atmosfera desse neocapitalismo que nos asfixia por todos os lados e a ele condiciona todas as ações humanas, em um livro de entrevistas – José Saramago: el amor posible -, do ensaísta espanhol JUAN ARIAS, a uma pergunta deste sobre o relacionamento supostamente conflitivo do autor de Memorial do Convento com a cidade de Lisboa, que nem sequer é a sua cidade natal, porquanto o laureado escritor nasceu numa aldeia perdida do Ribatejo, Azinhaga, hoje nem tanto, após a consagração do Nobel, responde ele: “Todos nós vivemos em um determinado lugar, como pode ser também na aldeia em que nascemos, porém no fundo habitamos em uma memória, portanto, antes de vir para cá, Lisboa já não era a minha cidade. A cidade em que eu habitava era outra, era a cidade da memória, estava vivendo em outra cidade que já não era a minha, minha aldeia está em minha memória.” (Ob. cit., p. 46). Saí muito cedo de minha terra natal, aos 12 anos, em demanda de outras terras, de início, nesta Capital, a bela cidade de Saraiva que está sendo violentamente destruída pela especulação imobiliária. Vim para cá em busca de minha formação intelectual e preparar-me para o exercício de uma profissão e a seguir, demandei outras terras, talvez tangido pela má fortuna, tão admiravelmente encarnada na farsa vicentina, que discutia longa e exaustivamente, com meus alunos e alunas do Liceu, O Auto da Mofina Mendes. Fiquei, entretanto, a vida toda, vida que já marcha para o seu ato final, preso à minha cidade da memória, a amorável cidade de REGENERAÇÃO. Esta solenidade acadêmica, meus senhores e excelentíssimas senhoras, assinala uma inesperada coincidência que considero um instante singular em que se faz mais uma vez presente a minha cidade da memória. Toma posse aqui e agora, nesta Academia, um escritor que deu os primeiros passos em sua carreira, como juiz titular, em minha terra natal. Ali conviveu com a minha gente, com parentes meus, aos quais é ligado por laços de funda amizade, segundo me declara na carta que escreveu e a que já aludi, no início desta oração e através da qual descobrimos nossas afinidades eletivas. No caso, a paixão pela literatura, como esta deve ser entendida, ou seja, como o sinal mais evidente de dignificação da pessoa humana. Tem a presidi-la a figura do acadêmico e consagrado romancista WILLIAM PALHA DIAS, que também iniciou sua missão judicante como juiz de direito de minha terra, da qual também, para honra nossa, é cidadão honorário e onde também deixou um largo círculo de amizade e admiração. As boas-vindas, em nome da Academia, são dadas ao recipiendário por um dos mais modestos escribas desta Casa e cujo maior orgulho é ser filho daquela cidade, que constitui, como já lhes disse, a minha cidade da memória e sempre me acompanha, aonde quer que eu vá ou para onde me tanjam os maus ventos do destino. Não há para mim, portanto, momento mais gratificante do que este. Acho que a vida não me foi totalmente madrasta, esta é para mim uma grande alegria. A esta circunstância gratificante e excepcional na história deste sodalício, alia-se ao fato de aqui receber um dileto amigo a quem devoto uma grande admiração e para quem prevejo, não apenas na carreira jurídica, como na das letras, escritor vocacionado que é, o mais luminoso futuro. Sede bem-vindo a esta Casa, senhor OTON LUSTOSA. *_____________________________ M. Paulo Nunes é crítico literário. Ex- Presidente da Academia Piauiense de Letras (dois mandatos); ex-Secretário de Cultura do Piauí, atual presidente Conselho Estadual de Cultura.

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ALMA ENCANTADORA DAS RUAS

Sustentando que só flanando pelas ruas, em contato direto com o povo, se pode conhecer uma cidade, o escritor carioca João do Rio publicou, no início do século passado, um livro tão interessante quanto raro nos dias de hoje — “A Alma Encantadora das Ruas” (1908). Perambulando sem cansaço pelas ruas, praças e becos, conseguiu captar a vida urbana ao seu natural, a fisionomia da cidade, as pequenas profissões e atividades do povo miúdo, seus dramas, paixões e alegrias, tornando-se um dos mais autênticos intérpretes da alma carioca e contribuindo para que se tornasse conhecida. No seu rastro viria, pouco depois, Lima Barreto, pintor de uma paisagem ocupada por seres sofridos mas que sabem desfrutar os momentos de fugidia felicidade. E Jorge Amado, mais tarde, prestaria idêntico serviço a Salvador. Ambas as cidades muito devem à literatura; foi ela que contribuiu de forma decisiva para que se divulgasse o modo de ser de seu povo e sua filosofia de vida.

Surge agora, em outro recanto do país, um romancista de fôlego que se propõe a enfrentar idêntico desafio em relação à sua cidade de Teresina, a chamada “Cidade Verde”. Trata-se de OTON LUSTOSA, escritor piauiense que acaba de lançar o romance Vozes da Ribanceira (EDUFPI – Teresina, 2003), cuja ação se ambienta no bairro do Poti Velho, nos arrabaldes da metrópole e às margens do Poti, um dos rios que a banham. Escrito numa linguagem muito pessoal, com estilo próprio, o autor revela desde o início conhecer com segurança a vida daquela gente e seu modo de agir e pensar, transmitindo seu texto um retrato autêntico do meio onde batalham pela sobrevivência os oleiros, artesãos, pescadores, pequenos comerciantes, passarinheiros, proprietários, canoeiros, violeiros e cantadores, não faltando malandros, traficantes, jagunços, prostitutas e todo um ror de figuras entregues às mais variadas e estranhas ocupações. Desse meio buliçoso, barulhento e colorido, ele compõe uma poesia que brota das águas do rio, do barro, da alma do povo, enfim.

O tema central do romance é desenvolvido em torno da gente humilde que habita o bairro, vítima da costumeira exploração pelos mais aquinhoados ou mal intencionados que existem em toda parte. Para complicar o quadro, surge ali um elemento estranho, perturbando os espíritos e gerando suspeita, na pessoa do “hippie” oriundo do Recife, cujo passado misterioso intriga a “autoridade” e fascina o povo. Artesão habilidoso, músico e, ainda por cima, poeta — reúne tudo que possa inquietar o coração do soldado que impava de orgulho por ser “nobre e descendente do Visconde da Parnaíba”, cuja maquinação junto a um investigador que farejava “subversivos” em todos os cantos acaba por levá-lo à prisão, e, depois, à fuga para local desconhecido, episódio em que contou com a solidariedade silenciosa dos moradores do bairro. Além disso, seu porte atlético, suas tatuagens e seus versos acalentavam os sonhos secretos das moças e acabaram por seduzir uma radialista cujo programa tinha intensa penetração popular. Ele “faz um pacto de amor com o rio de águas barrentas”, o que implica em dizer com o povo ribeirinho.

No desenvolvimento da trama o autor se movimenta com desenvoltura, colocando no cenário um sem-número de outras figuras, situações e episódios que revelam um mundo ativo e complexo na sua aparente singeleza, onde explodem conflitos, maiores ou menores, nos quais todos se envolvem, muitas vezes com paixão.

Entre tais episódios, chamam atenção a rivalidade entre adeptos de crenças diferentes, esboçada de forma clara na festa de São Pedro, o santo pescador, e a procissão aquática em que os seguidores de outras seitas não deveriam participar, ainda que seus santos fossem os mesmos, provocando intermináveis discussões. A criação da Oficina do Barro, organizando as artesãs numa espécie de cooperativa que permite a produção de um artesanato de luxo e a melhoria dos rendimentos das que lidam com a “massa peguenta do barro”. As “coroas” do rio, onde medram plantas passageiras, enquanto as águas não vêm, amores fugazes e encontros suspeitos, observados, talvez, pelo Cabeça-de-Cuia, o pescador Crispim, cuja lenda povoa o imaginário local. A procissão pelo rio, capitaneada pela majestosa lancha “Sereia”, luzidia e enfeitada, compondo uma cena de cinema. A festa, o baile, os desafios dos repentistas, as comidas típicas e as bebidas fortes, as músicas, o permanente temor das enchentes, a preocupação com o desmatamento, os incêndios, as invasões de terrenos e a inevitável presença do latifúndio a sugar arrendatários. Dramas e alegrias de um povo miúdo e sofrido, ligado ao rio por um amor carnal, físico, e que fez um pacto de amor com a cidade desenhada no horizonte, da qual todos se sentem integrantes. Nada escapou ao autor na pintura desse cenário repleto de vida, luta e esperança.

Acentuando a autenticidade do ambiente, o autor lança mão de termos e expressões locais, embora bem dosadas, evitando o exagero e a caricatura. Revela riqueza de imagens, algumas de cunho popular e de uso comum nas ruas: “todo lorde” (elegante), “alisado de mão” (carícia), “moças oferecidas”, “o rio a lamber as raízes”, “o rio manso é ginete marchador”, “em riba das canoas”, “no colo da terra”, “galego”, “quicé”, “gunguna” etc., e assim fixando ainda mais o romance ao chão teresinense.

Concluindo, direi que o romance de OTON LUSTOSA é convincente e bem escrito, contribuindo para que sua cidade seja melhor conhecida e, em conseqüência, amada. Não temo em afirmar que Teresina ganhou o seu romance. Como dizia Câmara Cascudo, “bata o Piauí nas tábuas do peito: ganhou um grande escritor brasileiro!”

*Enéas Athanázio é catarinense, de Balneário Camboriú.
Ensaísta, com mais de 40 livros publicados. Estudioso das obras de Lima Barreto, Monteiro Lobato e outros.

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___________________________ A nova literatura piauiense Ronaldo Cagiano O hegemônico, monopolista e preconceituoso eixo cultural Rio-SP, por negligência ou má-fé, só dispensa atenção crítica a autores e obras que estão sob seus holofotes. Infelizmente, deixam de (re)conhecer uma vasta bibliografia que, tanto em quantidade quanto em qualidade, resiste de Norte a Sul. Um dos bons escritores que integra a nova safra de ficcionistas que merecem alcançar o grande público é OTON LUSTOSA, cuja produção no campo acadêmico e literário prova à saciedade que há vida inteligente fora dos grandes centros. Conhecido por obras de doutrina jurídica e colaborador de revistas de Direito e Jurisprudência, OTON LUSTOSA, que é magistrado, professor, conferencista e membro da Academia Piauiense de Letras, acaba de lançar seu terceiro livro de ficção, o belo romance “Vozes da Ribanceira”. Uma obra que mergulha no ambiente social e histórico do Piauí, numa trama que é fiel ressonância da atmosfera humana e psicológica de uma região rica em signos e elementos pictóricos, de inesgotáveis recursos imagéticos para a composição de um romance. No romance “Meia-vida” e nos contos de “O Pescador de Personagens”, Lustosa já demonstrou a segurança dos veteranos, com grande domínio da técnica narrativa, livros que foram recepcionados pela crítica de Teresina, saudados por importantes críticos, entre os quais Manoel Paulo Nunes e outros. Com “Vozes da Ribanceira”, o autor aprofunda sua pesquisa sobre a realidade que bem conhece, na tessitura de uma trama em que não economiza recursos estilísticos e semânticos para fidelizar os conflitos dos personagens, conferindo ao romance regionalista uma nova feição, uma dicção que escapa aos clichês, aos lugares-comuns, às clonagens. Embora muito pouco se tem acrescentado a essa vertente, gênero que muito pouco tem recebido em termos de inovação formal, conceitual e temática, Lustosa consegue renová-lo com seu estilo, rompendo assim as fronteiras ou amarras dos velhos chavões à Rosa, Graciliano e José Lins do Rego e impondo suas características narrativas. Longe de ser uma obra requentada de regionalismo, “Vozes da Ribanceira”, de OTON LUSTOSA, faz uma viagem ficcional e ao mesmo tempo poética na solidão existencial. Seus personagens, claudicando entre o peso das circunstâncias agrestes de suas vidas e as ambições e sonhos conflitantes de suas relações quotidianas, instauram um clima em que a fábula e a realidade se misturam, com ritmo, fluência e equilíbrio, fruto de uma linguagem sem exageros, sem arapucas formais, sem rodeios ou extravagâncias experimentalóides. O autor confirma sua trajetória segura, sintonizado com a verdadeira literatura, buscando nas raízes primitivas do ser o centro da ação de seu romance. Assim, vamos encontrar um território em que a vida e suas nuances vão sendo trasladadas pelo autor com todas as suas particularidades, coadjuvado por um inegável instinto poético, o que é fundamental para delinear vidas e histórias dentro de uma perspectiva criativa capaz de tocar o leitor, seja pelas alegorias, seja pelo realismo, entre o mí(s)tico e o mágico, buscando em todas as possibilidades da linguagem a sua plena comunicação.

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