Dilson Lages Monteiro Sábado, 24 de junho de 2017
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Melquisedeque de Castro Viana

BIOGRAFIA

Melquisedeque de Castro Viana nasceu na cidade de Vargem Grande (Maranhão) no dia 10 de dezembro de 1941, filho de Manoel Bernardino Lopes de Sousa Viana (falecido) e Teresa de Castro Viana. Casou-se em 1969 com Maria do Amparo Pires de Carvalho, de cujo consórcio nasceram Ricardo de Carvalho Viana, Ângela Karina de Carvalho Viana e Ana Teresa de Carvalho Viana.

Cursou o primário na cidade de Timon, o ginasial e o técnico em Contabilidade em Teresina, formando-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Piauí, em 1968.

Ex-servidor do banco do Brasil (1961-1975); Ex-fiscal de Rendas do Estado (1975-1976); É aposentado como Procurador Federal do INSS (1976-1991) e como professor adjunto da Fundação Universidade Federal do Piauí, por onde fez curso de pós-graduação, em 1978, na área de Direito Público. (continua na...)

Trabalhos Literários:


poesia/1982

poesia//1989

poesia/1990

poesia/1991

poesia/1998

poesia/1998

conto/1992

ensaio/1999

depoimentos/199?

ensaio/2000

ensaio/2000



AMOSTRAGEM

 

MELQUISEDEQUE VIANA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONTOS E RECONTOS

3ª edição

2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EDIÇÃO DO AUTOR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É vedada a reprodução total ou parcial deste trabalho, sem a expressa autorização do autor, ficando o infrator sujeito às penalidades da Lei 5.988, de 14.12.72 (Direitos autorais )

 

 

PALAVRAS DO AUTOR

 

 

 

 

 

O

 presente volume de contos e recontos é uma publicação de meu livro anterior do mesmo nome, mas acrescentado de mais dez contos/ estórias, destes quatro criados por mim. Os demais, por óbvio, foram cenas que aconteceram de verdade e que eu apenas passei para o papel, com alguns acréscimos imaginados. Quase todos os contos foram reescritos, alterando-se aqui e ali alguma coisa.

 

Nada mais tendo a acrescentar, só me resta agradecer ao público pelo tempo empregado em ler estes escritos, que visam apenas a desopilar os fígados das pessoas, já bastante danificados pelas intempéries da vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

1.     A Baleia, 9

2.     O uísque baleado, 13

3.     A calcinha emprestada, 17

4.     Taxista por uma hora, 22

5.     Antiga metrópole, 25

6.     O bode brasilêrro, 28

7.     A prova radiofônica, 31

8.     O de cujus vivo, 35

9.     Um artista de verdade, 37

10.  A cura espiritual, 41

11.  O morto vivo, 45

12.  Previsão de morte, 48

13.  O consultório quase certo, 51

14.  As onças, 54

15.  Música espacial, 57

16.  Um estado de necessidade, 60

17.  A motocicleta nadadora, 67

18.  Nem tudo que reluz é ouro,69

19.  O Mata-sete, 75

20.  A gata fujona, 78

21.  A dublê de vidente, 81

22.  A televisão marcada, 84

23.  Os médiuns incorporados, 86

24.  A alma perfumada (ou O Beco do espanto), 89

25.  Promessa do além, 91

26.  Do pecado do adultério, 93

27.  O edito da pré-senilidade, 97

28.  O decálogo do casamento quase perfeito, 99

29.  Oba siô. Vige siô,104

30.  O engano do Rei Minus, o filósofo,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A BALEIA

 

 

T

enho feito na vida várias amizades, umas  mais fortes outras mais fracas, mas, pelo menos de minha parte, todas sinceras. E, por esta razão, é que homenageio, com esta estória, um velho amigo, cujo conhecimento ocorreu em idos de 1955 a 1960, mas somente em 1975 é que realmente passei a privar mais amiúde com sua amizade.

Trata-se do Teixeira - como o cognominarei doravante - profissional competente, tanto por responsabilidade como por gosto.  É possuidor de uma capacidade de relatar fatos com uma fidelidade e teatrismo inigualáveis.

Pois bem. Dentre as inúmeras estórias que o Teixeira me relatou, umas tristes e outras com aquelas pantomimas que lhe são peculiares e que lhe dão graça e autenticidade, relembro a de uma cadela denominada "baleia", como era chamada carinhosamente por sua família e doravante escrita com letra maiúscula e sem aspas.

Existia em frente de sua ex-residência, lá para as bandas da avenida José dos Santos e Silva, um comerciante chamado Lula, que vendia de tudo, desde sabão, pasta de dentes, enlatados até bacalhau, alvo desta narrativa. Sr. Lula devia ter uns 50 anos de idade, de cor morena, já um pouco calvo, l,70 m.de altura aproximadamente, barba espessa e olhos negros.

A cadela Baleia já vivia com Teixeira há mais ou menos cinco anos. Nem sempre bem alimentada, por vezes saía à procura de outros desjejuns, como é próprio desses animais de casa. Um dia, para seu azar, resolveu abocanhar um pedaço de suculento bacalhau que ficara ao seu alcance na quitanda do velho Lula.

Satisfeita, saíra sem se dar conta de que o proprietário da venda e da mercadoria degustada a havia visto saindo do estabelecimento, ainda lambendo os beiços, numa atitude de irreverência e malandragem.  Por tal razão,o dono da loja resolveu verificar se faltava algo, constatando o que foi relatado.

Indignado, mas calado, preparou o velho Lula, com aquela perspicácia de que era possuidor, uma "boa" para a pobre Baleia. Colocou, então, pacientemente, em locais estratégicos, porções de veneno em vários pedaços de bacalhau deixando expostos propositadamente ao alcance do inocente animal, tendo o cuidado de se lembrar de não vender o produto para algum freguês.

Dito e feito. No outro dia o canino abocanhou um pedaço do peixe envenenado e o resultado foi o que se prevê, pois era o desejado pelo comerciante. A cadela ainda chegara em casa com vida, mas morreu poucas horas depois,  após os estertores de cólicas e de vomitar o que havia deglutido, isto  para a tristeza e indignação de Teixeira e sua família, que logo constataram a ingestão do produto exposto à venda.

Choros à parte, Teixeira, porém não se conformou e preparou um contra-ataque ao perverso comerciante, embora sabendo de antemão que de nada valeria. Nada poderia trazer de volta a Baleia, que tantas alegrias proporcionara à família durante muitos anos. O desejo de Teixeira era colocar um pouco do bacalhau envenenado na boca do maldito homem para fazê-lo engolir e saber como era horrível uma morte daquela maneira.

Ainda consternado, juntamente com os irmãos, resolveu, por fim, cavar a sepultura da cadela assassinada. Mas, em vez de fazê-lo em terreno distante, preferiu na frente da casa do "velho miserável", como passou a ser chamado, daí por diante. E, às caladas da noite, preparou o buraco-cova e sepultou o animal, mas com um epíteto singular, escrito em um pedaço de tábua de pinho. Com as letras desenhadas, fez fincar sobre a cova: "Aqui jaz Baleia assassinada pelo velho Lula".

De manhã, foi um Deus nos acuda. O velho Lula quase morreu de ataque do coração. Xingou à beça e por fim resolveu procurar a mãe de Teixeira, a quem lhe relatou o fato e a quem pediu enérgicas providências, que nunca foram tomadas.

A mãe de Teixeira, ainda sem saber das artimanhas dos filhos, chamou-os para uma conversa pedindo-lhes as explicações necessárias. Fornecidos os motivos, se a mãe não aceitou as alegações, também fez pouco esforço para superar o incidente. Somente com a ameaça de comunicação oficial à polícia é que as coisas foram tomando certa calma. O delegado Vieira, amigo das duas famílias, ponderou que atitude dos filhos menores se constituía em provocação ao velho Lula e que a Baleia deveria ser retirada daquele local para ser enterrada em outro mais afastado.

Quanto à atitude do velho Lula, o delegado nada decidiu. Nem mesmo dignou-se de censurá-lo pelo assassinato do animal, apesar do furto cometido. Se de vida de gente não se toma providências, imaginem de bicho. Por fim, serenados os ânimos, a mãe de Teixeira contratou no mesmo dia os serviços profissionais do velho Machado, que, retirando o animal da velha sepultura, colocou-o em outra nova e mais adequada para o descanso eterno.

Palmas ao cadáver e vaias ao velho Lula foram as manifestações finais do enterro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O UÍSQUE BALEADO

 

 

N

o dia 16 de fevereiro de 1990 aconteceu mais um aniversário de meu irmão Francisco ( o Chico, doravante) , solenidade à qual, como em outras ocasiões, não pude comparecer. Apenas na noite respectiva telefonei-lhe desejando feliz aniversário e aquele papo de irmãos que só se falam de vez em quando, mesmo residindo apenas a quatrocentos e cinqüenta quilômetros um do outro.

Neste telefonema ficou acertado que ele iria a um baile no clube Jaguarema, caso eu fosse mesmo passar o carnaval na cidade litorânea de São Luís onde ele reside. A data seria 24 a 27 de março do mesmo ano. E assim foi. Malas prontas, selo pedágio adquirido, pneus calibrados, óleo no nível, água no radiador, etc., fomos nós, eu, esposa e três filhos para a Ilha do Amor, lá chegando à noite e hospedando-nos em casa de outra irmã, Ada Maria.

Domingo, dia 25, antes de sair para a festa, Emanoel, meu outro irmão, passou pela casa do Chico. Visava ele a surrupiar-lhe um litro de uísque importado, portanto dos bons, já que o que dispunha era um simples Teacher's , nacional.

Apesar de ser possuidor de um discreto pão-durismo, desta vez ele, Chico, foi quem nos induziu a levar um litro de uísque para a nossa diversão. Antes,  no sábado, já havia eu detectado, embora levemente, um certo gosto diferente no tal do uísque importado que, do mesmo modo, fôra doado a nós para a festa do dia anterior e a que Chico não comparecera; apenas eu, minha esposa, meus filhos e Emanoel. Cheguei até a comentar com meus familiares que aquela bebida continha algo peculiar, um gosto diferente, de coisa velha, ou sei lá o quê.

Na casa de minha irmã, Ada, já ao sairmos para o tal baile, o assunto foi ventilado e o Chico arreliou-se com o fato. Não admitia, de modo algum, que o seu uísque, de adega qualificada e logo um Balantine's importado, não fosse bebida de primeiríssima qualidade. Até parecia que ele fôra o fabricante, tal era o denodo e a paixão com que fazia a defesa do aperitivo destilado.

Fizemos uma verdadeira fila de degustadores, cada qual achando que as duas garrafas de uísque estavam com qualquer tipo de problema em sua composição ou decomposição. Duas garrafas, porque Chico levara outra para se confrontar com a anterior, que só restava uns quatro dedos para acabar. E ainda mais, porque na noite anterior, minha cunhada havia passado mal, quando chegara em casa, após deglutir duas doses do mencionado uísque.

Goles pra cá, goles pra lá, Ada prova, Emanoel prova, eu provo. Nada. Ninguém demovia o Chico de que as duas garrafas de uísque realmente se encontravam deterioradas, ou quem sabe, o uísque era "baleado", apelido carinhoso que se usa em São Luís, para os uísques falsificados ou adulterados. Por fim, concluiu Chico, após levar dois copos com dois conteúdos diferentes defronte da luz: o uísque era bom. O da garrafa anterior é que não o era, jurando categoricamente e chegando a passar nos braços e nas mãos um pouco do líquido, dizendo que o cheiro era inconfundível e que aquilo era odor do malte importado. Nós é que não estávamos acostumados ao que era bom, professorou.

Saímos para a festa, mas aí já se notava certa preocupação neste meu irmão, quando, ao deglutirmos o tal uísque, fazíamos uma cara não condizente com o sabor da "bebida importada" e daquela qualidade.! Ao contrário, nossos semblantes se modificavam quando tragávamos outro tipo de uísque que nos foi oferecido por vizinhos de mesa.

Foi aí que o Dr. Chico, em sua sapiência sobre bebidas, resolver ir à forra. E distribuiu goles  a várias pessoas, a começar por um seu cunhado que passara por nossa mesa. Minutos depois e após apenas dois tragos o cunhado chamou o Dr. Chico em um canto do saguão. Não ouvi bem o início, da conversa, mas ainda pude ouvir direitinho:

...é para o seu próprio bem. Isto até pode  lhe fazer mal: uma ressaca violenta...etc . E discretamente o cunhado " esqueceu" o copo que havia trazido consigo, no parapeito do clube. Chico preocupou-se ainda mais, porém, ainda não se dera por vencido. Ele mesmo bebia o uísque e dizia a plenos pulmões: - Tá vendo. O uísque é bom. E goles e mais goles.

Acossado pela situação, Chico foi mais longe e resolveu pedir opiniões mais abalizadas sobre a bebida a tantos quantos passavam pela mesa. Aí foi a sua desgraça total. Era chato. Uísque baleado, logo ele que era um expert no assunto. 

- "Não, tenho que desmascarar esses caras", deve ter pensado consigo. Então, logo que passou um amigo de sua inteira confiança, colega médico, usando óculos claros, um pouco de grau, contou-lhe rapidamente o caso e pediu para provar o uísque que, acompanhado de duas especiais pedras de gelo carinhosamente colocadas no copo, suavemente foi de goela abaixo. A resposta veio de imediato: cara feia, cusparada no chão e o dedo polegar indicando para baixo.

Gargalhada geral. Um Deus nos acuda. Dr. Chico suava discretamente, riso amarelo, o que nos levou a pensar em encerrarmos o assunto, mas ele é que não se conformava. Novamente, chamou outro amigo, desta vez, um outro cunhado. Idênticos preparativos, idêntica reação.

Mas o Dr. Chico, teimoso desde pequeno, pois se cuspia todo, quando tomava banho a contragosto, tentou continuar com o teste. Então jogou a última cartada, chamando o Dr. Durwagner, seu antigo companheiro de uma "república" de estudantes, quando ainda solteiros, pelos idos de 1960/5. Este colega solenemente deglutiu a bebida, contudo sem ser avisado de nada. Não houve jeito. Cara feia, cusparada no chão e fatal exclamação: - Que diabo de uísque é este, rapaz?

Ainda o Dr. Chico pegou seu copo, desta vez contendo outro tipo de bebida e discretamente saltou o parapeito do clube e saiu para conversar com políticos. De nossa parte também não houve mais gozação. Parece que, finalmente, o anfitrião se conscientizara de que a tal bebida se encontrava deteriorada ou coisa parecida.

No dia seguinte, despedida geral na casa de nossa irmã, Ada, em cujo local estávamos hospedado. Adeus pra cá, adeus pra lá, abraços e beijos, promessas de novas vindas etc. Todos presentes,  Emanoel e esposa, Ada e filhos, Celma, esposa do Dr. Chico, mas .... desacompanhada. 

- E o Chico?. Perguntei.

- Ah!  Respondeu Celma. Está lá com uma bruta dor de cabeça. Vomitou que nem um danado.

- Eu não disse? Exclamei por fim, dando adeus àquela cidade tão hospitaleira.

 

A CALCINHA EMPRESTADA

 

 

E

m 1961 tomei posse no Banco do Brasil, na cidade de União, após aprovação em concurso público realizado por aquela instituição de crédito do país. Comigo foram admitidos, quase no mesmo dia, quatro outros colegas, ou seja, Myron Pedreira, de Caxias, Couto Martins de Sousa, de Porangatu (GO), e Ernâni Rodrigues Clark, de Teresina. O quarto  colega tratava-se  do Lima, cujo prenome nunca o soube. Couto e o Lima faleceram depois; um no interior de Goiás, vítima de acidente de carro e o outro em Luzilândia, onde tomara posse.

Hospedamo-nos no hotel do Sr. José Marques Corrêa, casado com dona Zuleide. O prédio ficava justamente em frente à praça principal daquela cidade. Por ser local estratégico, todas as noites nos reuníamos com outros colegas bancários casados, que residiam em casas alugadas. Dentre estes de fora do hotel, figurava o Sousa, casado com uma moça bem mais jovem do que ele e também muito bonita, diga-se, mas de rosto ingênuo.

Os temas das conversas eram diversificados, indo de jogo, política até trabalho e, o que nunca faltava, mulheres. E a respeito deste último tema, contou-me Sousa uma de suas "quase conquistas",  já que era useiro e vezeiro na intromissão em situações semelhantes.

Empregou-se em sua casa uma menina-moça, cerca de 16 anos,  alva, bonita, bem torneada e como é óbvio, toda " já formada"; e  " bem formada". Fôra contratada  para ser babá de sua filha, Rebeca, de seis anos,  mas menina já crescidinha para sua idade.

Detalhes imaginados pelo relator, sucede que o Sousa engraçou-se de Vitória - parece que este o nome da moçoila - ; e logo no primeiro dia da execução do contrato laboral. Passou, assim, o patrão a articular uma ocasião para se aproximar um pouco mais da vítima, já que era intento seu catalogá-la entre as suas conquistas.

Tentativas aqui, tentativas ali, agrados nos finais de semana, no fim do mês, folgas e mais folgas, etc., mas nada. Estava difícil a consecução do objetivo de Sousa, que já se tornava possesso e ciumento, pois Vitória estaria, ao que tudo indicava, iniciando um namoro com um rapazinho da vizinhança.

O tempo ia passando, o nervosismo aumentando, a esposa de Sousa nunca fazia uma viagem a Teresina, embora insistentemente convidada pelo marido; percalços e mais percalços.

Um dia Sousa presenciou cenas de namoro mais liberalizado de Vitória com seu namorado em local um tanto comprometedor. E isto deixou o patrão decidido a investir na idéia de conquistar Vitória, de qualquer maneira e a qualquer custo.

No mês de fevereiro, muita chuva, onze da noite, Sousa resolveu fechar toda a casa, inclusive verificando a segurança da mesma. Já de volta para o leito conjugal, lembrou-se também de verificar o quarto de Vitória. Afinal de contas a casa era dele e a empregada também merecia segurança total.

A esposa, contudo, há vários meses vinha desconfiando das intenções do marido, mercê de sua ingenuidade bastante conhecida e do mesmo modo combatida por suas colegas casadas. Mas,o sexto sentido, próprio das mulheres, se fez presente e falou mais alto. Quando o marido demorou-se ao retornar, ela resolveu verificar pessoalmente o motivo do atraso.

Enquanto isso, Sousa estava no quarto de Vitória. Ambiente pequeno, mas bem arrumadinho, perfumado, etc. A pequena empregada já estava deitada, não se comportando, porém, como uma "dama de palácio". Deitara-se um pouco relaxada, deixando à vista ou pouco daquele local que vai do joelho até o encontro da camisola, de curto tamanho naquela ocasião.

O coração de Sousa disparou frente àquele momento e oportunidade de ouro. Hora própria e tempo próprio. Vitória não iria recusá-lo, pois, já havia dado certo consentimento com os olhos, quando o patrão a fitava durante as horas do dia.

Iniciou então Sousa o ataque, apalpando o joelho esquerdo da menor, que não procedeu a qualquer  reação, quer fingisse que dormia, quer não. E o patrão continuou com a aproximação paulatina até que.... ouviu bem atrás de si.....a esposa , abrindo a porta do quarto, onde estavam os dois.

Luz de velas, Sousa, se debruçara um pouco, de leve sobre a empregada e já com sinais de excitação bastante avançados; mesmo assim, correu um pouco torto em direção da esposa e foi logo tapando-lhe a boca com uma das mãos.

 - Chii...! A calcinha da Neném! Falou em tom  silencioso. E prosseguiu: - Há muito tempo que venho desconfiando que esta empregada vive usando as calcinhas da neném. E apontava para o sexo de Vitória, que se via discretamente sob a referida camisola, de pano fino e ordinário.

Marido e mulher voltaram ao leito tendo a esposa dito que no dia seguinte passaria tudo aquilo a limpo, no que o marido também concordou. Assim, foram dormir, aproveitando a hora e a chuva que, àquelas alturas, permanecia, mas fininha, apenas resfriando o tempo e convidando os casais para fazerem as pazes.

Na manhã seguinte Sousa levantou-se mais cedo e, pegando uma calcinha da filha, passou pelo quarto de Vitória, arremessando a peça bem entre as pernas da mocinha. Depois, tomou o café e saiu para trabalhar.

Foi um dia realmente chato para Sousa, que errava quase todos os lançamentos que fazia na contabilidade do banco. Clientes e colegas foram tratados com aspereza pelo escriturário. Sousa estava um cão, como se diz. Às treze horas finalmente retornou ao lar. Duas horas mais tarde daquele mesmo dia, após o almoço, notando a ausência da empregada, Sousa indagou:

-        Quedê a Vitória ? Ainda não a vi hoje.

-     Despedi pela manhã. Mentirosa! E ainda discutiu comigo. Esse pessoal mente e não se enxerga. Sabe o que ela me disse ? Que nunca viu aquela calcinha de cima dela. Descarada ! Agora ela vai enganar outra, mas lá p'ros quintos dos infernos, resmungou a esposa.

Sousa empalideceu, coçou a cabeça, não quis nem o café depois do almoço, nem se deitou durante aqueles vinte minutos para descanso, antes de retornar ao Banco para a prorrogação do expediente da tarde.

- É; discutir com a patroa e ainda mais mentir é causa de rescisão de contrato por justa causa! , falou Sousa com aquela autoridade de bancário que trabalha em setor de pessoal. - Mas mesmo assim, é preciso ainda pagar as férias. Afinal já está conosco há mais de três anos e não se perde as férias por isso.  -  Tenho de achá-la ,concluiu com aquela satisfação interior de quem descobre algo mais novo.

Contam que no outro dia Sousa vasculhou a cidade inteira à procura de Vitória, vindo a encontrá-la em outra casa, menos familiar, mas ainda como babá.  Localizou-a e fez os acertos de conta, mas não deixou de visitá-la sempre aos fins de semana,  não como meio de reparar o erro cometido, mas simplesmente para se tornarem muito  "bons amigos".

 

 

 

TAXISTA POR UMA HORA

 

 

T

eixeira. É este o pseudônimo deste meu amigo, exímio contador de estórias, que o leitor já conhece de outros contos anteriores, tal como o da cachorra "Baleia".

Contou-me certa vez Teixeira, aliás, várias vezes, que uma tarde saíra para comprar ali por perto mesmo de sua residência alguma coisa para casa a pedido de sua esposa. Ajeitou seu Corcel II, amarelo, apelidado de "corrupião", pelos colegas de trabalho. Saíra de bermudas e chinela "japonesa", na doce ilusão de que voltaria logo, eis que o traje usado não lhe permitiria ir por muito longe.

Não andou dois quarteirões, um funcionário público, que residia por aquelas imediações, doravante denominado Gilvan, ainda ajeitando o nó da gravata e sem prestar muita atenção às coisas, levantou o braço em frente ao carro de Teixeira, a uns vinte metros de distância mais ou menos. Teixeira, vendo o gesto de Gilvan, avaliou que este estivesse necessitando de alguma ajuda ou lhe quisesse falar alguma coisa.

- Receita Federal ! Ordenou o "cliente", que, sentando-se no banco de trás, e sem nem olhar para o motorista,  continuou  a ajeitar a gravata. Ajeita aqui, ajeita ali, olhava para um lado, olhava para o outro e Teixeira rumo à Receita Federal. Gilvan continuava nervoso, pigarreava, estalava os dedos , praticando, enfim, todos os demais tiques nervosos, de que é possuidor.  Antes, Teixeira ainda relutara em parar. Não era taxista e o funcionário não aparentava ter qualquer tipo de problema de saúde, nem coisa parecida que justificasse sua parada. Mas, dado o número de vezes com que a mão de Gilvan subia e descia, Teixeira resolveu parar. Afinal era uma pessoa que gostava de servir aos outros, como ele mesmo se autodenomina.

Como a Receita Federal ficava no rumo da frente do carro, Teixeira prosseguiu até a avenida José dos Santos e Silva. Atravessou o sinal, passou pelo Colégio Diocesano, vindo a frear bruscamente no sinal que fica na rua Félix Pacheco. Quando Teixeira brecou, Gilvan arremessou-se para frente, quase batendo com a cabeça no banco da frente, onde o "taxista" estava. Foi aí que, finalmente, Gilvan "acordou".

- Ué, este carro não tem taxímetro?

- Não, não tem. Ele não é taxi! Concluiu Teixeira.

- Vixe, rapaz, pára aí. Me desculpe. Eu pensei que fosse um táxi. Para aí , que eu desço, disse acanhado, reconhecendo o colega de rua.

- Não, eu vou lhe deixar. Não é pra Receita Federal que você quer ir? Pois eu vou lhe deixar. Falou mais uma vez Teixeira.

- Não rapaz, pára aí. Eu não sabia que não era  taxi. Arrazoou mais uma vez Gilvan.

- Nada disso. Fique quieto que eu vou lhe deixar lá. Não estou mesmo com pressa.

- Não, não é por isso.....e  calou-se Gilvan, senão antes de ajeitar a gravata e passar para o banco da frente.

E lá se foram Teixeira e Gilvan, rezando o primeiro para que o segundo nunca o encontrasse entre os sonegadores da Receita Federal, que jamais o fôra. Somente assim Gilvan viria a saber que se tratava de um quase vizinho seu, morador apenas a duas ou três quadras e que nunca o havia cumprimentado antes, dadas as esquisitices suas (dele, Gilvan ).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANTIGA METRÓPOLE

 

 

E

sta é apenas uma estorieta. Contou-m'a um ex-colega do Banco do Brasil, estabelecimento de crédito no qual trabalhei durante quatorze longos anos, muitos dos quais em companhia deste meu ex-colega, na seção de cadastro e que, também concluiu o curso de ciências jurídicas e sociais na então Faculdade de Direito do Piauí, em 1968.

O fato refere-se a um concurso público realizado para ingresso na carreira da aeronáutica - sargento da ESA, salvo engano - ocorrido em 1956. Ele e outros amigos, do mesmo "tope", eram estudantes e militares. Resolveram, por iniciativa própria, se submeter a um teste para admissão ao referido posto, certame esse realizado em Teresina.

No dia aprazado compareceram ao 25º BC., lá se sentando à espera da distribuição da prova que, afinal, veio em várias questões. Uma delas, da disciplina de Português, foi exatamente uma redação de um tema livre, mas dando-se preferência a assunto relacionado com a terra de nascimento do candidato.

Amintas - vamos chamar assim este nosso amigo, a fim de ocultar-lhe a verdadeira identidade - iniciou o tema falando das maravilhas do seu torrão natal, dos famosos doces de buriti, dos políticos influentes e honestos e tudo o mais, próprio de um bairrista assumido.

Quando terminaram o teste, os amigos se reuniram no pátio do quartel para discutirem as questões, os outros quesitos e estratégias para a prova do dia seguinte, que era de matemática, se não falhara a memória do contador da estória. E decidiram, cada um, falar sobre a sua dissertação.

Amintas começou dizendo mais ou menos o que o leitor já leu acima. Cidade boa, doce inigualável, políticos sérios, etc. Outros falaram, relataram suas dissertações até chegar a vez de Soares, outro personagem oculto, por motivos de segurança e amizade.

- Então, Soares, como foi a prova? Que você disse? Perguntou Amintas, já se sentando na ponta de um banco de cimento, debaixo de um pé de almendra, bem frondoso e oportuno. Era mais ou menos meio dia e o sol estava a pique. Fome era o que não faltava aos candidatos.

Ah! Tirei de letra! Exclamou Soares, com aquela voz nasalizada que lhe é peculiar, voz essa impossível de ser descrita por palavras.

 - Comecei assim: Oeiras, antiga metrópole, e que jâmãis (fechado) foi capital do Piauí. E deu um sorriso de plena satisfação, como a demonstrar a facilidade com que enfrentara o tema proposto.

Amintas olhou para ele, olhou para os outros colegas, coçou a cabeça, riu amarelo, mas, por fim, aduziu, ainda um tanto melancólico, porque Soares era o mais velho e Amintas não o queria envergonhá-lo de maneira alguma. Afinal eram amigos de longas datas.

- Rapaz, jamais ? Oeiras jamais foi capital do Piauí. ? 

- Sim, Jâmãis. Quer dizer, Oeiras sempre foi capital do Piauí. Jâmãis não quer dizer "sempre". Pois é, sempre foi capital.

 Netas condições, encerraram as conversações daquele dia, despedindo-se uns dos outros, mas notando-se certa preocupação no semblante de Soares.

Passados alguns dias foram os candidatos vero resultado afixado no 25º BC:

"Relação dos aprovados no concurso da ESA:

1 . Fulano. 2. Beltrano.3. Sicrano. 4.etc.

Riso amarelo por parte de Soares, que, resignado, exclamou:

- Há males que vem para o bem. Eu não queria ser mesmo militar!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O BODE BRASILÊRRO

 

 

C

erto alemão, bem alvo, meio "gazo ", mas filho de pais argentinos, resolveu passar suas férias na América do Sul, a começar pelo Brasil. Depois pretendia chegar até Buenos Aires, passando pelo Paraguai e Uruguai. Arrumou suas malas, tomou o avião Frankfurt-Belém, para depois pousar em Salvador, Rio, São Paulo e prosseguir viagem a Assunção. Até Belém tudo ia bem. Demorou-se dois dias naquela cidade, embarcando a seguir para Salvador. Pousou em solo baiano e se hospedou em um hotel perto da Barra, como se denomina um local de grande movimentação turística.

Mas, logo no segundo dia de turismo, Mr. Ubrik, como era conhecido, foi assaltado em plena praça Castro Alves, a praça do povo e sob os olhares da multidão e da polícia, que assistia a tudo passivamente. Duzentos dólares se foram pelos ares.

Atarantado, dirigiu-se à delegacia mais próxima a fim de registrar a queixa, porém não achou o delegado. Era época pré-carnavalesca e o titular estava de folga , certamente. O comissário também não se encontrava a postos e só mais tarde é que surgiu o sargento Borges, um dos presenciadores o assalto, esquina atrás.

Como um dos pivetes que assaltaram Mr. Ubrik , ao que mais tarde se apurou, era filho do sargento Borges, já dá para se prevê o resultado. Registro da ocorrência e uma "taxa" paga em dólares pelo trabalho da polícia com a promessa de que logo, logo, os dólares roubados seriam recuperados. Aquilo já era trabalho de rotina dos policiais, afirmou um deles.

Mas, ao sair dali o pivete, que assistia a tudo de longe, passou por Mr. Ubrik e debochou: - Isto é nosso alimento , mostrando o pacote, ainda intato dos duzentos dólares, em notas de 10, desaparecendo na multidão.

Mr. Ubrik, revoltado, após esperar dois dias sem resultados, tomou um avião e foi para Assunção. De lá voltou ao Brasil, mas via Foz do Iguaçu, a fim de conhecer melhor as cataratas do rio do mesmo nome. Nesta viagem o conheci, pois também parara em Foz , vindo de Assunção, para o Brasil, quando fiz minha primeira excursão para fora do país.

Antes, porém de cruzar a ponte da Amizade, nosso ônibus parou em San Bernardino, no lago Ipacaraí , que seria mostrado a nós, turistas. Mr. Ubrik resolveu apreciar as belezas do lago que somente conhecia pelas fotografias que em sua terra chegavam e pelas notícias. Posou para as fotos, tomou refrigerantes e na saída tropeçou em um dos degraus de uma cabana que há no lago e caiu nele, com roupa e todos os pertences.

Chapéu, camisa, bermuda - xadrez, cuecas e mocassim, todos molhados. Como as malas estavam no ônibus, o alemão resolveu o caso da seguinte maneira: comprou uma nova bermuda, de pano grosso, um chapéu "sombrero", uma camisa e algumas miudezas para se recompor. Pagou alguns dólares, ou melhor, alguns guaranis que havia ainda de troco e resolveu enxugar a roupa molhada. Antes deu alguns outros guaranis à zeladora do mictório e penetrou no recinto a fim de se trocar.

Bermuda molhada no braço, cueca na mão, decidiu, então, pendurar toda a roupa para secar em uma corda defronte à cabana, onde inclusive, se criavam alguns animais que serviam para o preparo de refeições aos turistas, dentre aqueles, patos, porcos e bodes. E imaginou que meia hora seria suficiente para, pelo menos, tornar possível embrulhar a roupa e levá-la de volta ao ônibus, posta antes em uma sacola que, do mesmo modo, havia adquirido com as outras miudezas.

Mas o turista esqueceu-se de um saldo de dólares, que estavam na bermuda molhada e, assim, pendurou-a no varal. Com o passar dos minutos algumas cédulas se desprenderam do bolso da peça e estavam expostas de fora, pela metade.

Foi aí que um bode, que se encontrava por aquelas imediações, resolveu abocanhar o precioso achado. E assim o fez. Mr. Ubrik, que de longe botava sentido na bermuda, ainda percebeu o abocanhado do animal aos seus dólares expostos. E correu para o local do acontecido, gritando:

- Non. Bode brasilêrro, no Paraguai, non!

Com a exclamação,  caiu antes de chegar ao local, tomado por uma crise de apoplexia. Águas e massagens recuperaram Mr. Ubrik, que da América não queria mais ouvir nem falar.

Indagado sobre a exclamação/protesto e informado de que não se tratava de um bode, mas de uma cabra, contou-me o alemão a estória de Salvador, debochou, finalmente:

- Bode, cabra, baiana, sendo brasilêrro, tudo ladron..

 

A PROVA RADIOFÔNICA

 

 

C

hamemos de Petronius, a um colega do curso de Direito, concluído em 1968. Criatura folclórica, mestre em enrolar os colegas (no bom sentido), quer fazendo-os passar por tolos, quer fazendo gracejos. Não gostava de estudar nada, mas fazia amizade com todos os professores, de sorte que estes se sentiam mal em atribuir-lhe as reais notas do seu merecimento.

Os mestres, apesar disso, por serem homens de comprovada incorruptibilidade, deferiam a Petronius notas apenas medianas. Assim, o nosso enfocado levava uma boa vida, tanto na Faculdade, como na vida privada, já que era agraciado com a farta mesada do pai.

Com relação às provas da Faculdade, era costume alguns professores orientarem os alunos sobre possíveis questões a serem abordadas, ou seja, fornecia três temas para a dissertação e na hora da prova escolhia um deles; ou ainda pedia aos alunos que elaborassem um questionário de determinados textos, a fim de, dentre as perguntas formuladas, serem algumas fatalmente  objeto de argüição.

Em uma das provas de direito civil, o referido colega resolveu levar para a sala, embutido sob seu paletó, um aparelho eletrônico, de estranha utilidade para o momento. Sempre entusiasmado, chegou à sala muito elegante sentando-se em uma das últimas cadeiras; ajeitou-se todo, para fazer a tal prova; acendeu um cigarro, tragou, ajeitou o paletó, esperando pelo professor.

- Senhor Petronius, o senhor está elegante hoje; de paletó, - observou o velho catedrático.

- É, professor, o dia está um pouco frio, - retrucou.

O professor olhou para a janela e teve que fechar uma das folhas, tal era a intensidade dos raios solares que adentravam ao recinto àquela hora da tarde. Devia ser umas quatro horas.

Início de prova. Vinte questões subjetivas, como era do agrado do mestre da ciência de Ulpiano. E com que satisfação o ilustrado professor entregava as provas, com um sorriso especial a cada aluno. Para quem havia estudado até altas horas da madrugada, tudo estava relativamente respondível. Mas, para Petronius.... o caso estava muito mal. O indigitado colega, em vez de esboçar qualquer reação, como a maioria dos outros, não se apavorou nem se alegrou. Permaneceu indiferente, iniciando as respostas como os demais colegas.

Para o colega em foco, o bom êxito da prova, porém, estava dependendo da ajuda de outra pessoa, fora do recinto, para, ouvindo a pergunta de Petronius, localizar a resposta previamente relacionada e emiti-la via aparelho eletrônico que o aluno mantinha sob o paletó. Na linguagem técnica, usavam duas pessoas, cada uma, um aparelho conhecido como "walk talk". E Petronius era hábil em manejar tais aparelhos, mas o parceiro (ou parceira?) não o era, com certeza, como se verá a seguir.

O professor apanhou um jornal e começou a ler, mas discretamente olhava, vez por outra para a turma, a fim de "verificar se estava tudo bem". Leu, virou páginas e por fim, deu uma saidinha por uns dois minutos no máximo, como sempre faziam todos os demais professores, pois sempre confiavam na honestidade dos alunos, que, de fato era patente. Mal saiu da sala, ouviu-se um sussurro porque todos nós estávamos empenhados em responder a nossa própria prova e não tínhamos tempo para olhar para trás.

- Quando se dá a sucessão provisória?  Perguntou o aluno, dando a idéia de uma fala com os dentes cerrados, bem baixinho, e, segundo uma testemunha, com a cabeça levemente inclinada para dentro do paletó. Segundos depois, ouve-se um ruído na sala, como de rádio mal sintonizado, faixa AM, de má qualidade. Mas Petronius não captara a mensagem. Tirou, então, o lenço e passou na testa já dando sinais de estar molhada e engordurada.

- Fa- le mais de- va- gar ! - Continuou. - Au - men - te mais o som! - Concluiu Petronius.

Novos ruídos, mas desta vez o parceiro elevou demais o volume e deu-se o fenômeno conhecido como microfonia. As palavras saiam com ruídos, tipo apitos, que inviabilizavam a escuta. A estas alturas Petronius já se desiludira e fechara o rádio. Tirou o lenço, enxugou novamente a testa e falou mais ou menos assim: -Professor, preciso ir ao banheiro.

O professor, contudo, com aquela calma que lhe era peculiar, com voz pausada, emitida quase sem abrir as mandíbulas, explicou que não era permitida a saída de alunos durante a realização das provas.

 - Ah, professor, estou a perigo,! - retrucou Petronius, logo se levantando.

Gargalhadas à parte, o velho catedrático, sorrindo novamente, pensou e resolveu chamar o zelador para acompanhar o aluno até o banheiro mais próximo. Petronius saiu um pouco desajeitado e foi até o WC no fim do corredor. Entrou, retirou o paletó e tudo quanto se referisse ao maldito rádio transmissor e receptor. Na porta mesmo do WC acendeu um cigarro, sorriu, contou uma piadinha para o acompanhante e por fim retornou à sala de aula, deveras aliviado.

-      O senhor tirou o paletó!, exclamou o mestre, ao que Petronius respondeu: - É , professor, o calor estava danado. 

-        Na aula seguinte, Petronius não compareceu, mas a pedido do próprio professor recebemos sua prova com a nota que bem merecia: 0,00.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O DE CUJUS VIVO

 

 

U

ma das coisas mais erradas em nossa educação, salvo outro juízo,  foi haverem retirado do currículo de nosso ensino de primeiro grau, o latim, nossa língua mãe. De fato era matéria "chata", como dizíamos; os professores, na maioria das vezes sem nenhuma qualificação didática, etc. Mas a verdade é que o latim era e é necessário para quem gosta de ler ou escrever e, fundamentalmente, para aqueles que labutam na área do direito, como ciência e arte.

Por desconhecer um pouco dessa importante língua morta e por não haverem os professores explicado direito o real significado do termo, é que aconteceu um episódio que se passa a relatar, a fim de que outros estudantes não incorram em semelhante engano ou gafe.

Em idos de 1968, estudávamos o quinto ano do curso de ciências jurídicas e sociais, na tradicional Faculdade de Direito do Piauí, a saudosa Salamanca. O professor de Direito Civil, homem competentíssimo em sua disciplinam em francês, em sociologia e outras disciplinas jurídicas (mas dedicado à política no fim de sua carreira), falávamos sobre sucessão provisória e definitiva, ou coisa parecida.

No meio de tantos conceitos, houve a necessidade de se falar na figura do de cujus. Se o professor houvesse explicado (ou talvez já houvesse explicado, não me recordo bem), que a expressão de cujus é uma forma abreviada da expressão maior de cujus sucessione agitur (de cuja sucessão se trata), ou seja, aquele do qual se trata a sucessão, porque já morreu, talvez o aluno não houvesse incorrido na grave decepção por que passou sem necessidade alguma.

Somente se pode falar em de cujus, quando há uma sucessão a ser objeto de estudo, ou um patrimônio a ser repartido ou coisa parecida. Mas a pessoa de quem se fala há de estar morta. De pessoa viva não há sucessão definitiva, de início. Poderá haver, sim, a provisória de uma pessoa ausente, viva, e depois a definitiva.

Mesmo assim, torna-se imprópria a expressão em comento. Prefere-se, nestes casos o termo "desaparecido", "ausente," ou coisa semelhante. Assim entendo.

Falando-se sobre o de cujus, foi perguntado ao colega Maiarino (vamos chamá-lo assim, para não identificá-lo) - colega este que depois ocupou importante cargo em nosso Estado, justamente na área jurídica - o que significava a sucessão definitiva e em que condições ficavam os filhos menores.

Antes de responder, Maiarino, indagou preocupado:

- Tá certo professor, mas antes me diga: e se o de cujus não morreu?

Se se tratasse de peça teatral, era hora de se dizer: pano rápido.

 

 

 

 

 

 

UM ARTISTA DE VERDADE

 

 

N

utro por este enfocado uma verdadeira admiração, pois se trata de uma pessoa sensível, um grande ator, poeta e homem de bem acima de tudo. É Tarciso Prado, servidor aposentado do Banco do Brasil, agência de Teresina. Por isso homenageio a sua pessoa, nestas modestas linhas que se seguem.

Conheci Tarciso Prado quando fui me inscrever ao concurso do Banco do Brasil, na cidade de União, no ano de 1961. Os primeiros contatos se deram nas dependências do hotel do Sr. José Marques Corrêa, em cujo interior ocorreram muitas das mais interessantes e peculiares situações de minha vida de solteiro.

Inscrito, realizei as provas do concurso no ginásio estadual "Filinto Rego", num sábado e domingo. Logo no primeiro dia da prova - português ou matemática -  fui o primeiro a entregar as respostas e saí. Na saída se encontrava Tarciso que me cumprimentou e me disse:

- Você será um dos aprovados, tenho certeza.

Na verdade, o fato, aconteceu. Meses depois, aos cinco de julho do mesmo ano tomei posse naquele estabelecimento bancário, no emprego de auxiliar de escrita.

Hospedado no hotel do Zé Corrêa, fomos, eu e Tarciso bons amigos, como até hoje. E foi por seu intermédio que tomei detalhadamente conhecimento sobre a doutrina espírita, que ele professa com uma  dignidade sem par.

Num desses fins-de-semana, Tarciso, que é declamador de escol, após umas e outras, resolveu declamar um poema, que eu reputo como um dos mais inspirados de toda a literatura piauiense e quiçá, nacional. Trata-se de "Monólogo de um cego", de Raimundo Zito Batista, natural de Monsenhor Gil, neste Estado.

Estávamos reunidos no salão principal de refeições do hotel, juntamente com algumas pessoas residentes na cidade, tais como Francisco Pereira de Miranda, Ernâni Rodrigues Clark, Miron de Moura Pedreira Sobrinho, algumas mocinhas da cidade e parece-me Francisco Alves de Almeida, o Almeidinha, além do "Sousa", protagonista da estória " A calcinha emprestada"

Lá para as tantas, foi pedido a Tarciso que declamasse algum poema, à sua escolha. Acredito que a pedido  da ala feminina da cidade, ali representada pelas moças casadoiras. Tarciso, não acostumado àquelas doses a mais, após muita insistência, iniciou a declamação, fazendo suspirar uma ex-quase namorada sua.

"Falaram-me do sol. Maravilhoso o sol refulgindo nas alturas", começou Tarciso.

O silêncio ainda não era total. Fiz sinal com as mãos para que todos se calassem mais um pouco.

"Falaram-me também das florestas e das aves. Das aves cujo canto põe na minha alma em febre uns arrepios suaves. De vaga nostalgia". Continuou Tarciso.

Valdemir Mota, outro colega da cidade deu pequena risada pondo as mãos nos lábios. Tarciso notara e ficara vermelho mais do que já é seu normal.

"Ah! Se eu pudesse ver as aves e as florestas. Soberbo o meu encanto".

Couto Martins de Sousa, falecido tempos depois, parece que aprovou a interpretação do texto com a cabeça. Tarciso novamente notara e se acalmou mais.

 E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida? O mar é um rebelado. Que vive noite e dia em soluços , gemendo. De cólera incontido. A investir contra o céu como um tigre esfaimado".

Aí Zé Corrêa sorriu um tanto desajeitado, porém, sem indicar crítica ou elogio. Apenas para sorrir como de costume: Ri, Ri....Ri Ri....

Suponho que o Almeidinha tenha ensaiado um  começo de gracinha ou alguma prosa, como lhe faz a natureza pessoal, quando viu Tarciso reforçar a declamação  com a ajuda das mãos, como fazem os bons declamadores.

Tarciso prosseguiu, mas já somando pequenas irritações, como é natural. Afinal, a interpretação era por demais perfeita. Não que a irritação fosse por vaidade ou diletantismo, mas porque ninguém dos presentes reunia condições para recitar algum poema com a qualidade da interpretação do artista.

Aí Tarciso cresceu:

"Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito é outro, um outro ainda: o que me faz chorar. E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito, quando  eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo. É ânsia indefinida, o desejo profundo de conhecer o que há de mais original no mundo; de conhecer a mim mesmo".

E num último esforço, Tarciso concluiu:

"Porque a julgar, talvez pelo mal que me oprime,/ eu devo ser, por força, um monstro desconforme,/ na eterna expiação do mais nefando  crime, /atado ao poste real de minha dor enorme".

O "auditório" foi abaixo. Palmas para todos os lados, abraços (inclusive por parte dos críticos) e cumprimentos efusivos.

Nesta ocasião, Tarciso, sentido com as críticas ainda em sua cabeça, explodiu. Bateu com uma das mãos várias vezes no peito exclamando:

- Eu sou um artista!  Eu sou um artista! Ninguém declama como eu. Eu sou um artista!.

Isto feito, dirigiu-se especialmente ao Almeidinha dizendo mais uma vez: - Eu sou um artista.

 Finalmente sentou-se cansado, com os olhos lacrimejantes. Realmente ali estava um artista da melhor cepa, porém incompreendido por alguns gatos pingados.

No dia seguinte, domingo, Tarciso acordou mais tarde, ainda um pouco zonzo, tossindo bastante e cuspindo seco. Bebeu bastante água, tossiu mais algumas vezes e exclamou:

    - Tô com uma dor danada no peito. O que será? Disse preocupado com possíveis sintomas talvez de uma tuberculose pelo uso constante do diabo do cigarro àquela época.

- Que nada rapaz. Você quase arrebentou os peitos, batendo e dizendo que era um artista. Ontem. Não se lembra? Falei para ele.

Confirmando que fôra aquilo mesmo, deu uma gargalhada e exclamou:

- Bêbado faz cada coisa!.

 

 

                                

 

A CURA ESPIRITUAL

 

E

ste acontecimento contou-me, várias vezes, minha avó materna, Maria Fernandes Alves da Silva, que residia na cidade de Barras do Marataoan, hoje apenas conhecida como Barras, interior do Piauí.

Vovó era casada com o Francisco de Castro e Silva e filha de José Fernandes Alves, farmacêutico, e Rosalina de Resende Alves, de família do Pedro II, também do interior do Piauí. Este meu bisavô, em idos ainda do Império fôra condecorado pelo então Imperador D. Pedro II, com uma Comenda, por haver debelado uma epidemia de varíola, por aquelas regiões do Estado, Comenda esta cujo nome meus familiares não têm idéia. Por isto meu bisavô era conhecido como Comendador José Alves.

Não se sabe ao certo em que data nem como de fato aconteceu, mas o certo é que neste meu bisavô surgiu um tumor na testa, bem onde começa o cabelo e ia paulatinamente crescendo de volume. Inicialmente, relatava minha avó, era como se fosse um caroço de pitomba que, de tanto crescer, já se apresentava com a forma de um caroço de pequi  pequeno. O caroço não doía, mas incomodava bastante. Era vermelho, dando para roxo, liso e brilhante.

Como farmacêutico, meu bisavô sempre procurou, e por várias vezes, a cura natural. Primeiramente lá por Barras mesmo, indo depois a São Luís do Maranhão, mais tarde para Teresina e finalmente até o Rio de Janeiro. Mas, nada de positivo pôde obter. A conversa dos médicos era a mesma de quem não sabia o diagnóstico: "depois resolveria"; e passavam sempre uma xaropada qualquer, uma pomada ou outra gororoba sem nenhum efeito real.

Foi aí que a família teve a idéia de submeter o caso à apreciação de uma mesa de consultas espíritas, de que faziam parte pessoas sérias da cidade de São Luís, dentre as quais minha avó, que se dizia médium de psicografia e vidência. Também participava da mesa Raimundo Gonçalves, um militar residente na cidade, genro desse meu bisavô, pois era casado com sua filha, Elisa, portanto irmã de minha avó.

Naquela cidade era costume, em dias certos, previamente confirmados, em fins de semana, algumas pessoas bem intencionadas e sem trambique algum, reunirem-se para o estudo da doutrina de Kardec e para desenvolvimento da mediunidade ou para recebimento de mensagens dos seres de outras dimensões, ou seja, desencarnadas, na linguagem deles.

Para os menos avisados, dizem os espíritas, todos nós temos algum tipo de mediunidade, mais ou menos, dependendo do grau de merecimento e evolução na contabilidade cármica do além. Não é médium quem queira, mas apenas aqueles que merecem. Isto no entender dos espíritas, coisa que eu não endosso, até prova em contrário.

Do mesmo modo, a Igreja Católica, por outros motivos não aceita a doutrina. Quem poderia imaginar que o espírito de um Papa ou de um bispo possa encarnar em um corpo de operário, de um pobre ou de um negro? Mas o assunto aqui é outro.

Através desse médium Raimundo Gonçalves, foi recebida uma mensagem do espírito do Dr. Vinhas (que não conhecemos sua vida na terra), muitas vezes presente às seções, quando invocado e permitida a sua participação. E nesta ocasião o desencarnado deu o seu diagnóstico para o caso de meu bisavô. Somente no Rio de Janeiro, na farmácia tal, havia um remédio (um vidro apenas), cujo nome não dispomos. Na mesma mensagem a entidade indicou a maneira de como usar o medicamento em questão. Pediu finalmente que a família mandasse buscar o remédio a qualquer custo.

Imediatamente foi solicitado ao seu filho, Miguel, que estudava medicina naquela cidade, que procurasse a tal farmácia e adquirisse o remédio prescrito. Missão cumprida, remédio chegado e utilizado na forma indicada na bula, se era que possuía.

Vovó contou-nos que era um vidro pequenino, com um pincel também de vidro e que foram usadas duas aplicações apenas. Consistia em passar-se o pincel sobre o local afetado, "melado" com o líquido do interior do recipiente. Ao fim de duas aplicações, nada. O remédio, ao que constava, não surtira o efeito desejado. Inicio de frustrações etc.

Na manhã seguinte ao da segunda aplicação, vovó resolveu conversar com o pai, tendo dele recebido as lamentações de estilo e de costume, ocasião em que minha avó, virando todo o vidro para baixo, mergulhando o pincel no resto do conteúdo, passou mais uma vez sobre o tumor, retirando-se a seguir para a sua casa defronte a de meu bisavô.

Na manhã seguinte ouviu-se :

- Dona Mariquinha, dona Mariquinha, venha aqui. O comendador está lhe chamando. Logo!

Vovó saiu de casa, do mesmo jeito que se encontrava vestida, entrando de supetão na casa do pai que, muito eufórico, agradecendo ao molecote Jerônimo, autor do recado, cuidou de mostrar logo o buraco que se fizera na testa, produto da desocupação, até certo ponto atormentante, pelo ex-tumor.

Dentro da rede do velho farmacêutico estava inteirinho o tumor avermelhado, com raízes alongadas, ainda ensangüentado, como que numa comprovação, mais que suficiente da eficácia da comunicação com os espíritos, salvo eventuais e  raríssimas coincidências.

Disse-me mamãe, recontando a estória, que o tumor fôra colocado depois em um frasco de álcool para estudo ou análise por parte deste meu bisavô. Contudo, não se chegou a nenhuma conclusão sobre a origem e a natureza do tal tumor sebáceo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O MORTO VIVO

 

 

A

no de 1935 aproximadamente. Cidade de Vargem Grande, interior do Estado do Maranhão. Mamãe, então com 15 anos, sem muita pretensão, vai até à casa do Sr. Manu, como era apelidado. Devia chamar-se Manuel de tal, solteiro, mais ou menos de 40 anos de idade. Manu morrera de manhã, lá pelas 10 horas e às 4 da tarde já seria enterrado no cemitério da cidade.

Manuel, de profissão ignorada, era irmão de Joana (a do Aurélio, como se chamavam as mulheres da cidade e da época, ou seja, com o sobrenome do marido).  Aurélio era músico da banda local e o diagnóstico da morte de Manu não foi revelado, pois não se fez autopsia, mesmo porque naquela cidade não havia nenhum médico. Supõe-se ataque de coração, ou melhor, uma catalepsia.

Eram 12 horas do dia, quando a então menina Teresa, de quinze anos, arisca, vendo Manu deitado na urna funerária, de gravata e tudo, resolveu colocar a mão na testa do falecido e sentiu que o "morto" não estava morto, muito embora houvesse falecido pela manhã, e corpo ainda estava meio quente.

- Minha gente, este homem não está morto, exclamou mamãe, com aquele ar infantil.

- Besteira!, retrucou Lucinda, uma moça velha, de 50 anos, por aí.

- Vai te aquietar (ou saia daqui, garota), concluiu a moça velha.

Mamãe, desconfiada, saiu de casa, mas levando consigo a convicção de que o morto não morrera mesmo.

Rezas de estilo, ladainhas, choros, encomendas de corpo e alma, missas de corpo presente e outras baboseiras dos dogmas católicos, elogios póstumos, afinal enterraram o Manu.

Poucos dias depois começaram as comunicações, ou melhor, as mensagens do espírito de Manu aos parentes ainda vivos, através dos sonhos, a começar por sua irmã, Joana, pelas quais Manu teria sido enterrado vivo. Isto mesmo: vivinho da silva, tal como, aliás, prenunciara a menina Teresa. Aí foi uma zorra geral.

A princípio o fato foi escondido dos demais amigos de Manu ficando o assunto adstrito aos familiares. Porém, depois, com outros sonhos, a cidade inteira ficara sabendo do acontecido. Foi então que retaliações à pequena Teresa começaram discretas, mas constantes.

- Você poderia ter sido mais agressiva. Ter feito mais barulho, um alarde de grande monta.

Ou, então:

 - Por que  você não disse a outras pessoas. Talvez alguém resolvesse lhe escutar. E por aí foram. Era aquela velha estória de sempre. Não se acredita nas conversas das crianças e depois se tenta responsabilizá-las pela inércia ou descrenças dos adultos.

Mas não ficou aí o problema. Outras pessoas, igualmente, tiveram a comunicação em sonhos, como aconteceu com dona Maria Martins e dona Branca, dentre as que mamãe se recorda. Era o assunto da cidade: a família de Manu o teria enterrado vivo. Que descaso. Quanta irresponsabilidade.! Para que tanta pressa!?

Supõe-se que o fato haja sido comunicado ao pároco da cidade que, evidentemente, como "dono da vida dos fiéis", se manifestou de modo contrário a qualquer resquício de veracidade. Sonho era sonho, coisa sem valor e apenas criação da mente ou coisa que o valha.

Para o padre que pronunciara dia antes  um sermão nesse sentido, a alma do indivíduo, uma vez saída do corpo, vai para o céu, esperar o Juízo Eterno ou então para o inferno eterno (para aqueles que não vão à  missa e não respeitam os padres).  E por tais razões, o melhor que a família teria de fazer era esquecer o fato. Deus cuidaria do caso, como o Senhor de todo o Universo.

E assim a idéia de se comprovar a comunicação espiritual não se fez logo, mas apenas meses depois. O prefeito municipal, a fim de ganhar eleições, mandou construir um novo cemitério, mandando levar os mais recentes caixões para o novo lar eterno. Os pedreiros, encarregados de retirar as urnas funéreas, cometeram pequeno acidente no caixão de Manu com uma picaretada que não teve mais tamanho.

Só se viu pedreiro para todo lado. Alguns nunca mais apareceram na cidade, tal o medo do aspecto do morto que não lhes saíram mais da mente. Assim se crê.

O corpo de Manu, ainda em decomposição, roupas do enterro ainda resistentes, sapato em perfeito estado de conservação, mas estava virado entre de bruços e de lado, ainda com as mãos levadas à garganta, num evidente sinal de que o morto fôra mesmo enterrado vivo, tal como predisse a menina Teresa. A asfixia era que tinha sido a "causa mortis.".

Questionado, o padre, como sempre acontece com clérigos, recusou-se a falar.

 

PREVISÃO DE MORTE

 

 

C

orria o ano de 1900 e poucos anos e a cidade onde o fato se passou foi Vargem Grande novamente, já conhecida dos leitores. Mariquinha Castro, também já conhecida, foi uma das protagonistas desta estória.

Vovó foi passar uns meses de folga num lugarejo denominado "Cantagalo", distante algumas léguas da cidade. A água que servia à população era retirada de cacimbas. Cada pessoa teria de apanhar a sua própria água, quer para o consumo, quer para a lavagem de roupa ou para banhar. E consta que nas águas das cacimbas havia uma substância conhecida como "papa-rosa", que encardia a roupa com o passar do tempo.

Quando minha avó voltou para Vargem Grande, sua roupa de uso cotidiano estava quase toda inutilizada.  Daí meu avô haver chamado a esposa para autorizá-la a comprar novos tecidos para a confecção de outros vestidos, blusas, etc. A loja escolhida era de um senhor Jorge de tal, comerciante da cidade. Isto ocorreu à tardinha de certo dia.

À noite vovó foi se deitar, acompanhada de um tradicional cigarrinho, que sempre usara para adormecer mais rápido, conta minha mãe. Cochilou tendo o cigarro caído, o que lhe causou certo espanto. Tornou a cochilar e viu, em sonho, seu pai, José Fernandes Alves, o comendador que o leitor já conhece.

Na descrição de minha avó, seu pai estava vestido com um camisolão muito alvo e se aproximou dela dizendo:

 - "Minha filha, não vá fazer compras de roupa, porque você vai ter que botar luto nesses dias." E desapareceu devagarinho.

Vovó, então chamou meu avô a quem contou o fato.

-      Besteira!. Retrucou aborrecido.  - O que Deus tem de fazer nem os anjos sabem.  Morrer aqui só se for eu que estou adoentado.

De fato vovô já vinha sentindo fortes dores no fígado. Daí a sua resposta até certo ponto grosseira. Mesmo assim vovó não foi comprar novas  roupas para  seus vestidos, talvez acreditando no que viu em sonho, ela que se dizia médium.

Oito dias depois, a mãe de minha avó, Rosalina, que o leitor já conhece, veio dormir na casa de minha avó, pois as casas eram "fundo-com-fundo", como se costuma chamar, ainda hoje, as casas ligadas pelo mesmo muro ou cerca dos fundos.

Minha bisavó estava de boa saúde; nenhuma doença à vista. À meia-noite foram dormir: vovó e minha bisavó, viúva, sem outra companhia nessa época. Passados poucos minutos, vovó ouviu um grito advindo do quarto de minha bisavó. Aquela se levantou e foi ao local do acontecido. Lá chegando, achou minha bisavó dormindo. Acordada depois, disse que tudo estava bem e que minha avó fosse dormir tranqüila. Minutos depois repete-se a mesma cena e nova resposta. Assim foi até o dia amanhecer, com novos gritos e sem nenhuma explicação.

De manhã minha bisavó foi para a sua casa e minutos depois se ouvem os gritos de minha tia-avó Elisa:

- Corre Mariquinha, mamãe está morrendo!.

Chegando lá minha bisavó estava engasgada, com o café que ela havia tomado. Levaram-na para o quarto, mas ela não falou mais nada e nada mais engoliu. Veio o médico, deu-lhe remédios, mas não houve jeito. Minha bisavó faleceu no mesmo dia.

O diagnóstico do médico foi de tétano de garganta, mas dias depois, outros profissionais da medicina, analisando a questão, acharam que havia sido crupe galopante a causa da morte. O certo é que ela morreu tal como previsto em sonho, não se sabendo ao certo de quê.

 Coincidência ou não fica o registro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O CONSULTÓRIO QUASE CERTO

 

 

N

ão sei se foi verdade o fato, mas o certo é que por várias vezes contou-me um ex-colega de Banco do Brasil - Joãozinho -  exímio contador de  " causos", inigualável no gesticular, sendo pois incomparável  nessa missão.

Certo caboclo do interior do Estado, segurado dessa vergonha que é a Previdência Social, chegou às portas do consultório de determinado facultativo, oculista de renome da capital, mas com uma estranha proposta.  Queria uma consulta com o médico, a qualquer custo, sem, entretanto, nada possuir de anormal, no tocante à miopia, astigmatismo, cataratas, deslocamento de retina ou outra doença notável nos olhos.

Conseguiu a consulta, sentou-se em uma cadeira, colocando sobre o balcão um pacote de uns quinze centímetros de comprimento, bem mal embrulhado. Minutos depois, uma leve fedentina se fazia sentir na pequena sala, apesar do ventilador que circulava com ferocidade. Isto, porém, já incomodava os outros clientes, que olhavam uns para os outros e para a atendente.

Procura-se daqui, procura-se dali, mãos ao nariz, discretos passeios de alguns até a porta da entrada, etc. Mas ninguém se lembrou de verificar de perto o estranho embrulho do segurado da Previdência.

Por fim, alguém, passando bem perto do pacote, sentiu o mau cheiro, característico e exclamou:

- Taqui. É esta a causa de tudo. Um absurdo.! E apontou para o pacote.

A enfermeira nervosa e já sem paciência, partiu para o caboclo com palavras duras, acusando-o de estar menosprezando o consultório e os clientes do médico. Mas o acusado retrucou:

-      É isso mesmo. Preciso falar com o Dr. Evaldo.

- Moço, olhe aqui. Disse a enfermeira. Primeiro vamos ver o que o senhor botou aí neste embrulho que fede que nem o cão. O que tem aí?

O caboclo não se assustou.  Abriu o pacote.  E o que se via eram pedaços de excrementos fecais humanos  (dele, disse o caboclo), antes  postos dentro de um plástico, para somente depois embrulhar no papel de jornal ou parecido.

- Mas moço, - continuou a enfermeira - como pode o senhor querer se consultar com um oculista, se traz para cá este pacote de m...? O senhor deve estar enganado de consultório, de local, sei lá. O consultório próprio deve ser este aqui de lado (e apontou para o consultório do Dr. Francisco, que realmente era ao lado e cuja especialidade era análise de fezes).

- Ele é que cuida desse material nos exames. Não é para lá que o senhor queria ir? Perguntou a atendente.

Mas a estas alturas, a fedentina obrigou os clientes a tomarem uma decisão: colocaram " na marra" o pacote nas mãos do caboclo que o segurou mas depois recolocou-o sobre a mesa.

- Daqui eu não saio sem falar com o Dr. Evaldo.

Um cliente, dos poucos calmos que ainda estavam  no local, como quem já estava acostumado a estas peripécias, assumiu o comando das negociações e perguntou:

-      Cidadão, (como é mesmo o seu nome ?

-      Sinésio, respondeu o caboclo. 

-       Seu Sinésio - continuou - me diga só uma coisa. Por que o senhor insiste em querer se consultar com um oculista, se seu caso deve ser tratado - não sei bem - aí do lado no consultório do Dr. Francisco que é de análise.?

O caboclo, pegando o pacote, desembrulhando o papel de cima e mostrando aos presentes a quantidade do produto e a grossura bem avantajada, respondeu:

-      Eu quero me tratar com o doutor oculista, porque toda vez que eu "boto isso "me saem lágrimas dos olhos. !!!

 

                                            

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AS ONÇAS

 

 

D

esta estória não me recordo a origem, ou seja, quem m'a contou. Sei apenas que se passou com um digno homem de letras jurídicas de nossa capital e do Estado. Aliás, com este culto homem é costume acontecer realmente passagens interessantíssimas.

Desses acontecimentos pude gravar apenas três, embora tenha havido dezenas deles, na forma do que já me relataram. Pode ser até que os fatos hajam acontecido com alguém e que até já tenham sido relatados por outrem. Como os desconheço, aqui vão eles tais como me foram contados.

O palco foi no interior do Estado, nos arredores de uma cidade pequena, onde o referido protagonista, com muita dedicação e competência, servia à causa publica. Era tardinha, quando Dr. Estévão - vamos assim cognominá-lo - saiu para caçar, como sempre fazia aos fins de semana. Era homem que praticava o bem, mas gostava de fazer o mal aos animais. Caçava passarinhos e outros pequenos animais quadrúpedes, tais como veados e mocós, estes uma espécie de roedor que habitava nas pedreiras e no mato baixo, nas imediações da cidade.

O íntegro homem público havia passado o dia inteiro quase que mergulhado nos afazeres melindrosos da profissão e, como houvesse se desincumbido de um problema há muito desejado, resolveu relaxar, caçando à espingarda, em vez de fazê-lo com a leitura, até certo ponto técnica e cansativa, embora  necessária à sua profissão.

Saíra sozinho, mesmo podendo ter levado consigo alguém para acompanhá-lo até o local desejado, que não distava mais do que três ou quatro quilômetros dali. Aquietou-se perto de um barranco, esperando as vítimas inocentes. O tempo passou; já ia anoitecendo; nada de pássaros. Somente alguns mocós, por vezes, passeavam por entre as pedras.

Sem poder experimentar a pontaria - infalível, como ele dizia - decidiu-se por alvejar os citados animais. Afinal, aquela caça, se não a preferida pelo Dr. Estêvão, poderia doá-la aos moradores vizinhos ou próximos do local da caçada. Seria uma caridade em troca da maldade que praticara.

Saltitando, afigura-se na frente do caçador um mocó de porte airoso, bem gordinho, enchendo os olhos do ínclito homem público, que não titubeou no sentido de ajeitar a espingarda, armando o cão e fazendo a pontaria. Antes, porém, de apertar o gatilho, o caçador observou que no topo de uma pedra de uns seis metros de altura e distante do seu lado esquerdo a uns quatro metros apenas, se encontrava uma irrequieta onça pintada, que já se preparava para dar o bote traiçoeiro.

Dr. Estévão quase morreu de infarto. Onça ? Naquele local tão perto da cidade? E logo uma onça pintada? Que poderia ele fazer? Nunca caçara nada igual. Pássaros, mocós e outros animais pequenos vá lá. Mas, onça, era demais. E começou a relembrar o presente e o passado.

Pensou em morrer comido pelo animal, sem dó nem piedade. Que desgraça! E as vezes que ele praticara o bem não contava? Matar os animais? Mas isso toda a humanidade faz e não seria ele o único a pagar por este pecado. E se apegou ao seu santo de devoção, pedindo a necessária e infalível ajuda.

Quando está em oração silenciosa, olha para o seu lado direito. E o que não vê? Uma outra onça pintada, mais ou menos do mesmo tamanho e com as mesmas pretensões da anterior: comê-lo. Disto ele não tinha a menor dúvida, mesmo porque os olhos do felino já diziam tudo.

Como não havia nada a fazer, resignou-se e fechou os olhos, deixando apenas uma parte de um para certificar-se de que os animais iam mesmo pular em cima dele e degluti-lo sem mais conversa.

Aí ocorreu o que se esperava. As onças pularam, no mesmo instante, já com as patas dirigidas à garganta da vítima, como sói acontecer nessas ocasiões fatais, sem que nunca alguém tenha se salvado.

O velho intelectual, porém, sabidamente, como sempre o fazia na vida, mas desta vez, calculando que as onças iriam cair em cima dele no mesmo instante,  recuou um pouco com a espingarda presa ao peito esperando pelo resultado: as duas onças foram de encontro uma com a outra, batendo com as cabeças bem no centro de cada qual.

Pancada de doido, como se diz, caíram os dois animais, ainda meio tontos, sem alguma reação, só no ponto exato de o Dr. Estévão dar um tiro de misericórdia na cabeça de cada um.

 

 

 

 

A MÚSICA ESPACIAL

 

 

D

r. Estévão, como se viu na estória anterior, era homem trabalhador e muito pesquisador da história e das estórias. Um filósofo que não escrevera ainda as suas idéias. Uma pena porque o homem tem cabeça para escrever livros e livros de toda espécie.

Vez por outra saía para espairecer pelos arredores da cidade interiorana onde servia, após um dia todo de indócil labuta. Não gostava de rotina e nem muito menos do vulgar. Era homem de gosto acurado e apreciador das  boas coisas. E um encontro com a natureza-mãe ou consigo mesmo era um bom relaxante.

Desta feita não saíra para caçar, mas para meditar um pouco sobre um caso proposto à sua apreciação para o que ainda não encontrara a solução adequada. O senso do correto ainda não havia aflorado em sua mente.

Passeando que se encontrava pelo final de uma viela, não andou mais de dois quilômetros quando ouviu uma musiquinha, perto de seus ouvidos, mas dando a impressão de se encontrar longe ou como se fosse saída de um rádio mal sintonizado. O trecho da música era o mesmo. Sempre o mesmo e pequeno, sem o final do xaxado, que era o tipo de música.

 - Vou indo p'ro Maranhão; vou deixar este sertão.

Aquilo se repetia sempre com a mesma conotação: - Vou indo p'ro Maranhão; vou deixar este sertão.

Quem seria o cantor? Não reconheceu a voz, ele que sabia de cor tudo quanto era de cantiga. Mas desta vez não reconheceu a voz. Ficou parado, intrigado com o fato. Novamente a musiquinha tocava.

Dr. Estévão olhou para o lado da parede, olhou para trás e nada viu.  Na frente não havia casas e do lado esquerdo, oposto ao da calçada por onde andava também não havia nada.

Aí não teve jeito. O Dr. Estévão arrepiou-se todo, pois era tardinha, final de rua, ninguém perto e fim no fim do quarteirão, justamente onde se localizava o cemitério da cidade. Não que ele tivesse medo de alma ou coisa do outro mundo. Medo, não, pois ele era homem corajoso, haja vista haver enfrentado até onça, que é coisa real. Quanto mais assombração ou coisa que o valha. Estava temeroso, era verdade, mas pelo mistério que se estabeleceu.

O vento, leve, tornou a soprar. Nova entonação. Aí o Dr. Estévão ligou assim a emissão do som com o sopro do vento. Toda vez que soprava o vento, a música era ouvida. Premissas conseguidas, só faltava a conclusão. E neste tipo de resultado, o protagonista era mestre. Silogismo era com ele mesmo. Então, raciocinou; da próxima vez que o vento soprar, a música vai tocar. E assim aguardou pela próxima lufada de vento, certo de que a charada estaria  resolvida cedo, cedo.

Logo que sentiu a lufada, procurou um canto para se encostar. Foi quando, olhando para cima e para um canto do muro, vislumbrou um enorme pé de laranja, mas já velho, ou mudando as folhas. O certo é que estava sem quase todas as folhas. O pé de laranja estava pelado, como se diz.

Num desses galhos, o olhar de lince do Dr. Estévão não perdoou. Viu lá em cima um pedaço de um disco, desses de vinil; mais da metade do objeto, pois o mesmo estava preso pelo orifício numa parte de um galho. E na frente do pedaço de disco achava-se um grande espinho.

Pronto. Estava encerrado o caso: o pedaço do disco - contava o estoriador - por causa do sopro do vento, girava p'ra lá e p'ra cá. E, como o espinho da laranjeira riscasse o disco servindo de agulha, emitia-se a música em questão, que ainda soou uma vez antes de ser desativada pelo inteligente buscador.

Se ao menos  fosse uma valsa  de Strauss ! exclamou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

UM ESTADO DE NECESSIDADE

 

 

S

empre tive por comportamento uma atitude longe daquilo que podemos chamar de amigos do alheio. Criei-me num ambiente de corretos procedimentos e obediente aos preceitos da moral. A minha formação jurídica, sempre me indicou o caminho da honestidade, tanto é assim que jamais aceitei causas forenses em cujo bojo achasse, por menor sombra que fosse, haver resquício de uma ilegitimidade. Não sou santo, porém.

Mas, como não se deve seguir o que diz o ditado "dessa água não beberei; desse pão não comerei", comigo aconteceu um caso bem ímpar que, pelas circunstâncias, poderia se adaptar ao título do presente relato. O caso ocorreu durante o carnaval que passei na cidade de São Luís do Maranhão, a Ilha do Amor, como é conhecida.

Saí de uma festa a que compareci no Clube Jaguarema daquela cidade costeira. Dia de sábado, muita festa, algazarras, bebidas na medida do ponderável, companhias agradáveis, etc. Desta feita saíra sem minha esposa; apenas com meus dois filhos mais velhos, Ricardo e Karina.

Devia ser umas quatro horas mais ou menos da madrugada já do domingo e chovia fino. Saí do baile em direção à casa de minha irmã, no bairro São Francisco, em cuja casa me hospedara, dirigindo meu carro, um Opala, ano 87, mas bem conservado e tudo o mais.

Ao sair do clube, o fiz pela via correta, até encontrar a estrada "dos franceses", como é conhecida uma das mais longas avenidas daquela cidade. Mas, para o bairro São Francisco há uma saída mais perto, que vai de encontro à uma ponte no bairro Alemanha. E por lá eu fui, preferindo a outra mais movimentada.

Por aquela época, o governador Epitácio Cafeteira, considerado o "melhor prefeito de São Luís", dado o volume de obras de fachada que vinha proporcionando à cidade, com desprezo pelo resto do interior do Estado, promovia uma verdadeira ciranda de buracos na cidade. Num destes, já cansado, às quatro da madrugada, não o vendo, o resultado foi o que o leitor já previu:  forte pancada nos pneus, do que resultou o esvaziamento de dois deles; um na frente e outro atrás, ambos do mesmo lado.

Quatro da manhã, cansado, boca seca, sonolento, faminto e outros estados próprios de quem passou a noite quase inteira ouvindo "ô jardineira por que estás tão triste...mas  o que foi que te aconteceu ?". Desci do carro para saber dos detalhes. Confirmado: pneus furados e um só pneu de socorro, como óbvio. Nenhum táxi por perto, nem por longe. Filhos cansados, medo de assaltos, etc., telefones, nenhum. A desolação; a expectativa.

Resolvido a dormir no próprio veículo até amanhecer totalmente, eis que surge um molecote, arisco de uns 16 a 17 anos, só de cueca, mas com uma blusinha curta, como me observou minha filha mais tarde. E foi logo proseando:

- E aí, patrão, que houve? Parece que furou o pneu?

- É rapaz, e logo os dois. E eu nem sei o eu fazer.

O molecote, após a minha resposta, olhou para um lado, olhou para o outro e saiu-se com esta:

- Vamos pegar um pneu deste carro aí em frente, ué,  apontando, ao mesmo tempo, para um  Opala, modelo antigo, talvez 69 a 71, que se achava sob custódia do dono da oficina.

Antes eu já havia buzinado umas dez vezes para acordar o dono da oficina (ou ferro velho, sei lá o quê), instalada defronte ao local onde o carro parara. Buzinara, buzinara , batera palmas e nada. O vira-lata vigia nem vigiava, nem metia qualquer medo a nenhum assaltante.

A dúvida me assaltou. O coração passou a pulsar mais violentamente, como sói acontecer nesses casos. Nesses casos, só comigo, diga-se! A pressão, que já era alta, deve ter subido uns 5 pontos ou mais. O rosto esquentou e as idéias me fugiram. Estava irremediavelmente preso às mãos de um molecote, um marginal, talvez.

Mas, o dono não está aí. Pensei comigo, pois já buzinei várias vezes e nada.

- Então vamos pegar, disse o molecote, com um argumento que não havia quem o desfizesse. E começou a via crucis: desatarraxar o pneu a ser furtado e desatarraxar os meus dois furados. Mãos à obra, então. Coração em sobressalto.

Todo carro que passava logo imaginava que seria o dono do depósito, posto que o molecote havia me garantido que o vira em uma festa, perto dali, e que seu carro era um Passat azul.

Luís era o nome do dono do ferro velho, disse logo o molecote. E este Luís eu o via chegando a toda hora, bêbado, com um revólver ou uma faca na mão a fim de nos atacar. Haja medo e arrependimento por haver ido a uma festa sem muita vontade. - Bem que eu não queria, dizia comigo.

Durante esta operação foi que imaginei o que estaria acontecendo comigo em termos de ação frente ao Direito. Um furto, coisa que eu não admitia de modo algum. Um contrato inominado, consolou-me o íntimo. Mas onde estava a outra vontade?

Foi aí que me recordei de meu velho código penal anotado, artigo 20 que tipifica o "Estado de Necessidade", como excludente de culpabilidade. E veio-me à memória a definição, tantas vezes repetidas nas salas da Velha Salamanca:

"Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício , nas circunstâncias, não era razoável exigir-se".

O que diz o leitor; concorda comigo? Não estava tipificado um Estado de Necessidade? Então, mãos à obra. Porcas para um lado, porcas para outro, pneus desatarraxados, pneus assentados; coração em disparada. Afinal, os dois pneus no lugar, dois pneus secos no porta-malas e um pneu faltando no carro do Luís, ou de um cliente seu.

Cem cruzados novos na mão do molecote fez-lhe ainda afirmar que "limparia minha barra "perante o Luís, dizendo que eu devolveria o pneu " emprestado" no outro dia, pois ele "me conhecia muito". Não sei por qual a razão, o certo é que cheguei em casa com uma bruta dor de cabeça. Fôra a bebida; era a pressão? Até hoje não sei.

No dia seguinte fui à oficina de remendos: outros cem cruzados novos ao operário pelos serviços que incluiu também desamassamento de calhas, calibramento de pneus e outros poréns. Enfim, tudo certo.

Faltava apenas enfrentar o Luís, no domingo, quando fosse lhe entregar o pneu surrupiado. Fiquei enrolando a tarde inteira, aguardando a noite para fazer a devolução, pois àquelas horas, logo no domingo, a chance de não ver o Luís era a maior. Além do mais, eu não pretendia um confronto, pois supunha que poderia acontecer algo perigoso em não poder nem iniciar o diálogo ou nas mil maneiras de ser recebido, talvez por alguém ignorante em costumes ou coisa assim.

Por fim, coloquei a esposa e filhos no carro e saí. Com a família de lado, o "desgraçado" não iria cometer um delito qualquer, coisa que poderia acontecer se eu fosse sozinho. Isto eu confesso. O medo agora era da mesma intensidade do dia anterior.

Na frente da casa do Luís desci, pedindo aos meus filhos para ficarem no carro com minha esposa, mas esta me acompanhou até a porta da casa. Palmas, nada de resposta. Novas palmas, tudo silencioso. Um pouco de alegria chegou-me ao espírito. Vira-lata-vigia deitado! Que bom.

Foi então que resolvi penetrar na saleta, ocasião em que vi uma grande rede embolada com uma pessoa em seu interior. Chamei. Nada de resposta. Novas alegrias. Olhei para o alto de uma escada e vi luz acesa na sala e ruídos detectáveis. Subi os degraus e deparei-me com possíveis passistas de escolas de samba, só de calcinhas, imaginem e.....de seios de fora...

Um pouco refeito do pequeno susto, meti a cabeça na sala e olhei para o corredor. Vi que as passistas estavam se preparando para sair em escolas de samba naquela noite ainda.

- Qualé, cara? Veio uma delas com as mãos aos seios.

- Queria falar com o Luís. Disse com certa intimidade. Quero entregar a ele um pneu que eu tomei emprestado ontem.

Não concluí o raciocínio, pois fui ouvindo:

-        O Luís está dormindo.

Não esperei um só minuto e perguntei às pressas: - "Você é filha dele ?

-        Não, trabalho aqui, respondeu a garota.

Imediatamente peguei-lhe pelo braço, contando que havia tomado um pneu emprestado no dia anterior e que estava devolvendo naquela ocasião. Perguntei se ela fazia um "grande favor" em me receber o tal pneu,  no que fui prontamente atendido.

Luís dormindo, moça que recebia o pneu. Que eu queria mais? Alegria total, desci mais que depressa a escada, passei pelo saguão, pelo vira-lata vigia e por fim pelo portão de saída. Porta-malas aberto, pneu retirado e entregue a moçoila.  Alívio total.

-      Entregue também estes cem cruzados novos para ele, que amanhã eu falo com ele. Ele sabe quem sou eu. Diga que foi o rapaz do pneu. A gente se conhece muito. Amanhã a gente se acerta, falei afinal.

A idéia era a de que, sendo conhecido dele, a moçoila entregaria mesmo o dinheiro para ele. Desconfiar nesses casos não é nada mal.

O fecho da estória é que não foi o esperado, pois quando ia saindo ainda ouvi uma voz rouca lá de dentro:

- Menina,, fecha este portão. Não mais peça nenhuma para vender esta hora. Que coisa ! Ora!

De qualquer forma, valeu a pena. Ou não?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A MOTOCICLETA NADADORA

 

 


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