Dilson Lages Monteiro Domingo, 26 de março de 2017
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Licurgo José Henrique de Paiva

BIOGRAFIA

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AMOSTRAGEM
Flores da Noite

Lycurgo José Henrique de Paiva

 

 

Considerações

 

oferecidas antes da publicidade desta obra, extraídas do Jornal do Recife
de 30 de abril do corrente ano, e revistas depois pelo autor

 

 

I

 

A propósito do livro que pretende publicar o Sr. Lycurgo de Paiva, escrevi ligeiramente algumas palavras, as quais sendo destinadas unicamente à expressão do meu sentir, não merecem, e eu reclamo que não se lhes dê a consideração de um juízo crítico.

É um livro de versos, cuja leitura fez-me conceber bem fundadas esperanças sobre o seu autor.

Não é que nesse livro encontre-se a perfeição; pelo contrário, nele figura grande número de versos desleixados. Não é que nesse livro o autor nos tenha dado grandes e novas aspirações, grandes e novas idéias sobre o que mais interessa à humanidade; – pelo contrário, digamo-lhe a verdade, as suas vistas não alcançaram além do individual.

Mas não é isto propriamente um defeito do autor; é influência da sociedade em que vive e da literatura em que se embebe –, ambas devassas, impuras, repassadas de materialismo.

O autor das Flores da Noite, em quem a meditação e o estudo têm muito que aperfeiçoar, é um viçoso talento que pode enriquecer-se da mais bela frutificação.

Sinto que o poeta novel não tenha querido face a face encarar a natureza e pedir-lhe inspirações: – lamento que se deixasse levar da admiração que a outros consagra, para tornar-se algumas vezes imitador, quando muitas outras provou poder ser original.

No seio das nossas matas, como no fundo de nossas almas, como no fundo da nossa história, há muita sombra de que o poeta se possa vestir, muito mistério de que a poesia deve-se ocupar.

Todas as alturas inacessíveis, todas as profundezas insondáveis, como Deus e o coração do homem, estão sempre aí para receberem e sumirem nos seus abismos as inquietudes, os sonhos, as lágrimas do poeta. A humanidade agita-se, a filosofia observa e a poesia canta.

Nos grandes poetas modernos é sobretudo o sentimento do infinito que transborda em suspiros harmoniosos ou em gritos desesperados. Deixar de sentir com eles tudo que engrandece a nossa natureza para entreter-se na pintura das paixões triviais e mesquinhas, é não compreender os nobres vôos da poesia moderna, gravitar para o nada e condenar-se ao medíocre.

Ser poeta é mais alguma coisa do que andar com os seios túmidos, o crânio em brasa, fingindo mágoas que não se sentem ou prazeres que não se gozam; – é mais alguma coisa do que viver a beijar lábios de rosa, ver e pegar em peitos de alabastro, etc., etc., e chamar-se lírico; – falar em túmulos, em desgraças... e dizer-se – melancólico; – repetir o insípido lugar comum do – progresso – e chamar-se – humanitário. Não é isto. Ser poeta é sobretudo pensar. O pensamento é a masculinidade do espírito.

Cabe aqui repetir umas belas palavras de Victor de Laprade. – O que há de difícil e admirável não é somente pintar e escrever bem, é pensar alguma coisa que valha a pena ser escrita e pintada.

Há uma grande e uma pequena poesia; e ao invés do que parece, não é a grande que sufoca a pequena; é esta que mata aquela, como os sentidos escancarados a todos os prazeres empanam o brilho das idéias, o brilho d’alma e embotam, quando ano arrancam todos os bons instintos do coração.

É singular, diz o filósofo Jouffroy, dar-se o nome de poesia a esta superficial inspiração que se ocupa em celebrar as alegrias frívolas, em deplorar as dores efêmeras das paixões.

 

II

 

A ciência e a arte são as duas asas do espírito humano. Prima a filosofia entre as ciências, como a poesia entre as artes. Ambas avançam para o desconhecido. Mas, ao passo que a ciência caminha, a poesia voa: – o seu mister não é como o da ciência, esclarecer as sombras do problema universal; mas também não deve ser estranha aos achados daquela.

A insipidez de muito poeta dos nosso dias vem menos da falta de talento do que da falta de conhecimentos.

Se a poesia vai adiante da ciência, se o mistério é o seu domínio, desde que ela se ocupa do que está sabido na ordem dos sentimentos, das idéias, de todos os fatos, enfim, torna-se necessariamente insípida.

Os juízos do poeta não são hipóteses que a experiência
possa verificar.

É uma loucura, diz Magnin, querer a poesia sábia, como um artigo do código civil, e lúcida como a demonstração do quadrado da hipotenusa.

O coração do poeta é a clepsidra em que soam sempre adiantadas as horas da vida do mundo. Os poetas e os sábios, é verdade, devem ser iguais, porque devem ser da estatura de seu século. – Goethe é do tamanho de Humboldt.

A poesia do século XIX deve ir com ele em todos os seus vôos, em todas as suas conquistas, se quer ser grande e merecer atenção da posteridade.

 

III

 

Voltemos ao autor das Flores da Noite.

É um moço que tem a nobre ousadia de
querer produzir. Em nossa terra isto é um crime de lesa-inveja para os que, preguiçosos ou pusilânimes, sequer ousam ousar.

O Sr. Lycurgo de Paiva principia agora a estudar, a dedicar-se aos livros; sua alma escaldou-se ao contato de alguma página ardente e sentiu-se capaz de exprimir os seus sentimentos na linguagem dos versos. Outros dir-lhe-iam – deixa isso que não é para ti – nós dir-lhe-emos – estuda, pensa e prossegue.

Vejamos alguma coisa. O poemeto que tem por título Dina é engraçado e florido das flores simples que têm as selvas e os campos da pátria do autor. À parte alguns desleixos, há nele uns perfumes longínquos de vida inocente, infantil e mimosa.

Estes versos:

 

Um dia tive saudades

Daquelas matas viçosas

Das brisas tão soluçosas,

Dos ares de meu sertão.

Era de tarde – no sítio –

Tudo era grave e sentido,

Como da rola o gemido

Perdido na solidão.

 

São belos – revelam, prometem um poeta.

O sentimento que eles exprimem é doce e partilhável com todos que sofrem a ausência do ninho paterno.

É só quem brincou menino, mais perto da natureza, entretendo relações de ingênua amizade com as velhas árvores, deitado no seu regaço de sombra; só quem teve por companheira dos seus brinquedos uma linda filha dos campos, que fosse o seu primeiro amor, a sua noiva, de quem recebesse como emblema do coração algum fruto mordido, alguma flor machucada, poderá compreender, adivinhar quem é dina.

Oh! como o ruído das cidades é prosaico diante do silêncio ameno da vida rústica!

É essa amenidade que eu folgo de encontrar mais ou menos expressa no poemeto de dina. É, ao mesmo tempo um idílio e
uma elegia.

Quem dera que o poeta procurasse aprofundar-se neste gênero e apresentar-nos o quadro delicioso do nosso viver de crianças, à beira do rio, perscrutando o segredo dos ninhos, e depois... abraçados, aquecidos no seio maternal, sonhando com dina!

Ouçamo-lo:

 

Foste levar-me ao atalho

Onde a levada se finda;

Lá onde o sol banha ainda

O lis do vale sem orvalho.

Lembras-te desse raminho

Que me ofereceste em caminho?

Com que poéticas falas

Tu desprendeste-o ao cabelo!

Lembras-te? longe das galas,

Sob o dossel tão singelo!

 

 

Continua o poeta no modular de suas saudades.
Algumas estrofes me desagradam por um certo desalinho no pensamento. Corrigir-se-á.

Quis o poeta dar-nos uma idéia mais determinada do objeto de seus cantos. Achava melhor que nos tivesse deixado o trabalho de adivinhar, e não viesse falando de Dina.

 

Teus olhos pareciam-se dois astros

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Teu lábio a casta rosa amanhecida

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Teu colo a nuvem grossa de alabastro

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

Dina é um segredo; não devia ser assim revelada, para achar-se menos bela que se imaginava.

Não posso, nem é meu fim dar uma idéia de todas as peças do volume.

Na poesia Pomba dos amores há versos melodiosos e cheios de naturalidade.

Esta quadra, por exemplo:

 

Por que tu fostes, pomba dos amores?

Por que nos ermos me deixaste só?

Tiveste medo de que eu te perdesse,

Ou que de um tiro te arrojasse ao pó?

 

A poesia Meu coração não é má, tanto mais porque ela se liga naturalmente a uma outra que acho bela em que encontram-se estrofes como estas:

 

Choram as fontes, o bezerro muge,

O sabiá suspira;

A natureza infunde amor nos seios,

E faz vibrar a lira.

Há um segredo no bolir das matas

Que nos agita n’alma:

É quando a vida, no silêncio augusto,

A natureza acalma.

 

As almas vivem de esperança infinda,

A folhear os dias,

Com a crença em Deus, a respirar de um anjo,

As santas melodias.

 

Adiante lêem-se algumas outras estâncias que agradam. Deixo de falar em muitas peças nas quais o autor quis pagar o seu tributo à escola da sensualidade, ao monstro do realismo.

Deixo de falar, porque se o tivesse encarado por esse lado, outra teria sido a minha linguagem. Limito-me, pois, a aconselhar-lhe que despreze uma tal seita, para quem a vida deve ser um banquete em comunhão de prazeres, e a mulher a hóstia eucarística desses poetas que embelecem o vício – sacerdotes da devassidão.

Aconselho-lhe que estude, procure corrigir-se, aperfeiçoar-se. Comunique-se com a natureza, fale-lhe como filho e como irmão, e ouça o que lhe diz.

Familiarize-se com os grandes poetas do século, e tenha a ousadia de querer segui-los, não de dizer o que eles dizem, mas de ir aonde eles vão.

Não arrefecer, não recuar diante dos esgares e grimácias da estupidez elegante, é e deve ser o seu primeiro trabalho.

Tobias Barreto de Menezes.

 

 

 

 

M. Rodrigues

 

Afaga este livro que intitulei Flores da Noite, o qual, sendo meu, teu é.

Brotaram estas flores em minha alma como a giesta nos campos obscuros. Deus somente as sabe! Se alguém porém no mundo as puder compreender, apenas serás tu, que os segredos da minha vida recolheste no teu seio de amigo verdadeiro nos dias daquela quadra!...

O companheiro travesso dos brincos da infância é hoje o mancebo pensativo que se volta no deserto de uma vida amargurada, para dizer-te: – respira as minhas flores! Se algum perfume elas tiverem, é só para incensar o céu de nossas almas, onde fulge o astro da amizade mais brilhante, que nos liga, talvez minha única esperança neste mundo!

Se, como creio, existe um Deus bom para os que nele confiam, algum dia poderei contar-te, na suave intimidade que entre nós permaneceu sempre, a história delas.

Voltarás lá do Sul – confio...

Adeus.

 

L. de P.

Minha Mãe

 

 

Levantado do pó da humanidade

Por lei da criação – surgindo ao mundo,

Vivi: foi só por vós.

Se embalei-me nas auras desta vida,

Respirando o perfume das florestas,

Devo ainda a vosso amor.

Justo é pois que na quadra por que passo,

Umas vezes sorrindo, outras chorando,

Ao sol desta estação,

Dos meus sonhos de amor e mocidade

Eu vos teça uma coroa à luz do exílio,

– Sinal de gratidão.

 

Vai levar-vos minh’alma o doce fruto

No palor de uma lânguida saudade,

À terra de meu lar.

Vai com ela também a minha bênção,

Meu amor, minha fé, minha esperança

Em vós oh! Minha mãe!

Se a sorte permitir que lá vos chegue

O mesquinho tributo que leguei-vos

Na coroa sem fulgor,

Cingi com ela, d’alma, a vossa fronte:

– Eis a glória, por Deus! Que ambiciono

Do mundo ao mar da dor!

Dina

Poema

 

Recife, 1866

 

 

 

Dina!

 

Tive um dia saudades palpitantes

Desses tempos passados junto a ti;

Recolhi-me ao silêncio alguns instantes,

E estes versos tristes produzi.

 

Volta a folha, que ainda orvalha o pranto;

Ergue a palma d’amor que te compus,

Que se foste, na glória o meu encanto,

Do calvário és agora a doce cruz.

 

L. de P.

I

 

 

Tu foste o sopro divino

Que no condor do destino

minh’alma fez adejar;

Rompi do mundo esse véu,

Voei, subi, fui no céu,

No paraíso fui dar!

 

Na terra ingrata perdido,

Nos horrorosos desvios,

Tu foste a luz que dos rios

Mostrou-me as cheias do mal,

O gênio, a fada, o bom anjo,

Que, nas procelas da vida,

Ergueu-me a fronte abatida

Das fúrias do vendaval.

 

Bendita sejas, criança,

De Deus, dos céus, da ventura,

Que da infeliz criatura

O és bendita de amor.

 

Tu deste a prova mais alta

De virtuosa bondade,

Calcando aos pés a vaidade

Que engoda o mundo impostor.

 

Votei-te pois esta lira,

Que só pesares transpira,

Que dores só pode ter;

Que importa? – é uma lembrança –,

Que foge quando a esperança

Vem junto as asas bater.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Da flor o doce perfume,

Da aurora o fúlgido lume,

Dos céus as bênçãos de Deus:

Assim carece minh’alma,

Para compor sua palma,

Das flores dos seios teus.

Depois, passado o presente,

Quando já for seu poente,

Da noite envolto no véu,

Como do mar numa onda,

Rompida a treva hedionda,

Acordarás noutro céu!

 

 

II

 

 

Um dia tive saudades

Daquelas matas viçosas,

Das brisas tão soluçosas,

Dos ares de meu sertão;

Era de tarde – no sítio,

Tudo era grave e sentido,

Como da rola o gemido

Perdido na solidão.

 

Sentado só no terreiro,

Meu pensamento soltava;

Talvez nas asas deixava

Minh’alma também levar!...

Sentia dores profundas,

Dores que a voz emudecem,

Dores que o peito falecem,

Dores assim de matar.

 

Tu te embalavas na rede,

Da casa na sala de fora,

Quando em tristeza nessa hora

Eu me afogava a morrer:

Lembras-te, Dina, do dia?

– Foi num dos muitos de outubro...

O teu semblante de rubro

Tornou-se turvo ao me ver!

 

Casto olhar da virgindade!

Só tu descobres no fundo

Do peito o verme fecundo

De uma incessante saudade!

Só tu da fronte abatida,

 

Que pende ao peso das dores,

Orvalhas com teu fulgores

As madressilvas sem vida!

Só tu penetras no fundo

Do abismo d’alma profundo!

 

Choraste! oh lágrimas santas,

Que são as d’alma inda pura!

Brando licor de ternura

Não corre pelas gargantas,

Como essas vozes de amante

Que se evaporam nas asas

De um pensamento infamante:

Jogo, descarte de vazas,

Tática vil, traiçoeira...

Só da mulher forasteira.

 

Lembras-te, Dina, do dia,

Dessa hora de pesadumes?

Oh! lembram-me ainda os perfumes

Que o seio teu recendia!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Foste levar-me ao atalho

Onde a levada se finda;

Lá onde o sol banha ainda

O lis do vale sem orvalho.

Lembras-te desse raminho

Que me ofereceste em caminho?

Com que poéticas falas

Tu desprendeste-o ao cabelo!

Lembras-te? longe das galas,

Sob o dossel tão singelo!

 

E dos saudosos suspiros

Que perfumaram primeiro

Esse penhor verdadeiro

D’amor naqueles retiros?

Tenho saudades agora

De tantas coisas de outrora:

– Desse passeio ao atalho,

Tenho saudades de tudo,

Daquele espaço tão mudo,

Que nos serviu de agasalho.

 

Tu foste, escuta! nos dias

Mais duros desta existência

Quem me sorriu de inocência

E deu-me, em suma, alegrias,

Pois bem! caminha não pares,

Enquanto vão-se os pesares

Do meu exílio nefando.

Perto ou mais longe, que importa?

Por Deus! as dores suporta,

Até que, a luz despontando

Da liberdade sonhada,

Meu peito seja a ternura,

Associada a ventura,

Onde eu te faça entronada!

 

 

III

 

 

Naquelas tardes de estio

Lembras-te, Dina? tu ias

Comigo das serranias

Nos cimos caçar preá;

Então subias cantando

Uma balada saudosa,

Como a canção maviosa

Das queixas do sabiá.

 

Quanto folguedo inocente!

Quantas cantigas suaves,

Que ao céu nas asas das aves

Iam soar docemente!

 

Lembras-te ainda do lago,

Da encosta lá da montanha,

Onde a mais grata façanha

De nosso amor se gravou?

 

Lembras-te, Dina, do voto,

Acompanhando de um beijo.

A cujo fogo, de pejo,

Teu rosto puro corou?

 

 

Como serena riçava

A brisa a face do lago,

E como o céu era mago,

E como o ermo encantava!

 

Oh! dias, dias felizes,

Passados, só por ventura,

Naquele mar de verdura,

Contigo, filha de Deus;

 

Sobre uma esteira de flores,

De dia, à sombra dos montes,

De noite, à beira das fontes,

Ouvindo os cânticos teus!

 

Como era doce essa vida,

Assim passada na selva,

Dormindo as tardes na relva,

Contigo ao lado, querida!

 

Inda uma vez! não te esqueças

De mim, que vive saudoso,

Por este mundo afanoso,

De ti, do céu de teu lar:

De mim! que um dia na vida,

Um só, de ti não me esqueço:

De mim! por ti que padeço

Dores, saudades sem par!

 

E quando a luz de uma aurora

Raiar na treva do exílio,

Irei de novo um idílio,

Cantar aí, como outrora!

 

 

IV

 

 

Andei, andei peregrino

Nas noites frias, sem manto;

Bem longe estava amor santo

Para o meu seio aquecer.

Tu foste o anjo, na treva

Do meu delírio insensato,

Que me seguiu, doce e grato,

No trilho desse viver.

 

Tu foste quem o caminho

Da minha insânia esquivou

Ao negro abismo do crime

Que a minha sorte cavou.

 

Bem quis, tu sabes, um dia

Largar-me pelas florestas,

Para assistir a essas festas

Das feras da perdição!

 

Bem quis, tu sabes, lançar-me

Pelos desertos do mundo,

Dormir nas tascas profundo,

Se não morrer na solidão!

 

Bem quis! Mas tive de ouvir-te

A voz prudente e sensata,

Que me soava tão grata,

Como a expressão do amor;

Que me calava nas mágoas,

Tão meiga, terna e suave,

Como os gorjeios de uma ave,

Sem ninho, aos tratos da dor.

 

Bem quis! mas tive de ouvir-te

A voz que a dor comprimia,

Tão doce, como no dia,

Do teu protesto de amor.

Seguiu-se logo o teu pranto;

Por minha mãe me pedias!...

Cedi, fiquei... Tu que lias

Na minha fronte o palor;

 

Não deixes nunca de amar-me,

De ser constante o meu guia!

Mostra-me os erros agora,

E no futuro, algum dia!...

 

Tu és dos trópicos, Dina,

Da zona ardente do norte,

O lis da tez mais divina,

Do bosque a flor de mais sorte

Ah! Viça, viça, lírio, no calor,

Para Deus e flor para nosso amor.

 

Tu és a rola saudosa

Que, às horas da Ave-Maria,

Na tua aldeia formosa,

Um hino aos anjos envia.

Ah! Canta, rola do sertão,

Que trar-me-á teu canto a viração.

 

Tu és a pomba perdida

Nas sombras dessa espessura,

Voando incerta na lida,

Atrás da luz da ventura.

Ah! Voa, voa, pomba do palmar,

Que o que procuras breve hás de encontrar.

 

Tu és do céu dessa terra

Da tarde a estrela fulgente,

Que surge ao viso da serra,

Para as bandas lá do poente.

Ah! Fulge, fulge, estrela da paixão;

De teu brilho encherei meu coração.

 

Tu és a nuvem de estio,

Librada aos ares da aldeia,

Por uma noite de frio,

Da lua à doce candeia.

Ah! Paira, paira, nuvem, pelo céu,

Que podes me servir inda de véu.

 

Tu és a brisa fagueira

Que na campina suspira,

Que treme na trepadeira,

E dos perfumes delira.

Ah! Treme, treme, brisa, na amplidão;

Mas foge, foge à flor em corrupção.

 

Tu és a filha dos montes,

Vivendo lá de inocência,

Senhora dos horizontes,

Erguida nessa eminência!

Ah! vive, vive aos montes na solidão,

Não te deixes levar pela ambição.

 

Tu és o gênio das selvas,

Por entre os ramos cantando,

Pelas esteiras de relvas,

Flores gentis semeando.

Ah! voa, voa gênio, voa assim;

Mas, vem cerrar as asas junto a mim!

 

 

VI

 

 

Deixei-te, sim, mas no peito

Daquela jura o preceito

Nada jamais apagou;

A ti de meu pensamento,

A fé de meu juramento,

Inda outra luz não tirou.

 

Tenho vivido isolado,

Por entre as névoas calado

Do meu retiro de dor;

Mas, no silêncio que impus-me,

A flor mais simples traduz-me

Teu rosto tão sedutor.

 

Vejo-te sempre nos ares,

Das noites nesses luares,

Ou nas estrelas então;

Em cada nuvem que passa

Miro-te as vestes de cassa

Trementes da viração.

 

Ouço-te a voz sonorosa

Na nota lenta e saudosa

De algum piano em solidão;

 

 

Melhor se a tecla desata

Pesares da "Traviata",

Da "Casta-Diva" a canção.

 

Ah! não! não morre em minh’alma

Uma das flores da palma

Que tua mão fez compor;

Ah! não! não morre em meu peito

Do juramento o preceito,

Primeira jura de amor!

 

Ah! se souberas, criança,

Que céu, que mar de esperança

Por ti, na mente criei;

Quantos poemas divinos,

E quantos célicos hinos

No livro d’alma tracei!

 

Volve-me o rosto sem pejo,

Que ainda é digna de um beijo

A minha fronte sem luz;

Volve-me os olhos, donzela,

Que se perdi minha estrela,

Carrego agora uma cruz.

 

Volve, criança, não temas,

Que eu tenho ainda poemas

Desta alma às dobras do véu,

Que servirão de condores

Para narrar teus amores

Aos anjos puros do céu!

 

 

VII

 

 

Bem longe daqui, bem longe,

Sob um dossel azulado,

Suspira um anjo, exilado

Aos mimos de seu amor:

De dia cisma nos ermos,

De noite, a sós no seu leito,

Abre às saudades o peito,

Como aos orvalhos a flor.

 

Dorme sonhando com flores,

Acorda crendo beijá-las,

Ao prado corre a buscá-las,

Quando conhece a ilusão.

Fada gentil dos mistérios,

Ela só fala aos arcanos,

Mas nem por isso aos humanos

Deixa de dar atenção.

 

Tem por palácio um valado,

Tem por mobília matizes

Como não há nos países

Das terras lá de ultramar.

Tem a melhor das orquestras

Para ensaiar, das venturas

As mais febris overturas

Ao meio-dia ao palmar.

 

Oh! minha fada divina,

Não desesperes do exílio,

Que ainda eu hei de um idílio

Cantar contigo em teu lar.

Confio muito na sina

Pra duvidar da esperança

De num bom dia, criança,

Aí contigo acordar!

 

Pede ao vento que me traga

De teus queixumes o canto

As fontes que de teu pranto

As bagas busquem guardar,

Para nas grossas torrentes

Dos rios, que de ano em ano

Despejam-se no oceano,

A estas plagas chegar.

 

E vive assim algum tempo,

Enquanto eu solto-me ao elo

De caprichoso libelo

Que contra mim se tramou.

Bendita a sorte daquele

Que sofre a dor da saudade,

Pois ela encerra a saudade

Que Deus na cruz inspirou.

 

 

Dorme ao palácio, na sombra

Dessa espessura florida,

Passa feliz tua vida;

Dorme, não cuides em mim;

Que, se a esperança não mente

Quando o desejo suspira,

Talvez quem hoje me inspira

Em breve eu beije por fim.

 

Oh! minha fada encantada,

Quando ao palácio relvoso,

Acaso, um dia saudoso,

Um doce canto chegar,

Como o gorjeio das aves

Nas horas da madrugada,

Ah! corre, a hora é chegada

Sou eu que volto a teu lar!

 

 

VIII

 

 

Batel, nas vagas levado

Deste oceano chamado

Vida, sem leme e farol;

Contudo eu sinto, criança,

Nesta alma a flor da esperança

Abrir-se aos raios do sol.

 

Batido, às noites, dos nortes

Hei afrontado mil mortes

Da treva pela amplidão:

Não pela própria coragem

Mas ajudada da imagem

De um anjo lá da mansão.

 

Das ondas que se encapelam,

Dos ventos que se rebelam

Rio-me o riso do ateu:

Minh’alma é queda aos rumores

Dos escarcéus nos furores,

Como a bíblia o judeu.

 

Não é que a crença morresse,

Nem que de Deus já perdesse

A luz, a fé e o temor;

Não é, mas, cedo impelido

Aos transes, hei compreendido

Que tudo é menos que amor.

 

Tem sido só por amar-te,

Por te querer, por gozar-te,

Que peregrino me fiz;

Se o sacrifício valer-te,

Desejo só merecer-te

O que de uma outra não quis,

 

Talvez não tarde no espaço

A desvendar-se ao mormaço

A estrela do nosso amor;

Então meu anjo em delícias,

Em beijos mil e carícias

Trocar-se-á tanta dor!

 

 

IX

 

 

Ah! quando eu te fitei a vez primeira,

Sorriu meu coração, sorriu minh’alma,

No mel do paraíso enchi meu peito,

Teu rosto iluminava a luz da calma.

 

Teus olhos pareciam-se dois astros

No céu da madrugada cintilantes;

Teu riso a fresca despontando,

Teus hálitos as auras doudejantes.

 

Teu lábio a casta rosa amanhecida

Entre os lírios suaves da campina,

Rubicunda, odorífera, sublime,

Como a águia do céu de luz divina.

 

Teu colo a nuvem grossa de alabastro,

Num céu de primavera flutuante,

Do sopro do levante perfumoso,

E de volúpia o espaço palpitante.

 

Ah! quando eu te fitei a vez primeira,

Tu eras tão ingênua e tão risonha,

Que eu comigo dizia, a contemplar-te,

"Meu Deus! esta criança em que é que sonha!?"

 

Caíam-te os cabelos sobre os ombros,

Tão negros como a treva pelos mares;

E tua fronte cerúlea circundavam

As purpurinas rosas dos sonhares.

 

E hoje? Ainda és bela a meus amores,

Mas foi-se esse fulgor que iluminava

Teu céu límpido e grato, esperançoso,

Tua alma que da luz se alimentava.

 

Consola-te, meu anjo, eu também sofro,

E sofro dor mais funda e mais terrível;

– Mais funda e mais terrível –, por que sofro

Calado – sufocado em caos horrível!

 

Consola-te, querida, a sina minha,

A tua, o meu fadário, o teu na lida,

Talvez que de alguma árvore à sombra, um dia,

Amparem-se de amor por toda vida.

 

Ah! quando eu te fitei a vez primeira,

Por Deus, que mais risonho era teu rosto;

Não via, como hoje, ao céu tão puro,

A nuvem brônzea-escura do desgosto!

 

 

X

 

 

Não... silêncio... esta página

Deve ficar mesmo em branco;

Mister me fora ser franco,

E franco eu não devo ser;

Alguém talvez algum dia

Escreva nela o meu drama,

Mas, se mentirem, reclama,

Que eu já não hei de viver!

 

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Ao mundo lego este tema,

Se não bem negro problema,

Para amanhã resolver;

Depois... que a autópsia faça

De quem no mar da desgraça

Boiou constante ao viver!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lira singela

 

 

 

 

 

 

 

Recife, 1865

Minha terra

 

Hei de dar-lhe a realeza

Nesse trono de beleza,

Em que a mão da natureza

Esmerou-se em quanto tinha.

C. de Abreu

De minha terra os primores,

Na lira dos meus amores,

Eu irei cantar agora:

Minha terra é tão formosa

Como entre as flores a rosa

Que desponta pela aurora.

 

É uma loura criança

Que se embala na esperança

Sem presunção, mas risonha;

É uma virgem modesta,

A sombra ali na floresta,

Que só com Deus é que sonha.

 

Regam seu leito correntes

De águas puras, nitentes,

Como os orvalhos da aurora;

Aqui e ali, muitas flores

Grinaldas tecem de amores

Para a modesta senhora.

 

O sabiá pela mata

O terno canto desata,

Voando incerto nas flores;

E a rolinha amorosa

Também acorda chorosa

Num canto cheio de amores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Além no campo a vitela,

Ao pé da fonte singela,

O verde pasto devora;

E como é doce o deserto,

Se do bezerro inexperto

Se escuta o berro que cobra!

 

O boiadeiro, mais longe,

Imita o canto do monge

Que peregrina saudoso;

E o som da nota que exala

Da serra agreste se embala

Ao seio negro e fragoso.

 

O belo céu nos primores

Não tem inveja aos lavores

Dos outros céus que se ostentam;

O sol de lá quando raia,

E pelo campo se espraia,

O sábio e o bruto o intentam.

 

E quando, ao pino do dia,

Lá pela moita sombria,

A nambusinha modula!...

Seu treno terno e sentido

Parece d’alma um gemido

Que em seio humano tremula.

 

E quando a tarde declina,

E pelo prado a bonina,

A rubra cor apresenta,

E a brisa além noutras flores

Suspira, treme de amores,

E do chorar se apascenta...

 

Oh! vida que se respira!

A mente em gozos delira,

Enquanto o peito se inflama!

É minha terra primores,

Nota divina de amores,

Que pelo céu se derrama.

 

 

 

 

Balança o bosque demente,

Como num sonho cadente

Embala a virgem saudade,

Além tremula a mangueira,

E o sabiá na palmeira

Modula ao som da Trindade.

 

E quando a noite se antolha,

Que a flor murcha se esfolha

No vale escuro, sem vida;

E lá no céu muitas flores

Acordam, como os amores,

De uma existência esquecida.

 

Sentado à beira do rio,

Sentindo o gelo do frio,

É belo ouvir-se a corrente;

E ao rumor da canoa,

Da brisa na asa que voa,

Sonhar amores na mente.

 

Oh! minha terra é menina

Abrindo os olhos à sina,

Esperançosa da aurora;

É flor em prado mimoso,

A sós no leito saudoso,

A suspirar uma hora.

 

Deus me dê voltar ainda

Àquela terra tão linda

Que foi meu berço adorado,

Para, nas sombras suaves,

Ouvir o canto das aves

Dos meus – de todos ao lado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anseios d’alma

 

De um puro amor a lânguida saudade

É doce como a lágrima perdida,

Que banha no cismar um rosto virgem.

A. de Azevedo

 

 

Nesta hora de amargura,

De ternura,

Sinto cheio o coração;

É a dor o meu encanto,

Solto o pranto,

Solto o pranto n’aflição.

 

Pela fé de quanto sinto,

Oh! não minto!

Sofro anseios de morrer;

Pois da terra minha bela,

Longe dela,

Longe dela vim sofrer.

 

Dá, meu Deus, que eu possa ainda

Vida infinda

Lá na selva respirar;

E do bosque, meus amores,

Lindas flores,

Lindas flores namorar.

 

Que na mata eu ainda veja,

Na peleja,

Duas onças combater;

E no céu da minha terra

Lá da serra,

Lá da serra o sol tremer.

 

E dos rios pelas margens,

Nas aragens,

Da saudosa juriti

Ouça ainda a voz sentida

Na bebida,

Na bebida do Poti.

 

 

Dá, meu Deus, que ainda eu possa

Numa choça,

Minha terra desfrutar,

Ver as noites primorosas,

Tantas rosas,

Tantas rosas apontar.

 

Que eu não morra em outros lares,

Sem meus ares

Uma vez inda gozar;

Faz senhor – embora seja

Que eu os veja –,

Que eu os veja no sonhar.

 

Faz, sim, faz que nos meus sonhos

Mui risonhos

Apareçam, no fervor,

Minha mãe, meus irmãozinhos,

Meus anjinhos,

Meus anjinhos, meu senhor!

 

Faz, meu Deus, que, longe deles,

Sejam eles

O meu pólo no sonhar;

E, nas horas de agonia,

O meu guia,

O meu guia neste mar.

 

Que ao pungir desta saudade

Amizade

Cada vez eu sinta mais;

E, distante dos amores,

Minhas flores,

Minhas flores sejam ais!

 

 

Dezembro de 1864

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Minhas irmãs!

 

 

Dos renovos de uma árvore saudosa

Eu era o mais viçoso, e por mistério,

Dentre vós, o primeiro a dirigir-vos

Pelas sendas da vida, prometendo

Um futuro brilhante, imenso e belo,

Do talento, nas asa, adejando

Pelo espaço da glória à luz do estudo.

 

Um dia me dissestes: – voa, é tempo,

Vai colher para nós o ramo verde,

Da esperança, que em ti depositamos!

Foi um vôo arrojado; – ainda leves

Minha asas de crente, ao doce mando,

Como a pomba da Bíblia, desprendida

Das mãos do patriarca, arremessei-me

De lugar a lugar, de pouso em pouso.

De delírio em delírio, e... esqueci-vos!

– É que eu fui cerrar o vôo na noite escura

De um pensar mentiroso onde abismei-me!

Fascinou-me o cantar das fadas nuas

E o sorrir da mulher voluptuosa.

 

Na solidão dessa noite: – embriaguei-me

Nos festins que elas davam... profanei-me,

E dormi todo esse tempo!

 

Mas agora

Vosso irmão despertou cheio de nojo

Dessa vida sem glória que levava,

Volta o rosto ao passado e diz – mentira!

E erguendo até Deus o pensamento,

Quer convosco passar, seguir avante,

– Batedor que o Supremo destinou-vos

Nas florestas da vida até o futuro!

 

Lá, do norte, do lar, onde sentimos

Florecer-nos a vida aos mimos pátrios;

Este voto de irmão, de amigo eterno,

Acolhei, que minh’alma vos envia!

 

 

 

 

 

 

Pomba dos amores

 

 

Por que tu fostes, pomba dos amores?

Por que nos ermos me deixaste só?

Tiveste medo de que eu te perdesse,

Ou que de um tiro te arrojasse ao pó?

 

Pobre pombinha! que no amor não cresces

Do caçador perdido no teu lar!...

Que não quisesses dar-lhe essa ventura

De na solidão escutar!...

 

E foste noutro bosque tão diverso,

Noutras plagas gemer e suspirar;

Talvez que nem te lembres mais da moita,

Onde à sombra, de tarde, ias cantar.

 

Depois daquele dia, assaz saudoso,

Em que batendo as asas foste lá,

Por Deus! mulher, que luto com a tristeza,

E cismo que minh’alma é morta já.

 

Nem sei mais quando é dia ou noite mesmo;

Pois tudo se confunde em meu pesar;

Só sinto a dor pungente da saudade,

Como um verme, em meus seios se arrastar.

 

Porque te foste, pomba dos amores,

Quando eu mais quis ouvir-te gorjear?

Porque te foste, em ermo abandonaste

O caçador perdido no teu lar?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Elvira e seu craveiro

 

 

Era manhã, muito cedo,

A segredo,

Elvira a capa tomou;

E, sem chamar seu amante,

Ofegante

No ervaçal se lançou.

 

Mas, porventura, o amante,

Ao instante,

Ou logo mais, despertou

E crendo ouvir longe um canto,

Todo espanto,

Atentamente escutou.

 

Era a formosa criança,

Em folgança,

O seu craveiro a saudar;

E do amante, no leito,

Era o peito

Como os arrojos do mar.

 

Era o cantar mavioso

E saudoso,

Como da brisa o gemer;

E quanto o canto exprimia,

E sentia,

Eu tanto aqui vou dizer.

 

Num vaso feio tisnado,

Animado

Pelas aragens do céu,

Como um mistério do mundo,

E profundo,

O meu craveiro nasceu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como nasceu meu craveiro,

Eu primeiro

À luz da vida surgi;

E foi meu berço na selva,

E da relva

A minha origem senti.

 

Somos irmãos, meu craveiro,

O obreiro

Que fez a ti fez a mim;

Que importa o luxo do vaso?

O acaso

Tem leis diversas assim!

 

E nós as flores do mundo

Em profundo

No caos dormiremos, por Deus –

Oh! meu craveiro, da vida,

E da lida

Voemos juntos aos céus!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A. R. R.

Meu coração

 

 

Abre tua asa, coração, e voa;

Adeja à toa no febril cansaço.

Abre tua asa, coração, e fende

O céu que pende às solidões do espaço;

Mas se encontrares

Auras trementes,

Brisas ferventes,

Voa a meus lares;

Passa a campina,

Rompe gemendo,

Chega tremendo,

Na Teresina.

 

Uma saudade sobre os seios delas,

Flores singelas, por amor, desfolha;

Longos suspiros, no delírio, exala,

Depois a sala com teu pranto molha,

Voa a meus lares

Nas asas ferventes

Dauras trementes,

Fende meus ares;

Passa a campina,

Rompe gemendo,

Chega tremendo,

Na Teresina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ah! Vem

 

No italiano céu nem mais suaves

São da noite os amores,

Não tem mais fogo o cântico das aves,

Nem o vale mais flores.

A. de Azevedo

 

 

 

Na minha terra, ao sol da primavera,

As avezinhas cantam;

Vai o gado beber na clara fonte,

Quando as flores despontam.

 

O céu é puro, as virações fagueiras,

Ao flutuar do dia,

E quando o bosque suspiroso acorda,

O ar é ambrosia.

 

É belo o prado, como um céu de estrelas,

Perfumoso cintila;

E verde os leques da palmeira tremem

Que o trovador asila.

 

Da longa serra no deserto abrigo

A araponga modula;

E do cantar a saudação sentida

Na solidão tremula.

 

O ribeirinho que soluça e geme,

Se deslizando ao leito,

Como a donzela, de ternura cheia,

Abre às flores o peito.

 

Choram as fontes, o bezerro muge,

O sabiá suspira;

A natureza infunde amor nos seios,

E faz vibrar a lira.

 

 

 

 

 

 

Os longos rios, que chorosos passam,

Saudosos se espreguiçam;

Levam consigo as perfumosas flores

Das árvores que viçam.

 

Há um segredo no bolir das matas

Que nos agita n’alma:

É quando a vida, no silêncio augusto,

A natureza acalma.

 

Os sons do peito, em divinal consórcio,

A meu senhor se elevam;

E, como um hino de inocência ecoa,

As regiões relevam.

 

As almas vivem de esperança infinda,

A folhear os dias,

Com a crença em Deus, a respirar de um anjo,

As santas melodias.

 

 

II

 

Ah! vem comigo, donzela,

Das flores na branda tela

O doce aroma fruir;

E dos meus sonhos dourados,

Num longo abraço ligados,

Gozar da aurora o sorrir.

 

Teremos nesse deserto,

Ali da fonte bem perto,

Ao despontar da manhã,

Da correnteza o recreio,

Do passarinho o gorjeio,

Nessa existência louçã.

 

Bem cedo iremos juntinhos,

Do vale pelos caminhos,

D’amor cuidosos, brincar;

E, sem temer os espinhos

Do bosque, ao pouso dos ninhos,

As avezinhas roubar.

E tu serás minh’alma

Do puro leito na calma,

Ao derramar-se o luar;

Quando a volúpia em teus olhos,

Como do mar os abrolhos,

Desse palor se inflamar.

 

Ah! vem comigo, querida,

Gozar das flores da vida

No meu deserto sertão!

Ali, do lar na cabana,

Tu serás mais que Sultana,

Reinando em meu coração.

 

Ah! vem, não fujas ao gozo.

Vamos no vale saudoso

A nossa aurora passar.

Viver de amores n’um laço.

À luz da lua – ao mormaço,

– Os seus encantos gozar!

 

 

III

 

Filho das selvas – nas matas,

Contigo, nas horas gratas,

Me perderei a caçar;

E quando o sol for ardente,

À beira de algum corrente,

Eu te farei descansar.

 

E de pindobas um leito,

Eu te componho a preceito,

Mais primoroso colchão,

Enquanto atiro nas aves,

Nesses retiros suaves,

Tu cantarás, coração!

 

Ah! vem, fujamos a praça,

Onde só medra a desgraça,

No palacete febril;

Ali, nas selvas do norte,

As auras frias da sorte

Não roçam na flor um til!

 

Vive-se vida inocente

Ao sombrear reluzente

Do matutino clarão;

E as florzinhas do prado,

Abertas, mostram agrado

Ao mais cruel coração!

 

Tu podes ser dos meus lares,

Do céu azul dos meus ares

A estrela maga – o condão

Como da terra e das flores

Essa rival nos amores,

Etérea fada ou visão.

 

Ah! vem comigo, donzela!

A natureza é tão bela

No meu deserto sertão!...

Vem ser do prado a rainha;

Filha de Deus –, alma minha

A flor da minha afeição.

 

 

IV

 

 

Na minha terra, tudo encanta a vida,

Ao flutuar do dia;

A ave e o bosque, num concerto amigo,

Deliram na harmonia.

 

Há tanto aroma, tanto amor e graça

Naquela zona ardente,

Que ali bem pode a filha da Veneza *

Viver sempre contente.

 

Se quanto amor e vida há nos meus seios,

Donzela, ah! tu souberas.

De ser de meu sertão não te escusarás

A flor das primaveras.

 

A praça as galas que apresenta ao seio

O seu florir não tem;

Ah! desta vida pra melhor fujamos –

Ah! meu amor, ah! vem.

 

 

A uma poetisa

(Do Maranhão)

 

 

... – Nunca as plagas do infinito

Subiu mais terna voz, mais fresca e pura!

Se o corpo é de mulher, sua alma é vaso,

Onde o incenso de Deus se afina e apura.

G. Dias

 

 

Lá, onde a viração modula o nome

Ingente desse Dias decantado,

O cantor sublimado dos Timbiras,

E doce o mar suspira em alta noite

Às horas do silêncio, e geme a brisa,

Amores soluçando à flor do lago,

E riça ao palmeiral nos verdes leques,

Nas tardes perfumosas, quando o astro

O mundo vai deixando – e canta ao longe

O terno sabiá chorosa endecha

Aos galhos da florida laranjeira,

Aonde a lua, à noite, em seus delíquios

Aromas vem beber nas flores puras,

– Navegue o viajor do norte as bandas.

 

À costa – sempre à costa, e já bem perto

Ao dia ver-se-á na flor d’areia

Um simples torreão diminuído,

À vista da distância em que se acha;

A noite, como estrela de bonança,

O brilho expandirá do corpo inerte;

E tendo já Santa Ana aquém ficado,

São Marcos o farol assim se chama,

Às plagas de uma ilha encaminhando

Ao triste navegante, nesses mares;

São Marcos – o poético vigia –

Assente nas areias dessa praia,

Ao alto entre as palmeiras do deserto

A vista derramando ao mar distante,

 

 

 

 

 

Os nautas pondo a salvo dos perigos...

O cabo pouco a pouco vai dobrando,

A vista, enquanto dobra, se descansa

Ao verde palmeiral – sobre a floresta,

Ao bosque, mais além, pela espessura!

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Agora assoma ao longe um nevoeiro;

O barco vai andando, o vulto cresce,

E logo essa feitura se divulga

Ao todo – uma risonha e linda ilha

As galas faz mostrar da natureza,

Ao lhano sussurrar dos seus palmares.

De um lado mergulhada ao dorso infindo

Altiva essa gentil Ponta d’Areia,

As eras sufocando ao pétreo colo,

Em cismas de seus anos já passados –

Venturas a sonhar para o futuro;

O anil do mar em busca vem mimoso,

O leito molemente deslizando,

Em ânsias de beijar-lhe o seio ardente

Ao forte palpitar de hora a hora;

E, meigo, como a virgem que delira,

Ao doce remorder de algum desejo,

Os lábios tremulando a seus anelos,

Faz longos deslizar nos do gigante,

E travam entre si doce aliança,

Amores um ao outro dispensando

Ao jogo perenal dos seus anseios...

 

O clima, a natureza, o sol, a lua,

A brisa, a viração, a terra, o monte,

O bosque, as avezinhas, que murmuram,

A vida, que se bebe ali, são doces –

E dizem só paixões – amores falam...

Ditosa fez, meu Deus aquela ilha,

Amou-a – pra cantá-la o Dias deu-lhe –

A este de uma lira armou na vida

Aurífera e sublime – e gerou cordas

Do fino pensamento, os sons do peito,

E d’alma o bandolim a par da glória,

E disse – canta o berço e a pátria tua...

 

 

 

 

Avante! Viajor, penetra a ilha,

Escuta o suspirar de alguma nota...

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

Nessa ilha do norte, onde se eleva

O lindo palmeiral – e doce o Dias

A vida respirou,

Sob a sombra gentil, que o val releva

Um anjo vibra à lira as melodias

De amor, que Deus vibrou.

 

Empunha a mão esquerda o cetro ardente,

E move com a destra as cordas d’ouro

Ao terno suspirar,

E quando fere a nota o som cadente,

Dir-se-ia, do céu arcanjo louro

Amor a murmurar.

 

Cantando a viração da pátria sua,

Abrange numa nota um canto inteiro

Ao fogo da paixão;

Se volta o pensamento ao ser da lua,

Anseia, como os astros do cruzeiro

Anseiam na amplidão.

 

Aos dias vela as flores de seu peito,

Entregue do porvir às conjeturas

À sombra da palmeira;

Em pura poesia a noite no leito

Os anjos vão beijar-lhe as rosas puras

Da fronte sobranceira.

 

As auras ao passar, que às folhas riçam,

Beijam-lhe no rosto; e o colo arfando

O sopro lhes ampara;

E os rios que ao leito se espreguiçam,

Lambendo os seus pezinhos, soluçando,

Entoam – quem te amara.

 

 

 

 

 

As flores no sentir-lhe o doce canto

Os campos vão deixando, o vale e tudo;

E voam junto ao anjo

As aves se congregam por encanto,

O bosque não murmura, atento e mudo

Escuta o novo arcanjo.

 

Os montes se fascinam, dir-se-ia

O mundo a desfazer-se em purpurina,

O anjo arrebatando;

E Deus a sua essência em melodia

As golfas a lançar na voz divina,

As notas palpitando.

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Essência peregrina em céu risonho

Ao sopro do Senhor,

Eu daqui destas plagas te saúdo,

Engenho de fervor.

 

Eu, triste menestrel – quisera cantos,

Pejados de harmonias consagrar-te,

E d’oiro uma grinalda a fronte santa

Em prova de adesão depor de rosas

Púrpuras e de amor entremeadas.

Mas valha o meu desejo – o sonho ardente

E belo de algum anjo no delírio

O doce paraíso concebendo,

O trono do Senhor beijando excelso,

Em lavas do prazer todo abrasado

A coroa que moldar-te eu pretendia!

 

Oh! anjo lá do norte, escuta a lira;

Agita agora a tua – a vida esquece...

Avante! A poetisa, ao sol ardente,

As flores do porvir também respira,

E faz-se de mulher essência pura,

O mundo a perfumar nas melodias

Dos cantos que desferes e se eterniza

Aqui nas virações do céu na glória!

 

 

 

 

Da noite surge o dia – o nevoeiro

A rosa purpurina erguendo o véu

Inunda de perfume – e corre airosa

O mar a contemplar de lá do céu;

 

E vai, e vai abrindo, ao meio-dia

A rosa ainda mais bela ostenta a cor

E quando o mar se espelha ao rosto dela

O mundo – a natureza – exala amor...

 

É quando a alma sente afoguear-se

O peito, as fibras todas palpitar,

E os sonhos na mente se fervoram,

Quais lavas da criatura a vomitar.

 

A quadra oh! poetisa, pois é grata,

Um raio dessa luz já te bafeja;

Embebe o teu sonhar na poesia,

Nesse canto do céu que Deus boceja.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao Ilmo. Sr. J. I. Ribeiro Junior

e

a sua Exma. família

À saudosa memória de sua prezada filha

a Exma. Sra.

D. Júlia Amélia Ribeiro

Lá vai o anjo, para o céu subindo,

Meigo, sorrindo para a vida ainda,

Qual branca vela na amplidão dos mares,

Fendendo os ares da estação tão linda!

 

L. de P.

 

 

 

 

 

 

 

Lágrimas e Flores

Era a quadra em que as flores mais vicejam

Pelos campos da vida; em que no espaço,

Como garças do pouso debandadas,

Nuvens d’ouro, sem rumo, peregrinam

Das aragens da crença ao pensamento;

E o céu estrelado é um resumo

Do que há de sublime em poesia,

E o mar, a soltar profundas queixas,

No rolar dessas vagas inconstantes,

Hino eterno de amor e de ternura:

Em que o mundo nos veda

As misérias que encerra ao negro seio,

E só mostra uma face às almas crentes,

Empoada de engodos sedutores.

 

Sobre a terra vagava, entregue às cismas,

Esquivando seu manto à humanidade,

Um arcanjo de graças.

Ao passar pelas turbas, sempre um riso

Vinha franco a seus lábios amorosos;

Esperança no céu tanta nutria

De soltar-se bem cedo aos duros elos

Deste mundo prosaico – aborrecido.

Que inda mesmo nas cismas enlevado

Das venturas do céu, erguia a fronte,

Pra saudar no desterro as almas nuas

De uma crença qualquer, que não aquela

Em cuja asa dourada ele elevou-se

Ao soberbo apogeu de onde caíra,

Para exemplo talvez da humana gente,

Que doudejam do mundo pelas sombras!

 

Era um ano a cismar glórias etéreas,

Enlevado de Deus no idealismo;

Sua crença era o céu; entregue às cismas,

Era a luz de sua alma o romantismo.

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

 

 

 

 

Basta! É tempo: do céu ouviu nas auras

Reboar este mando; e o serafim.

Sem deixar uma só das suas flores,

Bateu asas, voou, cantando assim:

 

"Eu deixo a terra, para o céu me elevo,

Na asa do gênio, da mundana argila;

Da minha sina, ao flutuar da estrela,

Voa minha alma, a repousar tranquila".

 

Como dorme o infante no seu berço,

Sem pensar inda em nada, ou pressentir,

Ela assim repousou – foi sua sina

Dessa cisma arrancada – de dormir!

 

Dorme agora gelada em leito eterno,

Esperança tão grande no futuro,

E, com ela, um troféu de amor sublime,

Mundo cheio de luz – na campa escuro!

*

**

Ah! dorme, anjo do céu, dorme, criança,

O sono derradeiro, o sono eterno

Da inocência – o lenitivo às dores

Das almas como a tua.

Neste mundo amor, sonhos de futuro,

Glórias, belo, as visões que nos inflamam,

Resumem-se num ponto:

– Miséria! A humanidade finge o espaço,

Em que se firma o astro das procelas;

A existência, o mar que um batel desliza,

Louco batel! Ao litoral da crença;

E as paixões as brisas sem sentido...

Miséria e só miséria!

 

Ah! dorme; antes dormir desta existência,

Que sentir-se, uma a uma, as esperanças,

O coração nadando à flor dos mares

De ambições perenais e imaculáveis,

Os ventos esfolhar.

 

 

 

 

Tu foste sobre a terra o exemplo vivo

Das virtudes do céu; no paraíso,

Quem sabe! Talvez sejas dentre os anjos

A essência de primor!

 

Nasceste sobre a terra, mas mentiu-te

A sina, teu desígnio era divino,

Que em ti Deus se revia;

Tua alma, os sentimentos que nutria

Dos céus se originavam; – bafejavam-nos

Ambrosias que o mundo não respira;

Do paraíso as auras perfumosas!

Dorme, coração, pálido, que importa?

É mais doce o dormir que a morte embala,

Que o constante viver do amor sem glória,

Rolando sobre o mundo!

 

Dorme, anjo de Deus! na amplidão dos mares

O barco mais robusto está sujeito

A bater no rochedo e espedaçar-se.

Ir de encontro, na treva, sobre as costas,

Repelido das vagas procelosas...

É mais doce o morrer que ao mundo lega

Um passado sem gozos, mas de exemplos –

Que valem mundo e céu de sacrifícios,

Que coroaram de amor sonhos dourados;

Que o contínuo viver do leito ingrato

Onde os vôos da mente pouco atingem,

E são murchas as flores, como a folha

Que o vento leva na asa pelo estio!

A luz da aurora também cessa e morre,

Se a cerração se expande no horizonte!...

 

Dorme, coração, que importa gélido?

Nem mais suave a sorte é de outros seres;

Morre a flor em botão se o inseto a infeta;

Rola o fruto no pó verdoso ainda,

Se o rebolo do fado foi bater-lhe;

E no horizonte a estrela que fulgura

Também perde o brilhar argênteo e belo,

Só é de inverno o espaço que povoa!...

 

 

 

 

 

 

 

A ti voa minh’alma enternecida,

Levar-te uma saudade ao paraíso,

Dizer-te que te choro,

Não de compaixão, que a lira pávida

Não deve de pesar, pulsar agora;

Mas de amor, de ternura estremecida,

Por tão bela, na flor da mocidade;

Haveres te partido;

Quando o sonho mais doce da ventura

Ia atingindo o vale deleitoso

Das roseiras da vida!

 

A ti voa minh’alma estremecida,

Levar-te no condor de uma saudade,

Se não cantos de amor que merecias,

Criança! o que no fundo só possui

– Alma de vate humilde, mas sensível –

Lágrimas e flores!

 

Recife, dezembro de 1865

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A C. M.

 

 

Fala, diz-me o que queres, mas não busques

Artifícios só próprios da vendida;

Dita a lei do egoísmo que me oprima...

– Dispõe da minha vida!

 

Se há na terra um martírio, algum suplício

Que teu ódio maior, pra lá me envia!

Tens uma alma também – sê generosa,

– Meus males alivia!

 

Eu mereço inda mais – sou réu confesso

Por te dar um amor maior que o mundo;

Sê tu mesma o juiz – estuda a causa,

– E que pune o mal profundo.

 

É pra mim uma glória que tu própria

De minh’alma o destino abismes – pune...

Faz em mim recair o ódio todo

Que o teu gênio reúne!

 

De parte a compaixão! mas não me arrojes

Da loucura, mulher, no caos horrendo,

Na incerteza de ti, do inferno em meio,

Porque vivo sofrendo!

 

Abre os lábios – murmura uma só frase,

Mas que seja sincera, se tens alma!...

Fala, diz-me o que queres – se só flores,

Dar-te-ei uma palma!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

M.***

 

Oh! laise moi t’aimer pour que j’aime la vie!

Pour ne point au bonheur dire un dernier adieu,

Pour ne point blasphemer les biens que l’homme envie,

Et pour ne pas douter de Dieu!

A. Dumas

I

 

A dúvida em minh’alma é um oceano,

Meu amor um batel

Doudejante, que vai sulcando as ondas,

De um açoite cruel.

 

Sofro tanto por ti! Ah! que não saibas

De minh’alma o sentir,

Levo os dias blasé, contando as horas,

As noites sem dormir;

 

E por toda a vigília é meu martírio

Mirar-te sem te ver,

Falar-te sem ouvir-te a voz divina,

Que me enleva o viver;

 

Oh! por Deus, vem olhar-me, eu sou tão triste!

Vem me ver, coração,

Mesmo à noite, ao luar, nas horas mortas

De lânguida solidão.

 

Se teu vulto diviso na janela

Sinto amor, sinto fé,

Sou contente e feliz por toda a noite,

Passando-a de pé.

 

II

 

Quero amar-te no mundo, é meu desejo

Pela vida também;

Amemo-nos, irmão, com a fé dos anjos

Dos túmulos além.

 

 

Formemos para nós um paraíso

Semelhante ao de Deus,

Na solidão de nossa alma onde a ironia

Não pulse dos ateus.

 

Amemo-nos, para que não seja a vida

O vale da escuridão –

E o porvir a glória moribunda

Da morte no pendão.

 

Amemo-nos, por Deus, para que não durma

Em nossa alma o prazer,

E os instantes da vida não se abismem

Sem glória no morrer.

 

O amor é a vida – eu morro à míngua

Desce bem lá do céu...

Sinto o frio do tédio arrefecer-me...

Estende-me teu véu!

 

III

 

Criatura do céu, por que tua alma

Bate as asas assim?

Ah! regressa a teu pouso e te descansa

Na esperança de mim.

 

Não duvides de mim se é incerteza

Que te faz vacilar.

Como aos anjos é Deus, aqui na terra

Tu serás meu pensar.

 

Oh! deixa-me escutar a frase errante

De teus lábios à flor,

No silêncio ditoso em teus suspiros

Respirar o amor.

 

Tu serás o meu crer nesse retiro,

Meu enlevo maior,

Desses favos da vida o mais suave,

Meu suspiro melhor.

 

 

 

 

 

 

IV

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

O que quer essa moça? Aquele porte,

O silêncio que impõe-se e a rapidez

De um olhar soberano que me lança

Da paixão que me inspira a embriaguez...

 

Quererá que eu me arraste, ajoelhado –

Sobre o pó em que pisa e beije o chão?...

Tenho orgulho demais! além de tudo,

Eu conquisto e não rogo afetos, não!

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

 

 

 

 

 

Evangelina de Vasconcelos

 

É um mimo do céu! Lírio inocente

Que floresce na sombra dos amores

De um peito angustiado,

Como um raio de luz em treva densa,

Tal encanto ela dá na sua imagem

Ao náufrago da sorte.

É um mimo do céu! flor d’esperança

Nos jardins da existência, balançando

As auras da pureza

Não lhe roce uma aragem doida n’alma,

E do cândido seio essências gratas,

Certo, hão de transpirar-lhe!

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ela é a rosa do jardim ditoso

Das esperanças de um amor sagrado,

Senhor! velai-a no florir da idade

Livrai-a ao laço de infernal agrado.

 

Na doce quadra do sentir mais puro,

Sobre sua alma derramai amores

E da grinalda que lhe erige a fronte

Banhai de orvalho as perfumosas flores.

 

A virgindade, como um sonho, esvai-se

Se a graça eterna a desampara à vida,

Vós a criastes, não deixai-a exposta

Ao jogo insano da paixão mentida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Irmã dos anjos na pureza d’alma,

Aqui na terra pode o mal tocar-lhe,

Senhor! livrai-a do ateísmo ingrato

Que pode as glórias do porvir matar-lhe.

 

No seu caminho iluminai-lhe as crenças,

Batei-lhe as sombras da amplidão da vida...

É ela o culto de um amor sublime,

De uma alma aflita a ilusão querida.

 

– A flor mimosa no hastil pendida

Aos céus suplica a proteção divina –

Na idade tenra: preservai-a ao vício

E no futuro – abençoai-lhe a sina!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Idéias de Deus

 

Soberbos, grandes do mundo,

Este quadro é para vós.

Th. Ribeiro

Deus! essência mágica insondável,

Infindo pensamento, odor sublime,

E sede suntuosa dos mistérios,

Quem és? acaso um sonho ou vaga idéia,

A mente a povoar dos teus viventes?

Oh! dize, Rei dos Reis, Senhor do mundo,

Instinto penetrante, autor do astro

Erguido no zênite do imenso orbe,

As folhas do futuro rubricando,

E, cônscio do teu ser, os do presente

À toa a deixar ir, tombando loucas,

Quem és? Inspiração? Feitura de homem?

Sim, sim, te compreendo: és Deus – és tudo...

Bendita, meu Senhor, a tua idéia,

A obra do teu gênio – esse oceano,

Os astros flutuantes, tantas flores,

A lua, o céu azul que ela perpassa,

A brisa, a viração, a mata, o bosque,

O vale, o prado, as aves peregrinas,

Em suma, meu Senhor, o teu modelo,

– O homem que do pó fizeste vida;

Bendita a tua idéia! O sol, que brilha

E queima; ao mesmo tempo alenta a vida,

A planta vivifica, a flor primora,

Inflama o coração, abrasa a mente,

Derramando-se longo ao vale da treva;

E, dando claridade, o homem guia

 

 

 

 

 

 

 

Na senda alternativa do trabalho.

A lua, o céu, a noite, a natureza,

Um misto de ideais formam sublimes...

Tudo é silêncio, mas o mundo vela,

Abrindo os olhos, compreende tudo,

Abrange o orbe e se descansa nele,

A fronte em ti e no infinito as plantas.

Tudo é silêncio, mas o mundo anseia,

E se espreguiça conglobando os seres,

O mar imenso e as regiões da terra;

E tudo e tudo, sem exceção de nada,

E tu lhe amparas num só dedo o tombo,

E fá-lo erguer-se de um suspiro leve

Ao duro transe do rolar incerto!

E deste a morte que acompanha a vida

E numa noite lhe enfraquece os elos;

A relva, a flor e a floresta, o bruto

O golpe insano da tirana fada,

Hoje, amanhã, depois, mais logo ou longe,

Todos amargam e se dissipam nele!

– O mundo, e só o mundo, este oceano

Apenas sobrevive e vai passando

Airoso, as gerações finar sentindo,

As dobras revolvendo ao giro insano,

Os fados revelando à nova prole,

E mudo o teu poder mostrando ao todo!

Bendita a tua idéia! As galas rolam,

O fofo prejuízo, o triste orgulho,

O ímpio aristocrata, o rei, a massa,

A gente desvalida ao teu aceno –

– O mundo é para todos – nivelados

O grande como o pequeno ali se ombreiam

À sombra de uma cruz e de um cipreste,

E choram, na agonia, a ti um hino,

Um canto, uma oração na fria noite

Mandando funerários – lodo a lodo,

Os leitos não disputam – dormem quedos;

O manto é semelhante, o lar o mesmo,

O gozo que um partilha, ao outro é dado,

E gemem como irmãos – na vida imigos!

Oh! graças, Rei dos Reis, altivo gênio,

 

 

 

 

Insigne escultor da humana lápide!

Acaso alguém duvida os teus poderes?

Quem pode, sem mentir ao próprio senso,

Aos vôos da razão que te bafeja,

E quebra junto a ti de crença cheia?

Acorda, geração descrente e torpe!

O gênio te cogita o lento sono,

Erguido ao infinito atento ouvindo

O grito agudo da mundana argila...

Acorda, escuta as virações da vida...

Ouviste? a treva se entreabre agora:

A morte, a morte, revelando a forma,

Ergue a viseira carrancuda e feia,

Abraça a vida e meu Senhor revive!

 

 

 

 

 

 

 

No álbum

Da Exma. Sra. D. L. H. da Matta

Surja a rosa no prado, em brandas auras,

Embalada, d’aurora aos loiros raios

Que irisam-lhe os orvalhos.

Branco lírio, que um anjo simboliza,

Na pureza do céu, surja mimoso,

Como um rosto de infante:

Nem o brilho daquela e nem os dotes

Do poético lírio aos teus encantos

Virgem, a palma levam!

O farol, que de noite ao nauta mostra

Na procela infernal, em trevas densas

O porto suspirado,

Não pode ser tão doce, ou mais ventura

Prometer que teus olhos, que se acaso

Um queixoso quebranto

Leve lhes tolda o brilho majestoso,

Logo, brincando, a um mundo de mil glórias,

Levam nossas esperanças!

Tais primores, senhora, são prodígios

A minh’alma cativa dos afetos

Partidos de teu peito;

São um laço que estreita ao mesmo tempo

Meu sentir ao dever sagrado e grato

 

 

 

 

 

 

 

 

De exaltar-te num canto,

– Que mais valem teus mimos ao poeta,

Contemplados à luz do romantismo

Que esparge a poesia.

Mas a lira é tão fraca!... e é tão pobre

O meu seio – de flores e perfumes,

Que eu me torno indeciso!

Que – doçura acharia a doce virgem

No cantar do mancebo arrefecido

Ao gelo das angústias?!

Deixo aos anjos na voz toda candura

De teus dotes dizer num hino eterno

Os célicos primores!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A.        ***

 

 

 

Eu era antes de ver-te o que sou hoje –

Um perdido no mundo – um gênio errante!

Mas na luz de teus olhos confiando

No delírio bradei – avante – avante.

Dei um passo... fiel aos meus instintos,

Recuei um momento espavorido...

Eram sombras que ao longe se estendiam...

Dei mais outro – caí desfalecido!

Teu amor me bastava – eu fora a pátria

Onde o gênio de Deus se ostenta aí,

Em sua asa veloz – em sua essência,

Mulher! purificar meu ser para ti!

Dessas rosas do céu grinalda ou coroa

Eu tecera para ti – ah! tu serias

De minh’alma no trono uma Rainha,

Que ofuscasse da terra as fidalguias!

Tanto amor foi contudo um pesadelo,

Que estampido qualquer faz se esvair!

Foi um sonho mentido – aéreo vôo

De esperanças floridas no porvir!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi debalde contar-te os meus anelos,

Meus suspiros de amor – minha fraqueza –

Foi debalde! Sorriste e desdenhosa

Ao poeta legaste a só tristeza!

Pois bem, adeus! Um dia, quando a crença

No teu peito mais calma repousar,

Dos amores do vale a fé robusta

Talvez venha em tua alma rebentar!...

Então eu só te peço, que me votes

Um suspiro magoado – uma saudade...

De lá mesmo da morte eu bendir-te-ei:

Que a vingança do justo é só bondade!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Queixas

 

 

Não me queixo dos outros só gozarem

Os prazeres do mundo encantador,

Nem maldigo a ninguém, de inveja infame,

Por no baile inspirar a muito amor.

Não me queixo da vida que outros levam,

Nem de nunca num baile delirar;

Não me queixo! talvez até dou graças!

Gosto mesmo já pouco de bailar!

Só me queixo do fado que me segue,

Negro fado, meu Deus! que não tem fim!

Que me arranca na vida as longas penas

Da esperança gentil do serafim.

Não me queixo, meu Deus! do mundo inteiro

Ser feliz, quando eu sofro em solidão!

Não me queixo! só sinto é que, tão moço,

Viva em gelo meu pobre coração!

Dá, Senhor, que esta vida não perdure,

Que eu não morra no ermo a que me impus;

Seja embora depois sacrificado,

Chore ao peso depois de imensa cruz!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Suspiros

 

 

Se no mundo existisse uma alma ainda

Que a ternura guardasse imaculada,

Ai! Eu dera, Senhor! por possuí-la

A vida tão cantada.

Eu quisera voar com ela aos astros,

Exilar-me por lá desta poeira;

Em sua asa divina e perfumosa

Transpor esta barreira.

Mas, ah! Senhor, o céu de minha vida,

Como a noite, no mar é turvo-escuro!

Minha estrela não fulge, que me mostre

O trilho do futuro!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

D. S.

 

 

Foram poucos momentos, mas ditosos,

Os momentos passados junto a ti;

Em teus olhos eu tinha a luz da vida,

Que me falta distante agora aqui.

Vai tristeza por tudo; o próprio espaço,

Nesta parte, parece envolto em luto

Vê, mulher, quanto podem teus encantos,

De teus seios de pura o doce fruto.

Por Deus, que me aborrece esta existência,

Vivida assim na ausência que pranteio;

Levo os dias blasé, como um descrido,

E as noites no leito em duro anseio.

Não sei mesmo o que sinto, apenas noto

Que padece minh’alma de um tormento,

Ou saudade, incerteza... eu não distingo

A visão de meu mal no pensamento.

Tem saudades de mim, como as padeço,

No desterro, de ti, que adoro tanto;

Meu sofrer é por ti, mas eu bendigo

Essa dor que provém do meu encanto!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O poeta

O céu é lindo na mudez do espaço,

Há mesmo encanto, poesia, amores;

A noite, embora rebuçada em luto,

Infunde na alma dos mortais candores.

Mas oh destino, maldição sem termo!

Só, contemplando desta vida as flores,

Como no centro do oceano as vagas,

Na alma se agitam do poeta as dores.

As aves cantam; se o cantar é queixa,

Embora as mágoas, alegria há tanta!

O bosque imóvel, como estátua antiga,

Exala aromas, no silêncio encanta;

Mas, oh! destino, maldição sem termo!

Só, pela vida a suspirar amores,

Como no centro do oceano as vagas,

N’alma se agitam do poeta as dores.

Lambendo as relvas, soluçoso passa

O ribeirinho na estação calmosa,

Mas, de seu fado relatando a história,

Tudo o que conta é ideal de rosa.

Mas oh! destino, maldição sem termo!

Só, pelos vales no cismar das flores,

Como no centro do oceano as vagas,

N’alma se agitam do poeta as dores.

Todos no mundo, meu Senhor, o bruto,

O ímpio, oh todos, o prazer desfrutam;

Bebem na taça da delícia o gozo,

As harmonias desta vida escutam;

Dizei ao menos em que dia ou tempo,

Ao mundo embora de fatais pavores,

Como uma glória do sofrer maldito,

Só n’alma habitem do poeta – amores!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lourinha!

Se queres ser ditosa e sobre um trono,

Rainha, leis ditar;

Veda ao mundo infamante os teus encantos,

Voa à terra de meu lar.

Vem comigo, do norte entre as florestas

U m pouco meditar;

Ve-lo-ás que mais vale ser princesa

Da terra de meu lar,

Sobre um trono de ramos, sempre verdes,

O mundo a contemplar,

Da grandeza a miséria os poucos passos

Medindo num olhar!

Vem pois; se nesta vida só suspiras

De amores um troféu,

Dá-me a destra sem susto – eu quero erguer-te

Num dos tronos do céu!

Mas se os gozos preferes deste mundo,

Insano desde a luz,

Como um sonho meus versos se evaporem,

Que da alma te compus.

Irei então sozinho contristado,

Sem crença e sem pensar,

Viver eternamente à sombra augusta

Das matas do meu lar!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num túmulo

 

 

Aqui jaz uma inocência – flor, apenas

Em botão, a corola se ensaiava:

A morte a conduziu!

Oh! gente, oh! corações, movei as penas

Ao ver – no deslizar, quem suspirava

Um sonho que fugiu;

E, doce, como o sopro das amenas

Aragens do levante – se elevava

Ao céu onde subiu!...

Foi um anjo na vida; – abrindo os seios,

De nuvens purpurinas coroados –

Amores respirou;

Roçou-os a paixão entre os anseios;

Mas rápida a fumaça – abriu corados

Seus lábios, e passou...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fragmentos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Caminheiro da vida, embora moço,

Numa idade em que o crer é d’alma o culto,

E parece que o céu tem mais estrelas,

Mais prazeres o mundo, o mar mais ondas,

Mais luzeiros o dia, o vale mais rosas,

E o céu, a nossa mente, ao que é divino,

Se unifica num grande pensamento:

Nesta idade encantada, amena e rica

De ilusões prazenteiras – entretanto

A meu termo hei chegado – um passo ainda,

E no abismo eu irei precipitar-me!

Se não fora o cismar de uma esperança

Que me embala da idade entre os martírios,

Pelo amor de meus pais, deles que adoro,

Como prezo a talvez um só amigo,

Que, único, me guarda dentro d’alma

Ao inferno eu votara esta existência,

Rir-me-ia de tudo enfastiado.

Meus amores votando ao vandalismo;

Mas eu os amo de amor tão sublimado,

Que se força é descer nas outras glórias,

Devo na asa voar da crença amiga!

Oh! meus pais que em essência o Ser Supremo

São na terra para mim, que nos enjôos

De meus dias de tédio e desespero,

Na lembrança feliz que m’os recorda,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São a gota de mel que suaviza

As fezes de minh’alma, a luz, o guia

Um resumo de tudo o que é sublime...

Só por eles eu vivo, e só por eles

Hei de alegre mostrar-me em quanto sinto

Devorar-me infernal, secreta angústia!

Vivo entregue à mercê d’almas pequenas,

Quando o gênio me eleva e me distingue

Desses vermes sedentos de meu sangue,

Tudo a mim se revela em forma estranha

Nos caminhos da vida: espinhos, mágoas

São as flores gentis que os trilhos juncam

Desta idade em que vou – Deus sabe como!...

Um amor desejei como elevar-me

Nalguma asa inda para ao céu do sonho

Em que tanto esperava – esse fugiu-me:

Iludi-me na escolha, a doce virgem

De meu nobre ideal desvaneceu-se!

Meu amor era grande, em Deus findava,

Era a pomba em descuido, inda na aurora,

Os orvalhos da noite sacudindo,

De seu manto de penas multicores...

Bateu asas – voou, deixando apenas

Uma funda saudade no meu peito!

E pois o que me resta, embora moço,

Nesta quadra em que o céu tem mais estrelas

Ao sonho de mancebo?...

Adeus vida! ilusões da mocidade,

Volto agora ao desterro primitivo,

Vou chorar entre os meus – adeus meus sonhos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A.***

 

 

Que não saibas, mulher! que amor, que flores,

Que esperanças do céu, por ti me inflamam,

Que nuvens de ventura, em minha mente,

Pelo espaço da vida se derramam!

Que não saibas, mulher! os meus anelos,

Meus sonhares febris da mocidade;

Que não ouças meu peito, a cada instante,

Palpitar, como o mar, de ansiedade!

Que não sigas no trilho desta vida

Nos momentos de febre e de delírios,

Para saberes a dor que me acompanha,

Que infinitos pesares – que martírios!

Que não saibas, mulher! dos meus amores

O alfabeto, de cor e salteado...

Talvez me compreendesses – no meu rosto,

Vendo os traços de um róseo desmaiado!...

Talvez que de mulher, mudada a forma

Em soberbo condor, batesses asa,

Indo ao cimo dos Alpes e dos Andes,

Em procura da chama que me abrasa!

Talvez que de mulher, mudada a forma

Em águia soberana – ao lar da lua,

Subisses num fogoso pensamento,

E baixasses chamando: eis-me! sou tua!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A. R. R.

Embora essa distância que se estende

Do exílio ao lar ditoso onde eu nasci,

Embora a deslembrança em que sou tido

Do próprio coração por quem morri;

Embora os meus pesares sucessivos,

Minhas mágoas carpidas em solidão,

E o véu da tristeza que me envolve,

Como o astro do dia a cerração;

Embora esse viver sempre de angústias

Consumido em falsas recordações,

Do passado essas flores desbotadas,

Que nem valem a pena as tradições;

Dois anjos que eu amei, que me embalavam

Em suaves canções, quando em meu lar,

Na tristeza cruel que me devora,

Jamais deixei nos sonhos de amimar.

De dia eu cismo vê-los a meu lado,

Como dantes, sorrindo para mim,

Sabendo a minha vida e meus amores

Daquela o doudejar, destes o fim.

De noite, em meu silêncio, ainda os sinto

Entrarem no meu leito em lentidão,

Como em dias passados que eu sofria,

Pra verem se eu da dor dormia ou não.

Nem mágoas de minh’alma e nem os transes

Da vida do exílio a que me impus,

Desterram de meu sonho as duas sombras

– Madalenas na dor ao pé da cruz!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por seus olhos

Deitei-me, era já tarde – o céu da noite

Parecia envolver mágoas no seio;

A lua amortecida em nuvens turvas,

Talvez se rebuçava em doce anseio!...

Mas não pude dormir – meu pensamento,

Como um bando de garças pelo espaço

Adejava num vale, onde só flores

Do meu anjo povoam seu regaço.

Levantei-me do leito inda enfezado

Da vigília do estudo – a minha vida –

E abrindo a janela debrucei-me

Só contigo a cismar, alma querida.

Minhas noites assim levo sonhando

Em teu rosto, que os olhos me enfebrecem!

Fantasio-te suspensa numa nuvem,

E teus mimos contemplo, que enlouquecem.

Vê pois, como eu te adoro: é testemunha

De meus sonhos a lua, que me afaga,

E, se a brisa algum som leva passando

De meus lábios, teu nome só propaga;

Se as árvores sussurram brandamente,

Tua forma para logo idealizo

E os rumores da cambraia

Cismo ouvir da vestal, que não diviso;

Se os perfumes nos ares se condensam,

Que eu respiro das flores, quando cismo,

Creio o aroma sentir de teus cabelos

Enlevado na luz do romantismo.

Tanto amor é em mim, virgem , um astro,

Que inda mesmo nas noites nebulosas,

Fulge, brilha, derrama seus luzeiros

Nas cavernas da insânia pavorosas!

Vê pois como eu te adoro! e há momentos

Em que eu dera de gosto enternecido

Toda a vida que Deus me concedesse,

Por morrer a teus pés estremecido;

De teus olhos na luz, qual mariposa,

Inda aos fogos ardendo em chama viva,

Bendizendo por glória os assassinos

Nas suaves canções da Casta – Diva.

À Exma. Sra. D. L. M.

Que tens? que sentes? que tristeza é esta

Que ao virgíneo cismar te banha o rosto?

Em que mundo ideal vagueia agora

A tua alma infantil, mimosa virgem?

Que é do riso do lábio e o porte airoso,

Soberano, elegante, aos risos francos

Da cândida criança?

Dói-te acaso uma angústia, já tão cedo,

Nesta idade tão linda? ou são saudades

Dos célicos perfumes

De algum sonho gentil evaporado

De teu seio febril cheio de vida?

Por que choras então, anjo querido?

Este véu de tristeza e o desarranjo

Das formosas madeixas pelo colo

Que pesar os explica?

Foi perfídia de amor, ou são quebrantos

De um cismar caprichoso aos preconceitos

Naturais aos amantes?

Pobre virgem de Deus! por que louquinha

Em delírios tão fundos te abandonas?

Vai ainda uma vez pedir à aurora

Os perfumes suaves que transpira;

Pra incensar teus amores.

Vai! não tardes, criança, não vaciles!

Se pendeu no vergel dos teus encantos

Tua flor mais dileta o mesmo sopro,

Pode ao rogo da virgem levantá-la,

Que o Senhor ama os anjos,

Mas não chores assim, que me comove,

Que me abisma do eu no caos imenso

Sem poder proteger-te,

De teu pranto, sequer, beber as gotas

Ungidas de inocência. Ah! não, não chores

Com esse afã que enternece.

Tranquiliza tua alma – espanta a cisma!

Corre os dedos sutis pelo teclado,

Tira a ele suaves harmonias

Que calam do infeliz nos sofrimentos,

No silêncio da vida e dos amores,

Quando punge a saudade

Em secreto doer e o pensamento,

Como um céu carregado, estende as sombras

Por onde quer que passa.

Pede as fibras dessa alma do piano

A ternura mais doce e abranda aragem

Dos suspiros doridos;

Talvez possas dormir numa esperança

E depois acordar no paraíso!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um voto

A Ilma. e Exma. Sra. D.***

Dormes, eu velo, sedutora imagem,

Grata miragem que nos ermos vi...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Tomaz Ribeiro

 

 

Foi um sonho... nem sei! mas se foi sonho,

Tinha um que de real – era uma imagem

Que sorria para mim se eu lhe saudava,

Que da frase no som – ternura, encanto,

Por funesto prestígio me infundia!

Sim, um sonho do céu, talvez mistério

A minh’alma na vida e que eu não possa

Compreender jamais...

Pois bem! embora

Fosse um sonho, mistério, ou impossível,

– Vapor que se desfaz – é-me bem grato

Evocá-lo ao pungir de uma saudade,

Neste instante comigo, a sós no leito,

No silêncio da noite a luz do estudo.

*

**

Era uma sombra de encantada forma,

Era uma norma de palor suave;

No som das falas, no sorrir brandura,

Tinha a doçura do trinar de uma ave.

Pálida e bela, como a luz da lua,

Em erma rua a desmaiar de amores;

Era uma imagem de inocência pura,

Tinha a candura do sentir das flores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De louras tranças, de um olhar errante,

Que a cada instante se agitava incerto...

Núncio querido na amplidão sombria,

Que leva ao dia o despontar de certo.

Nos lábios dela doce favo eu via,

Que prometia no futuro um gozo,

Nos brandos gestos um montão de afetos,

Altos, secretos, de sentir mimoso.

E viu apenas no vapor de um sonho,

Anjo risonho de meu tédio em meio...

Oh! como é doce, na amplidão sombria,

Sonhar-se um dia em deliroso anseio!

Jurei-lhe e cumpro, pela vida inteira,

Na asa fagueira do ideal levá-la;

Pode em minh’alma se esquecer a glória;

– Sua memória saberei guardá-la.

Se a morte em breve me gelasse o peito,

Mesmo esse efeito não bastara ainda,

Minh’alma fora lá no céu pousá-la,

Meiga cismá-la, como aqui, tão linda.

Pálido e triste, como um sonho d’alma,

É esta a palma que oferecer-lhe posso,

De flores simples, mas que importa? é nobre,

– No ramo pobre seu futuro esboço!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Visita ao túmulo

De meu patrício e amigo

O acadêmico F. de Souza Martins

Fermente a seiva juvenil no peito

Vele o talento numa fronte santa

Que o gênio empalidece...

Embalde! a noite, ao pé de cada

O fantasma terrível se levanta

E seu bafo entorpece!

A. de Azevedo

De envolta ali no pó, do gênio pousa

A fronte juvenil exangue e lisa;

Outrora esperançosa,

Da vida a primavera ao ar da lousa

Trocada em solidão sequer nem brisa

Adeja soluçosa.

De tanto que sonhava ao sol ardente,

Em dias de prazer a fé de encantos

E o peito se nutria.

O fruto foi a lousa um ai tremente,

A dor do coração funéreos prantos,

Uma noite sombria!

Sim, ali porventura a fé crescia,

Milhares de esperanças portentosas

Iam quebrar no céu,

Mas a aurora da vida lhe mentia,

Da sombra das mangueiras lacrimosas

Próximo era o véu...

 

 

 

 

 

 

 

 

Meu Deus! e não ouviste a voz queixosa

Do triste lidador na insânia ardente,

Assim chamando – Deus!

Às garras dessa morte impiedosa,

A ti se consagrando longamente,

A fé dos sonhos teus!...

E agora o que se vê? Um leito impuro,

Um goivo mortuário, uma saudade,

Além chorosa cruz:

Um passo sobre a campa aéreo escuro

Que apenas traduz só – fatalidade

E lâmpada sem luz!...

Meu Deus! passar assim da vida ao sono

Sem ter realizado uma esperança

Ao menos a mais leve

E tão cedo resvalar no abandono

Quando os sonhos tentavam na pujança

Aos céus tocar em breve!

Oh! dorme sim tranquilo, meu amigo,

Na paz da sepultura aí descansa

A vida transitória

Um dia que eu sofrer o golpe imigo,

Irei gozar contigo na aliança

As rosas lá da Glória!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não te importes!

 

 

Não te importes do mundo; quando a glória,

Essa essência de Deus, não perfumasse

O horizonte sublime que sonhamos,

À luz que despontasse,

De minh’alma de amante enternecido

Os aromas da crença eu soltaria...

Não irias, mulher, pedir amores

A quem não te daria!

Não te importes do mundo; ele em seu ócio,

Como o ébrio caído pelas ruas,

No seu leito nojento, insano ri-se

Até de infâmias suas.

Fita os olhos no céu – doce esperança

Desses astros de lá, nalgum mais puro,

Faz mirar-se de amor – talvez te inspire

Um porto mais seguro.

Não te importes do mundo; em teu caminho

Deixa que ele te atire os seus insultos;

É por certo melhor sofrer-lhe a insânia

Que gozar-lhe os indultos!

Não te importes do vil, eu te segurei,

E se em meio da senda a fúria erguer-se,

De meu ódio fatal – de meu delírio,

De ti há de valer-se.

E depois do combate, quando em sangue

O meu peito lavar-se inda ofegante,

Dos favores do céu só quero a graça

Que me sejas constante!

 

 

 

Amor e Morte

Romance

 

 

Recife, 1865

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Labieno!

 

 

Um dia, removido de uma a outra rua do bairro da Boa Vista, concebi estas impressões, que dou a lume, com o título de Amor e Morte.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

Uma noite, era a lua ao zênite do firmamento, de frio a se embuçar num lençol de nuvens; e eu, cedendo ao impulso de minha imaginação, fui sentar-me ao portão daquela chácara monumentosa que bem conheces, para receber os raios turvos no meu crânio, embora, porém, benéficos, e respirar a gosto esses perfumes que exalavam as diversas flores do jardim, e que a brisa bebia em
seu passar.

Sentei-me.

Depois, já quando eu estava resolvido a recolher-me, e mais ou menos havia elevado o pensamento ao Deus da criação, maravilhado e vacilante da grandeza de seu gênio, em suma, cismado um pouco, ouvi, bem junto a mim, através das grades de ferro do portão, uma voz assim falar-me:

– Em que cismas?

Voltei-me para de onde havia partido a voz
e indaguei:

– Quem és?

– Não te assustes: ergui-me da campa neste instante! – E nem sombra sequer eu via!

Não temi retorquir-lhe – E por que peregrinas assim, alma de Deus?

– Fui virgem –, reboaram novos sons pela amplidão; depois ouvi soluços, acompanhados destas vozes – amei, sonhei um céu: mataram-me!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu dormia!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

É original o meu esboço, mas bem sabes quanto custam essas revelações às almas que porejam dos acontecimentos fatais o sangue; às cicatrizes que não se curam tão ligeiramente, da dor que não se amaina, do fel que não se esvai ao peito, em suma, da saudade que as dilacera o íntimo de um bem que se não logrou!... Portanto, esquivo-me a dar-te de público os nomes do personagem que pranteio e dos outros que conjuro.

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

É uma sombra desenhada à tela de minha imaginação, mas sombra de um anjo que tremeu na terra, como um relâmpago no céu nebuloso de uma noite de inverno...

Sabes a história dessa ingênua criatura que inspirou a "primeira saudade" ao Lamartine? Sentiste da leitura os seus amores? Não moveu-te as penas aquela inocência angelical? Aquela harmonia celestial dos anelos da italiana entre as flores dos anos, e as da virtude de sua alma enternecida e pura ao sopro do vento das paixões, na cisma de uma vida – a vida sobre o leito e ao leito o gozo eterno?...

A sina foi a mesma da visão que animo ao sonho. Há contudo um suspirar menos conforme àquelas dores, um doer mais palpitante, horrível mesmo, no peito desta; e é o que sufoca a idéia santa que naquela fora um bálsamo, o éter, a asfixia dessa ausência, a saudade que estorceu-se ao santuário de seu peito de donzela – do mestre e do amante.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Amor e Morte. Não sei por que chamei-o assim!! Fora melhor, talvez mais acertado intitular... do quê?...

O efeito é o mesmo, as vozes palpitariam semelhantemente, se outro título lhe houvera dado. O fim é sempre aquele que sonhei. Depois, gosto menos das roupagens variadas que da beleza nua! A arte ensina isto. Que nos importa essa escola que se esmera na vestal de suas imagens, quando o belo está na simplicidade com que devera apresentá-las?!

Assim penso e assim pratico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Amor e Morte

 

 

 

Anjo no coração, anjo no rosto,

Devera o amor chorar sobre o teu seio,

Que não grinaldas fúnebres tecer-te;

Devera voz de esposo acalentar-te

O sono da inocência – não grosseira

Canção de trovador não conhecido.

 

G. Dias

 

 

 

 

Amor e morte

I

A casa está deserta..........................

.......................................................

 

 

Ei-lo! É um deserto!... Outrora as árvores

Da brisa docemente sussurravam,

E os pinheiros, que à esquerda se levantam,

Do amor também falavam.

Falavam no mistério dos sussurros,

Como os ecos da noite à viração,

Do enleio, da ternura inocentinha,

Do virgem coração.

E tudo agora é mudo; o céu vacila;

A lua, só no centro enlanguecida,

Nem sombras no proscênio dos amores

Desenha dessa luz amortecida!

A brisa, nem de leve, riça as flores;

Dorme triste o cipreste no seu leito;

E da espessura que em torno se levanta

A alma, de pesar, não bate ao peito.

Só às vezes, mui lento, um surdo anseio

Agita as trepadeiras,

E, ao longe, da noite uma avezinha

A saudosa canção desata ao seio

Da folhagem tranquila

Das verdes laranjeiras:

E no horizonte um astro não rutila,

Nem sequer d’auras doce cantiguinha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Oh! tudo se finou, de alegre e terno,

Para aquela habitação de tanto encanto

Aos dias tão saudosos!

Murmuram só no espaço a voz do inferno

E lá no santuário, em extremo santo,

Os sons esperançosos!...

Sim, os sons esperançosos da existência

Da virgem, que de amor morreu à míngua

Dos seus e da ventura,

Da virgem que, na aurora da inocência,

Sentiu tomar-lhe o fel o mel da língua,

O peito vil tintura!

Ei-lo! é um deserto, o sítio agora

Um canto de saudade agonizante,

Espelho em que se mira a desventura

Um vácuo sem sentido, mas frisante!

Fatalidade! o amor parece apenas

Doce imagem da mente num momento,

Do palco as confusões de algumas cenas,

Um íris que se ensaia ao firmamento.

Contudo o amor existe, como a vida,

Como a luz que da treva nos ressurge,

Aos beijos da manhã;

Vigora, como as leis das sete tábuas,

Infunde em nossa mente a mesma crença

Da idéia tão louçã.

E quantas orações, preces ferventes

Partiram desse estreito aos pés do Eterno,

Dos lábios da inocente!

Dizei-o, flores, ervas mudas, folhas

Que o palco povoai dos tristes sonhos

Da moça adolescente.

Dizei-o, solidões – luar das noites,

Que o lago abrilhantou desses amores,

Das auras ao passar;

E vós, oh madressilvas rescendentes

Que os suspiros da virgem perfumastes,

A cisma desse amar...

Durmamos, sonhadores desta vida!

Além as fantasias, quando a morte

É só quem iça o véu.

Durmamos! que esta vida é cinza, é nada

E os sonhos da mente não atingem

Sequer o meio céu!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Galopa o meu corcel, de imagens ternas,

Pela estrada fatal da morte em ânsia,

E os sonhos concebeu-a carregando

Gelada a virgem, morta de constância.

Lá vai caminho afora essa esperança

De um sonho de mancebo ao sol da vida,

À sesta dos amores;

Não chorem, que da infâmia desligou-se,

Soltou-se as vis cadeias que a prendiam

De uns entes de palores.

Deixem-na levar a morte aos devaneios

Dos sonhares da campa; – ela era um anjo,

E um anjo é só de Deus!

Foi livre respirar: – vivia aos elos

Dos caprichos ferrenhos do egoísmo,

Do mundo... ah! não, dos seus!

Sigamos, minha musa, aquelas sombras;

Cantemos a canção desses amores;

Levemos, meu corcel, à pátria dela,

Da noiva amortecida, as tristes flores.

 

 

 

 

 

 

 

II

Esperanças

Oh! ríamo-nos da vida! tudo mente!

A. de Azevedo

 

Um lago era essa vida, à flor o barco

Ao sopro dos amores, solta a vela,

Às águas deslizava

 

 

O leme era a paixão; certeiro rumo

Ao pólo de uma estrela ia, corria,

O ponto demandava.

 

Cismava ela talvez, a virgem santa,

À popa do batel, na luz da aurora,

Ao sonho escandescida

Erguera alguma vez (quem sabe?) a fronte

E, crente da ventura, o céu fitara,

De amor embevecida.

 

Coitada! Nem pensava a tirania

Daqueles vis piratas caprichosos

Que à presa se ensaiavam,

Nem via, de inocência, a trama infame

Das selváticas gentes mais distante

Que o barco acompanhavam!

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Por noite de luar passava a frota

Dos amorosos sonhos da donzela,

Um vento os transportava, ameno e doce,

À pátria onde morreu de amor a Estella.

 

E lá nesse proscênio ao leito antigo

Os sonhos iam dela repousar,

Do véu se revestirem dessa morte,

E corpo desse amor da luz tomar.

 

Aquela angelical pureza d’alma,

Aquele suspirar terno e magoado,

Eram de seu peito o mesmo esforço,

E todo o seu sentir emaranhado!

 

As vezes Julieta a enternecia,

A mesma Marion, naquele instante,

Em luta desigual com a desventura,

Tendo no seio gelado o belo amante.

 

Quisera então no todo parecer-se

Alguma dessas tristes criaturas;

Sentira uma só dor, talvez pensava,

Mas dor que não corrompe as almas puras!...

 

 

Por que lhe não coroaste oh! Deus dos fados

Na noite do destino os sonhos dela?

E não ungiste a fronte de um teu beijo?

As perfumosas crenças da donzela?

 

E ela era tão pura!... Amara um dia...

Pobre moça! e me falem de esperanças!

Durmamos deste mundo, almas de treva,

Ao mar de uma existência de ondas mansas!...

 

Durmamos dos amores sobre a campa,

Riamo-nos de tudo! a vilania

Excede quanto a nós refulge em brilho,

E nada há duvidar, não morre o dia?

 

Assim, neste viver, a glória é fumo,

Um sonho vaporoso e nada mais!

Durmamos! esperanças são quimeras

Mentiras! ilusões! Só geram ais!

 

Amor é um destino, alguém o disse;

Mas vive de esperanças; oh! defeito

Quisera-o independente, assim eu crera

Seu fruto um talismã do céu perfeito.

 

Mas crê-lo um indigente e vil mendigo

Das fadas de esperança comensal,

É ter-se o coração propenso a insânia,

A vida entregue às mãos da saturnal

 

A ela, coitadinha! a triste virgem,

Tal sorte lhe ditou gênio infernal,

Gemendo ao pesadelo endoidecido

Do amor por essa treva sem fanal!

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Adeus! nem mais um sonho, o céu se nubla

Esperanças da vida, adeus, amores!

Foi lida essa sentença oh! lei... me curvo

Ao santo sacrifício – ao mundo as flores!...

 

 

 

 

 

"Adeus, minha ilusão! morro do sonho!

Meu sol evaporaram da existência

Ao egoísmo do fero desengano,

Do imbecil assassino da inocência!"

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

III

 

Desengano

 

É tarde, amores, é tarde...

A. de Azevedo

 

 

" Coração, suporta a dor que te comprime;

Espera, eu morrerei!

E ambos sobre a campa umedecida...

Meu Deus! por que chorei?

 

"Por ele?... quando eu for fria, gelada,

À noite, ao cemitério,

Irá sentar-se ao leito dessa campa

Da noiva no mistério.

 

"Então beijar-me-á de amor na fronte,

No goivo e na saudade,

Meu noivo desta vida, a quem me roubam

Ao lar da eternidade.

 

"Terei mais uma sombra, além daquela

Da árvore funerária,

Um círio nessa treva que me aclare

A campa mortuária.

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Morrer do desengano, em flor ainda,

Eu, pobre sonhadora de venturas,

De auroras e luar!

Morrer, quando a ternura, em luz infinda,

Expande a claridade nas alturas

Do céu de meu amar!

 

 

"E quando em minha mente um doce enleio

Palpita de minh’alma as sensações;

E o céu desta vida inda se tinge

Da nuvem dos enlevos nas canções!

 

"Esperanças do céu! por que fugistes,

Meus sonhares febris da mocidade?!...

E sinto que não bóia a tantas mágoas

Nem mais uma amorosa ansiedade!"

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Vedaram-lhe a passagem, quando ardente

Em ânsias de chegar ao termo santo

Abria livre, a brisa dos amores,

A velha do batel de seu encanto.

 

Estreito era o canal, as águas baixas

Por onde ia o batel sulcando a flor;

O dia era já findo a noite ergueu-se;

E nem a lua veio ao seu clamor!...

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Quebrou-se pelo espaço um som tridente,

Instantes já depois do sol morrer;

O batel num rochedo abalroara,

Do egoísmo na encosta foi bater!

 

Ouviu-se alguns gemidos sonorosos,

Como o gênio da noite em solidão;

Saudosos como a brisa em seus adejos,

Bebendo esse exalar que as flores dão.

 

Sentiu-se de repente uma pilhagem

Nos murmúrios lentos ao batel...

Por noite de pavor corria a cena

Da crueldade infame no tropel.

 

Era a virgem que à dor se contorcia

De partirem de si as esperanças,

Aos arrochos fatais da mão do inferno,

Da insídia e perversão dessas provanças.

 

 

 

Forçaram-na a descer pelas escadas

Ao fundo, no porão de seu batel;

Lá deram-lhe uma essência envenenada,

Que inunda de amargor do seio o mel.

 

Vedaram-lhe o painel da natureza,

Armaram sobre o leito uma toldinha

Em trapos de miséria a desancaram,

Sufocaram-lhe a alma inocentinha!

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Escutem-na no leito almas vazias

De um átomo de luz;

Escutem-na no leito aos devaneios

De envolta com a cruz!

 

E vós, que dardejais pela espessura

Dos sonhos virginais,

Mirai-vos nestas águas de ternura

Ao vale dos laranjais.

 

 

IV

 

No leito

 

É tarde, amores, é tarde...

A. de Azevedo

 

 

Onze horas da noite! o céu é turvo...

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Pálida, convulsa, e as mãos unidas

Ao arquejante seio, os olhos langues,

Quebrados da insônia, os lábios trêmulos,

E ao céu do colo soltas as madeixas

Louras ao desalinho das roupagens,

Contudo ao santuário, ao céu da mente

Parece inda animar-lhe um círio eterno,

Aquele ressonar magoado e lento,

 

 

 

 

Em luta o coração com a dor da morte,

Um eco inda palpita aos sons pungentes

Dos últimos suspiros da donzela,

Ao beijo funerário!

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

"Ergue-te! escuta! chega-te do leito

A borda aqui, bem junto a mim não ouves?

Sou eu! a fria amante, a noiva tua,

Visão dos meus amores;

Não temas de tremer nos meus teus lábios!

Vem triste! Enquanto a morte não me estala

O derradeiro enlace desta vida!

Eu sofro tanto aos últimos anelos!

Não sentes minha dor?

 

"Escuta, escuta!

Não chores! Quando a morte em nós estende

Véu de palidez, abre-se o infinito

A alma que o lençol impuro embuça,

Aos pavorosos cânticos da virgem

Do beijo da friez, ao gozo eterno,

E como aqueles cantos que reboam

No ar de nosso peito os sons palpitam

Dos anjos do Senhor por nossa glória,

De amor por nossas dores neste mundo.

 

"Assim pois não me pranteies

Minh’alma depois da morte;

Bem feliz eu sou morrendo,

Pois me fujo ao val sem norte!

Mas não te esqueças, meu noivo,

De nosso amor a constância;

Aquelas flores da aurora,

Da minha saudosa infância.

 

"Eu morro erguido à lembrança

Dessa ventura ao luar,

Dos sonhos dessa existência

Que o fado fez devastar;

 

 

 

 

 

Eu morro ao mar, afogada

Às vagas de uma avareza;

Morro nos caprichos de ingratos

Entes de ferro e crueza!

 

"Sina fatal! meus amores

Foram, no berço infantil

Um doido, insano delírio.

Um drama escuro e bem vil!

Não chores! fujo ao martírio;

Vou descansar de meu Deus

Na pátria, ao lar dos anjinhos,

Viver dos cânticos seus!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Adeus sonhos de vida, adeus roseiras

Do vale dos meus amores!

Esperanças febris dos verdes anos,

Adeus cheirosas flores!

 

"Auras saudosas, virações fagueiras

Dos sonhos virginais,

Não mais adejareis, amenas, ternas,

Ao vale dos laranjais!

 

"Adeus oh! madressilvas perfumosas,

Que às noites respirei;

Perpétuas pelo vale adormecidas,

Adeus! que suspirei!

 

"Saudade, flor querida, olentes flores

D’amor e mocidade,

Meus sonhos de inocência, adeus! eu parto

A sós para a eternidade!

 

"Vistam-me de branco as formas débeis,

E touquem-me de flores

De noiva uma capela, a fronte adornem

Da virgem nos palores.

 

"Não quero sobre a lousa uma saudade

Desfolhem meus algozes,

Nem o silêncio do leito me perturbe

O treno dessas vozes.

 

 

 

 

"Deixem-me dormir tranquila e pálida

O sono da inocência

Embora ao leito frio dos amores

Deposta em podre essência!

 

"Nas lágrimas de irmã por mim, ou prece

Sussurrem na amplidão;

Só quero aquele pranto ensanguentado,

O dele, e a canção!

 

"Deixem-no chegar-se ao pé do leito,

Ao menos nesse instante!

Por Deus! o véu da morte lhe suspendam

Da noiva e triste amante!

 

"E eu serei feliz sentindo um beijo

A morte acarinhar;

Voando ao céu depois esperançosa,

Por ele a Deus rogar.

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

E quando a aurora vinha despontando,

E as névoas do céu se afugentavam,

Dos raios do horizonte espavoridas,

E do ocidente as auras se largando

Saudades murmurarem pareciam,

Aos céus, por toda a parte, ao mar à terra,

Ao bosque, ao prado, à relva, às espessuras,

E a tudo enfim, a Deus e ao mundo,

O leito em que sonhara a bela em vida

As flores mais olentes da existência,

Era um vácuo silente e sem sentido:

Nem mais aquela sombra ali se via

Da triste criatura!

 

Depois dobrava um sino, e nessa igreja,

A eça levantada ao seio augusto,

O povo que às exéquias assistia,

Saudoso murmurava ao mudo espaço:

– Morreu de muito amor, por ser constante,

Uma alma semelhante a Deus pertence.

 

 

Oh! mundo sem razão! Painel infame

De infinitas misérias colorido!

Essa vaga de pó que em ti rebrame

Que praia beijará nesse alarido?

 

Será essa em que vive o gênio aéreo

Da descrença infernal no que há mais santo?

Ou nessa em que adormece ao sol da vida

O ateu das tradições sem fé no pranto?

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Só resta agora à lousa esta inscrição:

– Aqui jaz... a virgem que nasceu

Aos ................... e na ascensão

Aos ................... dos sonhos faleceu;

E na desolação

Deixando um coração,

Um só, puro, inocente, como o seu;

e... pede-se oração!

 

 

 

 

 

 

 

Fantasias da idade

 

 

Recife, 1865

 

 

 

 

 

 

 

 

Leitor!

 

 

 

 

Atentai para estas considerações sobre a parte do livro que se apresenta à vossa apreciação.

É força confessar, no seu fundo ela é um pouco anticatólica nas crenças do cantor das glórias brasileiras, o distinto Sr. G. Dias.

O pensamento aqui perde-se nas florestas dos sonhos voluptuosos e das sombras sensuais, como o selvagem nas espessuras do deserto, ansioso por deparar com a doce companheira do gozo dos amores!...

Não é de admirar que, depois dos cantos de ternura do mancebo embalado às redes dos amores da inocência até aqui, a mesma lira entoe o hino dos sonhares vivos do poeta, sem dúvida alguma de interesse mais palpável, pois que aos sonhos sucedem sempre as sombras do belo das visões, que nos momentos deleitosos da inspiração ardente surgem animadas por entre os véus
do romantismo, do fogo da ambição dos gozos – é do século
as reações!...

Aqui vem à face motivar. O espírito é como a aurora na madrugada: clareia aquela luz benéfica e suave que anuncia o breve desaparecimento dos últimos véus da noite que velou, de sorte que pouco a pouco, fugindo as névoas que sombreiam-lhe o horizonte, os raios fúlgidos derramam-se pelo mundo inteiro do sentimentalismo da alma, iriando cores caprichosas, como as fantásticas criações de Hoffmann.

É fácil de explicar. A alma do poeta é uma floresta povoada de seres diferentes; umas vezes preludia a ave da ternura associada à da inocência, outras vezes o pássaro monótono da tristeza, depois a rola da saudade; e nesse devanear contínuo – que a ave da
volúpia solte um suspiro na solidão – distante dessa orquestra, não será de fazer impressionar àqueles que não simpatizam com seu canto peregrino!

 

 

Não somos, contudo, desses cujas almas se identificam absolutamente com as harmonias do poetar byrônico e com o devanear incerto e pálido de Musset, naquelas idéias turvas cambaleantes do álcool das misérias próprias da devassidão de Rolla, o libertino insano; não, no nosso modo de poetar e de combinar as diversas palpitações da alma, vê-lo-eis – alguma coisa de vago sem ser indefinido, um pouco menos de real sem deixar de haver o que quer que seja!...

Não vos admireis portanto do desvio da alma na senda que encetou, os tempos também se mudam, e se tudo na vida regula-se por uma série de combinações variáveis, não é nada extraordinário, meu leitor, que na quadra por que passa o filho dos trópicos
se desenvolva em seu espírito a epidemia dos sonhares voluptuosos!

No estilo observemos o da Lira dos Vinte Anos, do Sr. A. de Azevedo, servindo-nos daquela vibração picante: se pecamos foi pelo desejo de seguir de longe as pegadas desse grande vulto da literatura moderna – no caminho pouco iluminado se não fora melhor dizermos: – de luzes sem conforto...

Sirva isto de prefácio às Fantasias da Idade

 

 

 

 

A ***

 

 

Foge de olhar-me! no retiro da alma,

Ah! nem tu sabes que paixão me acendes;

Foge de olhar-me, que um fervor impuro

Da luz que esparges, no meu peito incendes.

 

Há nos teus olhos tanto brilho e fogo,

E nos teus seios tanta sombra amena,

Que eu temo o misto enlouquecer-me o senso,

E nos abismos te lançar sem pena.

 

Ah! não me culpes por fugir-te a sombra,

Por desgarrar-me de teu ser, criança!

Deixa que eu viva em solidão sofrendo,

Mas pura durmas na fugaz lembrança.

 

Ah! não me culpes do sofrer que sofres,

Também eu sinto o remorder picante,

Mas sigo a trilha do viver, sorrindo

Sobre os espinhos sem fazer semblante!

 

Ai! Se eu deixasse o coração levar-me

Pelas florestas do sonhar tão vivo,

Da sede intensa se eu deixasse o gênio

Minh’alma ao lago conduzir lascivo.

 

Que de ti fora no deserto, pomba,

Lago inda virgem do bater mundano?!!

Da pomba as penas arrancara as asas,

Do lago as águas eu tisnara insano!

 

Ah! não me culpes, coração, eu sofro

Da mesma mágoa que ao pudor sufocas,

E se me esquivo em te falar de perto,

É que minh’alma no sorrir me tocas!...

 

Foge de olhar-me, de encarar-me, foge

De tudo em suma que meu ser encerra;

Tu és tão tênue, meu amor, tão frágil,

Que um só meu sopro te arrojara em terra!

 

 

 

 

 

 

 

 

Meia Noite

 

O coração do mancebo é como essas

flores pálidas que só abrem de noite, e

que o sol murcha e fecha.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

É tão doce sonhar, para quem ama!...

A. de Azevedo

 

 

Selia! E é tão doce a meia-noite

Abrir-se a flor do seio à luz da lua

E ter-se o peito a outro abandonado,

À crença de uma imagem, como a tua...

 

Ouvir-se à natureza a monodia

Dos ecos que se quebram no deserto;

Ao brando suspirar de amenas brisas

No bosque ou na campina – longe ou perto!

 

E quando o céu parece adormecido,

E a palmeira ao vale a sombra espraia

Ao morno ressonar das estrelinhas

Da onda ao murmurar beijando a praia,

 

Erguer-se o pensamento além, de um beijo

Ao ar, que alenta a vida entre os anseios

Num longo respirar d’alma no delírio,

Ao forte palpitar de ebúrneos seios...

 

E, Selia, quando é muda a flor do galho,

Aberta a perfumar a natureza;

E que se sente o cheiro, umedecido,

Enquanto os olhos vivem da beleza!

 

O sonho então nos vem de aéreas formas

Do crânio a referver na alma e no peito;

E do sopro febril que nos inflama,

O corpo vai rolar do gosto ao leito!

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

 

 

 

 

Ah! quando a meia-noite o céu, a terra,

O bosque... enfim dormir a natureza!

E quando a flor do vale aberta à lua

Os astros fascinar nessa beleza.

 

Corre, Selia, à campina! E do sereno

Ao fresco animador vem ter comigo;

Eu durmo sempre, às relvas, suspiroso

Ao sonho tão gentil do rosto amigo.

 

Ah! vem... à meia-noite eu sou tão triste

Aqui da natureza à luz da lua!...

E sinto, que sem ti, minh’alma é fria,

Aberta em flor para o gosto ardente e nua!

 

Ah! vem... que só contigo em doce amplexo,

No leito da volúpia adormecido,

É que dos meus amores se estremece

A flor ao ai tão terno e umedecido!

 

Selia! Em meu retiro à meia-noite

A vida é tão saudosa!... e nesse encanto

Eu sinto as minhas crenças se afogarem,

Como as queixas de um anjo em doce pranto!

 

Ah! vem... se no viver existe um gozo,

É quando no silêncio à luz da lua,

Por entre as violetas dos amores,

Se sente uma alma virgem seminua!

 

 

 

 

 

Vôos aéreos

 

Ó santa inspiração! fada noturna

Por que a fronte não beijas do poeta?

A. de Azevedo

 

 

Quando a noite no silêncio eu me desterro,

Em suspiros voa além meu pensamento

E do giro já cansado, se delira,

Torna ao centro a repousar no meu tormento.

 

E sentindo o coração bater mais forte,

E no peito a chama ardente se atear,

Abro o livro do passado, e, com pachorra,

Leio as folhas, onde notas fiz gravar.

 

 

 

 

II

Reminiscência

 

 

Meu Deus! se outrora amei, se foi meu sonho

Fervor da consciência,

Dos meus delírios hoje me envergonho,

Fatal reminiscência!

E se algum dia amor jurei eterno;

Foi louca fantasia;

Talvez minha alma em si continha o inferno,

O fogo lhe vencia.

Se as gotas da vida, o orvalho puro

Não pude conservar,

Meu Deus, já foi descrendo no futuro,

Releva confessar.

De forte convulsão tomado o peito,

Minh’alma estremeceu;

Mulher voluptuosa junto ao leito,

Mostrava o sonho meu.

 

 

 

 

Venceu-me essa ilusão, e do mistério,

Não pude mais fugir;

Amei-a, e num olhar de mimo etéreo

Um astro vi luzir...

Esperei o meu amor também vencê-la,

Pois ela o prometia,

Levada ante os altares recebê-la

Nas juras que fazia.

Mas quando despertei do sonho amigo,

Nem mais uma fumaça!

Enlouqueci oh!... crendo num castigo,

Lavei as mãos à raça!

 

 

 

 

 

 

 

III

Fatalidade

 

Ali as noites consumi sonhando

Na amena sombra do arvoredo imenso;

Meu Deus, quanta loucura!

Do anjo o leito no ideal formando,

Via em meu sonho, meu amor propenso

Ao trono da ventura!

Como entre nuvens na vertigem passa

Filha da noite sem amor, sem gosto,

Meu sonho foi assim,

Que visão meu Deus! duma luz escassa!

Nem pude ver a palidez do rosto

Da ilusão por fim...

Contudo, crente, vacilei chorando,

À espera dela, suspirei constante

– A lua lá sem véu,

Purpúreo leito conjugal sonhando,

Em que da febre de um voar errante,

Voáramos ao céu!...

 

 

 

Não quero, disse, e elevando as asas,

Foi lá no mundo do ideal cerrá-las

Anjo do meu amor!

Sorriu da vida, e para o céu nas gazas

Subiu mimosa em maviosas falas,

Chamou-a seu senhor!

 

IV

Meu túmulo

 

Um dia do lidar do mundo insano,

Irei das esperanças segregado,

Partido o coração,

Aos braços de um amor talvez mais lhano,

E de um beijo da morte embriagado,

Rolar na solidão.

Na escarpa de um morro bem deserto,

A paz da viração da gente ingrata,

De murtas povoado;

Eu quero que meu leito seja aberto

E descansem meu corpo democrata

Na vida abandonado.

O manto seja a tarde nebulosa,

A brisa que suspira a voz do sino,

A morte anunciando;

Seja o padre a rola pesarosa,

Mandando em seu gemer a Deus um hino,

Minh’alma encomendando.

Lamentem minha dor as cachoeiras,

Rumores da floresta em torno ao leito,

E sombras pavorosas;

E suspirem por mim as laranjeiras,

Como prantos derramem no meu peito

As flores tão cheirosas.

Por mãe e por irmãs que me pranteiem

A morte eternamente, cresçam flores

Em roda à sepultura;

 

Sejam as virgens do céu, as que anseiem

Na lembrança infeliz dos meus amores,

Dos sonhos de ventura!

Havia uma no mundo que eu sonhava,

Mas essa não irá chorar o morto,

Ali na solidão;

Venha a filha da noite, em quem mirava

Seus belos atrativos tão absorto,

Sentir-me em lentidão!

 

V

Descrença

 

Eu deixo o lupanar da vida imunda,

Ébrio de sonhar, levando pálido

O triste coração,

Deus sabe se no peito mui profunda

Mágoa me devora o sonho cálido

E sem consolação.

E como o cão que sede devorara

Na treva do viver uivando infrene

Irei também rolar.

Da mágoa que no peito se entranhara,

Fazendo o meu corcel – que importa pende

Eu hei de viajar...

No trilho do infinito me lançando,

Em busca das verdades que sonhava

Na vida transitória;

Eu irei no galope estrebuchando,

Aos ecos revelando – muito amava –

Sabei a minha história!

Tropece o meu corcel oh! muito embora

Nas barreiras do sonho que animava,

Fatal e mui profano...

Nas sombras lutuosas dessa hora,

Em que as flores dos anos imolava

A força de um arcano...

 

 

 

A tudo transporei, sedento e louco,

Na treva mortuária e no martírio

Clamando por um Deus,

Até que de clamar, sem voz, já rouco,

D’algumas das verdades no delírio

Eu beije os círios seus!...

VI

Lágrimas profundas

 

Amanhã, quando o peito em desalento

A fibra mais sublime rebentar

Ao sol do meio-dia, eu serei morto,

E abram minha cova à beira-mar.

Virgens que eu sonhei e amei na vida,

E fostes do poeta o doce encanto,

Ide em meu sepulcro, à meia-noite,

À sombra do luar, deixar um canto.

Flores deste vale e auroras belas,

Cantigas de mulher que eu respirava,

Junto a lousa gelada erguei-vos todas,

Sob as sombras funéreas que encantava.

Oh! vândalos da vida, eu vos dispenso

As exéquias finais da hora extrema,

Se nos sonhos da vida eu conjurei-vos

Desprezar-vos na morte é meu sistema!

 

 

Desejos

Ah! vem, pálida virgem, se tens pena

De quem morre por ti, e morre amando,

Dá vida em teu alento à minha vida,

Une nos lábios meus minh’alma à tua!

Eu quero ao pé de ti sentir o mundo

Na tua alma infantil: na tua fronte

Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros

Sentir as virações do paraíso –

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

A. de Azevedo

Se junto a meu leito, depois que anoitece

Um anjo viesse meu sonho embalar,

O anjo quisera que fosses oh! virgem,

Me vendo em vertigem contigo a sonhar.

Se brando meu sono tu visses que era,

Só dele quisera que tu me tirasses,

De leve em meu corpo depondo teus braços,

Com ternos abraços, a mim despertasses.

Depois acordado, se tu me atendesses,

Dos beijos, um desses d’amor eu pedira;

Se acaso cedesses, na ação de imprimi-lo

Quisera senti-lo mais quente que a pira.

Quisera, vestido teu corpo mimoso

Em véu precioso de fina cambraia,

Que eu visse ondeantes dois globos formosos

No seio amorosos, quais vagas na praia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As tranças tão negras quisera que envoltas

Descendo já soltas, nos ombros pousassem,

Delírio amoroso nossa alma sentisse,

Após a meiguice teus olhos mostrassem.

Então convulsiva, nadando em desejos,

Quisera mil beijos sentir que me davas,

Mil frases tocantes que amor só ferissem

Que os anjos ouvissem a fé que juravas.

..........................

Mas, ah! que os desejos falecem no berço!

Sequer, nem um terço me é dado gozar!

Já quero somente viver com efeito,

Na paz de teu peito constante morar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que é minh’alma

 

 

Minh’alma é um poema que se canta

A fama de um herói que já morreu!

Um eco de saudade que aquebranta

A mágoa da mulher que se perdeu!

Um livro de cantigas sonorosas

Aberto à meia-noite, ao luar,

Por entre mil donzelas amorosas

No som da viração a suspirar.

Minh’alma é um romance mui sensível

Que toca de uma bela o coração,

Um sonho de meu Deus – se é possível

O doce paraíso – essa mansão!

Minh’alma é um mistério de donzela,

Que cisma na visão de seu amor,

Um astro que rutila, ou qual estrela

Em limpo firmamento ao resplendor.

Minh’alma encerra mundos de existência,

E mistos divinais – e previsões;

Abisma ao fundo imenso – certa essência...

E, quase ia dizendo... aspirações!...

Minh’alma é secretária de desejos

Tem mais de mil gavetas – venham ver!

As chaves, pendurei-as nos meus beijos,

Num cordão de suspiros a tremer!...

Virgens curiosas! venham abri-la

Doutoras na ciência – confusão!

Venham ver o que tanto aqui fuzila

No meu peito, em minh’alma e coração!

E essa que melhor desenvolver-se

A glória terá certa, e com razão...

E o poeta em delírio, a remorder-se

Dar-lhe-á vida e tudo à sensação!...

 

 

Lisa!

 

 

Aos quinze anos a virgem

Não é alheia a vertigem

Do sentimento d’amor;

Começa logo na lida

A sindicar desta vida

O doce aroma da flor!

Namora a lua de agosto,

Quando revela seu rosto

Rompendo a seda do céu;

E no sonhar de ventura

Enxerga além na feitura,

Um leito e próximo um véu...

Inveja a sorte da brisa

Como o cantor simpatiza

Com suas queixas sem fim;

Aspira um gozo na vida,

Adeja, louca, perdida,

Atrás de um beijo e d’um sim...

Gosta do baile e da dança,

Afaga a flor esperança,

E leva o tempo em cismar,

Suspirar ouvir saudações,

E suplantar corações, –

E foge às vezes de amar!

Aos quinze anos a virgem

Sabe d’amor essa origem,

Pensa em casar-se também:

Namora a um, dois e três,

Ou doze, ou vinte talvez...

Dá mil amores se tem!

Escuta agora o juízo,

E, sem te dar prejuízo,

Minha sentença darei:

Aos quinze anos a virgem

É vento, é fumo, é vertigem...

O mais te digam – não sei!...

Moças

 

 

As moças na vida são fadas etéreas,

Dormindo nas vagas do mar caudaloso,

Sonhando venturas, sorrindo por tudo

No grande estampido – no som proceloso!

São astros que brilham no céu pela noite,

Que cismam da terra os destinos sombrios,

E fogem ciosos da luz matutina,

Sentindo os ardores nos corpos mui frios!

São fúlgidas luzes que o fundo penetram

Do peito inumano mais duro – insensível,

Lampejos que mostram da senda os desvios,

Do trilho futuro na treva d’incrível!

São gotas de orvalho pousado nos lábios

Gentis, purpurinos da rosa do vale,

São almas queridas que à noite nos sonhos,

Conosco, no leito, nos pedem que fale...

São flores brotadas nos campos da vida,

Batidas do vento, risonhas no prado

São anjos que velam do brilho cuidosos,

De amores sonhando gentil desenfado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São ecos plangentes a Deus elevados,

De lá regressados, pejados de cantos;

São notas ardentes de um anjo em delírio

Do peito exalando perfumes – encantos!

São frutos verdosos, crescendo nos galhos,

Cobertos de pêlo mui puros – formosos;

São aves divinas, trinando no mundo,

D’amor engrolando seus hinos fogosos.

São gênios da vida, suspiros queridos,

Que o peito sentindo, estremece cativo,

São fadas, são anjos por nós veladores,

Perpétuos ao lado por doce incentivo!

Que falta pra serem da graça divina

Santinhas no mundo, pra nós adorá-las?

Não fora um defeito – por Deus, juro agora,

Eu fora o primeiro em querer venerá-las!

Mas elas são nuvens volúveis, passando,

Voando, vestidas de cores imersas,

Que a brisa mais leve removem-nas longe,

De dia, de noite por sendas diversas!...

 

 

 

 

Esmola!

 

 

Dai-lhe, Senhora, a Glicéria

Só Deus lhe sonda a miséria,

Enquanto o rico escarnece,

Foi uma virgem também,

Sonhou venturas d’além:

Senhora! dai-lhe, merece.

Aquele manto obscuro

Alguma vez o futuro

Esperançoso encarou,

Aquela fronte bisonha

Outrora alegre, risonha,

Talvez um anjo a beijou!

Aqueles olhos que prantos,

A fé de tantos encantos,

Verteram ternos na flor;

E quantas frases divinas

Naquelas murchas boninas

Estremeceram de amor!

Ao santuário da mente,

Ali um sonho fervente,

Talvez tão belo nutriu,

Mas nada o fado respeita

De seu poder não suspeita,

E como um astro fugiu!

Dai-lhe, Senhora, uma esmola,

Por Deus, por vós, lhe consola

O peito nu de esperanças;

Também foi anjo – sonhou,

As aras santas beijou...

Dai-lhe, por tantas lembranças.

 

 

 

 

Dai-lhe, Senhora, merece;

De vossa esmola carece

Dai-lhe por vós, ou por Deus;

É uma filha bastarda,

Sem mãe, sem anjo da guarda,

Com fome, longe dos seus.

Um anjo negro, sem asas,

Pisando louco nas brasas

Duma existência final,

Uma insensata d’amor,

Envolta em manto de horror,

Na treva do lodaçal.

Dai-lhe, Senhora, a Glicéria,

Do vendaval da miséria

Atroz rojada no pó...

Na primavera dos anos

Por um sorrir dos enganos,

Agora gemendo só...

Também foi anjo, Senhora,

Sonhou até certa hora,

Só Deus conhece a razão,

Amou, sorriu-se, voou,

Mas no fervor tonteou,

Perdeu as asas em vão...

Dai-lhe, Senhora, a perdida,

Entre os horrores da vida,

Um pão sequer pelas dores.

A Deus pertence o futuro,

Pois é confim muito escuro,

Que só lhe cremos pavores!...

 

 

Recordações de ***

Un souvenir heureux est peut-être sur terre

Plus vrai que le bonheur!

A. de Musset

 

 

Eu quisera, meu Deus, sequer no sonho

Vê-la ainda uma vez ali pousada,

Na antiga camarinha;

Os cabelos gentis no céu risonho

De seu colo moreno, e desmaiada

A fronte inocentinha.

Que saudades que tenho desses dias,

Das noites de luar, do vale saudoso,

À sombra do palmar!

Oh! meu Deus, para que me embelecias

Um instante, se logo pesaroso

Devíeis me tornar?

E não ressurgirá, meu Deus, tão pura

Na noite do mistério entre os perfumes

Ao leito virginal?

E eu que de esperar pela ventura

As fibras rebentei, só de ciúmes,

Dormirei só no val?...

Oh! é triste, depois de haver sonhado

O anjo da inocência, agora em ermo,

Gemer e lacrimar

E o beijo de fogo suspirado

Na ardentia do amor – sem ver o termo

Sentir-se evaporar!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II

Contudo, meu Senhor, a crera ainda,

Se inspirada por vós viesse agora

Falar-me aqui baixinho,

Dizer-me que chorou a vida infinda

Ausente do amor que me devora,

Na voz de algum anjinho!

Eu crera-lhe, meu Deus, que ainda sinto

O peito estremecer, saudoso dela

Ao sonho vaporoso, oh!

Filha da paixão, nesse recinto

Acorda a meu gemido, e vem, oh! bela

Ao seio esperançoso!

Das mágoas meu amor bem deslembrado

Infrene se erguerá – das graças tuas

Cioso da ventura.

Oh! anjo dos meus sonhos – requebrado

O peito de paixão – as crenças nuas –

Crerei na doce jura!

Aberto o coração no fundo intenso

Alegre acolherei os teus suspiros

E vozes divinais;

Nossa alma será gêmea – amor imenso

Eis o Deus lá, da crença, nos retiros

Ao vale dos laranjais!

Aos serenos da noite, à luz da lua,

A brisa por conviva – o céu por manto,

Amemos sem receio;

E quando eu te pressinta seminua,

O peito delirando e solto o pranto,

Amor terá meu seio!...

 

 

 

 

Lágrimas de sangue

Só tu, só tu podias o meu peito

Fartar de imenso amor e luz infinda

E uma saudade calma;

Ao sol de tua fé doirar meu leito

E de fulgores inundar ainda

A aurora na minha alma.

A. de Azevedo

 

A vida é um sepulcro em que se dorme,

O peito palpitando em crença assaz,

Pálida visão de aspecto informe,

Em plena escuridão, com ar mordaz!

Ou nota esmorecida além da brisa

Ao ar evaporada em seu voar,

Da queixa da mulher que triste pisa

De espinhos na vereda a lacrimar!

Oh! vida em que consiste o teu encanto;

Em vão hei procurado em vão, meu Deus,

E como o cego dardejando em pranto

Vivo e pálidos são os sonhos meus.

Pálidos sim, que a mocidade inteira

Hei consumido em provações e dores;

Se alguma aragem me passou fagueira

Foi como um sonho de infantis ardores.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

 

 

 

 

 

Meu Deus! meu coração delira agora,

Ao menos uma luz me dá pra crer;

Se na vida uma sede me devora

É só por numa crença adormecer!

Sim, eu sinto, meu Deus, necessidade

De uma luz, de um mistério – o quer que seja...

Na vida que me mostre a Divindade,

Nas imagens do sonho em que a reveja.

Perdoa, meu Senhor, a impiedade,

O triste sonhador delira apenas!

Se blasfema do peito a ansiedade

Senhor, é que murcham as açucenas!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Perdão, meu Deus, perdão, que desfalece

A mente no lidar sem auferir,

Oh! meu Deus, na visão que te embelece

Quero amar tua lira ao seu ferir.

E nos sons uma voz bem afinada

Quero ouvir que de amor minh’alma acale,

Quero ouvir e voar do pó, do nada,

A glória com algum anjo que me fale...

Um anjo como eu penso, uma inocência

Etérea como tu, de ti provinda,

Que traga em seu candor a pura essência

Dos sonhos do poeta a imagem linda.

E fale, e que me diga os seus segredos

Nessa voz que de amor sensibiliza...

Longe os véus da mentira em sonhos ledos,

Num leito que ao luar se diviniza.

 

Um anjo, meu Senhor, como eu sonhara,

De formas divinais entre odaliscas,

Um riso entreabrindo que eu julgara

Por lágrimas do céu gentis faíscas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas nunca a fada estúpida da terra,

A virgem da visão contraditória,

Que o seio é como o gelo e nada encerra

A mente no viver errando inglória!

Não, jamais, eu não poderia amá-la,

Fora abrir exceção no meu amor,

Que dorme em palidez e de sonhá-la

Já sente os calafrios de uma dor.

Oh! meu Deus, sempre é tempo de pensar-se

Na vida que se leva, e de conter-se

Os vôos da paixão – Senhor, amar-se,

A ti, por quem eu vi jamais sofrer-se.

Mas nunca a fada estéril de ventura,

A virgem sem amor, visão sombria...

Oh! meu Deus, dá-me um anjo dessa altura

Embora eu vá beijá-lo em noite fria!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Soneto

 

 

Murmuram contra mim, por que distante,

Passo os dias do Príncipe * esquecido!

Mas não pensam no caso – aborrecido

Levo aqui nesta rua um breve instante.

Se ao menos eu tivesse alguma amante,

De uns amores vivesse convencido!...

Mas se moças nem há! Embelecido

Como eu posso viver aqui constante!?

Surjam moças na rua, a quem se adore,

Que não fujam da gente quando passa,

Com quem sonhe-se à noite e se namore;

E depois vê-lo-ão – que sou da roça

Que não corta caminho embora escore...

Não irei namorar mais lá na Praça!

 

* Rua do Príncipe, em Campo-Verde

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Horas de tédio

Soneto

 

Sou um doido, meu Deus! na minha vida

Um momento sequer eu não pensei;

Dei-me inteiro às ficções – somente errei

Pela estrada sem luz e tão batida.

Peregrino, Senhor, na insana lida

A vestal de meus sonhos pretendida,

Meus amores na crápula afoguei

Que este mundo senti de fé mentida!

Morro agora de splen – no meu retiro

Sem menores alívios a meu mal.

Nem do peito exalar um só suspiro.

Levo os dias blasé sem dar sinal

De que cismo sequer – por vós prefiro

Numa campa dormir que neste val!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lágrimas aflitas

 

 

Tão moço! é pena, que em meu ser cavassem

Sulcos as dores de um fatal viver,

Que numa idade florescente e bela,

Vítima eu fosse de infernal sofrer.

Da vida ainda na manhã de encantos

D’auras impuras se incensou meu céu,

Ah! da inocência o talismã divino,

Orvalho insano enodoa meu véu.

Correi, meus prantos! No sorrir, que afeto,

Oh! ninguém sabe de minh’alma a cor;

Talvez tivessem compaixão do moço,

Que de desgostos se abismou na dor!

Correi, saudosos, pela face abaixo

Na idade rica de ilusões – correi

Lavai as mágoas do infeliz, que geme,

Em treva agora dos clarões, que amei.

Dizem que o estudo nos desterra d’alma

As luzes turvas de um viver pior,

Mas qual! busquei-o e se respiro ainda,

É que outro alívio não achei melhor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A mocidade na sua asa de ouro

Adeja em mundos cuja luz é Deus,

E na pujança do ideal soberbo

Aspira muito nos delírios seus.

Sou como o cisne, que perdeu seu pouso,

Que ao sol do estio agonizou – morreu...

Ah! só me falta descambar gelado

Na campa fria – que infeliz sou eu!

Padeço males que ninguém padece,

Da carne e d’alma meu sofrer provém;

Tão moço ainda, no florir dos anos,

Nem sinto amores, nem prazer também!

Correi, meus prantos! se eu morrer mancebo,

Sofrendo as dores do viver sem par...

Oh! mundo ingrato – minha mãe somente,

Deixai-a muda sobre mim chorar.

Se só nas dores exauri minh’alma,

Se nunca pude no viver gozar,

Rompendo as névoas da poeira infame,

Talvez eu possa algum alívio achar.

 

 

 

Quando eu morrer

 

 

Um gemido por mim ninguém desprenda;

Todos voltem-me o rosto e me detestem:

Nem um círio se acenda no meu leito!...

Essas pompas de enterro não me prestem.

Quando eu morrer, nem meus irmãos me chorem,

Nem quero lutos de ninguém por mim;

Nem mesmo o bronze dê sinal à morte,

Nem quero a carro ser levado assim!...

Nem venham loucas, importunas vozes

Ao pé do leito em que morri – não venham;

Nem quero o pranto de ninguém – do triste

Leves saudades por amor não tenham!

Não venham bruscas, idiotas velhas

Meu sono eterno perturbar cantando;

Deixem minh’alma descansar ao menos

Nessa hora triste com Deus sonhando!

Nem quero cantos, nem um ai da virgem,

Que nos meus sonhos adorei – fingida!

Vedem-lhe ver-me a palidez do rosto

E o manto escuro que me embolsa a vida!

Meus bons amigos na tristeza, poucos,

De quem da vida não gozou instante,

Não sintam morte, que chegou bem tarde,

Nem quero nênia, que algum deles cante!

 

 

 

 

 

Nem quero padres a entoar – memento

Nessa hora extrema que eu deixar meu leito,

Nem quero manto, nem sequer sudário,

Nem catacumba, pois também rejeito:

Em negro esquife conduzido a ombros,

Na terra fria dum regato à beira,

Meu corpo mole em solidão descanse,

Depois o cubram de feral poeira!

Só quero e peço minha mãe que chore

Do triste filho, que a lembrança afague!

Que a campa à noite em solidão visite,

De pranto amargo as inscrições alague!

Só peço e quero minha mãe que venha

Às noites claras sombrear-me a lousa,

Encher de flores, de saudade o leito,

Em que meu corpo em palidez repousa!

Oh! negras sombras de invernosas noites,

Astros e luzes que no céu lampejam!

Velai meu sono, protegei-me a campa,

Vedai-a aos olhos, que os de mãe não sejam!

E quando a lua no horizonte erguer-se,

Banhando as trevas dos clarões tristonhos;

Mudos ciprestes, meu amor na morte,

Contai a ela que eu morri dos sonhos!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

18 de março

 

 

I

 

No dia dos meus anos soa o bronze,

Convidando os fiéis da Redenção;

Dir-se-ia que o mundo traja luto

Pois é hoje o domingo da Paixão.

Vestem névoas os céus, derramam prantos

Sobre a face da terra as nuvens d’água,

Creio até que apagou-se eternamente

Desta abóbada a luz de Deus a mágoa.

Neste dia em que a Igreja comemora

Os mistérios da vida de Jesus

Dos meus anos rolados no passado

Quero os sonhos depor ao pé da Cruz.

Quero as flores erguer da treva insana;

De meu pranto banhá-las de saudade,

Apertá-las ao seio inda um momento

Nesta quadra da vida em soledade.

E beijá-las de amor arrependido,

Como o Judas fiel da tradição,

Comprimi-las ao peito... e no delírio

Evocá-las à luz da inspiração:

Como um tênue conforto pra minh’alma,

Exaurida nos erros deste mundo,

Nos desvios da vida abandonada,

Convulsando sem luz ao val imundo.

 

 

 

II

 

 

Vivi a vida inglória e dolorosa

Do perdido da fé num mundo ateu,

Neste vale em que a sorte abandonou-me,

Vivi a vida errante do Judeu.

Nos amores não tive uma ventura,

Um só gozo na vida não fruí,

Segregado de tudo como um ímpio

No silêncio da dor! ah! só vivi.

Doidejei pelas sombras como um louco,

Pelas trevas da insânia me lancei,

Ébrio em meio do trilho da volúpia

O meu último sonho profanei.

Fui um doido, dirão, de assim deixar-me

Pelos gozos do vício seduzir,

Mas Deus sabe se em meio arrependi-me,

Se não tive saudades de um porvir:

Se das noites malditas do delírio

Pela aurora do sol me envergonhei,

E não tive desejos de voltar-me

Ao repouso da vida que imolei:

Se dos beijos mentidos da perdida

Eu não tive palpites de cuspir

Os ressaibos do visgo tão nojento

De meus lábios, que o fel fez poluir.

 

III

 

 

Oh! Miséria, meu Deus, eu fui um louco,

Não mereço nem valho o teu perdão,

Pois deixei que nos seios da perdida,

Se esfolhasse o rosal do coração.

 

 

 

Maldita a minha estrela! Ah! sim, maldita!

Que misérias só deu-me no viver...

Se na vida não tive uma ventura,

Ninguém chore por mim, quando eu morrer.

Ninguém chore por mim pois fui um triste

Que do gozo nos ermos só vivi,

Que não soube na vida o que era belo,

Que as venturas reais não conheci.

Ninguém chore por mim, Deus me perdoe,

Pois as crenças do céu te olvidei,

Fui um doido perdido nas florestas

Das falsárias venturas que sonhei.

Conduzam-me o cadáver macilento

Entre os hinos da louca viração,

E distante da vida, entre as montanhas

Dêem-me cova em secreta solidão.

Quero à sombra da cruz, que simboliza

O descanso de uma alma, que viveu,

Esperar do juízo o dia de águas,

Para as nódoas lavar do manto meu.

 

IV

 

 

Tudo é luto no dia dos meus anos!

Já nem soa do templo o campanário!

Que tristeza, meu Deus, parece o mundo

Uma sala de aspecto funerário!

O céu, como o da noite, é negro e triste,

O bulício do povo é surdo e lento

Sobre os corpos o ar pesa bisonho,

Como às fibras do peito um sofrimento.

Ah! meus anos risonhos da inocência,

Ah! meus dias ditosos do passado...

E pesar não é só tê-los perdido,

Mas tão moço de haver-me profanado.

 

Minhas flores adeus, auroras minhas,

Meus primeiros florões da juventude,

Como a folha, mirrada pelos vales,

Hoje rolo da vida sem virtude.

Minhas flores adeus hoje no dia

Dos meus anos inglórios vos envio;

Ah! possa o canto do mancebo exausto,

A luz trazer-vos no infernal desvio.

Senhor, meu Deus, ah! nesta quadra um gozo,

Uma centelha do céu que me ilumine,

Prometei-me de amar no novo trilho,

De vedar que Satã me não fulmine!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que me dói!

 

 

Não me dói ver que o mundo em seus delírios

Rasga a veste das glórias alcançadas

Pelo esforço dos cancros de um passado

Nesse escárnio de crenças refalsadas!

Não me dói ver que um grande personagem

Bate a porta ao plebeu que lhe procura;

São misérias da vida – infâmias dela.

Que eu, de mim, não lhes presto assinatura!

Não me dói ver um nobre erguido ao sólio

De um palácio soberbo, em ócio eterno,

Quando aos pobres albergues agoniza

Tanta gente, coitada, em vivo inferno!

Não me dói essa pompa que se ostenta

Quando humilde por ela eu vou passando,

Nem das festas do baile embriagante

Os prazeres que os outros vão logrando!

O que dói na minh’alma, o que me punge

Com mais força, de dor mais veemente;

É ver como se calca à luz humana,

O princípio mais santo infamemente!

É ver como em um dia o mesmo peito,

Que, inda há pouco, por nós de amor pulsava,

Se estremece de um sonho a nós estranho,

E por outrem sentir o que nos dava!....

Oh! a dor é tão funda, estraga tanto,

Que minh’alma, descrida, expira agora;

E, já prestes a lançar-se ao precipício

Da paixão que sentiu, maldiz a hora!

Eu te escarro na face, amor infame,

Dessas virgens sem fé – nuas de glórias!

Ao passado um suspiro – um pranto agora,

Ao porvir... legarei minhas memórias!...

 

 

 

 

 

 

 

 

W***

 

Olha-me, olha-me, teu olhar é raio,

Que o sol despede e vivifica a planta;

Eu sou na terra da giesta a espécie,

Tu és o raio que o do sol suplanta.

Olha-me, olha-me, teu olhar é íris

No céu da tarde, que promete inverno,

Eu sou a relva do verão tostada,

Tu és o íris do meu céu terno.

Olha-me sempre; teu olhar é vida,

E eu que à míngua desse bem definho

Quero no leito do sofrer mais triste

Sorvê-la embora num viver de espinhos.

Mas, ah! não olhes para mim mais nunca

Como esta noite no ferver da dança;

Oh! nem tu sabes o desejo infame

Que na minh’alma fervorou criança!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Verdadeiras saudades

 

 

Oh! quando eu cismo na visão da morte,

E lento o peito se estremece em dor,

O que me vence e me perturba em sonho,

É sede, é gozo de indolente amor.

Entre as saudades que da vida eu sinto,

Uma somente me enlanguece os seios;

E é de um beijo numa fronte pura,

Ao doce anelo de febris anseios...

E de um sorriso entreaberto aos lábios

Duma donzela adormecida ao leito,

Entre os suspiros de sua alma ardente,

Ao cheiro ativo do florir do peito!

E de uma frase enternecida e doce,

Ao mesmo tempo calorosa e meiga;

E de uns quereres langorosos, brandos,

Nessa existência que semelha a vaga.

E de uns olhares lacrimosos, quentes,

Cheios de vida e de ternura extrema;

E de uma lida que encandece a mente,

E grava aos sonhos um feliz emblema.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E de um delírio que se esvai num riso

Entre os mistérios da vestal sublime,

Quando em silêncio lá no céu a lua

O doce afeto da paixão exprime.

E de umas queixas n’amoroso pranto,

– A palma aberta à viração dos beijos,

E de um delíquio na cessão de gozo,

E nos palores de febris desejos!...

E de um lascivo e extenuante abraço,

Entre os ardores do prazer mais forte;

Que nos acessos nos estreita a vida,

E nos dá longo um paladar de morte!...

Assim, oh! gente, acontecendo eu morra,

Da vida ingrata sem fruir o belo,

Podem sem susto assegurar ao mundo

Que fui um triste e só gozei farelo!

Mas um amigo piedoso escreva

Este epitáfio nessa pedra escura:

– Ardeu na chama da paixão mais viva

Em longos sonhos de volúpia pura!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reflexões ao luar

 

 

Escuta, amigo!

 

É um dormir monótono o da virgem,

Ave pousada num deserto ingrato;

Nem só não goza do palor da lua,

Como não sonha esse prazer tão grato!...

Nós ao menos gozamos nas imagens,

Conversamos no sonho com alguma alma;

E, se o sonho prolonga-se algum tempo,

Doudejamos de amor por uma palma!

É um dormir monótono o da virgem!

Não lhe creias a glória imaginária;

Ela dorme, coitada, indiferente,

Como a rosa na campa solitária!

Não lhe creias a glória imaginária,

Que ela dorme nos ermos da ventura;

Se lhe passa na mente um sonho, é frio,

Como o sopro da brisa em noite escura!

Não há dormir na vida além daquele

Que no leito da noite vaporosa,

Como um véu transparente se revela

Numa nuvem da frente cor de rosa!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E que sonho há tão doce como o d’alma,

Que se perde de amor pelas florestas

Dos desejos febris voluptuosos,

E descansa do gozo nas giestas?!

É um dormir monótono o da virgem,

Se não goza das flores desta vida;

Não lhes creias a glória imaginária,

Se ela dorme nas sombras envolvida.

Não pode ser feliz a flor mais bela

No retiro do mundo dos sonhares,

Onde um ai no mistério dos amores

Tem doçuras como o fresco dos palmares.

É um dormir monótono o da virgem!

Certo o não quisera assim no mundo;

Preferira velar eternamente,

Mas na cisma do gozo mais profundo!

No entanto eu sei amigo, que ela vive

Em tão doce repouso de alegria!...

A razão não é nó górdio e tão difícil:

É que ela nem bem sabe a luz do dia!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Providência

 

 

Quando às horas da tarde eu te contemplo

Recostada sozinha na janela,

Como um anjo, do mundo escarnecendo

Num cismar de donzela;

Eu bendigo essa altura onde não posso,

Num momento de febre e de loucura,

Ir de rojo cumprir da natureza

A sina tão escura!

Não te posso encarar, sinto queimar-me

Teu olhar de criança inda inocente,

E minh’alma inflamar-se desse brilho

Sublime refulgente.

Não me volvas portanto assim teus olhos,

Que me perdem de todo o crer divino,

E nos fogos da febre de um desejo,

Me aniquilam sem tino!

 

 

 

Se eu às vezes te fujo

Tenho medo de ti!

Varella

 

Se eu às vezes te fujo e se me esquivo

De mirar-me na luz de teus olhares,

Tenho medo que o brilho me embranqueça,

E da insânia eu não vá rolar nos mares!

Tenho medo da luz que eles despedem!

São teus olhos, criança, tão formosos,

Brilham tanto de amor e de volúpia,

Que eu só sinto desejos tenebrosos!

Apavoram-me as sombras de teu seio,

Vem-me à idéia a visão de um novo mundo;

E dos gelos do medo eu me arrefeço,

Se de um sonho de morte ou mal profundo!

Tenho medo de ti, porque minh’alma,

Como as flores da noite é debilzinha;

E teu ser, que me encanta, é sol ardente

Cujo fogo tosteia a pobrezinha!

Tenho medo de ti, mas esse medo

Traz consigo doçuras inefáveis;

É meu medo um mistério, que no fundo

Guarda saibos de amor inesgotáveis.

Dos perfumes do céu um mais mimoso

Embalsama tua alma inocentinha;

Quando falas, mulher, que ele se exala

Nos vapores se afoga a estrela minha.

Tenho medo que a luz dos meus desejos

Não se inflame dos hálitos cheirosos,

E se agitem das auras doudejantes

Meus sonhares de gozo esperançosos!

 

 

 

 

 

 

Mistérios

 

 

Aquela moça vizinha

Se me sonhasse os desejos!...

Nas horas longas da noite

Se me fadasse os ensejos!...

Se quando toca o piano,

Às onze horas, sozinha,

Me desse entrada na sala,

A mão segura na minha!...

O que seria da louca?

Dizei-o, oh! luzes divinas!

Ao palpitar de seu peito,

E no corar das boninas!

O que seria das rosas, –

Dos lírios – mistérios d’alma?

Não fora um sopro de fogo

Abrir-lhe os ramos da palma?...

E o que seria da virgem?

Dizei-o, Deusa dos gozos!

Depois do ai amoroso,

Os olhos inda chorosos!...

 

Não se sentira perdida

Na paz inteira do peito?

Não se prostrara pedindo

Reparação ao efeito?...

Só esta idéia me basta;

Morreram já meus desejos!

Nas horas longas da noite

Quero, mais outros ensejos?...

 

 

 

 

 

Impressões da noite

(Nos coelhos)

 

I

 

 

Casimiro, o gênio, é doce, como as queixas

Da brisa na amplidão dos mares ermos:

Ternura os seus gemidos só respiram,

Sua alma é a saudade que o seguia.

As vezes na ventura se afogava,

Os lírios da donzela respirando;

E, como a avezinha que pranteia

O canto enternecido à beira-rio,

As gramas cautelosa debicando;

E nada, ou colhe pouco, ao lar voando,

O sonho vaporoso transportava,

Os dias de inocência recordando,

– Aberto o coração pra Deus somente,

Os hinos do seu ninho modulando,

O peito palpitou na vida;

Os sonhos na esperança repousaram,

Mas nunca o ideal realizou-se!

As cordas que movia ao sol fervente

Um dia do martírio se quebraram,

E os elos do amor se enfraqueceram.

A campa os seus mistérios guarda agora

À sombra de uma cruz e de um cipreste!

 

 

 

 

 

II

 

 

O Dias, elevado ao céu da Glória,

Os anos, na tristeza, abandonou-os.

O amor foi seu batel nos mares turvos

Da vida ao palpitar das suas crenças.

 

 

 

 

O fado o perseguia a passos dobres

E teve de chorar um dia ao meio...

O anjo da ventura que sonhara,

As vestes da pureza desprezando.

Os trapos preferiu da negra infâmia,

E foi-se repousar no leito impuro...

As glórias entretanto lhe ficaram,

Mas como? desbotadas sobre o tempo

Ingrato, e se não hoje que mais longe,

Em forma de esqueleto, ao mar sombrio,

Nas ondas passarão sem mais amparo!...

E viva-se na terra! Acaso a morte,

Essa donzela que se casa à vida,

Ao todo o que de feio em si revela?...

Ao menos ela abraça a vida ao leito,

Aos beijos regelados, mas não fere,

Nem crava em nosso peito o ferro ingrato.

E lento da mulher a quem nos damos,

Vendendo quanto é nosso – os beijos dela!

E dorme agora aos mares! – foi tão grande,

Que a terra, os seus limites demarcando,

Concebeu ser-lhe impossível comportá-lo!

A Glória, o Paraíso – o mundo inteiro,

As luvas entre si lançando aos vácuos,

Fogosos de ciúmes disputavam

O eterno santuário dos seus restos!...

No entanto o mar bem quedo se aguardava;

E como o Senhor lhe destinasse.

Em forte agitação transpondo os ares,

Ao antro de seu peito rebocou-o!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

III

 

 

Eu louvo-te, Azevedo, essa linguagem

Ungida de volúpia a cada frase –

Amando, eras sensível como a folha

Batida por mais leve de uma brisa.

 

 

 

 

E quando à luz da lua os belos sonhos

D’amores ensaiavas, a tua alma

Ardente refervia ao mar de sangue

Das fibras da lascívia palpitante –

Teu pólo de esperanças neste mundo!

Tu, sim, alma de fogo, o val da vida

Soubeste compreender e deste nome

A tudo, cada qual mais acertado;

Tu, sim, alma de fogo, amaste um dia,

E fosse o teu amor talvez um crime,

O certo é que soubeste o teu segredo

Ao mundo recolher mordendo as chamas

Pálidas que o teu peito incendiavam,

Nas noites de vigília e no silêncio

Em vinho os dissabores afogando,

E frouxos no cigarro ou no cachimbo

Ao fumo se exalavam por magia.

Tu sim, homem de luz, aos vinte anos

Soubeste a natureza a palmo e passo,

E deste preleções ao mundo inteiro!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

IV

 

Tateia no meu leito a sombra incerta

Da mulher que na vida outrora amava,

Aos tombos pelos móveis, que são poucos:

Descuido a poesia, a luz apago,

Encerro numa pasta o meu produto,

E vou deitar-me quedo e sempre em cismas!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

 

 

 

 

Não foi um sonho, o coração bateu-me,

E quase choro de saudades dela; –

A noite parecia abrir-me os seios

Amareladas, meiga e suspirosa,

E doce convidar-me ao seu banquete;

Mas tudo a desventura do meu sonho

Em ares de tristeza transformava;

E mudo aflito, abandonei-me aos ermos

Do meu segredo, a suspirar saudoso.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Oh! quantas vezes... meu amor palpita,

A voz me falta, o coração me treme,

A mente inflama-se e baqueia fria...

Perdão! meu Deus! a desventura às vezes,

Batendo ao templo de sonhar tranquilo,

As portas frágeis no fervor derruba,

E lança ao antro a confusão maldita,

As puras crenças divinais matando...

E vende a arte do calor da vida

Ao sopro impuro da falaz essência,

Com que perfuma a atmosfera humana,

E move os mares tantas naus sem leme...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

VI

 

Oh! quantas vezes, pálida nas noites

De luar junto ao lago ou da floresta,

Era comigo ao soluçar da brisa!

E quando o coração tremia ao peito,

Do beijo dado a medo ao ar da noite,

A vida a toda vela deslizou-se,

As ondas dos sonhares afrontando...

Eu e ela num só leito adormecidos!

Oh! quantas vezes de lá viu a lua

Nossos amores suspirosa e fria

Ao meio já pendendo ao seu destino,

E doce o talismã que os envolvia,

Abrindo inda mais viva e mais saudosa,

Ardente quis romper de inveja louca!

 

VII

 

 

Roçou-nos a ventura alguns instantes...

Contudo esse passado, essa lembrança

Acordam no meu peito endoidecidos,

Fazendo o meu amor penar de morte!

E quando a horas longas me concentro

Ao mundo macilento da saudade,

Entregue aos pensamentos – ao delírio,

Um vago, mas dorido pesadelo

Os sonhos me sufoca e nem ao menos

Concebo a me sorrir uma esperança!

Oh! finde-se a miséria! exclamo aflito,

E deito-me a chorar como idiota!

 

VIII

 

 

Agora o meu amor hei dado ao vinho

Ao fumo do cachimbo que se eleva

Ao teto do meu leito, sonolento

Os ares mortuários serpeando –

Embalde uma lembrança, uma saudade

O morno meu silêncio, de minh’alma

Em nuvens passageiras de disfarçam –

O sopro das angústias lhes agito;

E, como o despertar de uma existência,

Ao leito momentâneo da ventura,

Eu venço-lhes a sombra e vou passando

Em cismas do amor a que votei-me!

 

IX

Adoro a meu Senhor – a todo instante

Os sacros seus mistérios são comigo,

E temo os seus decretos – fujo ao baile,

À festa, e quase nunca à noite saio;

Um dia que me surja esse desejo,

Os passos encaminho é só pra missa,

À Penha, em S. José, se não no Carmo,

Aonde só se escuta voz de frades –

E frades... frades gregos e troianos!

 

X

 

 

Namoro alguma vez, mas só Deus sabe

O medo com que faço os meus namoros!...

Não sabem nunca as moças! Houve um tempo...

Um tempo, sempre um tempo!...Veio a noite.

Acaso se me chamam, não descuido,

E parto sem demora... ali defronte

Um doce já me deram por um beijo;

E tantos quantos queiram por tal preço,

E todo o meu amor darei sem pena!

A ama que já foi da nossa casa...

Alerta... este diabo dos meus sonhos

Perde-me a cabeça e faz-me doido!

O doce de que gosto nesta idade,

É desse que nos lábios se cozinha

E dá-se na fervura o ponto a esmo,

Ou antes do queimado por capricho!

E quando alguma vez me dão de outro

Engulo por dever, mas não que goste!...

E sonho-me um sultão nos meus Estados,

E, crendo o grande mundo o meu serralho,

Encaro para ele indiferente –

Me esqueço do passado ou cuspo nele!...

O velho meu amigo a cortesia

Ao toque de Morfeu saudoso faz-me...

 

 

 


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