Poesias Publicadas em 1870
(na mesma ordem da edição de 1870)
(Notas de A. Tito Filho na Edição de 1973)
GRANDEZA DE DEUS
Que cena majestosa se me of’rece (1)
Onde quer que um olhar pasmoso fite!
Que notas, que harmonia deleitável
Respira a natureza que me cerca!
Aqui manso ribeiro o prado corta,
Ali mais apressado o rio rola,
Mais além ronca o mar em fúria aceso!
Aqui a leve brisa me bafeja,
E após ela o tufão me açoita a fronte!
Ali pequeno arbusto reverdece,
Mais além mira o céu d’árvore a cúpula!
A roseira que ostenta donairosa (2)
A flor que faz inveja às outras flores,
Que os homens enamora com seus mimos,
Que os ares embalsama com perfumes,
Das murmurantes auras embalada,
Aqui parece rir co’a (3) natureza!
Ali mil outras flores se desfazem
Os campos matizando, em doce cheiro!
Sobre altivas mangueiras gorjeando,
Ou sobre altas palmeiras buliçosas
Estão mil aves ternas à porfia,
Enquanto roxa luz difunde a aurora!
O sol já mostra o disco no horizonte,
E a metade vingando do seu curso,
Em pino cresta o orbe com seus raios!
Já descai (4)no caminho do ocidente
E em breve além do mar se envolve em trevas!
O mar converte em fogo as águas suas,
As nuvens doiro e prata se agaloam,
Os favônios expiram nos palmares,
E o homem nesse instante ao céu se eleva!
Não tarda os horizontes incendidos
Nova forma tomarem: uma estrela
Seus trêmulos fulgores já reflete
Sobre a rugosa face do oceano,
Em seguida mais outras e outras muitas!
A lua que surgiu de sob as águas,
Ou que o rosto mostrou d’além dos montes,
No espaço se equilibra, e sobre a terra
Aos viventes derrama os seus favores!
Óh ! quanta poesia ! óh ! quanto assombro
Onde quer que um olhar pasmoso fite!
O homem que a virtude traz no peito,
Mais a chama cristã no peito ateia!
Ao ímpio que o remorso traz na mente,
Mais a mente o remorso lhe atribula!
O blasfemo que, os céus escarnecendo,
Soltou vozes, que aos céus injuriaram,
Qual o cão que raivoso ladra à lua,
E que alfim (5) já cansado inútil pára
O sacrílego peito comprimindo,
De blasfemar inútil também cessa.
Que pode um grão de areia movediça
Contra a rocha em que o mar se quebra iroso?
Que pode pobre argila sobre argila
Contra Deus que sustenta infindos mundos?
Que pode o homem frágil pequenino
Contra Deus, que o gerou do pó, do nada?
Senhor! o teu poder é grande, imenso !
Tudo quanto é sublime a ti se deve.
Óh minha doce Mãe! – quem no teu peito
Depositou afetos tão sagrados?
Virgem meiga e gentil, que o mundo adora,
Quem te fez tão amável? Esse riso,
Que nos prende e fascina, encanta, arrouba,
Quem t’o (6) depositou nos róseos lábios?
Aves, que gorjeais na umbrosa selva,
A quem deveis o deleitoso canto?
Pois quem tais maravilhas fez no mundo?
Foi Deus, que às flores também deu aroma,
Macio e fresco ciciar às brisas,
Sibilos ao tufão, sussurro às folhas,
Brandura à fonte, correnteza ao rio;
Foi Deus que fez os mares procelosos,
Que lhes deu ondas, escarcéus e vagas,
Que às campinas deu relvas e matizes,
Ao sol fulgores, às estrelas brilho,
E à lua doce luz que a mente aplaca;
Foi Deus que deu um pugilo informe, inerte,
Fez o homem moral à imagem sua!
Óh ! quem há que se iguale ao Deus supremo,
Se ele é só o supremo sobre tudo?
Quem há que o Criador co’a criatura
Compare, se de Deus seu ser dimana?
Senhor ! – o teu poder é grande, imenso!
O mar no-lo (7) revela em seus gemidos,
A terra nos seus verdes atavios,
A flor no seu perfume, o sol nas cores,
As aves no seu canto deleitável,
O céu no seu azul que se marcheta
De milhões de prodígios luminosos,
Quando a noite se desdobra sobre a terra
Seu manto de mistério a todos grato!
Meu Deus ! Senhor meu Deus! quanto és sublime!
Ao teu gesto potente a fronte curvam
O grande, o rico, o pobre, o sábio, o néscio!
O mar que enfurecido em flor rebenta,
O bravo furacão que os bosques prostra,
A fera que rugindo atroa os ares,
O raio que resvala pelo espaço,
O trovão que estrondeia retumbando,
A nuvem que desata em catadupas
E o corisco veloz que caracola,
Tudo, tudo a teus pés, ó Deus se humilha,
Tudo, tudo a teu nome um hino entoa!
E o homem que a razão fez neste mundo,
Depois do teu poder, o mais potente;
O homem que possui um’alma eterna,
Que outra vida lhe of’rece além da campa,
Dos brutos se rebaixa à classe ignóbil,
E as leis posterga ao criador benigno!
..............................................................
Porém, Senhor, perdão p’ro (8) homem frágil,
Que o fizeste d’argila; atende ao mísero:
Quando seus lábios trêmulos soltarem
O suspiro final, que o mundo exige;
Quando seus olhos turvos se cobrirem
Co’o vítreo manto, regelado, eterno;
Quando apagar-se (9) do seu peito a flama;
Quando o frio eternal gelá-lo todo;
Quando a morte, Senhor, tirar-lhe a vida
Nesse céu de venturas, - misterioso –
Dá-lhe asilo, Senhor, lhe cede a glória.
Comentários
(1) of’rece. Oferece. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação.
(2) Donairosa. Derivado de donaire. É o latim donarium, donairum, donairo. A forma donaire teve influência espanhola. A gente pronuncia donaire tal como se escreve.
(3) C’oa. Em lugar de com a. Necessidade de contagem de sílabas poéticas. Em com a há duas sílabas poéticas reduzidas a uma.
(4) Descai. Verbo descair: deixar prender ou cair.
(5) Alfim. Hoje pouco usado. O mesmo que enfim, finalmente.
(6) To. Combinação dos pronomes te e o. Este o está no lugar de riso. Quem depositou o riso (o) nos lábios teus? (te) Te aqui tem função de posse.
(7) No-lo. Combinação dos pronomes nos e o. Nesta combinação o nos perde o s e o pronome o toma a velha forma lo. Este lo na poesia está no lugar de poder: no-lo revela.
(8) P’ro. Para o. Necessidade de metrificação.
(9) Quando apagar-se. O verbo está no futuro do subjuntivo. Deveria ser quando se apagar. No tempo em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos.
CRATEÚS (1)
Lindo sertão meus amores,
Crateús, onde nasci, (2)
Que saudade, que rigores,
Sofre meu peito por ti!
São amargos dissabores
Que em funda taça bebi!
Que saudade, ó meus amores,
Crateús, onde nasci!
Esta incessante saudade
Me espedaça o coração!
Eu gemo na soledade (3)
Esses tempos que lá vão...
Crateús, minha beldade,
Meu lindo, ameno sertão,
Que dura, fera saudade
Me atormenta o coração
Que vezes, em pé, na praia,
Me lembro dos mimos teus!
Dessas c’roas (4), onde ensaia
A rola (5) os gemidos seus!
Onde a lua se desmaia
Alvacenta – lá dos céus!
Ó quantas vezes na praia
Em cismo nos mimos teus
As ondas que vêm chorosas
Na lisa praia morrer,
Lembram-me as auras queixosas
Nos teus vales a gemer!
Lembram-me as moitas verdosas,
Ondeando-se a volver!
Ondas, não vinde chorosas
Na lisa praia morrer!
Que dias esses d’outr’ora
Que o tempo ingrato levou!
Do meu lar eu via a aurora
Que sorrindo despontou!
O galo co’a voz canora,
Cantava : có-córô-cô!
Ai ! esses dias d’outr’ora
O tempo ingrato levou!
Hoje meu peito não goza
A dita que já gozou!
Hoje minh’alma saudosa
Chora o tempo que passou!
Ó sorte desventurosa
Que meus prazeres turvou!
Infeliz de quem não goza
Venturas que já gozou!
Crateús, que dor tão viva!
Ai tempos que já lá vão!
Ao teu nome a dor se aviva
Que sente meu coração!
Assim sofre a sensitiva (6)
Ao toque de incauta mão!
Crateús, que dor tão viva
Ai eras (7) que já lá vão !
Se os sinos tocam meu pranto
Corre, banha o rosto meu!
Seus dobres lembram-me tanto
Os dobres do sino teu!
Eis do sol, o roxo manto,
No ocaso além – se escondeu!
Trocam trindades... (8) meu pranto
Corre, banha o rosto meu!
Não posso ver uma bela,
Não posso, lindo sertão;
Logo me lembro daquela...
Que vive em meu coração.
Crateús, onde está ela,
Dá-lhe lembranças, que eu não...
Não posso ver uma bela,
Não posso lindo sertão!
Dá-lhe lembranças... e escuta
Se a bela por mim gemeu...
Se gemer... a brisa arguta
Me traga o gemido seu.
Ah ! se minh’alma o desfruta ...
Crateús se o gozo eu...
Quem dera ! – Sertão, escuta ...
Escuta se ela gemeu ! ...
E adeus, terra, onde a alvorada
Primeira p’ra mim raiou!
Onde a primeira morada
Meu pai querido assentou!
Onde o galo, à madrugada,
Cantando, me despertou!
Onde, à primeira alvorada,
Ouvi-lhe o có-rócô-cô!
Comentários
1) Crateús. Hoje município e cidade do Ceará. Pertenceu ao Piauí e constituía os municípios piauienses de Independência e Príncipe Imperial.
2) José Coriolano de Sousa Lima nasceu na fazenda Boavista, do termo da antiga vila de Príncipe imperial, que pertencia ao Piauí (veja nota 1).
3) Soledade. Estado de quem se acha só. Lugar ermo, onde alguém vive curtindo saudades.
4) C’roas. Coroas. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação. Monte de areia, no leito dos rios. No Norte também se diz croa.
5) Noutro local deste livro há comentário sobre rola (pássaro).
6) Sensitiva. Planta, cujas folhas e folíolos têm a propriedade de se fechar, quando se lhes toca (Aurélio).
7) Eras. O mesmo que tempos, épocas.
8) Trindades. Toque das ave-marias. Tardinha (neste sentido só usado no plural).
A Aurora
Douram-se os prados ao romper d’aurora,
Que surge à hora que prazer só diz,
Os horizontes de listões (1) se arreiam,
Aves gorjeiam nos rosais gentis.
Na clara e doce sussurrante fonte,
Que do alto monte se despenha e cai,
O roxo manto de ondeantes cores
Com seus lavores a atenção atrai.
Nas verdes folhas, onde o orvalho oscila,
Brilha e rutina matinal rubim, (2)
Que a meiga aurora coloriu, raiando,
Co’o matiz brando de um primor sem fim
As brancas nuvens que através do espaço,
Do lume baço, pelo ar se vão,
Cingem brocados de um lavor perfeito
Como se feito por virgínea mão
A flor donosa, que do calix pende,
Cheiro recende que se eleva ao céu;
Tudo se expande, se promete vida
À luz querida do cambiante véu.
Da cumieira, no trinado vário,
Quanto o canário nos atrai, seduz!
Chilra a andorinha na cornija santa,
E o galo canta co’a fulgente luz.
Douram-se os prados ao romper da aurora,
Que surge à hora que prazer só diz,
Os horizontes de listões se arreiam,
Aves gorjeiam nos rosais gentis.
A luz, em tanto, que listões formara
Já mais se aclara pelo espaço além;
A luz d’aurora que assomou dourada
É dissipada pelo albor que vem.
E a criancinha, que acordando chora,
Logo afervora maternal amor;
A linda virgem, que do sono acorda,
Só se recordar de brincar e flor.
O pobre artista, que o trabalho presa,
Apenas reza, se encomenda a Deus,
Todo se afana no trabalho duro,
Que é seu futuro mais dos filhos seus.
E prados e aves, e perfume e montes,
E orvalho e fontes, e listões no ar,
“Hosana” (3) tudo ao Criador entoa,
Que a seus pés voa, que lh’os (4)vai beijar.
A criancinha, que acordou chorosa,
Virgem formosa, que sonhou com flor,
O artista pobre, que o trabalho estima,
Tudo se anima co’o fulgente albor.
E antes que o dia radioso assome,
E que o sol dome todo o ar com luz,
Na mente um hino fervoroso e santo
Eu devo, em tanto, consagrar à Cruz. (5)
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A luz dourada, que listões formara,
Quanto se aclara pelo espaço além!
A luz d’aurora que surgiu dourada,
É dissipada pelo albor que vem.
E a natureza como está sorrindo
Ao astro lindo que apontando vem!
Tudo progride na ciência e arte!
Por toda parte resplandece o bem!
Comentários
1) Listão. Faixa. Risca larga. Existe o variante listrão.
2) Rubim. Pedra preciosa de cor vermelha. Em sentido figurado, como no caso, cor vermelha. Há a variante rubi, mais usada. Palavra de propcedência latina.
3) Hosana. Da língua hebraica . Significa: salve, também louvamos. Breve oração dirigida a Jeová, pedindo socorro, tirada do Salmo 118. Aclamação do povo, marchando em tono do altarna festa dos tabernáculos: “A maior parte das orações pronunciadas nesta solenidade, começavam pelo hosana” (John D. Davis – Dicionário da Bíblia” – 280). A multidão dos discípulos que acompanhavam a jesus na sua entrada em Jerusalem aclamava-o, dizendo: “Hosana, filho de Davi”. Hosana corresponde a canto de alegria. No sentido religioso é expressão de júbilo. Substantivo masculino: o hosana. Usa-se hosana também como interjeição.
4) Lh’os. Combinação do pronome lhe (em função possessiva) com o pronome os (objeto direto): que vai beijar os (pés) lhe (dele).
5) Cruz. Deus. Religião.
As Aves da Minha Terra
As aves da minha terra,
Quer no sertão, quer na serra,
Sabem falar!
Esta seu fado carpindo, (1)
Aquela a lira ferindo
No seu trovar!
Outras aos matos ensina
Doces nomes que amofinam
Seus corações;
Esses nomes tão queridos,
Sempre tristes – repetidos
Nas solidões.
Quando vai findando o dia,
E que, escondido, alumia (2)
Ainda o sol,
A pomba (3) no tronco antigo
Carpe saudades do amigo
Ao arrebol!
De outra parte saltitando
De galho em galho cantando
Gentil sofreu, (4)
Toca na lira afinada
Uma canção modulada
Que o amor lhe deu!
E aquela que além se esconde,
Lá chama (ninguém responde)
“Ó Zabelê!” (5)
Tão triste! Lá foi –se embora,
E a amada que tanto chora
Ninguém n’a vê!
E aquela que ali suspira,
Que sofre, que até delira
Num seco pão,
Em tom sentido e penoso
Lá chama o chorado esposo
“João-corta-pão!” (6)
também a rola gemendo
o esposo que viu morrendo
se lastimou!
Seu fim co’o sol comparando
No ocaso, diz suspirando:
“Fogo-apagou!” (7)
Da cegueira que não o deixa
O caboré já se queixa
Cantando ao sol,
Repetindo assim o nome
Da doença que o consome:
“Terçol-terçol!...” (9)
Também da beira do rio
Quando tudo é já sombrio
De um mulungu,(10)
A infeliz, a desgraçada
Chama com voz abafada:
“Jacurutu!”(11)
Mas... que soldado tão belo
Faz com seu peito amarelo
A guarda ali?
É uma ave mui guerreira,
Que, pulando na aroeira (12)
Diz: “Bem-te-vi!” (13)
Também diz um, todo o dia,
Quando o sol põe-se ou radia,
E surge além;
Chamando pela esposinha,
Dia a saudosa avezinha,
“Vem vem!”(14)
Vede lá também aquela,
Chama-se a tal bacharela (15)
Pega (16)ou cancão; (17)
Ela sorri-se, ela fala,
Assobia, canta, estala...
Que compr’ensão!
Eis ali outra – tão bela!
Rompendo, qual sentinela,
O denso véu
Da mudez da noite escura,
Quando, vendo a criatura,
Grita: “tetéu!” (18)
Dai, porém, ao papagaio (19)
Da oratória o louro (20), daí-o,
Pois nisto estou:
No dizer, no estilo é uma,
É das aves na tribuna
O Mirabeau! (21)
É terra que tem primores
A terra dos meus amores,
Onde nasci!
As aves de lá se falam,
Cantam, suspiros exalam
No Piauí!
Comentários
1) Carpindo. Verbo carpir. Emprego no sentido de prantear, chorar. O verbo carpir não conjugado na primeira pessoa (singular) do indicativo presente. Em conseqüência não tem o subjuntivo presente.
2) Alumia. Noutro local há comentário sobre este verbo.
3) Pomba. Fêmea do pombo. Os autores românticos tiveram muita afeição por esta ave, símbolo da inocência.
4) Sofreu. Também sofrê. É o corrupião. Onomatopéia: tomam-se as onomatopéias traduzidas em palavras humanas para designar o animal que as pronuncia.
5) Zabelê. Copio: “De pés vermelhos e de corpo quase todo vermelho, a primeira impressão para quem vê, de longe, a Zabelê, é de que se trata da Juriti-piranga (ordem Columbiformes, espécie Oreopeleia); e, como o seu canto é de uma nostalgia e ternura inigualáveis, ainda mais se positiva a impressão de que ela é a Juriti-piranga. Entretanto, é muito maior do que a Juriti; o seu tamanho aproxima-se mais de uma inhuma ou de um mutum; sendo assim mais desenvolvida, a natureza lhe permitiu o hábito de andar pelo chão, de caminhar ou correr comumente pelo solo” e adiante: “quanto à origem da palavra Zabelê, não há dúvida de que é tupi, e, quanto ao significado, afirmam que é um enunciado onomatopaico” (Bugyja Britto – Zabelê – 8).
6) João-corta-pau. João tem grande voga no Brasil para a designação de aves. O João-corta-pau pertence à família dos Caprimúlgidas. Plural: Joões-corta-pau.
7) Fogo-apagou. Noutro local há comentário sobre fogo-apagou.
8) Caburé. Nome dado a uma espécie de mocho pequeno. Nascentes dá à palavra origem tupi. Com a significação de “o propenso a morar no mato”. Vive isolado. Só sai de noite.
9) Terçol-terçol. Terçol é pequeno abscesso no bordo das pálpebras. “Lindo olho tem o caburé” – diz-se por ironia.
10) Mulungu. Árvore leguminosa. Nome de uma árvore africana. Nome africano.
11) Jucurutu. Ave de canto triste, plangente. Nome tupi.
12) Aroeira. Árvore de madeira muito dura.
13) Bem-te-vi. Ave muito conhecida. Quando canta parece repetir: bem-te-vi. Daí o nome.
14) Vem-vem. Nome dado a vários gaturamos. Plural vem-vens.
15) Bacharela. Empregada a palavra no sentido de mulher faladora. Aplica-se à pega.
16) – 17) pega ou canção. Ave faladora. Com o nome de pega se batiza a meretriz.
17)
18) Tetéu. Ave pernalta.
19) Papagaio. Ave trepadora, notável pela facilidade com que imita a voz humana. Parece que a origem é o latim papagallus, no provençal papagai, espanhol papagayo. Tido o papagaio como sabido e esperto. Há estórias de papagaios notáveis. No folclore brasileiro o papagaio aparece como herói de muitas aventuras. Anedota de papagaio se tem na conta de anedota imoral.
20) Louro. Nome que se dá ao papagaio. Assim já cantavam os troveiros medievais:
Papagaio louro
Do bico doirado,
Leva esta carta
Ao meu bem amado.
21) Mirabeau. Honoré Gabriel Victor Riqueti, conde de Mirabeau, francês (1749-1791). Famoso orador. Pertenceu à assembléia francesa e da tribuna lançou a frase célebre e desafiadora: “Estamos aqui por vontade do povo e daqui só sairemos pela força das baionetas”.
Só um Anjo Será
A flor que melindrosa se baloiça
No melindroso, delicado pé,
Não é como o meu bem tão melindrosa,
Não é, não é, não é!
A aurora que o levante purpureia, (1)
Que os horizontes colorindo vem,
Não tem aquelas lindas, róseas faces,
Não tem, não tem, não tem!
A brisa que sussurra nas palmeiras
É doce quando a tarde em calma está;
Mas voz tão maviosa como a dela
Não há, não há, não há!
A flauta (2) que desoras (3) suspirando
Quebra da noite a plácida soidão, (4)
Não é como o seu canto – direi sempre
Que não, que não, que não!
Se alguma virgem bela ataviou-se
Para mais realçar o todo seu,
Esse todo o meu bem – sem atavios –
Venceu, venceu, venceu!
Su’alma e coração são compassivos,
Ela tem o candor de um serafim, (5)
É, sim, a minha amada um tipo d’anjo;
É, sim, é sim, é sim!
Só um anjo de Deus, dos céus baixado,
Que à celeste mansão remontará,
Será como o meu bem perfeito e puro,
Será, será, será!
Comentários
1) Purpureia. Verbo purpurear. Dar cor de púrpura (vermelho escuro)
2) Flauta. Também frauta. Formas variantes.
3) Desoras. Melhor que o poeta houvesse empregado a locução a desoras, fora de horas, alta noite. Também se usa a desora, como neste passo de Manuel Bernardes: “... estrondos noturnos que a desora se ouviam”.
4) Soidão. Forma antiquada de solidão. Felinto Elísio empregou-a: “Na soidão dos escuros corredores”.
5) Serafim. Nome de entes celestiais que estavam à roda do trono de Deus, na visão de Isaias. Cada um deles tinha seis asas: com duas cobriam a face, com outras duas cobriam os pés e com duas voavam. Figuradamente, pessoa formosa.
Às Seis Horas da Manhã
O Triste Arcano! (1)
Lamento a sorte que me faz poeta,
Não que eu engenhe divinais canções;
Poeta n’alma cuja dor secreta
Do peito faz-me rebentar vulcões!...
Tenho um segredo que na fria lousa
Comigo à terra deverá baixar;
No peito guardo-o, pois ali repousa
O triste arcano que me faz penar.
Embalde tenho consumido os anos
Em falsas cismas... em penar sem fim;
Não saiba o mundo, de fatais enganos,
Aquele arcano... que só cumpre a mim!
A campa gélida comigo desça.
São desventuras que convém calar;
Basta que eu saiba-o (2) e que Deus conheça
O triste arcano, que me faz penar.
Dize-lo aos homens... não no (3) quer o peito;
Que importa aos homens o segredo meu?
Soubera-o o anjo... se não fosse afeito
Àquelas juras... como o penso eu.
Porém os anjos não perjuram... minto!
É triste a cisma que me faz chorar!
Do peito viva no fiel recinto
O triste arcano, que me fez penar.
Feliz julgai-me! Não no sou, por certo!
Anri meu peito, vê-lo-eis de dor
Contudo, enfermo, qual baixei incerto,
Lançado às rochas por um mar de horro.
Segredo infausto que, talvez na campa,
Meus curtos dias me fará murchar!
E a lousa (4) apenas saberão que estampa
O triste arcano, que me faz penar.
Rireis! – qu’importa – não permita o fado
A sorte, um anjo, ou a mulher, ou Deus
Que o peito vosso, qual o meu, penado
Concentre males como os males meus.
Males que pode desfazer somente
Um riso d’anjo... de mulher falaz... (5)
Mas não que a fala, que o sorrir desmente
O triste arcano, que me faz penar.
Corram meus dias lacrimosos, mestos, (6)
Julgem-me os homens, por demais feliz;
Fruindo julguem-me prazeres festos, (7)
E ocultem versos o que o rosto diz!
Comigo – aos sorvos – beberei meus males
Até meus dias, meu viver findar;
Nem leve a brisa pelos amplos vales
O triste arcano, que me faz penar.
Embalde tenho consumido os anos
Em falsas cismas... em penar sem fim;
Não saiba o mundo, de fatais enganos,
Aquele arcano... que só cumpre a mim!
À campa gélida comigo desça:
Basta que eu saiba e que Deus conheça
O triste arcano, que me faz penar.
Comentários
1) Arcano. Segredo profundo. É o latim arcanu, secreto, oculto.
2) Que eu saiba-o. Na tempo em que José Coriolano escreveu ainda não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos.
3) No. Nos clássicos, principalmente, o pronome átono, acusativo de 3ª pessoa, o, a, os, as assume, por assimilação, a forma no, na, nos, nas, depois de vozes nasais.
- Viam-no chegar.
- Não na deixariam prear impunemente (Rui).
- Que não sabe a arte, não na estima (Camões).
No português de hoje, depois de bem, não e quem, vai desaparecendo o modelo clássico: não o desejo, por exemplo.
4) Lousa. Emprego já comentado noutra parte deste livro, com a mesma significação.
5) Falaz. Que engana intencionalmente.
6) Mestos. Tristes.
7) Festos. O mesmo que festivos. Pronúncia aberta (fés).
A Vida Humana é Sofrer
É breve o viver d’aurora,
Mas essa vida d’um’hora
Brilha, fulgura e colora
Tudo ao seu alvorecer;
Pura nasce e morre pura,
Não sabe se há desventura,
Mas a humana criatura
Nasce e sofre até morrer!
Vive o sol somente um dia
Foco de luz, de poesia,
Muitos climas alumia
De seus raios co’o fulgor;
Dá vida às plantas nascentes,
Aquece os bosques virentes,
Torna as águas transparentes,
Todo (ou tudo) é brilho e resplendor!
Tem a flor bem curta vida,
Porém na estação florida
Vive entre galas (1) – querida
Impera no toucador. (2)
Tem uma cor de beleza:
Branca, - parece a simpleza;
Rósea, - parece a pureza,
Ofendida em seu pudor.
Entre as ramas que vicejam
As ternas aves se beijam,
E das brisas que bafejam
Sentem em torno o frescor;
Mas o homem vem ao mundo,
Sofre em breve um golpe fundo,
Depois outro mais profundo
E morre entre ais e entre dor.
Sim, o homem um só instante
Vivendo, sofre constante
Dissabores sempre avante,
Sempre avante até morrer!
Brilha a aurora e o nitente,
Recende a flor inocente,
Beijam-se as aves contente, (3)
E o homem sempre a sofrer!
Comentários
1) Galas. Pompa. Fausto. Abundância. Alegria.
2) Toucador. Espécie de cômoda encimada por um espelho e que serve a quem se touca ou penteia (Aurélio).
3) Beijam-se as aves contente. O poeta empregou contente no singular, com o valor de advérbio: beijam-se contentemente as aves.
O Que eu Quero
Em quanto a sorte me persegue avara,
E a dor dos males me deslustra o rosto,
Tenho um consolo: no futuro hei posto
Minha esperança mais donosa e cara.
Mas, se das turbas através eu passo
E não lhes ouço murmurar meu nome,
Penso que a sorte, que a cruel consome
Tantos castelos (1) que velando faço!
Então os olhos, a cismar, dilato,
E encaro a esfera que me está suspensa...
E num arroubo de uma idéia imensa
À porta augusta dos vindouros bato!
Talvez – orgulho – que a avareza cega,
Talvez – um erro – que me embala a mente;
Mas, quem não olha pra o futuro crente?
Quem destes sonhos – tão gentis – renega?
Cubra-me o corpo muito embora aterra,
E em meu jazigo, (2) em cuja paz repousa,
Nenhum letreiro me decore a lousa, (3)
Nem caia um pranto, que a saudade encerra.
Não quero pranto, nem letreiro ou flores,
Quero somente que meu nome e glória
No tempo augusto da imortal memória
Radie ao evos (4) co’imortais fulgores.
Comentários
1) Castelos que velando faço. Castelos no ar. Imaginar coisas excelentes mas irrealizáveis.
2) Jazigo. Sepultura, túmulo
3) Lousa. Pedra funerária que se coloca sobre a sepultura.
4) Evo. Século. Perpetuidade.
Primeiras Águas
Foge, pavoroso espectro (1)
Maça magra e poeirenta,
Deixa vir o guapo jovem
Que a tudo, meigo, aviventa.
Em teu ossudo regaço (2)
De medonha catadura,
Só chilra o grilo, a cigarra,
Só há poeira e secura
Porém nos frescos domínios
Do jovem que assoma rindo
As árvores vêm florescendo
E os prados também florindo.
O velho tronco lascado, (3)
Que tinha a seiva perdido,
Sente as fibras se lhe incharem,
E brota reverdecido.
O jericó (4) suculento,
Que na seca se encolhera,
Caindo no chão a chuva,
Mais belo reverdecera!
A gentil cebola brava, (5)
Dos prados lindo ornamento,
Pelas várzeas e campinas
Brinca e se embala c’o vento.
Nos galhos reflorescentes
Os canoros passarinhos
Se lembram de seus amores,
Se fazem ternos carinhos.
E troveja pra o nascente,
E o tempo todo empardece,
E a terra inchada verdeja,
E o velho tronco enverdece.
Oh! quanta é minha ventura
Por gozar na minha terra
De amor os brandos influxos,
Que esta gentil quadra encerra!
O colono imaginando
No seu lar, no seu porvir,
Mostra no rosto a esperança
Nos lábios mostra o sorrir.
O fazendeiro contente
Dá largas ao coração;
Sente o peito dilatar-se
Nos campos do seu sertão,
E a semente cai na terra
Pelas mãos do lavrador;
Mil frutos dela se esperam
Entre risos, entre amor.
E o fazendeiro à porteira
Abóia (6) as vacas que vêm
Berrando pelos bezerros
Que o curral seguros tem.
Notai aquela vaquinha:
Que berro saudoso – momm!...
Pois ela chama o filhinho,
Que responde ao terno som!
Te os sapinhos nos charcos
Festejam ao modo seu
Esta quadra deleitosa
Que a natureza nos deu!
Oh! vida, quem não te inveja,
Nem sente gosto e prazer:
Senti-los, sem invejar-te,
Não sei como possa ser!
E a chuva cai em torrente,
E a terra toda alagou;
Corem riachos e grutas,
Mais de um açude sangrou.
Meu Deus! Prestai-me saúde
Neste meu sertão gentil,
Onde o inverno é tão belo,
Onde o céu tem tanto anil!
Comentários
1) Espectro. Sentido figurado. Espantalho.
2) Regaço. Sentido figurado: lugar onde se repousa.
3) Lascado. Rachado, quebrado.
4) Jericó. Planta da caatinga. Pode secar completamente sem morrer.
5) Cebola-brava. Planta da família Narcisáceas.
6) Abóia. Do verbo aboiar, derivado de boi. Aboiar é cantar à frente do gado; toada pouca variada e triste; serve para guiar e pacificar as reses, e sobre estas exerce muita influência, quando saudosa e em viagem”. (Juvenal Galeno). Aboio é canto sem palavra, marcado exclusivamente em vogais, entoado pelos vaqueiros quando conduzem o gado. (Cascudo). Os vaqueiros abóiam para orientação dos companheiros. Para atrair o gado. Para guiar a boiada. Também se diz aboiado, como Euclides da Cunha: “... ecoam melancolicamente notas do aboiado...”
A Um Passamento
Triste rola, por que gemes?
Tua dor quem motivou,
Que te carpes nestas horas,
Quando o sol já se ocultou?
Lastimoso e triste sino
Quem te ensinou a dobrar
Deste modo tão penoso
Que o peito faz-me (1) ansiar?
Brisa serena da tarde,
Por que passas a gemer
Pelas folhas da mangueira?
Por que vens-me (2) entristecer?
Sol formoso, que douravas
O céu com teu arrebol,
Por que perdeste essa cores,
Que eu tanto te amava, sol?
Lua pálida, mimosa,
Astro belo, inspirador,
Por que mais lânguido brilho
Ressumbra do teu fulgor?
Rosa bela, purpurina,
Por que te murchaste assim?
Lírio, por que te secaste?
Por que morreste, jasmim?
Meu coração, por que sofres?
Por que bates, coração?
Que desgraças me anuncias
Nesta tua agitação?
Ah! já sei: tudo me indica
Triste nova, que se deu;
Tudo lamenta uma esposa,
Que bela e jovem morreu!
Mas, ah! – lembrei-me que a esposa,
Se para o mundo morreu,
Para o céu mais venturosa
Entre glórias reviveu.
Comentários
1) Que o peito faz-me. Na época em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: que o peito me faz.
2) Por que vens-me? Veja nota 1
Beijos Mudos
Não quero dar-t’os na face,
Na lisa fronte não quero,
Nem quero um beijo que estale
Nos lábios com todo o esmero:
Eu quero um lânguido beijo,
Mudo abrasado de pejo.
Não quero que ninguém saiba
Que eu te beijei, meu encanto;
Eu gosto dos beijos mudos,
São beijos que sabem (1) tanto!
Depois – as brisas loureiras
São por demais chocalheiras.
Basta que os lábios se rocem
Mudos, bem mudos de pejo;
É testemunha indiscreta
A brisa de um som de um beijo,
Pode contar no arvoredo
O que se fez em segredo.
E as flores podem ter zelos (2)
Invejar nossa ventura
Podem ferver tantos beijos
Nas flores pela espessura!
E podem brisas e flores
Divulgar nossos amores.
Por isso delícias minhas,
Toma um terno e mudo beijo!
Não é mais doce e macio?
Não tem mais fogo e mais pejo?
Um beijo assim sabe tanto!
Toma inda outro, meu encanto!
Comentários
1) Sabem. Verbo saber. Empregado no sentido de ter sabor.
2) Zelos. No plural corresponde a ciúmes.
O Rei
Reis da terra o que sois? Oh quase um nada
(G. Dias)
Sentado no trono soberbo, brilhante
De pedras luzentes e de ouro e cetim, (1)
O rei se espreguiça, notando o cambiente (2)
Das sedas custosas e do ouro e rubim
Da mente lhe fogem tristeza humanas,
Que humanas tristezas não sentem os reis;
Circumdam-lhe o sólio volúpias insanas,
E em torpes prazeres imerso vê-lo-eis. (3)
Real diadema, cingindo-lhe a fronte,
Mortal não supõe-se, (4) mas julga-se um Deus,
Nos vastos domínios – quem há que o afronte,
Não são-lhe (5) os vassalos quais vis pigmeus? (6)
Baixelas (7) riquíssimas, taças doiradas,
Manjares opíparos – tudo primor,
O gosto lhe excitam, e as horas passadas
No vinho, na gula que lhe trazem torpor.
Do marmor, (8) do jaspe (9) deslumbram-lhe as cores,
E as vestes refulgem com mago esplendor;
Dos vasos pendentes exalam-se as flores
De em torno a seu trono perfumes e odor.
Mil quadros lascivos vigiam-lhe o leito,
Forrados de sedas, de moles coxins; (10)
Mil quadros que acendem-lhe (11) a flama no peito,
Que em beijos apagam-lhe (12) maus serafins.
E os paços (13) se atulham de infames vassalos,
De damas corruptas, de vis cortesãos,
Que todos procuram os reis para honrá-los,
Curvar-lhes os joelhos, beijar-lhes as mãos.
São todos sedentos de fama e de glória,
Sem feitos briosos, sem nobres ações!
A vida estudai-lhes: vereis sua história,
Manchada de crimes, de negras paixões.
Vereis suas frontes ao peso curvadas
De louros sangrentos de vítimas mil!
Zombando – profanos! – das cousas sagradas
Com riso de mofa, com ar senhoril!
Vereis ondular-lhes na mente orgulhosa
Enxames, sem conta, de idéias cruéis;
Vereis sua pena mover-se impiedosa,
Selando mil mortes, - cruentos lauréis!
Tiranos do mundo, num lago de horrores
A purp’ra (14) profana, nem podem lavar!
E a purp’ra manchada, que escorre em cruores, (15)
Não sabe outra cousa, que o vício acatar!
Abutres famintos, flagelo dos povos
São todos os testas-coroados, - os reis;
Voltejam-lhe o leito febris, sempre novos,
Prazeres impuros, - tais sempre os vereis!
História de monstros – dos reis é a história:
Um bom dentre centos, - os mais são maus reis;
Deveres conculcam, dos homens escória,
São massas inertes, são massas sem leis.
São massas (16)inertes, que um rei sem virtude
É rei só na forma, no peito não é:
Senhores se dizem, e em tal atitude
Nos gozos que passam somente têm fé.
Poeta livre não me curvo ao ouro
Dos reis perversos, que tiranos são:
O falso brilho do seu vil tesouro
Ofusca a escravos, mas a livres não.
Somente a escravos, pois o povo é nobre
Por natureza, mais gentil brazão
Que esses ganhados do suor do pobre
Como os dos reis pela mor (17) parte o são.
Os reis detesto, porque neles vejo
Impresso o selo de um viver de horror;
Direis que o fausto que o circunda invejo,
Dizei-o embora, que hei de vós só dor.
Dizei-o embora! Mas sabei que o peito
Do poeta é livre, como livre sou;
Não crê nos ídolos da grandeza, e preito
Só rende ao justo que ação justa obrou.
No livro magno que contém a história
Dos reis mundanos, o que aí vereis?
Sinistros feitos e fatal memória
Legada aos evos por ignóbeis reis.
Esse Alexandre, (18) que às nações deixara
Um nome cel’bre, (19) que jamais ganhou,
Ébrio – execrável! O seu braço alçara
Ferindo aquele que o até (20) salvou!
A mesma pátria que no livre seio
Produziu Brutus (21)e gerou Catão, (22)
Gemeu nos ferros, no infernal enleio
De reis protervos – como todos são.
Sim, lêde os feitos de um cruel Tibério, (23)
E os de um Calígula (24) inda mais cruel;
Vêde, fazendo lupanar do império
De Cláudio a esposa, (25) sensual, infiel!...
E Nero... (26) o monstro ainda mais que a fera
Cruento e mau, de coração cerval,
Páginas negras de sangrenta era
Juntou à história mais cruel, fatal!
E esse guerreiro que apregoa a fama,
Que para sempre no Waterloo (27) caiu;
Em cujo peito laborava a flama
Incendiaria – qual jamais luziu!...
Fui um tirano que usurpou impérios,
E que da esposa vil repúdio fez! (28)
Como os Calígulas e cruéis Tibérios
Foi Bonaparte (29)tão cruel, talvez.
De quantos Neros se recheia o mundo!
Não posso, oh nunca! – querer bem aos reis;
Num mar de gozos, nesse pego (30) imundo
Os reis polutos sempre aí vereis.
Dos reis inveja... não se ajusta ao peito
Do poeta livre, como livre sou;
Não creio em ídolos de grandeza, e preito
Só rendo ao justo que ação justa obrou
Comentários
1) Cetim. Tecido lustroso e macio. Origem árabe.
2) Cambiante. Gradação de cores. Cor indistinta. Alguns estudiosos lhe atribuem indiferentemente o masculino e o feminino. Escritores de grande notoriedade empregaram cambiante no masculino: “A fé e a superstição misturam os seus reflexos num cambiante confuso” (Manuel Bandeira).
3) Vê-lo-eis. Ao futuro do presente não se junta, depois dele, o pronome átono. Ou o pronome vem antes do verbo – não o vereis, ou no meio do verbo: vê-lo-eis.
4) Não supõe-se. Na época em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: não se supõe.
5) Se são-lhe. Veja nota 4.
6) Pigmeus. De muito pequena estatura.
7) Baixelas. Utensílios empregados no serviço da mesa.
8) Mármor. Termo poético. O mesmo que mármore.
9) Jaspe. Tipo de quartzo que apresenta grande variedade de cores.
10) Coxim. Almofada, ou travesseiro, para descanso.
11) Que acendem-lhe. Veja nota 4.
12) Que em beijos apagam-lhe. Veja nota 4.
13) Paço. Forma evolvida do latim palatiu. Este latim deu duas formas portuguesas: palácio e paço.
14) Púr’pra. Púrpura. José Coriolano suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação. Púrpura é substância vermelho-escura. Também vestuário dos reis, como na poesia.
15) Cruores. Sangue que corre, sangue que sai dos vasos. Matéria corante que entra na composição do sangue. Parte coagulante do sangue (Nascentes).
16) Massas. Emprego no sentido de corpos.
17) Mor. Forma contraída de maior.
18) Alexandre. Veja noutro local herói de Alexandria, que é o mesmo Alexandre, ou Alexandre III o Grande (356 – 323 a.C.). Rei da Macedônia. Destruiu Tebas. Venceu Dario. Conquistou Tiro, Gaza e o Egito. Fundou Alexandria. Apoderou-se da Babilônia. Um dos maiores guerreiros da história da humanidade.
19) Cel’bre. Célebre. Supressão de sílaba por necessidade de metrificação.
20) Que o até salvou. Próclise é a colocação do pronome átono antes do verbo. No caso houve reforço da próclise.
21) Brutus. Político e escritor romano (85 – 42 a.C.). Protegido de César, mas participou da conspiração contra este, que, vendo-o brandir um punhal, gritou: Tu quoque, Brute, fili mi! (Tu também, Brutu, meu filho!).
22) Catão. Marcus Porcius Cato, dito Catão o Antigo (234 – 149 a.C.). tribuno. Político austero e honesto. Lutou contra o luxo das mulheres. No senado exigiu o aniquilamento da cidade de Cartago.
23) Tibério. (Tiberius Julius Caesar). 42 a.C – 37 d.C. Imperador romano. Tomado de desconfiança e misantropia, retirou-se para a ilha de Capri, deixando parte de suas responsabilidades a Sejano, que tramou a queda do imperador. Tibério mandou matar Sejano e vários membros do senado e da família imperial.
24) Calígula. (Caius Caesar Augustus Germanicus) – dito Calígula (12 d.C – 41). Imperador romano. Foi educado entre os soldados, responsáveis por seu cognome de cáliga, calçado militar. Sucessor de Tibério. Enlouqueceu no poder. Extravagante e cruel. Quis que seu cavalo Incitatus fosse nomeado cônsul. Lamentava que o povo romano não tivesse apenas uma só cabeça para que pudesse degolá-la de um só golpe. Assassinado.
25) Do império de Cláudio a esposa. Cláudio I (Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus – 10 a.C., 54 d.C.). Imperador romano. Epiléptico. Drenou o lago Fucino. Sofreu a influência de suas esposas Messalina, depois Agripina. Esta o envenenou. José Coriolano faz referência especialmente a Messalina (Valeria Messalina), que se entregou à devassidão e foi executada por ordem do imperador.
26) Nero (Lucius Domitius Nero Claudius). Nasceu em 37 d.C. Faleceu em 68. Sucessor de Cláudio. Mandou matar o irmão Britânico e a própria mãe. Cruel. Imperador romano, realizou governo despótico e libertino, que contou com a cumplicidade da segunda esposa Popéia, acusou os cristãos do incêndio de Roma, e pelos cristãos foi acusado de incendiá-la. Perseguiu o cristianismo. Abandonou o poder depois de declarado inimigo público pelo senado. Fez-se matar por um liberto.
27) Waterloo. Escreveu José Fonseca Fernandes: “Waterloo é uma povoação a quinze quilômetros do centro de Bruxelas (Bélgica). Deu nome à batalha em que Napoleão Bonaparte foi vencido pelos exércitos reunidos dos ingleses de Wellington e prussianos de Bulow e Blücher, última e derradeira batalha em que se empenhou o maior general-de-campo da idade contemporânea. Uma batalha que Napoleão perdeu na última hora por ter faltado tirocínio militar a um de seus marechais, Grouchy, o indeciso auxiliar que não soube incorporar-se ao grosso das tropas em combate, permitindo às reservas prussianas comandadas por Blücher que decidissem a sorte da contenda” (“Europa de Sempre” – 176).
28) E que da esposa, vil repúdio fez. Referência ao fato de se ter Napoleão Bonaparte divorciado de sua mulher Joséphine Tascher de La Pagerie para casar-se com Maria Luísa, da Áustria.
29) Bonaparte. Napoleão I, imperador dos franceses de 1804 a 1815. General. Cobriu-se de glória como guerreiro em quase todo o mundo do seu tempo. Venceu a Itália. Ocupou Alexandria no Egito. Restabeleceu a ordem na França. Restaurou a paz religiosa. Participou da redação do código civil, um dos maiores monumentos jurídicos de todos os tempos. Anexou a ilha de Elba à França. Nomeado Presidente da República italiana. Reorganizou a Alemanha. Reformou a universidade e realizou grandes obras de urbanismo. Quando anexou a Holanda, atingiu o máximo de poder. Foi desastrosa a guerra que fez à Rússia. Abdicou do trono. Exilado em Elba, mas voltou ao poder. Perdeu finalmente a batalha de Waterloo. Abdicou segunda vez. Feito prisioneiro pelos ingleses na ilha de Santa Helena, aí faleceu seis anos depois.
30) Pego. O mesmo que pélago, mar profundo. O poeta empregou a palavra em sentido figurado.
A Rosa Defendendo-se
Numa roseira formosa,
Vicejante, bela, airosa,
Despontava linda rosa,
Entre espinhos e entre odor;
Quis colhe-la à madrugada,
Mas a roseira agastada
Me fere a mão desdenhada,
Que logo foge co’a dor.
Qual o guerreiro valente
Que, ferido mortalmente,
Descansa e co’o combatente
Vai nova luta travar;
Assim eu esperançoso,
Ousado, cavalheiroso,
Tendo o botão odoroso
Da roseira conquistar.
Porém a roseira altiva
A fresca chaga me aviva
Aos meus desejos esquiva
Co’o mesmo espinho d’então;
Fujo ainda mais pressuroso,
Já me tornando medroso,
Já sentindo estrepitoso
Me bater o coração.
Então todo amedrontado
Pelo poder denodado
Do lindo botão amado
Que a roseira em si contém,
Já no meu fado reflito,
Em minha sorte medito,
E quase vencido grito:
- Sou fraco como ninguém!
Contudo, outra tentaiva
Inda faço, mas me esquiva
A roseira, é dor mais viva
Fez-me então exp’rimentar; (1)
E logo as armas deponho,
Envergonhado e tristonho,
No verde tronco risonho
Sem que mais queira tentar!
Se a roseira, vegetante
Apenas, zela constante
Seu lindo botão fragrante
Que só tem beleza e odor;
Como a donzela a beleza,
Que lhe deu a natureza,
E a su’alma de pureza
Não há de zelar co’ardor? (2)
Sê, pois, qual tal a roseira,
Ó donzela prasenteira,
Se de tu’alma fagueira
Quisesse um mimo roubar;
Sê assim, anjo donoso,
Que Deus, sempre bondadoso, (3)
Neste mundo tormentoso
Não quis para alívio dar
Comentários
1) Exp’rimentar. Experimentar. Necessidade de metrificação.
2) Co’ardor. Com ardor. Necessidade de metrificação.
3) Bondadoso. Forma rigorosamente correta ao lado de bondoso. Esta resultou de haplologia: supressão de uma sílaba quando no vocábulo há outra próxima do mesmo valor: da, do (dentais). O mesmo se passa com caridadoso (caridoso).
Feliz Tempo
Momentos felizes, momentos ditosos
Em que desfrutei
Tua meiga presença, teu rosto de graças,
Em que me arroubei;
Mas eles se foram, passaram veloces (1)
E eu triste fiquei.
Contudo, Maria, meu peito consulto,
Responde: não sei!
Lhe noto incerteza, por isso em meus braços
Te unir poderei!
Venturas me agoura? (2) Contigo momentos
Felizes terei!
Agora somente me restam gemidos,
Pois nada alcancei;
Meus lábios quiseram se abrir e pedir-te,
Porém me calei!
Meu fado maldigo; mas como se eu mesmo
Meu dano causei?
Ao menos nutrindo tão grata esperança...
Assim viverei;
Se a mão delicada me deres de esposa,
Feliz eu serei!
Se a mão me negares de esposa, ó querida,
Então morrerei!
Não achas, Maria, tão duro dizer-se:
“Jamais o amarei?”
não achas tão doce, tão grato afirmar-se:
“Sim, tua serei?”
Pois olha, Maria, sincero te digo:
- Eu sempre te amei.
Comentários
1) Veloces. Forma latina, muita usada antigamente. Hoje, veloz, velozes.
2) Agoura. Verbo agourar. Empregado no sentido de prever, predizer. Fazer agouro, agourar, hoje se emprega quase sempre em mau sentido.
À Morte
Do Visconde de Almeida Garret.
Não morre o gênio, sobrevive a fama,
Não morre o sábio, seu renome voa
Em meio às eras que o repetem sempre,
Retumba altíloquo.
Se abate as asas na gelada lousa, (1)
Pairando frio, se bordeja à campa,
Não morre o vate, nos anais fastosos (2)
Seu nome exalça-se.
Que importa a morte, pois se a vida extingue
Do sábio, fica-lhe renome eterno?
Se da memória resplandece o templo,
Que importa o túmulo?
Mais de três séculos sobre o luso (3) vate
Que importa pesem, se Camões (4) perpassa
Nos moles carmes, (5) nas endechas (6) tristes,
No canto altíssono?
Cantor mavioso! não findou tua vida.
Pairou no topo dos umbrais da morte;
Ei-la se expande, esvoaçando em torno
Do orbe terráqueo. (7)
Sim, nos teus versos de imortal beleza
Sorriem-te os evos através dos tempos!
Repousa a fama sobre o mundo como
No céu o espírito.
Cantor mavioso, do cantor do Gama, (8)
Rival nas letras e na glória infinda,
Teu nome ecoa lá nos peitos lusos
Qual nos brasílicos.
E o bardo rude do alaúde tosco
Tristes saudades te dirige triste;
Se vive a fama, se o esp’rito (9)goza,
O vate falta-lhe.
Soam teus versos como mestos soam
Repercutidos, virginais suspiros;
Decresce a arte, se lamenta o mundo
Pelo teu trânsito.
Porém que importa? – Sobrevive a fama,
Não morre o sábio, seu renome voa
Em meio às eras que o repetem sempre,
Retumba altíloquo!
Comentários
Observação: Almeida Garret pertenceu à celebre trindade de romantismo português. Os dois outros: Castilho e Alexandre Herculano. Foi poeta, dramaturgo, romancista.
1) Lousa. Noutro local há comentário sobre lousa neste sentido.
2) Fastosos. De fasto. Grande, notável, pomposo.
3) Luso. O mesmo que português.
4) Camões. Maior gênio literário de Portugal. Grande lírico. Épico notável. Autor de “Os Lusíadas”, epopéia que, em 1972, completou quatrocentos anos de publicada. Chamou-se Luiz Vaz de Camões.
5) Carmes. Poema. Versos líricos.
6) Endechas. Poesia triste. Canção melancólica.
7) Terráqueo. Que tem terras e águas.
8) Cantor mavioso do cantor do gama. Cantor do Gamam foi Camões. Vasco da Gama, o descobridor do caminho marítimo da índias, é o herói da epopéia nacional portuguesa “Os Lusíadas”. Quando José Coriolano diz cantor mavioso do cantor do Gama, está a referir-se a Garret, pois Garret escreveu o poema “Camões”.
9) Espr’ito. Espírito. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.
O Infante
Gosto de ver um infante (1)
Alegre andar pelo prado
A correr;
Gosto de ver-lhe o semblante
De pureza sombreado
Florescer.
Gosto de vê-lo correndo
Em busca da borboleta
A fugir;
Gosto de ouvir-lhe dizendo
Uma gracinha indiscreta
A sorrir.
Gosto de vê-lo sisudo
Quando a mãe o repreende
Porque errou;
Gosto de vê-lo assim mudo
Quando a lágrima que pende
Borbulhou.
Gosto de vê-lo chorando
Porque alguém de coitadinho
O chamou, (2)
Quando na relva brincando
Com seu pequeno irmãozinho
Se zangou.
Vede-o correndo – tão lindo!
Mas um queda, coitado
Lá deu!
Dizei-lhe: “É nada.” Sorrindo,
Não mostrará acalmado
Que sofreu!
Vede-o no colo materno
Cândidos beijos colhendo
Como vai!
Vede-o também como terno
Mil graças está fazendo
Para o pai!
Ó infante! Ó belo anjinho!
Quem dera no mundo fosses
Sempre assim...
Tens encetado o caminho...
Teus dias inda são doces!
Mal de mim!
Mal de mim – que hei já chegado
À quadra fatal da vida,
A do amor;
Já fui, qual tu, fortunado;
Hoje tenho a alma ferida
Pela dor!...
Ah! que dos anos da infância
Nem eu mais a memória posso
Conservar!
Nem mais dessa bela estância (3)
Da vida – a mimosa história
Sei contar!
Não sei – que a vida do adulto
É um mistério constante,
Um sofrer;
Num leito de dor sepulto,
Não tem alívio um instante,
Te (4) morrer!
Eis porque gosto do infante
Alegre, andando no prado
A correr;
Gosto de ver-lhe o semblante
De pureza sombreado
Florescer.
Comentários
1) Infante. Emprego no sentido de criança no período da infância.
2) De coitadinho o chamou. No sentido de dar nome, apelidar, o verbo chamar não admite, hoje, o pronome o, mas o pronome lhe.
3) Estância. Emprego no sentido de quadra, período.
4) Te. Por até. Assinala Silveira Bueno que os textos arcaicos apresentam variadas formas da atual preposição e, algumas vezes, advérbio até: ata, ataa, ta, ta, tee, até, te (“A Formação Histórica da Língua Portuguesa” – 181). No texto te por necessidade de metrificação.
Coragem
(pelo cólera) (1)
Não descrede da sorte: o mal nem sempre
Vos há de lacerar a doce vida:
Portai-vos corajosos; não descrede (2)
Da bondade do Céu na dura lida.
O céu é previdente: pelas dores
Com que o morbo (3) vos há ceifado a vida,
Nesse eterno jardim, de olor eterno,
Vos destina uma sorte mais subida.
Não descredo do Céu: co’as mãos erguidas
Louvai a mão divina que suspende
No curso o mesmo sol; que, majestoso,
Manda ao mar dividir-se, e ele se fende!
Não descrede do Céu: correi ao leito
Onde jaz sem recurso o triste, o pobre,
Prestai-lhe esses sufrágios que dimanam
De um peito caridoso e grande e nobre.
Um dia morreremos; pois corramos
Sem descanso a exercer a caridade;
Não pode uma ação boa ser banida,
Nem esquece-la a divinal bondade.
Nos momentos da vida nenhum gozo
Se pode comparar ao gozo santo
Que frui o caridoso junto ao leito
Que o mísero verte amargo pranto.
Não vede (4) em poucos dias tantos nomes
Gravados sobre o templo da memória?
Não vede em poucos dias laureados
Tantos bravos e heróis? – que maior glória?
E enquanto tremular a grimpa alçada
Aos brios desta terra belicosa,
Um nome ler-se-á no seu fastígio:
O nome da pessoa caridosa.
Avante, meus irmãos! Se a Deus se pode
Rival atribuir na vida e fama,
Será rival de Deus o caridoso
Que vela o moribundo ao pé da cama.
Comentários
1) Cólera. Veja estudo noutro local.
2) Não descrede. O imperativo negativo se faz com o subjuntivo presente: não descreais.
3) Morbo. Veja o estudo a respeito de cólera.
4) Não vede. O imperativo negativo é feito com o subjuntivo presente: não vejais. Admite-se não vede porque na época em que José Coriolano escreveu muitas questões da língua ainda não estavam disciplinadas.
O Velho Caçador de Onça
I
“Avante meus camaradas,
Vamos às matas bater;
Coragem! Fogo na onça
Quando a onça arremeter,
Que o meu facão amolado
Lh’hei de na guela meter;
Que eu não sei que cousa é medo,
Não sei, nem quero saber.
Aquele cão, que ali vedes, (2)
Trinta mil réis (3) me custou!
Faltará chuva em janeiro,
Mas nunca me ele (4) faltou!
Se a onça ronca raivosa,
Se um ah cão! Me ele escutou,
É polv’ra (5) – o bicho na cava
Meu tubarão (6) acuou!
Ouvi-me este canto agora;
Sabeis que eu não minto, não:
Eu caçava no peeiro (7)
O meu cavalo alazão: (8)
Vi uma onça comendo-o,
Estumei-lhe (9) o tubarão.
Ele filou-lhe na curva,
E eu puxei pelo facão.
A fera, escumando raiva,
Urrando, a mim se botou!
Da mão arrancou-me o ferro (10)
Co’a tapa que me soltou!
Mas eu o braço lhe enterro
Guela dentro que a afogou!
E a fera co’os finos dentes
O braço me mastigou!
Fiquei – assim – aleijado,
Mas inda movo o facão;
Não temo onças, nem almas,
Nem os vivos, temo, não
Esperai!... vejo trilhada
De rastro (11) a vereda... Ah cão!
Palavras não eram ditas,
Já corria o tubarão.
II
Sobre a encosta do serro (12) empinado
Uma onça pintada acuou;
Eram brasas seus olhos medonhos,
Muitos cães já o monstro matou!
Um restava – estafado – sangrento –
Que avançava aos estumos d’iscou! (13)
Para um canto jaziam cançados
Muitos bravos com pedras na mão!
Um somente co’a fera lutava,
Açulando (14) o fiel tubarão!
Cada grito d’iscou! Retumbava
Qual retumba no espaço o trovão!
Era só, mas seu rosto brilhava
Como brilha o semblante do herói!
Muitas vezes à boca da furna
Investia valente – qual sói (15)
Ser o bravo guerreiro ferido
Que a ferida não mostra que dói!
E lidava e lidava – afilando
O brioso, fiel tubarão;
E uma pedra vibrando, raivoso,
Fez a fera rolar pelo chão
Tremeu ela... gemeu... dando um urro
Que troou como troa o trovão!
E o guerreiro das matas repete
Novo golpe que o onça matou;
E, co’o peito incendido (16) de glória,
Seus amigos, por fim animou
Com a rude canção que dos lábios
Entre vivas e aplausos cantou.
III
Sou filho destas catingas,
Donde vós também os sois;
Nunca temi o novilho,
Como a onça temer pois?
Co’o ferrão (17) topo-os na testa,
Inda vindo dois a dois!
Não me abate o frio inverno,
Nem de agosto os quentes sóis. (18)
Nunca tive dor de dente,
Nunca tive indigestão,
Nunca doeu-me (19) a cabeça
Nunca sofri retenção, (20)
Nunca andei pelas cidades,
Nunca passei do sertão,
Nunca rojei, suplicando,
Pelos pés do cortesão.(21)
Com setenta anos de idade
Inda não sei me torcer;
Ando de pé quase sempre,
Sofro o frio sem tremer;
Lamento os moços de agora
Que vivem tudo a temer;
Nunca chorei nos meus dias,
Nunca me ouviram gemer.
Sou solteiro, - não casei-me
Porque Deus não permitiu;
Amei uma linda moça
Como igual nunca se viu!
Mais leve que uma veada (22)
Que o caçador pressentiu,
Ela não era da terra,
Co’os os anjos ao céu subiu!
Confessou-me que no mundo
Eu só era o seu amor!
Que vez, tocando a rabeca, (23)
Vi-lhe (24) no rosto o palor, (25)
E uma lágrima comprida
Banhar-lhe o seio d dor!
Nem pai nem mãe tinha ela,
Tinha-os levado o Senhor.
Vivia do seu trabalho,
Honrada como ninguém!
Pelos quereres (26) da vida
Eu adorava-a que nem
Tenho palavras que possam
Pintar-vos todo o meu bem!
Mas ela foi-se e eu cá vivo,
Enquanto a hora não vem...
Desprezei o casamento,
Do mundo não quis saber;
Meus pobres pais em meus braços
Eu vi-os também morrer.
Poucos amigos me restam...
As onças vivo a bater.
- Sou cristão, assisto à missa,
confesso-me; eis meu viver.”
_______
Eis a rude canção que cantava
O Senhor do fiel tubarão,
Que zombava do mundo e das onças,
E dos males, das eras (27) de então.
Comentários
1) Onça. Nome vulgar nas espécies de animal carnívoro do gênero felino. De modo geral, a onça pintada ou verdadeira, de ocorrem as espécies suçuarana e tigre. À onça preta se dá o nome de onça-tigre, muito feroz.
2) Vedes. Verbo ver na 2ª pessoa do plural do indicativo presente.
3) Trinta mil réis. Mil réis era a antiga moeda brasileira. Em 1942 passou a cruzeiro, dividido em centavos. Reis é plural de real (moeda).
4) Nunca me ele faltou. Próclise é a colocação do pronome átono antes do verbo. Os clássicos costumavam colocar o átono antes do reto, quando ocorria na frase advérbio notadamente de negação. O fato se chamou e se chama reforço da próclise.
5) Polv’ra. Por pólvora. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação.
6) Tubarão. O cão, o cachorro.
7) Peeiro. Lugar onde se peiam os animais.
8) Alazão. Cavalo cor de canela. É palavra árabe.
9) Estumei. Verbo estumar. Assanhar (os cães) por meio de gritos e assobios apropriados.
10) Ferro. O facão.
11) Rasto. Também pode dizer-se e escrever-se rastro.
12) Serro. Pronuncia fechada (ser). Espinhaço.
13) Estumos de iscou. Os dicionários não agasalham estumo. Tenho impressão que o poeta empregou estumo como grito, assobio (para assanhar os cães). Macedo Soares diz que estumar é verbo tirado da interjeição ist! ist! “com que se estumam os cães”. Assim estumo seria deverbal de estumar. O poeta empregou ainda iscou. Há o verbo iscar, o mesmo que açular (os cães). Mas iscou na expressão acima está como interjeição.
14) Açulando. Do verbo açular. Instigar (cães) por meio de gestos, gritos. Emprega-se também em sentido figurado: irritar, provocar.
15) Sói. Verbo soer. Defectivo. Significa costumar e só se conjuga nas seguintes formas: sói, soem (indicativo presente); soia, soías, soía, soíamos, soíeis, soíam (pretérito imperfeito do indicativo; soído (particípio).
16) Incendido. É o verbo incender, acender, inflamar.
17) Ferrão. Ponta aguda de ferro.
18) Sóis. Plural de sol.
19) Nunca doeu-me. No tempo em que José Coriolano escreveu ainda não se havia disciplinado a colocação dos pronomes átonos. Hoje se diria: nunca me doeu.
20) Retenção. Prisão de ventre. Dificuldade de evacuar.
21) Cortesão. Empregado no sentido de homem de corte, palaciano.
22) Veada. Fêmea do veado. Venatum. Adjetivo latino do verbo venari (caçar). Tal adjetivo indicava, a princípio, todo e qualquer animal obtido pela caça. Hoje veado designa o antigo cervo.
23) Rabeca. Espécie de violino, quatro cordas de tripa friccionadas com um arco de crina, untado no breu.
24) Vi-lhe. Correto emprego do lhe em função possessiva, correspondente a seu, dele.
25) Palor. Cor pálida.
26) Quereres. Emprego de querer como substantivo. Ato de querer: o querer, os quereres (vontade).
27) Eras. Plural de era: época.
Em Que Pensas?
(pelo cólera) (1)
A estas horas, quando em noite turbida
Elevam todos seu esp’rito (2) a Deus,
Temendo os males que ao mortal misérrimo
Envolver tentam nos horrores seus;
A estas horas, quando a chuva em cântaros
Alaga as ruas tão intensa assim,
Que mais assusta os timoratos ânimos,
Bela, em que pensas? Pensarás em mim?
Além rouqueja pelo espaço altíssono
A voz do Eterno no feroz trovão,
Que abala a terra ao fuzilar contínuo
Que à terra vibra do Senhor a mão.
Enquanto a guerra pelo espaço horrífico
Os elementos travam feia assim,
Dormes ou cuidas, linda virgem cândida?
Bela, em que pensas? Pensarás em mim?
Ah! tu respiras junto à mãe solícita,
Sem que um idéia de volteje má;
Nem talvez pensas que o cruel contágio
Possa ferir-me sem que eu volte lá!
E eu entre os males, entre as duras fráguas
Em ti só penso! Crê-lo-ás assim?
Mas tu tão longe, criatura Angélica...
Bela, em que pensas? Pensarás em mim?
Não queira a sorte, nem o Céu propício
Que eu morra inglório, sem gozar feliz
Os teus encantos que na vida fazem-me
Olvidar males, de que amor maldiz.
Goze eu a glória, seja embora efêmera,
De nos teus braços ser ditoso assim
Como cogito no sonhar poético...
Bela, em que pensas? Pensarás em mim?
Comentários
1) Cólera. Veja estudo noutro local.
2) Esp’rito. Espírito. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.
A Filha do Deserto
Eu sou a triste filha do deserto,
Que Deus na terra ingrata abençoou;
Se suspiros e lágrimas desperto,
Consolações e paz também eu dou.
Quando as pompas do mundo te enfastiam,
E os prazeres sensuais, que te inebriam,
Derramam-te o horror no coração,
Quem é que, entre sorrindo e lacrimosa,
Que mãe enternecida e piedosa,
A ter com Deus te guia pela mão?
Eu sou o amigo oásis (1) do deserto,
Que Deus ao viajante fabricou;
Se as saudades da pátria em ti desperto,
Em ti também à pátria um gênio dou
Onde o luso escreveu essa epopéia, (2)
Gigante filha dessa nobre idéia,
Que deu a Portugal fama e brasão? (3)
Onde é que o vate geme suspiroso
As desgraças de um mundo tormentoso,
Fértil em males, fértil em traição?
Eu sou a companheira do proscrito, (4)
Como fui do Alverenga e do Dirceu; (5)
Se gemidos arranco ao peito aflito,
Também extingo-os no regaço meu.
Acrisola-se em mim a penitência,
Faço em mim ver o ateu a Onipotência,
Dos olhos seus rasgando o denso véu;
Em mim todos encontram pronto meio
De chegar-se ao Eterno ao imenso seio,
De ganhar-se um asilo lá no céu.
Era em mim o Sinai, (6) em que contrito
Moisés (7) quarenta dias jejuou,
E o Horto, (8) em que o discípulo maldito (9)
Com um ósculo ao Mestre (10) atraiçoou;
E o Horebe, (11)junto ao qual a sarça ardia,
E o presépio, em que viu a luz do dia
E a Estrela mais gentil da redenção:
Eu sou, mortais, a filha do deserto,
Que o amor e a contrição em vós desperto:
Eu sou, mortais, eu sou a solidão!
Comentários
1) Oásis. Lugar aprazível, coberto de vegetação, no deserto. No singular e no plural tem a mesma forma.
2) Onde o luso escreveu essa epopéia. Referência ao poeta português Luís de Camões, autor do poema épico “Os Lusíadas”.
3) Brasão. Noutro local há comentário sobre brasão.
4) Proscrito. Desterrado.
5) Alvarenga e Dirceu. Referência a Alvarenga Peixoto, poeta brasileiro do século XVIII integrante da chamada Escola Mineira, lírico; Dirceu é pseudônimo, ou nome árcade, de Tomás Antônio Gonzaga, português de nascimento, que se radicou em Vila Rica (Ouro Preto). Autor do célebre livro de poesias “Marília de Dirceu”. Marília foi Maria Joaquina Dorotéia de Seixas Brandão, sua noiva. Ambos os poetas se envolveram no movimento político da Inconfidência Mineira.
6) Sinai. Nome de uma montanha, aonde chegaram os israelitas depois da saída do Egito. Do cimo deste monte foi proclamada a lei dos dez mandamentos e na sua base foi ratificado o pacto que formou a nacionalidade hebraica, que tinha Jeová por rei.
7) Moisés. Grande legislador hebreu. Instruído na literatura egípcia, pois era filho adotivo de uma princesa do Egito. Descobriu que Deus o chamara para ser libertador dos israelitas, seus irmãos. Retirou-se do Egito. Muito refletiu, na solidão do deserto. Depois do episódio da sarça, Moisés voltou ao Egito. Aí tomou o comando do povo hebreu. No Sinai foi admitido a íntimas relações com Deus. Obteve de Deus os estatutos, baseados nos dez mandamentos. Numa das ocasiões em que foi chamado por Deus ao monte, jejuou quarenta dias e quarenta noites. Como organizador de um povo, Moisés dotou Israel com instituições civis e religiosas de primeira ordem. Possuía dotes de estadista.
8) e 9) Horto e discípulo maldito. Referência ao Jardim das Oliveiras, onde Jesus foi preso por soldados, acompanhados de Judas Iscariotes. É o mesmo Jardim de Getsemâni.
10) Com um ósculo atraiçoou o Mestre. De acordo com um sinal previamente combinado, a fim de indicar aos soldados a pessoa de Jesus, Judas adiantou-se e saudou o mestre, beijando-o na face.
11) Horebe. Veja nota 6. é o monte Sinai.
12) A sarça ardia. Quando terminou a meditação de Moisés no deserto (veja nota 7), foi ele surpreendido com o incêndio de uma sarça que ardia sem se consumir. Aproximando-se para observar o fenômeno, o Senhor o chamou no meio da sarça para ir libertar o seu povo.
A Noiva
Ei-la tão bela e casta – pensativa...
Sobre a mão descasando a linda face!
Ei-la de leve abrindo os róseos lábios
E um ai soltando que em Jesus termina!
Ah! que uma lágrima dos meigos olhos
Ora lhe inunda o encantador semblante;
Mas um sorriso brinca-lhe nos lábios,
Dando a seu pranto salutar antídoto! (1)
Vede-a, não mais suspira, a breve boca
O sorriso descerra, pudibundo,
Tão cheio de inocência e de candura,
Tão pudibundo que de sê-lo cora!
Mas, dor! – de novo o pranto se sucede,
De novo o riso nos seus lábios pousa!
Virgem, virgem do amor, que alternativa
Tu’alma ingênua assim contrista e alegra?
Que sentes, virgem? Que mistério é este?
Por que tu choras, enrubesces, ri-te?
Como é que o pranto te sucede o riso?
Como é que ao riso te sucede o pranto?
Virgem, virgem de amor, eu te perscruto...
Os recônditos, puros pensamentos
Descortino-te, e sei porque suspiras
Tão grato suspirar envolto em gozos.
________
És noiva, em breve teus dias
Vão tomar diversa cor,
Não turvos, sempre serenos
Nos doces laços do amor.
Se pensas, virge, e suspiras,
Se acendes na face a cor,
Suspiras, virgem, de pura,
Pensas nos laços do amor.
Teu terno pranto coado
Da saudade no rigor,
O seio materno banha,
Banha as mãos do genitor.
Teu riso adoça a lembrança
Da posse desse penhor,
Que por ti somente anhela
Os doces laços de amor
Tu’alma é como a de um anjo
De um Serafim do Senhor;
É pura como a das virgens
Que habitam co’o Salvador.
Se pensas, virge, e suspiras,
Se acendes na face a cor
Suspiras, virgem, de pura,
Pensas nos laços de amor.
_______
Tu pensas! não sabes se acaso um futuro
Pra ti se reserva de angústias pejado;
Tu pensas! não sabes se o nó que meditas
Será feliz sempre, ditoso, sagrado.
Tu choras! teu pranto saudades revela,
Revela lembranças do tempo passado;
Tu choras! teu pranto nos joelhos goteja
Da mãe carinhosa, do pai desvelado.
Tu ri-te! teu riso te afaga a lembrança
De unires-te (2) àquele que te é tão prezado;
Tu ri-te! (3) teu riso demonstra a certeza
De seres, ó virgem, penhor muito amado.
Tu coras! o nácar (4) que às faces te sobe.
Que o rosto formoso te faz mais rosado,
Ó virgem, demonstra que és pura, que és bela,
Que um nó tu meditas difícil, sagrado.
E a virgem que pensa na sorte futura,
Que chora saudosa – do tempo passado,
Que ri-se (5) à lembrança de mútuo amor terno,
Que cora de um laço tão puro e sagrado:
Oh! não! essa virgem, tão puro, tão santa,
Às portas tremendas do templo sagrado,
Um beijo não cede, não vende perjura
Ao vil que a requesta, profano, malvado.
Comentários
1) Antídoto. É o emprego anti (contra) e doto (dado). Antídoto significa dado contra. Contraveneno. O poeta empregou a palavra em sentido figurado: remédio contra um mal moral.
2) Na época em que o poeta escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos.
3) Vide nota 2
4) Nácar. Cor de carmim. Cor-de-rosa.
5) Que ri-se. Veja as notas 2 e 3
Nênia
(À morte de meu colega Manuel Alexandrino da Silva Girão, falecido no dia 8 de maio de 1855, quando estudante do 1º ano da Faculdade de Direito do Recife.)
Frágil homem, mortal, que és tu no mundo,
No grande espaço do universo solto?
- Hoje vida e prazer; - hoje alegria:
- Amanhã cinza ou nada, em morte envolto.
Hoje vida e consolo; hoje esperança,
Reluta a mente co’o poder da sorte:
Mas não reluta, por lhe ser defeso, (1)
Co’o tremendo poder que vem da morte.
E ela tirana, com seu ferro ervado,
Prostra o mancebo no florir dos anos;
Desfaz a glória de seus sonhos magos,
Sem que vença o porvir de seus arcanos.
Ó morte, és bem cruel! Por que roubaste
O filho pelo qual a mãe suspira?
Por que roubaste o devotado amigo,
Cuja lembrança tanta dor inspira?
Mas ah! que a flor singela da campina
Muitas vezes abate o vento forte,
Como a vida singela do mancebo
Muitas vezes decepa a crua morte!
Tua vida exalou-se, como o incenso, (2)
Como esvai-se da flor o doce cheiro,
Fugiu de sobre a terra como foge
A cristalina fonte de um ribeiro.
Foi unir-se ao Senhor, grato consolo!
Que um prêmio lá no céu tem a virtude;
Foi unir-se ao Senhor, que o céu acolhe,
Quando morre contrita a juventude.
Mas a dor que min’alma dilacera
Quanto é pungente! Que cruel saudade!
Quanto é breve, meu Deus, quanto aflitiva
A vida humana nesta soledade!
Frágil homem, mortal, que és tu no mudo,
No grande espaço do universo solto?
- Hoje vida e prazer; - hoje alegria:
- Amanhã cinza ou nada, em morte envolto.
Comentários
1) e 2) Defeso e incenso. Palavras comentadas noutro local deste livro.
Observação: três espécies de cantos ou poemas havia na antiga Roma recitados nas exéquias de pessoas notáveis: a nênia era declamada ou cantada junto à fogueira, em que se incinerava o cadáver; o epitáfio era gravado sobre a urna; e o epicédio era pronunciado na cerimônia dos funerais, estando o corpo presente. O vocábulo epitáfio ainda tem a mesma significação. A nênia e o epicédio são hoje elegias fúnebres compostas para celebrar ou lamentar a perda de pessoa ilustre e querida (Veja – Olavo Bilac e Guimarães Passos – “Tratado de Versificação” – 135, 136)
Entrevista
Quero pedir-lhe uma coisa.
“Duas e três: diga, peça.”
Não se zangue: dê-me um beijo.
“Tudo farei, menos essa...”
Deixe disso: dê-me um beijo.
“Logo lhe dou, não se vexe.” (1)
É que você não me estima.
“Não diga tal, não se queixe.” (2)
Mas por que não dá-me (3) o beijo?
“Não lh’o dou por ser donzela.” (4)
Pois então dê-me um abraço.
“Bem tola, se caiu nela!”
Nada então você quer dar-me?
“Dou-lhe este róseo botão.”
Somente! nada mais dá-me? (5)
“Dou-lhe mais meu coração.”
Poderei dispor só dele?
“Esta é boa! Por que não?”
Então não tem outro dono?
“Por Deus lhe juro que não.”
Porém... quando dá-me (6) o beijo?
“Quando der-lhe (7)a minha mão.”
Mesmo à face dos altares?
“Deus me defenda! Aí não.”
Ah! já sei, você tem medo.
“Medo, não; vergonha, sim.”
Pois escute: é um segredo...
“Ai beijou-me! Só assim.”
Comentários
1) e 2) o poeta rimou vexe (ê) com queixe. Não é rima perfeita, mas muito usada.
3) Não dá-me. Na época em que José Coriolano poetou, não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: não me dá.
4) Donzela. Emprego no sentido de virgem. Mulher virgem.
5) Nada mais dá-me. Veja nota 3
6) Quando dá-me. Veja nota 3.
7) Quando der-lhe. Veja nota 3.
Só Eu Não Morro
Morre a inocente criança,
Esperanças de seus pais;
Morre a donzela formosa,
Nem coram-lhe as faces mais!
Morre o poeta mimoso
Que em brandos versos cantou
Sua pátria, seus amores,
E tudo que o inspirou!
Dentre o catre (1) da velhice
Sempre querido o ancião,
Deixa o filho inconsolável,
Deixa mais de um coração!
A brisa que sobre a tarde
Vem co’as ramas cochichar,
Se perde no espaço imenso,
Nem pode mais murmurar!
Morre a flor que se embalança
Na linda haste que a sustem,
Tudo morre neste mundo:
Morre a virtude também!
Tudo morre, é bem verdade!...
Mas eu por que vivo sou?
Se as flores e as virgens morrem,
Por elas por que não vou?
Eu irei... é bom que finde
Este leal coração,
Que há tantos anos padece,
Sem achar consolação!
Flores donosas da terra,
Mimosas virgens de Deus,
Não morrei, (2) por vós eu parto,
Lembrai-vos de mim. Adeus!
Comentários
1) Catre. Cama pobre, miserável.
2) Não morrei. Trata-se de imperativo negativo. O imperativo negativo faz-se com o subjuntivo presente: não morrais.
Hino à Tarde
Mas eis a tarde de primores rica!
Em mimos co’a manhã rivalizando.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Marques de Paranaguá
I
Tarde meiga e gentil, se tu não fosses
Mais triste que a manhã, mais melancólica,
Quantas vezes comigo meditando,
Precursora do sol te julgaria!
Mas, depois, atentando em teus langores,
Na dor, na compaixão que em ti transluzem,
Conheço o teu fadário neste mundo
Não es ditosa, - não – e só tens risos
Para o filho infeliz da desventura.
Tarde meiga e gentil, amo-te muito!
Que peito pode haver ingrato e rude
Aos influxos suaves que respiras,
Sem do passado refletir saudoso
Nos dias de prazer que já gozamos!
Ou em que em teu seio, ébrio de saudade,
Não gema e não suspire, e aos tristes olhos
Não mande um pesaroso pranto – amigo!
Oh! sim – eu chorarei, porque meu peito
Às vezes no chorar encontra alívio.
Tarde meiga e gentil, amo-te muito.
Se compassiva os corações tu prendes,
Como nos prende com seu pranto a órfã,
Se a mente em santo arroubo nos enlevas,
Como o riso da virgem pudibunda
Que o selo marca de um sofrer intenso,
Porque da frouxa, dissonante lira
Sentidos carmes te ofertar não devo?
Oh! sim – eu cantarei, porque meu peito
Às vezes no cantar encontra alívio.
Tarde meiga e gentil, amo-te muito!
II
Quanta é bela a manhã, surgindo alegre
Das partes do oriente, em que se arreia (1)
Que formosos listões (2) de fogo e púrpura,
Que sua cor dourada comunicam
Às campinas, à fonte, às cumeadas!
O levantino (3) mar é todo rosas
No seu leito de areia a espreguiçar-se
Oh! quanto a aurora despontando é bela!
Tarde, filha do céu, os teus encantos
Não lhe ficam somenos: (4) tu guarneces
Também as nuvens brancas de escalarte,
Quando além do poente o sol se esconde.
Um manto sobre o mar também estendes
De vermelhos listões também formado.
Vales, campinas, fonte e campanários
Com seu meigo arrebol também matizas.
Se a natureza ri-se (5) com seus raios,
Se bafejam as auras docemente,
Enchendo de fragrância os horizontes,
Também, tarde gentil, no teu regaço,
Ao sepultar-se o sol, as aves trinam,
Suspira a natureza, as auras sopram,
Embalsamando os ares de fragrância.
Em ti se encontra amor, ledice, encanto!
O proscrito, (6) nas lágrimas que entorna,
No teu suave seio alívio encontra;
Encontra alívio aos duros sofrimentos
O desgraçado que de amor padece.
Chora a tarde o extremoso amigo a ausência
Do amigo que no peito traz gravado.
Choram os pais pelos ausentes filhos,
E os filhos pelos pais ausentes choram.
O amante pela amada em dor se fina (7)
E a amada pelo amante em dor consome-se.
Todos carpem à tarde, e acham consolo,
Se da ausência os rigores crus suportam.
Extático (8) o poeta te contempla!
E que idéias tão ternas se associam
Por teu tristonho porte despertadas!
Te semelhas à virgem que suspira,
E como ela também és triste e bela.
Mas na tua tristeza o mel se bebe
Que tranqüiliza os corações que sofrem.
Num triste cogitar se encontra às vezes
Lenitivo, que os males dissipando,
Torna a mente de novo ao seu descanço.
Ó tarde, doce amiga, quanto te amo!
Que vezes me ofereceste desafogo
As saudades que assaz me acompanhavam!
Que vezes dos meus olhos roxeados
Já de muito chorar, mais novo pranto
Arrancaste, a minh’alma consolando,
Que em chorar também há consolo pronto!
E quando esses momentos soidosos (9)
Melancolia só me prodigavam,
Onde soltava os meus gemidos longos
Que “saudades e ausência” só diziam?
Soltava-os nessas sombras que ministras
De copado arvoredo sussurante
Ou no abrigo das penhas que resistem
Aos embates do vento duro e forte.
Ó tarde! – quanto és grata aos que padecem!
Quanto mais tu das trevas te aproximas,
Mais exultam d’alegres dous amantes.
III
Porém, céus! – que feliz coincidência
Mais a tarde enfeitiça no meu canto!
Eu escuto uma voz que me desperta
Na mente altiva pensamentos puros,
No peito nobre sentimentos caros.
Pobre virgem! quem sabe o que ela sofre!
IV
Que belo quadro – agora – além contemplo!
Perto de mim – sereno – se desliza
O meu velho Poty. (10) Como amoroso
Recebe na rugosa e limpa face
Macios beijos das trementes ramas,
Que as margens lhe embelecem de verdura!
Que sons tão meigos! – que trinados ternos!
São canoros cupidos (11) que saudosos
Despedem-se da tarde que se ausenta.
E lá voa também a parda rola (12)
Do movediço galho do mofumbo,
Que deixou de gemer neste momento;
E vai no interior, talvez, da selva
Em procura do esposo que ela adora.
V
Horas propícias, horas de repouso,
Em que o duro trabalho abandonando
O rude camponês, fruir vem mimos
Da linda esposa que na porta espera
E graças infantis, travessos brincos
De tenra prole, que sentada em torno
Da carinhosa mãe, lhe pede um conto,
Uma história de fadas, de Trancoso, (13)
Onde falem pombinhas e outras aves,
A piaba, (14) a sardinha, outros pescados,
E a quem um beijo, uma promessa ilude,
Convidando a dormir – tão crente e pura.
Ó horas de repouso, eu vos saúdo!
VI
Talvez, agora mesmo, além vogando,
Garbosa como um cisne, uma barquinha
Conduza sobre o mar sereno e quedo
Ditoso amante porque aos lares volta,
Depois de haver em doce amigo abraço
Afogado a saudade que o pungia
Ou pode ser que alguém... (talvez que um bardo) (15)
Infeliz chore a perda irreparável
Da prenda que o amava e que constante
Amor lhe merecia do imo (16) peito.
Talvez, que agora mesmo, sobre a laje,
Que dela cobre os restos preciosos,
Ensine, soluçando, às mansas brisas,
Tristes endechas, (17) suspirosas nênias! (18)
VII
Tarde, tarde de amor, que som penoso
Te quebra a placidez do almo remanso,
Prenhe d’inspirações que infudem n’alma
Um sentir que nos lembra a Eternidade?
É o toque do sino que anuncia
A hora angelical: (19) eia... rezemos;
Um momento, sequer, aos céus divinos
Nossa mente se eleve em santo arroubo!
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Só tu, ó tarde, encerra tais encantos!
Ó tarde mais gentil que a manhã bela!
VIII
Já por outro hemisfério o sol radia!
E mal no ocaso seu fulgor vislumbra.
A noite já desdobra sobre a terra
Sombrio véu que a torna erma e tranqüila.
Já tremulam no céu tíbios luzeiros,
Decorando de brilho a azul esfera, (20)
Já rutila saudosa e meiga lua,
Beijando o vale ameno e a flor do lago!
IX
E a deus, ó tarde meiga, um ai recebe
Deste que te cantou.
Sê formosa como é sempre a bonina (21)
Que em ti desabrochou.
Como a virgem que ardente o bardo adora,
Que em teu seio chorou;
Que gemeu, por não vê-lo em teu regaço,
Que tanto suspirou.
E adeus mais outra vez, ó tarde amiga,
Tarde do coração;
Dá-me sempre de amor saudoso pranto,
Dá-me consolação.
Em ti, somente em ti penso nos dias
Passados – que lá vão...
Contigo e só contigo os males choro
Do triste coração.
E adeus, terceira vez, tarde querida,
Meu inocente bem
Outros bardos inspira e prende meiga
Por onde vais – além.
Sem teus amores e perfumes castos
Que gosto a vida tem?
Adeus! – té amanhã: sentidos versos
Sempre inspirar-me vem.
Comentários
1) Arreia. Verbo arrear, ornamentar, enfeitar.
2) Listões. Palavra já comentada.
3) Levantino. Relativo ao Levante (o mesmo que leste).
4) Somenos. Adjetivo. De qualidade inferior.
5) Se a natureza ri-se. No tempo em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: se a natureza se ri ou se se ri a natureza.
6) Proscrito. Observação neste local deste livro.
7) Em dor se fina. Verbo finar-se, morrer.
8) Extático. Enlevado, maravilhado. Não confundir com estático (que está em repouso, parado).
9) Soidosos. Forma antiquada de saudoso.
10) Poti. Já observado noutro local.
11) Cupidos. Personificação do Amor. Amantes. Não confundir com cupido.
12) Rola. Já observada a palavra noutro local.
13) Trancoso. Aparece na expressão “História de Trancoso”. Afrânio Peixoto escreveu nas notas ao seu romance “Bugrinha”: “Outro livro que Portugal e o Brasil conheceram e vão esquecendo injustamente, “Contos de História e Proveito e Exemplo”, muito popular em tempo, entre as nossas populações rústicas. Além de livro de leitura e edificação, trazia, apensas, regras de urbanidade e polícia moral, com que educava nas boas maneiras. Várias vezes ouvi, na minha infância o ditado: - São histórias de Trancoso – como cousa difícil de ser acreditada, pela piedade e bom regimento, ironia do povo ao ingênuo autor que lhe encantou e sujeitou a infância, contando-lhe aventuras para proveito e exemplo, para os fazer pessoas prudentes e graves, o que é sempre aborrecido e molesto. Ao bom Gonçalo Fernandes Trancoso deu recente e merecida ressurreição o mais formoso volume da “Antologia Portuguesa”, que dirige o sábio Agostinho de Campos (Lisboa, 1921)”. (“Bugrinha) – pág. 350).
14) Piaba. Peixe de água doce. Peixe pequeno.
15) Bardo. Poeta.
16) Imo. O mais profundo.
17) Endechas. Palavra comentada noutro local.
18) Nênia. Palavra comentada noutro local.
19) Hora angelical. Angelical é o mesmo que angélico. Relativo aos anjos. Hora angelical é a hora do ângelus, oração em honra ao mistério da Encarnação. Toque do sino que indica aos fiéis o momento de recitar tal oração, no fim da tarde.
20) Azul esfera. O firmamento.
21) Bonina. Planta dos prados.
A Rola e o Gavião
Estava a rola em seu ninho,
Quando aponta um gavião, (1)
Que já tinha um borrachinho (2)
Roubado a seu coração.
“Que vem ver, ave inimiga?
Não basta o que sofri eu?
Talvez mui (3) breve se diga:
A triste rola morreu!”
- Rola – lhe diz o tirano,
Dá-me esse pobre pagão; (4)
Ficarás em paz este ano,
Todo o resto da estação – (5)
Diz-lhe a rola: “Ave inimiga,
Dize: que mal te fiz eu?
Talvez mui breve se diga:
A triste rola morreu!”
- Dá-me, inocente, mesquinha,
Dá-me teu filho, se não (6)
Eu juro comer asinha (7)
Filho e mãe sem distinção –
“Paciência, ave inimiga,
Foi este o destino meu!
Talvez mui breve se diga:
A triste rola morreu!”
E a cruel ave despreza
As queixas que ouvia em vão:
Filho e mãe faz sua presa,
Come-os com sofreguidão
E voando a ave inimiga,
Pra sempre o ninho esqueceu!
Porém há tanto quem diga:
A triste rola morreu!
Comentários
1) Gavião. Ave de rapina.
2) Borrachinho. Diminutivo de borracho. Diz-se de borracho do filhote do pombo. José Coriolano empregou a palavra como filhote da rola. Silveira Bueno leciona que borracha, latim burrago, burraginis, derivado de burra, pele, era vasilha para líquidos, garrafa. Mas na borracha também se colocava vinho e daí se chegou a noção de bêbedo que se vê em borracho: cheio de vinho. O filhote de pombo – borracho – se prende a burra, pele, “mas sobre outro aspecto, sob o aspecto da cor: a pele nova é vermelha e a lã avermelhada, não clara, também era chamada burra. O borracho então, filhote de pombo, tem tal nome já pela cor da pele e também porque, em geral está gordinho, cheinho”. (“Questões de Português” – 1ª série – 68, 69).
3) Mui. Já observado noutro local.
4) Pagão. Empregado no sentido em que não tem padrinho, desprotegido.
5) Estação. Cada uma das quatro partes do ano, diferentes pelas condições de temperatura (primavera, verão, outono e inverno).
6) Se não. Separados os dois elementos quando significa caso não, como no texto.
7) Asinha. Não se trata de diminutivo de asa, mas do advérbio depressa, sem demora, antiquado.
A Morena
Estende no cavalete (1)
O pintor a branca tela,
Já lhe transborda a paleta (2)
De alambre, (3) jambo (4) e canela. (5)
Não é a Vênus (6) dormindo,
Nem também do mar saindo,
Que o quadro vai animar:
É a morena mimosa,
De face tão setinosa,
De tão mavioso olhar!
Dá vida, pintor, à tela,
Empunha, poeta, a pena:
Ei-la! Que moça tão bela!
Que encantadora morena!
Não sombreiam suas faces
Rubim e corais (7) vivaces (8)
Sobre um tez de marfim;
Mas nas faces tem a musa (9)
O garbo de uma Andaluza, (10)
As graças de um Serafim.
Painel soberbo! – nas aras
Profanas de tempo adusto,
Belezas assim tão raras
Valem mais que heróico busto.
Marca o guerreiro o nome
No batalhar que o consome
Entre lagos de cruor;
A tua glória, morena,
É perfumosa e serena
E grata como a da flor.
Sobraçara Homero (11) a harpa (12)
Para tecer-te odisséias, (13)
Te invejara a breve charpa
Essa mãe do pio Enéas, (14)
Ossian (15) no seu alaúde
Te consagrara não rude
Um belo canto escocês; (16)
E até das azuis campinas
As plêiadas (17) peregrinas
Te cobiçaram a tez.
De alambre, jambo e canela
Extrata, (18) pintor, as tintas,
Extrata, e anime-se a tela
Com essas cores distintas.
Na tela o pincel, na história
Do bardo a pena, - que glória!
Vão-te a cor eternizar:
Tu es na terra, morena,
Fadada, como a Sirena (19)
Nos régios paços do mar.
Comentários
1) Cavalete. Armação de madeira, que lembra o cavalo.
2) Paleta. O mesmo que palheta. “Tabuinha delgada, geralmente oval, com abertura para o polegar da mão esquerda, utilizada pelos pintores para dispor e combinar as tintas” (Nascentes).
3) Alambre. É o âmbar. Resina fossilizada. Cor amarela.
4) Jambo. Fruto. De cor loura, esbranquiçada, ou tirante a cor da gema do ovo.
5) Canela. Árvore e especiaria. Cor alourada.
6) Vênus. Da mitologia. Deusa da beleza e do amor, nasceu da espuma do mar.
7) Corais. Concreção calcária e ramosa, geralmente vermelha.
8) Vivaces. O mesmo que vivazes. Vivace é forma antiquada.
9) Musa. Emprego no sentido de mulher inspiradora de um artista.
10) Andaluza. Mulher da Andaluzia, capital Sevilha, na Espanha. As mulheres andaluzas são atrativas, têm algo secreto nos olhos, nos gestos, na personalidade. Inspiraram grandes pintores.
11) Homero. Poeta épico grego cuja vida, desde o século VI a.C., tem sido assunto de lendas. Diziam-no cego. A ele são atribuídas as duas grandes epopéias “Ilíada” e “Odisséia”.
12) Harpa. Instrumento musical de cordas, forma triangular.
13) Odisséia. Título da epopéia de Homero. O poeta empregou odisséia como viagem cheia de aventuras extraordinárias.
14) Enéias. Príncipe troiano, filho de Vênus e de Anquises, herói do poema “Eneida”, de Virgílio. Combateu corajosamente os gregos durante a guerra de Tróia. Aportou ao Lácio, território dos latinos. Daí nasceram Roma e a Itália.
15) Ossian. Herói e poeta da Escócia (século III).
16) Escocês. Natural da escócia. A mais setentrional das três partes das Ilhas Britânicas, ao norte da Grã-Bretanha.
17) Plêiadas. Também plêiades. Designação geral das sete filhas de Atlas e de Plêiona. metamorfoseadas em estrelas.
18) Extrata. Verbo extratar, extrair.
19) Sirena. É o latim sirena, que, pelas transformações fonéticas normais, passou a sereia, ser mitológico, gênio feminino malfazejo, representado geralmente na forma de peixe, com cabeça e peito de mulher. Os primitivos navegadores acreditavam que a sereia, que diziam ter canto mavioso, atraía os marujos para o mar, onde morriam afogados.
A Canção do Serrano (1)
Deus Senhor compadecido
Nossas preces atendeu;
A seca que ameaçava.
Dentre nós despareceu. (2)
Graças a Deus, temos chuva!
Graças a Deus já choveu!
Eia, meus filhos, partamos,
Vamos à serra plantar,
Vamos as perdas passadas
Este ano recuperar:
Milho, arroz, feijão, farinha,
Teremos tudo a fartar.
Agora a seca arrebenta,
Coragem! Meus filhos, fé!
Teremos bastante chuva,
Boa safra de café.
Graças à Virgem Maria,
Louvores a San’José. (3)
Esta noite ouvi a porta
Muitas vezes estalar;
Esta noite a rã esteve
Constantemente a raspar... (4)
São sinais de bom inverno:
Vamos, rapazes, plantar.
Também reparei que à noite
Esteve a relampejar
Para as partes do nascente, (5)
Toda noite num cortar!
É sinal de bom inverno:
Vamos, rapazes, plantar.
Vamos, que a vida da serra.
Tem primores que mais não!
Nosso peito se dilata,
Bate alegre o coração
Quando chega o fresco inverno
E foge o quente verão.
É belo à tona da terra
Ver-se o legume brotar;
É belo vê-lo ir crescendo,
Crescendo até se fechar;
É belo em manhã serena
Na roça se passear.
E quando o milho começa
No roçado a pendoar, (6)
E depois de pendoado,
Principia a bonecrar, (7)
E as vberdes, lindas bonecas
Começam d’encabelar... (8)
Oh! que então nada no mundo
Eu jugo tão belo assim!
Pode ser lá para os outros,
Mas, não é cá para mim;
Nos gostos não há escolha:
Não há nada bom, nem ruim.
Disse, digo e direi sempre:
Nada me sabe agradar
Como a vista deleitosa
D eum roçado a verdejar!
E como as loiras espigas (9)
Ao lume assando a estalar!
Quando um atilho (10) de espigas
De milho trago na mão.
Ou no ombro atravessado,
Julgo-me mais que um barão! (11)
Não troco a vida da serra
Pelo viver cortesão.
Não invejo o pão das praças,
Pois temos a nossa aipim; (12)
Não há nada tão gostoso
Como o nosso gergelim, (13)
Como a nossa tapioca (14)
E o beiju (15)co’o mondobim. (16)
O queijo também o temos;
Que nos vem lá do sertão;
Nada nos falta, meus filhos,
Temos tudo em profusão,
Não troco a vida serrana
Pelo viver cortesão.
Socorro-nos Deus com chuva,
Que tudo vai bem assim:
Pra completar nossos gozos
Vem a moagem (17) por fim,
A rapadura, (18) a batida (19)
E o enroscado (20) alfinim. (21)
Não invejemos a vida
Que desfruta o cortesão:
Somos aqui poderosos,
Somos nobres que mais não:
Temos a enxada por cetro, (22)
O machado por brasão. (23)
Eia, meus filhos, partamos,
Vamos à serra plantar,
Vamos as perdas passadas
Este ano recuperar:
Pois que o timbre do serrano
Consiste no trabalhar.
Comentários
1) Serrano. Pessoa que habita as serras.
2) Despareceu. O mesmo que desapareceu.
3) São José. Esposo de Maria, mãe de Jesus. Ocupava-se no ofício de carpinteiro. Viva em Nazaré. Parece que morreu antes da crucificação de Jesus, pois não se houve falar dele em companhia das mulheres que estavam junto à cruz do Calvário. Também Jesus não teria recomendado sua Mãe aos cuidados do apóstolo João, se José ainda vivesse.
4) A rã esteve a raspar. Penso que raspar aqui está como sinônimo de arranhar, tocar mal, causar sensação desagradável ao ouvido.
5) Nascente. Ponto do horizonte donde parece surgir o sol.
6) Pendoar. O mesmo que apendoar, guarnecer de pendões. Botar pendão (o milho).
7) Bonecar. Derivado de boneca, espiga de milho em flor.
8) Encabelar. Criar cabelos. Referência aos cabelos da espiga de milho.
9) Espiga. É a parte do milho que termina o colmo e contém os grãos. Latim spica.
10) Atilho. Feixe de espigas de milho.
11) Barão. Título dignitário. Homem ilustre.
12) Aipim. Dos tipos de mandioca (raiz de Jatropha Manihot Euphorbiacea, da qual se faz a respectiva farinha). Dois tipos são comestíveis: a mandioca amarga (Manihot uitilissima), com que se fabricam a farinha de mandioca, beijus, polvilho etc, e o aipim ou aipi (mandioca doce, mandioca mansa ou macaxeira), que se usa cozido, assado ou frito, em bolos etc.
13) Gergelim. Já por variada forma se grafou este nome: gerzelim, zirgelim, gingilim, girgelim,jingeli, gegeri. Fixada a grafia gergelim. Planta da Índia. Bem secas as sementes, torradas, socam-se no pilão com farinha de mandioca, sal e açúcar, ou só farinha e sal, “e dão um prato de cheiro e gosto deliciosos”.
14) Tapioca. Alteração de tipioca. De tipiog (tipioca) em Batista Caetano. Trata-se da farinha de tapioca, que é a goma de mandioca umedecida e preparada, e que fica granulosa.
15) Beiju. Também beju, biju. Há muitos tipos de beijus. É o bolo de massa de mandioca ou da tapioca. Do tupi mbeiú, o enroscado, o enrolado.
16) Mudubim. Na classificação de Lineu, arachis hippojoea. As sementes são comidas cruas ou torradas. Acreditam-se que sejam afrodisíacas. Fornecem óleo para uso culinário e farmacêutico. Leio em Macedo Soares: “A sua celebridade consiste no seguinte: depois de fecundado o ovário, o pendúnculo da flor dobra-se procurando a terra, crescendo até penetrar no chão, onde o fruto desenvolve-se e amadurece”. José Coriolano grafou mudubim, mas a palavra tem variada grafia: mandubi, mendubi, mendobi, mendobim, manobi, mundubi e outras. Fixou-se amendoim, por intercorrência de amêndoa. A palavra provém do linguajar indígena: mandubi ou manduí.
17) Moagem. Ato de moer. O autor faz referência à época de moagem da cana-de-açúcar.
18) Rapadura. Açúcar de tipo inferior, produzido sob a forma de tijolos ou blocos de qualquer formato.
19) Batida. Tipo de rapadura, alvo, não em forma de tijolos.
20) Enroscado. O mesmo que enrolado. Dobrado em roscas.
21) Alfenim. No vocabulário de Mario Sette (“Arruar”) está alfenim com esta definição: “Substantivo masculino. Confeito alvíssimo, sólido mas delicado e quebradiço, muito agradável ao paladar, preparado com melado, que se deixa ao fogo até atingir um ponto especial, quando, então, se retira a massa do fogo, estendendo-se sobre um mármore ou qualquer outra superfície fria. Depois de parcialmente esfriada, puxa-se a massa com as mãos polvilhadas de goma, até alvejar e solidificar, podendo-se antes, dar-lhe as mais variadas formas”.
22) Cetro. Bastão de comando – uma das insígnias da realeza. Poder soberano, Coriolano empregou cetro em sentido figurado.
23) Brasão. Conjunto de insígnias que compõem o escudo de armas de um país, de uma cidade, de uma corporação, de uma família. Honra. Empregado em sentido figurado.
Mudanças
Mudou-s o sol que despontava rindo,
Desmereceu-lhe a luz, perdeu o brilho,
Embaçado por grossas, pardas nuvens,
Já não difunde raios!
A meiga aurora já não tem primores,
Matiz os campos, nem frescura os vales,
Murcharam as belezas d’outro tempo,
Que os olhos atraiam!
Não é mais estrelado o céu da noite,
Por crepes (1) nebulosos sempre envolto,
Não mostra mais em tela acetinada
Da lua o branco disco!
Sob o manto sombrio da tristeza,
Só quebrando a soidão (2) piar sinistro
D’aves mil (3) agoureiras, (4) são as noites,
Meu Deus, tão merencórias!
Já não cicia no arvoredo a brisa,
Nem além rumoreja o bosque espesso,
Já não serpeiam límpidos regatos
Nem sussurra a cascata!
Deixaram de trinar os passarinhos,
Secaram colos (5) e vergéis e prados,
Tudo, tudo mudou-se, a natureza
Vai regressar ao nada!
Já balouça o vento as verdes copas
As flores não disparsem mais perfumes!
Quem uma tal mudança produzira,
Eu bem saber quisera!
Mas, ah! nada mudou-se (6)– eu só me iludo!
Meus olhos, sim, mudaram-se de tristes:
Tudo existe no estado primitivo:
Eu somente mudei!
Ainda fulge o sol e do levante
Surgindo, ri donoso e luz do mundo,
É a aurora serena, e meiga ainda,
Os horizontes doura.
De estrelas coruscantes é juncado
Ainda o céu de anil, onde passeia
A branca lua, que um lençol de prata
Estende sobre a terra.
São as noites tranqüilas, não as cobrem
Tristes mantos que induzam tristes cismas: (7)
Sob a mangueira lá suspiram langues
Dois amantes felizes.
A brisa no arvoredo ainda cecia,
Ainda rumoreja o bosque espesso,
Serpeiam os regatos com doçura,
Ainda rui a cascata.
O vento ainda balança as verdes copas,
As flores ainda exalam seus perfumes,
Tudo existe no estado primitivo,
Eu somente mudei-me!
Ainda as aves docemente trinam,
Só meus olhos de triste se mudaram,
Vendados da incerteza nada enxergam,
Lânguidos sem vida!
Desgraçado de mim que tudo vendo,
Da paixão ofuscado nada vejo;
Se a brisa me bafeja murmurosa,
Rijo tufão concebo!
Ah! triste condição é do amante
Que, vendo, nada vê de quanto o cerca,
Embora tão patente como o lume
Que o sol derrama a pino!
E assim vivo, ó meu anjo, ó doce amada,
Deslumbrado co’a luz desses teus olhos,
Que rompendo a amplidão imensa e vasta,
Minha razão ofuscam!
Comentários
1) Crepes. Emprego em sentido figurado: cor negra.
2) Soidão. Solidão. Já observada noutro local a palavra.
3) De aves mil. Mil, quando proposto, indica grande quantidade.
4) Agoureiras. Agoureiro; que faz mau agouro. Agouro é predição supersticiosa.
5) Colos. Observação noutro local deste livro.
6) Nada mudou-se. No tempo em que José Coriolano escreveu ainda não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos.
7) Cismas. Receio supersticioso. Meditação. Neste sentido é feminina. Cisma no masculino significa desacordo, desunião. Rebelião pela qual as pessoas se separam da sua religião.
Eugênia Belém
E
Narciso Cordo
Na primavera dos anos
Era Eugênia tão formosa
Como a branca estrela d’alva,
Como a redolente rosa.
Seu casto peito era templo
Desses singelos amores,
Que o doce lar perfumando
Se matizam de mil cores.
A núbil, formosa virgem
Era a fadinha (1) do campo,
Colhia flores de dia,
E de noite o pirilampo. (2)
Nunca a paz lhe pertubaram
Aflições, nem dissabores,
Nem as faces setinosas
Envergonhados rubores.
Antes de pegar no sono
A menina encatadora
Inocentinha, arroubada
Se encomendava à Senhora. (3)
E descuidosa e indolente
Andava pela campinas
A perseguir borboletas,
A colher sempre boninas.
Mas eis que topa com ela
Apaixonado Narciso;
Vê-la, amá-la, desposá-la
Foi todo o seu paraíso.
Contava Eugênia três lustros, (4)
E quatro seu belo esposo;
Que vida cheia de encanto!
Que lindo par venturoso!
Dois meses eram passados
Depois da celebração
Das bodas (5) afortunadas,
De tão ditosa união.
Quando o déspota Solano (6)
Contra o Brasil move a guerra, (7)
E do par que jubilava
Toda a ventura desterra.
Não! que no peito do esposo
Pulsa um coração ardente,
Que geme da pátria amada
O mal, o p’rigo (8) iminente.
Ei-lo, la vai para a guerra
Viver vida amargurada;
Que despedida custosa!
Que dura ausência chorada!
Voluntário! Deus te escute
Nesses campos pantanosos,
Que voltes ao lar querido
Trazendo troféus honrosos.
________
Bem poucos meses são idos
Depois que partiu-se o bravo,
A granadeira (9) troveja
E já prostra tanto escravo!
Que soldado ali peleja
Nesse ardido atrevimento?
Co’o a baioneta calada (10)
Vale mais que um regimento!
Quem há de ali, senão ele,
Batalhar com ar de riso
E dando vivas à pátria,
Quem há de, se não Narciso!
Sibilam, zunem-se as balas,
Sem a fronte lhe ferirem,
Outras sente desdenhoso
Aos pés – humil (11)– caírem!
Porém que Narciso é este
Que assim às balas sorri?
- Um voluntário da pátria
Das margens lá do Poti.
Belicoso campesino,
Quem te instruiu nas batalhas?
Quem nos lábios debuxou-te
Este desprezo às metralhas?
Nunca um passo recuaste,
Nunca temeste o inimigo!
Quem pela pátria combate,
Não teme, arrosta o perigo.
É que por ti uma santa,
Tua esposa noite e dia,
Reza de joelhos chorosa
À Virgem Santa Maria.
Reza, reza, boa Eugênia,
Pela pátria e pelo esposo;
O céu nem sempre é nublado,
Nem sempre o mar tormentoso.
Espera, que a fé é base
Da consoladora esp’rança; (12)
Espera! À negra procela
Que vez sucede a bonança!
Que nação há aí possante
Que na sua juventude
Haja ceifado iguais louros
Com tanto garbo e virtude?
Minha pátria, o mundo culto
Para vós se volta atento,
Pasma! Admira a vitória
Dessa batalha incruenta.
Por terra e mar que triunfos!
Quanto é sublime e quão belo
Ver Pedro (13) em Uruguaiana, (14)
Barroso (15) em Riachuelo! (16)
Heróis já tão conhecidos
Nas matas de Tuiuti, (17)
Como Curuzu (18) tomaram,
Tomarão Curupaiti. (19)
A aurora lá se apavona,
O dia bem perto está
Em que render-se há por força,
Ou por vontade Humaitá. (20)
Há de ser nossa a vitória
De Francia (21) vergôntea ímpia!
Tão certa, oh sim, como a aurora
Ser precursora do dia!
__________
- É meia noite! ela dorme
Na rede sosinha ali...
Nem sonha ver-me disforme...
E eu dela tão perto - aqui!
Dorme talvez descançada,
De um doce sonho embalada,
Que lhe sorri traiçoeiro
Como a brisa suspirosa
Que sussurra perfumosa
Nas ramas do pequizeiro. (22)
Oh sina mesquinha, avara
Para a pátria e para mim!
Quando ela nunca pensara
De me ver voltar assim!
De não lhe dizer na volta:
“Eugênia, engrinalda a fronte,
Teu riso angélico solta,
Saúda o novo horizonte!
Caiu sob o gládio invicto
Da tríplice – ultriz aliança (23)
Esse tirano maldito,
Novo Rosas (24) na pujança.”
Mas quanto o mortal se ilude!
Tudo lhe sai ao contrário!
Real somente a virtude.
É toda mágua e fadário
Este pélago (25) profundo
De Circes (26) cheio – este mundo!
São fados – quem lhe resiste?
Fortuna... sorte... destino...
Nume impiedoso e ferino,
Para mim nunca sorriste!
Hoje alegre? – amanhã triste...
Depois feliz? – mais adiante
Liba-se o cálice feleo, (27)
E o lábio que não repele-o,
Traga-lhe o amargor num instante!
Mas porque gemo queixumes,
Quando já libo os perfumes
Deste lar que é todo meu?
Inválido! – Embora. E ela...
Tão meiga, tão pura e bela...
Quem sabe quanto sofreu! –
________
Guerreiro que te bateste
Nos campos do Jatai, (28)
Que as hostes bravo venceste
Nas matas do Tuiuti,
Que o braço esquerdo perdeste
No ataque a Curupaiti,
Esta demora é funesta
A ela e fatal a ti.
______
- Pan, pan, pan!
- Meu Deus, quem bate
Tão tarde, a tal hora aqui!
- Pan, pan, pan!
- Já meia noite
Gemeu o meu Jacamim! (29)
- Pan, pan, pan
- Acorda, Firma,
Vem te deitar junto a mim.
Ouviste bater lá fora?
Alguém perdeu-se n aestrada.
Ó lá de dentro, (30) pousada
Ao pobre infeliz perdido!
- Meu Deus, bater-se a tal hora,
Depressa, Firma, o vestido,
Oh! vamos, é dever nosso
Dar pousada ao peregrino,
Vamos, negar-lh’a (31)não posso,
Repare se dorme Nino.
Dorme, mana, (32) o coitadinho.
Ei-lo! Parece um anjinho!
E o peregrino?... – É verdade!
Lá fora... ao frio... tão tarde!
- Sim, vamos abrir-lhe a porta.
_______
A noite estava sombria
E derramava a luz morta
Da lua que se sumiu.
Abriu-se a porta.
- Senhora,
Não tema sair cá fora,
Bem sei que é fora de hora,
Que a lua além se ocultou;
Não tenha de mim receio;
Honra, dever e virtude
Me foram da vida esteio
Em toda vicissitude,
Meu ser se não transformou.
Nunca fiz mal neste mundo
A ninguém nunca farei;
Voto respeito profundo
Tanto à donzela mimosa,
Como à velhice rugosa;
Se fiz algum mal... não sei!
Se meu coração a fundo
Conhecesse, ah! – saberia
A fada destas campinas,
Destas virentes colinas,
Quanto dó (33) mereceria
Este pobre sem ventura,
Que oscila... gemente aqui!
Que deixou sem sepultura
Lá junto a Curupaiti,
Um braço á bala arrancado!
Senhora, o pobre aleijado
Vem de longe... dessa guerra,
Onde se vê rubra a terra
Do sangue dos nossos bravos
Derramados por escravos
Ao jugo desse Lopes,
Desse déspota e tirano,
Que recrudesce cad’ano,
Que tantos males nos fez,
E que está fazendo aos nossos
Com traições, torpedos, fossos; (34)
Na protérvia, (35) na bruteza
Tigre sangrento e faminto
Do sangue da pátria tinto;
Aborto da natureza!
Reflete no horrido sonho
A satânica (36) maldade
Que do coração ferrenho
Mostra toda a feridade.
Engenho perverso e vil
Tão fatal à humanidade,
E sobretudo ao Brasil!
- Entre senhor, nesta choça
Não se despede ninguém,
Pois é obrigação nossa
Acolher a todos bem.
Dê-me notícias da guerra,
Se é que da guerra vem.
- Venho, senhora, da terra
Que nos tem a paz roubado,
Porém estou fatigado;
Depois que o braço perdi,
Ando tão desajeitado,
Que sinto no andar enfado,
Cousa que nunca senti!
- Perdeu então o seu braço
N’algum encontro, senhor?
Oh sim! voou pelo espaço
No ataque a Curupaiti.
Não tenho dele saudade,
Pois pela pátria o perdi;
E até co’a horrível dor,
(Foi talvez do céu vontade)
Estranho prazer senti,
Prazer de novo dulçor!
________
- Agora que descançastes,
Dizei-me se lá na guerra
Vistes alguém desta terra,
Das margens cá do Poti?
- Conheci, senhora, um bravo,
Filho aqui desta ribeira,
vi-o sempre na fileira
combatendo o guarani. (37)
Era casado, e vi muito
No ardor do márcio (38) conflito
A esposa chamar aflito
E a cara pátria também.
- E o nome, senhor, do bravo
Da esposa o nome também?
- Se acaso bem me recordo...
O dele... Narciso Cordo,
O dela... Eugênia Belém.
______
Eis ali o par ditoso,
Jovem, lindo, afortunado,
Em doce abraço enlaçado,
Em mudo enlevo de amor!
Soluça agora de gozo
A lembrança dessas máguas,
Dessa ausência, dessas fráguas
De fogo tão queimador!
Deixa-los: findo o transporte
Voltarão depois à vida;
Que meiga fase sentida
Dos lábios lhes brotará!
Das saudades a coorte (39)
Dos suspiros na vanguarda
Desertaram desta quadra, -
Onde o amor só reinará.
_______
- Vês, Eugênia, este maneta (40)
Tão feio que causa dó,
Mas não se parece ainda
De Eugênio co’o Manquitó. (41)
Perdeu pela pátria o braço,
Feliz por perde-lo só,
Feliz por ti, por mim nunca,
Pois fora melhor morrer
Para salvar nossa pátria,
Do que vê-la ainda sofrer.
- Amigo, eu sinto que a bala
Te houvesse o braço levado;
Porém Deus, que é previdente,
Que cura o mal que pressente,
Nos há bem recompensado:
Por um braço que perdeste,
Dous braços, Narciso, achaste!
Vem cá, - vês este menino?
Repara – quanto é celeste!
- Tão belo!
- Se chama Nino.
Dous braços nele encontraste;
Se a bala um dos teus roubou-nos,
Com dous o céu compensou-nos!
- Te lembras? – quando partiste
Me deixaste de esperanças...
Entre dores e lembranças...
E o amargo pranto, tão triste!
O pobre Nino nasceu!
Dous anos breve (42) completa;
Narciso, é a tua imagem!
Sabido! A sua linguagem
Já parece desse atleta
Que à cara pátria volveu!
- Oh! quanto sou venturoso
Por tanta felicidade!
Do amor da cara metade (43)
Encontro o melhor penhor!
Cresce, meu anjo formoso,
Cresce meu futuro bravo;
Livrarás – quem sabe? – o escravo
Das mãos do cruel senhor.
- Cresce, cresce, meu menino,
Cresce, cresce para o bem;
Vale Deus em teu destino
E teus pais Cordo e Belém.
_______
- Amado, meu bem Narciso,
Como é bele esta deveza!
Repara na natureza,
Mais graça nela diviso!
A precursora do dia!
Nas novas galas que muda,
Que pompas, que louçania!
Como a flor é mais cheirosa!
Como alegre o passarinho
A meiga aurora saúda
Cantando sobre o raminho!
- Minha Eugênia, esta ventura
Só Deus a fez para os pobres,
Pois no torreão (44) dos nobres
Reina a soberba e o festim,
Mas aqui nesta fragura,
Onde demora a cabana,
Para Deus temos hozana!
Perfumes tem o jasmim.
- Quando com a foice aguçada
Descer o anjo à cabana
Montado no seu corcel,
Não chores por mim amada,
Mas antes entoa hozana
Ao santo Deus de Israel. (45)
- Lá onde tudo é doçura,
Onde tudo é poesia,
Onde se goza a ventura
Sem mescla de desprazer,
Lá nos veremos um dia
Nessa região feliz,
Onde se vai reviver!
Lá unirei o meu peito
O bravo Francisco Luiz; (46)
Herói, Eugênia, perfeito,
Filho deste Piauí, (47)
Onde nasceste e nasci.
Morreu de balas passado
A vinte e dous de setembro,
O corpo todo crivado...
Sem ter inteiro um só membro!
Outro mais bravo não vi!
Saudades à sua memória!
Foi neste ataque intentado
Sem fruto a Curupaiti,
Porém famoso na história,
Onde também teu Narciso
Perdeu o seu braço, - glória
Para nós, - pra outros risos!
- Eu e tu e o nosso Nino,
Firma também, nossos pais,
Nossos parentes e amigos,
Lá nos céus seremos tais!
Lá se goza de uma vida
De delícias sem iguais!
A vida lá tem prazeres,
Que não desfrutam mortais!
Ame-se a pátria, a virtude,
Que gozos lá perenais!
- Mas em quanto o alto destiono
Nos não desviar da rota...
Façamos do nosso Nino
Um guerreiro, um patriota.
- Cresce, cresce bom menino,
Cresce, cresce para o bem,
Vele Deus em teu destino,
E teus pais Cordo e Belém.
Comentários
1) Fadinha. Diminutivo de fada, que é ente sobrenatural com o poder de predizer destinos e fazer encantamentos. Por extensão, mulher formosa, assim empregado pelo poeta.
2) Pirilampo. Do grego piro, fogo, e lampo, facho, do verbo lampein, brilhar. Pirilampo, que brilha como fogo. O mesmo que vaga-lume. Melhor seria pirolampo, pois o o é a vogal de ligação de elementos gregos, mas entrou no hábito da coletividade pirilampo.
3) Senhora. Nossa Senhora.
4) Lustro. Período de cinco anos.
5) Bodas. Casamento, núpcias.
6) Solano. Solano Lopez, ditador do Paraguai.
7) Guerra. Referência à Guerra do Paraguai, que principiou em 1864.
8) P’rigo. Perigo. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.
9) Granadeira. Conjunto de granadas. Granada é explosivo.
10) Baioneta-calada. Baioneta é arma de aguda ponta que se adapta à extremidade do cano da espingarda, do fuzil. Muitos dicionaristas apontam como origem o francês bayonnette. Tirado da cidade francesa de Bayonne, onde a arma foi fabricada pela primeira vez. Baineta-calada: posta em posição para investir contra o inimigo.
11) Húmil. O mesmo que humilde.
12) Esp’rança. Esperança. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.
13) Pedro. Pedro II, imperador do Brasil, que chegou a Uruguaiana em 11-9-1865.
14) Uruguaiana. Cidade ocupada por tropas paraguaias (Rio Grande do Sul). Uruguaiana foi cercada por tropas brasileiras e uruguaias. As tropas paraguaias renderam-se.
15) Barroso. Almirante Francisco Manuel Barroso da Silva, comandante da esquadra brasileira na Batalha do Riachuelo (Guerra do Paraguai).
16) Riachuelo. Arroio Riachuelo. Batalha do Riachuelo ganha por Barroso (11-6-1865 – Guerra do Paraguai).
17) Tuiuti. Ganha batalha ganha pelos aliados (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai (24-5-1866).
18) Curuzu. Pequena fortaleza paraguaia tomada pelos brasileiros no dia 3-9-1866.
19) Curupaiti. Batalha de Curupaiti. Primeira derrota de argentinos ,brasileiros e uruguaios na guerra do Paraguai. Setembro de 1866).
20) Humaitá. Doze meses de duração as lutas pela posse de Humaitá na Guerra do Paraguai. Foi ocupada pelas tropas aliadas.
21) Francia. José Gaspar Rodriguez Francia, chamado Dr. Francia. Fundador da independência do Paraguai. Ditador. Nasceu em 1776 e faleceu em 1840. Ditador vitalício. Alcunhado El Supremo, governou até morrer. Grande estadista e déspota intransigente. Fortaleceu a economia paraguaia.
22) Pequizeiro. Veja pequi, noutro local deste livro.
23) Da tríplice – ultriz aliança. Referência à aliança do Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, na Guerra do Paraguai. Ultriz quer dizer que vinga. Aliança vingadora.
24) Rosas. José Manuel Rosas (1793 – 1877). Soldado e trabalhador em fazendas de gado. Com o tempo e depois de muitas lutas tomou conta do governo de Buenos Aires. Deixou o governou e foi a ele chamado novamente.o seu poder foi ratificado por um plebiscito. Passou a governar despoticamente. Muitos foram fuzilados. Vários paises assumiram posições contra ele Buenos Aires foi bloqueada. Derrotado pelos brasileiros na batalha de Monte Caseros.
25) Pélago. Veja pego noutro local.
26) Circe. Feiticeira que transformou em porcos os companheiros de Ulisses, quando este aportou à sua ilha, para que o herói permanecesse mais tempo junto dela. Por vezes se faz referência a essa transformação para aludir a pessoas que embruteceram ou perderam as boas maneiras.
27) Féleo. Relativo a fel. De fel.
28) Jataí. Combate de Jataí. Encontro da Guerra do Paraguai (17-8-1865), decisivo para a sorte do general Estigarribia. Argentinos, brasileiros e uruguaios derrotaram o Paraguai.
29) Jacamim. Também jacami. Ave dos campos, de canto singular. Do tupi já-acan-mim, o que tem cabeça pequena, ou já-acan-mii, aquele que move a cabeça.
30) Ó lá de dentro. Modo, no interior, de chamar alguém.
31) Negar-lha. O lha é combinação dos pronomes lhe e a: negar a ele (lhe) a pousada (a).
32) Mana. O mesmo que irmã.
33) Quanto dó. Como compaixão, tristeza, dó é palavra masculina.
34) Fossos. Empregaod no sentido de fortificação, entrincheiramento.
35) Protérvia. Insolência, desaforo, desavergonhamento.
36) Satânica. Derivado de satã, o mesmo que satanás, diabo. Satanás em hebraico é satan.
37) Guarani.de guá igual a guá (hár), o guerreiro, e rani igual a rini,os que guerreiam ou estão guerreando. Primitivamente – lembra Romão da silva – aplicou-se este nome a um dos grupos avançados da grande família lingüística americana, que ocupava o delta do rio Paraguai, e com que primeiro estabeleceram contato e comércio os conquistadores. Mais tarde passaram a chamar assim todos povos afins da bacia do Prata (veja “Denominações Indígenas na Toponímia Carioca” – 138). Guarani é o mesmo que paraguaio.
38) Márcio. Derivado de Marte, deus da guerra, na mitologia.
39) Coorte. Porção de gente armada. O poeta empregou figuradamente como grande quantidade.
40) Maneta. Que não tem um braço.
41) Manquitó. Que manqueja. Coxo.
42) Breve. Adjetivo empregado como advérbio: brevemente.
43) Cara-metade. A esposa com relação ao marido. A palavra cara, na expressão, vale querida, amada. O povo, porém, vê cara como dispendiosa.
44) Torreão. Torre larga e ameada sobre um castelo (Aurélio).
45) Deus de Israel. Israel foi a designação das tribos que se separaram de Judá, formando um dos dois reinos após a morte de Saul. Israel: nome do reino das dez tribos. Deus de Israel é o criador de todas as cousas, inclusive do homem e da mulher. Cristo é o filho de Deus de Israel.
46) O bravo Francisco Luís. Monsenhor Joaquim Chaves transcreve documento de que copio: “No dia 4 de maio, pelas cinco horas da tarde, fez em Teresina sua entrada o contingente de Voluntários da Pátria fornecido pela vila de Barras, em número de 52 praças e 2 oficiais. Aos esforços do Capitão Luís Francisco Pereira de Carvalho e Silva, que foi o primeiro a inscrever-se no alistamento e o primeiro a procurar com o poder de persuasão e do estímulo fazer-se acompanhado de tantos cidadãos, muito se deve pela aquisição de tão importante número de voluntários”. (O Piauí na Guerra do Paraguai” – 17). E adiante, pág. 38: “Em Corrientes, no Estado argentino, faleceu no dia 7 de outubro último (1866), Francisco Luís Pereira de Carvalho e Silva, em conseqüência do ferimento de uma bala que lhe penetrou no peito direito, no ataque de Curupaiti, a 22 de setembro. Natural da cidade de Oeiras e residente na vila de Barras, onde se dava à vida pacífica da advocacia, apenas a Pátria pôs em prova a dedicação de seus filhos, o capitão Francisco Luís apresentou-se voluntário e seguiu com o 1º Corpo que desta Província partiu para o teatro da guerra. Não lhe obstaram o propósito a cara esposa e os ternos filhos, que oram ficam na viuvez, orfandade e pobreza. Fez a campanha de Uruguaiana. No combate de Curuzu o nobre piauiense portou-se heroicamente” (documento citado por Monsenhor Chaves”).
47) Piauí. Nome indígena. De piau (o pele manchada, peixe) e i (rio) – o rio dos piaus,isto é, dos peixes de pele manchada.
O Avarento
Quid juvat immensum te argenti pondus et auri
Furti defossa timidum deponere tura?
(Horácio – Sat.)
Vede o pobre ancião na humilde choça
Os tíbios olhos para os céus erguendo:
Seus lábios trêmulos se dirigem súplices
Aos pés do Eterno, desferindo graças...
Certo despreza deste mundo as pompas;
Dizem-nos os anos e a cerviz (1) pintada:
Apalpa as contas que rolando descem
No grosso fio; (2) só nos céus medita...
Ele é ditoso, que a virtude é dita.
- Vede o pobre ancião na humilde choça!
________
Seus dias correm como os sons queridos
Da fresca brisa que desperta as folhas;
Correm serenos como os sons da flauta
Que acorda as trevas do dormir profundo.
Na pobre mesa não se estendem lautos,
Gordos manjares que derramam n’alma
Torpor e tédio: na frugal (3) comida,
Bem mostra, sóbrio, que abomina a gula.
Ele é ditoso, que a virtude é dita.
- Vede o pobre ancião na humilde choça!
_______
Seus dias correm como os sons queridos
Da fresca brisa que desperta as flores
Correm serenos como os sons da flauta
Que acorda as trevas do dormir profundo.
Na pobre mesa não se estendem lautos,
Gordos manjares que derramam n’alma
Torpor e tédio: na frugal (3) comida,
Bem nostra, sóbrio, que abomina a gula.
Ele é ditoso, que a virtude é dita.
- Vede o pobre ancião na humilde choça!
______
Não tem mobília no seu tosco albergue.
Apóstolo fiel da caridade,
Repele o luxo que arruína os povos,
E socorre, propício, aos desgraçados.
Vede-o – levanta-se, e com passo incerto
Passeia – olhando para certo lado
Da humilde estância... aonde (5)os dias passa
Puro – distante do viver da corte. (6)
Ele é ditoso, que a virtude é dita.
- Vede o pobre ancião na humilde choça!
_______
Mas estudai-lhe do semblante lívido
Todos os traços, estudai-lhe os olhos
Baços, (7) erguidos para os céus, e os lábios
Que a Deus parecem desferir (8) mil graças...
Sim, estudai-o ... Dir-vos-a seu rosto,
A cerviz branca, seus olhares baços,
Que aos céus se elevam e depois se abaixam, (9)
E vão pregar-se, vão morrer num canto.
É desgraçado - que a vareza torpe
Faz a desgraça do mortal que a nutre.
_________
Oh! Não! Como é possível que a maldade,
Que a torpe hipocrisia se rebuce
Nas brancas roupas que a virtude veste?
É possível, meu Deus, tanta impostura?
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
________
É ele nada menos que um avarento!
Prata e oiro conserva sob a terra:
Um só real (10) não passam os seus gastos
Dos juros extorquidos aos que presta (11)
Dinheiro, cujo prêmio desejara
Ao mês fosse de mil ou mais por cento!
Porque julga o de dous, de três ou quatro
Incapaz de dar pasto à vil cobiça
E à sede de metal (12) que lhe devora
O peito que se afez a torpes crimes!
- É de tanto capaz um avarento!
E assim vive já próximo da campa, (13)
Sem que a fome remova ao mendigo;
Sem que ao despido corpo do indigente
Uma vara (14) ministre de fazenda;
Sem que atenda o gemer do pobre infante
Que vive a tiritar de frio e fome
E com a voz da inocência o pão esmola; (15)
Sem que a sede sacie ao que a suporta,
Pois que até lhe é penoso um gole d’água
Dar a quem lh’o (16) suplica sequioso!
- É de tanto capaz um avarento!
A prole, triste dela! – mal curada,
Apenas tem por mestre a consciência!
“Meus filhos, assim diz, viver só devem
Esta vida qual eu vivido tenho.”
E os míseros escravos que se afanam (17)
No contínuo lidar – nus e famintos –
No horror do desespero aos céus dirigem
Maldições, maldições contra o tirano
Que os dias amesquinha-lhes... que as carnes,
Lhes despe – em tiras – do mirrado corpo!
- É de tanto capaz um avarento!
Malvado! – que ensurdece ao grito infausto
Da miséria! – nem sabe-lhe propicio
Mitigar o sofrer um só instante!
Coração mais ferino que o do tigre!
Mais duro do que a rocha! Oh! vede o monstro:
- Ao pobre que reclama o pão do dia,
Ao cego, cuja indústria lhe é vedada,
Ao mísero aleijado que o trabalho
Não pode manejar, diz, feio e torvo:
“Todos vós sois vadios – que trabalhem...
- É de tanto capaz um avarento!
Em que pensa o avaro? o qu’ele sonha?
- Pensa e sonha chupar o sangue humano!
Ao crime negro e vil oblações rende!
A virtude, profano! – olvida e cospe:
À viúva que vê envolta em trapos,
Tendo ao seio apertado o orfãozinho,
E que uma esmola, lacrimosa, pede;
Embora honesta seja, diz-lhe: “Vai-te,
Mulher torpe, que as cinzas do finado (18)
Desonras com os teus nefando vícios.”
- È de tanto capaz um avarento!
Porém, ei-lo que jaz na cama enfermo,
Já sentido da morte o golpe extremo;
Seus filhos que da morte o leito imundo,
Pranteando-o, circundam, na desgraça
Com a decrépita esposa hão de famélicos
Morrer a míngua... Mas, no que ele cuida
Que, mesmo agonizante, os frouxos olhos
Não desprega de um lado... de um somente!
- é que ali enterrada a prata, o oiro,
Permanecem, que são “seu deus, seu tudo!”
- É de tanto capaz um avarento!
E muito embora à cabeceira tenha
Do Senhor o ministro (19) que o exorta,
A ninguém os tesouros seus descobre!
As verdades do céu são-lhe fantasmas
De feio aspecto, que o sofrer lhe agravam.
Se os olhos cerra, (20)novo mundo encontra
De tét
- José Coriolano de Sousa Lima
- Renato Pires Castello Branco
- Élio Ferreira
- Hardi Filho
- Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Bran...
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