Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 26 de junho de 2017
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Graça Vilhena

BIOGRAFIA

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AMOSTRAGEM

CANÇÃO PARA NINAR MENINO GRANDE

Dorme menino grande
em tuas remotas manhãs
dorme sujo de quintais
de goiabeiras e romãs

Dorme que o vento lá fora
nos papagaios de seda
assovia tua canção

Dorme menino grande
dorme que a eternidade
precisa dormir também.

POEMA COMUM

A moça do sim entrou no bar
olhou em volta, o coração em flor
enfeitava-lhe os cabelos
cuspiu semente de noites pelos olhos
e preparou a boca ardentemente
para os beijos mudos.

Desapareceu na noite
gargalhou a madrugada
e voltou sozinha na manhã

Tentou encarar seu destino
no ralo da pia
mas o peso da lágrima
foi mais forte
transfigurada
recolheu o coração
murcho de engano
fugiu no sono
e sonhou que vivia.

O ENCONTRO

Vinha pelo beco
ia pela vida
seco de solidão
de repente se encontrou
na mulher perdida.

DESEJO
Teu olhos queimam meu corpo
quero ser arada
pelas tuas mãos
quero gemer ser pisada ser ferida
pelo teu beijo de semente
depois o descanso
teu suor moreno
chovendo sobre mim.

OUTUBRO
O amor acabou
mas é outubro
e respiro o perfume desse alívio
como se respira os lírios
e a flor da sapucaia.

O amor acabou
meu coração passeia
por sobre as veias quentes das calçadas
bebendo o sangue dos oitizeiros
se avivando nos pau-d'arcos.

O amor acabou
mas é outubro
meu coração amadurece doce de sol
nos cajus e mangas-rosas
da cidade.
FORTUNA CRÍTICA

O plurissignificado na poesia de Graça Vilhena
 (*)Franklin Oliveira Silva
A poesia tem em si o dom de sugerir ao invés de descrever. Tem também a capacidade de recriar a realidade tecendo palavras para representá-la. O poeta pode, então, ser um Deus criador do universo das palavras e revelar as várias faces dos significados. Uma leitura superficial, horizontal, que se limita à compreensão dos elementos mais imediatos e concretos do texto faz com que o leitor aprenda apenas o significado literal, ou aquilo que se diz no texto. Já uma leitura em profundidade, ou leitura vertical, requer a interpretação dos elementos de significação literal. O leitor deve buscar aquilo que o texto quer dizer. Nessa leitura, o texto se revela plurissignificativo, mostra as várias possibilidades significativas inseridas em sua estrutura. O interesse pelos símbolos tem uma origem múltipla: em primeiro lugar, o confronto com a imagem poética, a intuição de que, por trás da metáfora, há algo mais que uma recriação da realidade; depois, o contato com a arte tão presente, tão fecunda criadora de imagens visuais nas quais o mistério é o componente quase contínuo. E falando de símbolos, a abordagem que proponho neste artigo tem como intenção analisar os diversos significados implícitos na poesia da escritora piauiense Graça Vilhena, enfocando os versos do Poema Comum, o qual será relembrado a seguir: Poema Comum A moça do sim entrou no bar Olhou em volta, o coração em flor Enfeitava-lhe os cabelos Cuspiu semente de noite pelos olhos E preparou a boca ardentemente Para os beijos mudos. Desapareceu na noite Gargalhou a madrugada E voltou sozinha na manhã Tentou escarrar seu destino No ralo da pia Mas o peso da lágrima Foi mais forte. Transfigurada, Recolheu o coração Murcho de engano Fugiu no sono E sonhou que vivia. Graça Vilhena Para início de estudo, é interessante analisar a imagem da mulher-flor e da mulher-fruto. A diferença está na utilização dos “cinco sentidos” do poeta: enquanto a mulher-fruto exige uma proximidade, o tato, o paladar e a deglutição; a mulher-flor é apenas para ser vista à distância, ser apreciada por seu perfume e suas cores. Na análise semiótica do poema escolhido, pode-se observar a presença bem marcante de uma mulher-fruto, representada por uma prostituta ( a moça do sim). A figura simbólica da flor e suas cores reluzentes é transfigurada para o estágio de mulher-fruto; passando antes por uma transição: a mulher- estrela, também representada no poema “Estrela da manhã”, de Manuel Bandeira. Verifica-se como traço distintivo dessa “estrela”, sua sexualidade, sua dor e sentimentos que desaparece, não nas alturas, mas num cenário meretrício e de uma imundice física e moral. Dizer que existe também uma polissemia do significado da rosa, na verdade, não acrescentaria muito ao entendimento tanto dessa poesia quanto da ideologia erótica e social que ela representa. Quando a poetisa capta a vida e suas imagens quase perdidas de cenas da vida social, doméstica e urbana; faz uma intertextualidade, ou melhor seria, uma referência ao poeta português Cesário Verde. Como observadora perspicaz, Graça Vilhena recria cenas de ruas, os personagens comuns, a noite e a madrugada; tudo isso com uma linguagem naturalista que descreve a falsa alegria da noite, a melancolia e o arrependimento da manhã. Novamente os sentidos são lembrados com o ruído e as gargalhadas noturnas, o coração em flor que enfeitava-lhe os cabelos, e a boca preparada ardentemente para os beijos mudos. O sonho da estrela desaparece pela manhã, dando lugar ao arrependimento, o “peso da lágrima” que ela tenta “escarrar” e não consegue. Há uma sensibilidade literária na forma simples e expressiva dos versos deste poema. O problema da prostituição é mostrado de forma tão poética que abranda sua gravidade e remonta seu significado. “o coração em flor” aqui representa a efemeridade dos prazeres. A mulher-flor é uma metáfora mais velha que a Bíblia e, no Renascimento, a poesia tomou esta concepção com base no famoso verso de Ausônio: Colligo virgo rosas – colhei a rosa enquanto é tempo. Segundo a ideologia renascentista, a flor (corpo da mulher) deveria ser colhida pelo amante antes que a velhice chegasse. Para a prostituta, esse destino de ser colhida é extremamente melancólico e um verdadeiro desengano: enquanto vive a noite como estrela, amanhece como flor sem cheiro, quase sem pétalas. Poderia-se ler a intenção dessa poética de duas maneiras. Primeiramente, num sentido social em que a poetisa revela as manchas do cotidiano, provocando uma reação de desalienação; e, em outro plano, uma reflexão psicológica e subjetiva de um personagem simples, feita de maneira clara e extraordinariamente poética. Com esta análise, espero ter contribuído para enfatizar a beleza da poesia piauiense, e ainda, notar que a simbologia, utilizada de forma casual no poema aqui analisado, pode ser estudada de forma abrir portas para novas leituras, leituras em profundidade. (*) Flank Silva é professor de Redação.

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