Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 01 de maio de 2017
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Francisco Miguel de Moura

BIOGRAFIA

Nasceu em Francisco Santos, da região do sertão de Picos, Estado do Piauí, Brasil, aos 16 de junho de 1933. Formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí e pós-graduado na Universidade Federal da Bahia, onde morou por alguns anos.  Funcionário aposentado do Banco do Brasil.  Professor de língua e literatura, não mais leciona.
Hoje se dedica exclusivamente a escrever.
Colabora nos jornais de seu Estado, na revista "Literatura", de Brasília, na "Poesia para todos", do Rio, na "Presença", de Teresina; e nos jornais "Correio do Sul", de Minas, no "Diário dos Açores", das Ilhas dos Açores e no "O Primeiro de Janeiro", de Porto, ambos de Portugal. 
É membro efetivo da União Brasileira dos Escritores e da Academia Piauiense de Letras e membro-correspondente da Academia Mineira de Letras e da Academia Catarinense de Letras. Por mais três mandatos vem participando do Conselho Estadual de Cultura do Piauí.
Estreou-se na poesia, em 1966, com "Areias", publicando mais os seguintes livros: "Pedra em Sobressalto", "Universo das Águas", "Bar Carnaúba", "Quinteto em mi (m)", "Sonetos da Paixão", "Poemas Ou/tonais", "Poemas Traduzidos" e "Poesia in Completa", o último em 1997, comemorando seus 30 anos de poesia. Participou da antologia "A Poesia Piauiense do Século XX", organizada por Assis Brasil, e de outras antologias poéticas, inclusive no exterior (Estados Unidos, França, Cuba e Portugal).
 Em prosa é autor de "Os Estigmas" (1984), "Laços de Poder" (1991), "Ternura" (1993), todos romances. No ano passado ganhou o prêmio Fontes Ibiapina de romance, com o seu inédito "D. Xicote", prêmio que, aliás, já lhe tinha sido conferido pela Fundação Cultural do Piauí ao romance "Laços de Poder", nos idos de 80. 
Praticou também o conto inovador em "Eu e meu Amigo Charles Brown" (1986), "Por que Petrônio não Ganhou o Céu" (1999 e "Rebelião das Almas", 2001.
É cronista (E a Vida se Fez Crônica, 1996) e crítico literário de renome (Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho, 1972/1997, 1ª e 2ª edição, respectivamente, e A Poesia Social de Castro Alves, l979), tendo recebido prêmios em todos os gêneros literários que pratica.
 "Virações" (poesia), "Literatura do Piauí", (história literária) e "Sonetos da Paixão" (poesia) antes anunciados como inéditos, foram publicados em 2000, 2001 e 2003, o primeiro pelas Edições Galo Branco, Rio; o segundo pela Academia Piauiense de Letras, e o terceiro, novamente pelas Edições Galo Branco, Rio de Janeiro.
 A obra de Francisco Miguel de Moura recebeu enorme crítica, sempre favorável, de escritores de todo o país, inclusive críticos literários como Fábio Lucas, Nelly Novaes Coelho, Rejane Machado, a qual está sendo organizada em dois volumes: "Um Canto de Amor à Terra e ao Homem" e "Fortuna Crítica".

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Francisco Miguel de Moura (e-mail:fcomiguelmoura@aol.com) é escritor,  mora em Teresina.



AMOSTRAGEM

QUADRA ANATÔMICA

Francisco Miguel de Moura*


Sobre linda, minha tia
era mesmo uma tiazinha!
Duas amêndoas nos olhos,
os seios - amendoazinhas.
 
Idade? Dez a catorze,
não me lembro e nem precisa,
a mesma do seu sobrinho.
Só recordo que ela tinha
um rosto branco e vermelho
e uma curta blusinha.

Brincávamos no arvoredo,
vezes descendo e subindo,
ela na frente, eu atrás,
estava sempre sorrindo.
Boa tia, infância minha!

Mas um dia ela morreu,
não devia ter morrido.
Antes velha  encarquilhada
que este peso em meu sentido.

Infância e tia - perdidos
que eu só devia  enterrar
na marca do seu umbigo,
na ternura dos seus seios...
- Nas pregas do seu vestido.

Do tempo não me esquecer!
Assim, fiz minha cantiga
cantada na moda antiga
pra meu sonho não morrer.

CAMINHANTE


No início, para trás eram meus passos,
mesmo assim alcancei quem se atrasou
mais do que eu, quem nada me escutou.
Meus pés doíam presos a alguns laços...

De rosto, a olhar em volta do ocidente,
jamais ouvi um som de voz alheia,
sem ver minhas pegadas pela areia,
a curtir um passado inconseqüente. 

Fiz pecados tão poucos, rezei tudo.
cansado de falar me tornei mudo,
de tanto acreditar fiquei descrente.

Atrasei-me de amor pelo vizinho,
mas descobri, agora, que sozinho
ainda posso dar passos para frente.


DA VIDA E DA MORTE


   Francisco Miguel de Moura*

 

Há quem busque esta vida noutra vida,
e são felizes recriação da morte.
E quem encontra a vida na antemorte,
e são felizes plenamente em vida.

Por que preocupar-se com a tal morte,
se ela vem no seu tempo toda a vida,
ou depois. E se o ente está sem vida,
o esgana e faz dele mais que a morte?

Há quem, afadigado pela vida,
transforme a vida-vida em vida-morte
e passe uma existência sem ter vida.

E os que vivem a dissecar a morte
pra saber se depois da vida há vida,
ou se depois da morte tudo é morte.

QUANDO EU MORRER


Francisco Miguel de Moura


 Quando eu me for daqui
 Não estarei nem cá nem lá
 Para ficar alegre
    (ou triste)

 Para estar...
 Melhor não estar.

 Mas tenho a sensação
 (Porque inda sou)
 Sem o saber
 De que estive.

VOYER
(Segunda versão de "Momento Eterno")
   

Seminua, deitada molemente
no sofá, fecha os olhos, pestaneja...
Ah, eu queria ter cometimentos
pra mais de perto vê-la, vê-la, vê-la!

Voar deste meu prédio no da frente,
tocar seu corpo em toda a displicência...
Ai, não posso! E com isto me entristeço
como um anjo incapaz, incompetente.

Tenho ciúme, assim, no longe-e-perto.
Vejo um inseto pousado no seu peito
quando aqui morro em posição de feto.

Se fosse minha por um dia apenas
seria o homem mais feliz do mundo,
renegaria os deuses do universo.

SÉTICAS

   
Entre cinco paredes e sete espetáculos
me vi ao teu espelho cravado
de setas e cintas
ao meio de nada:
- nós!

É que de longe te vejo melhor
e calculo
o diferente ontem.

Vaidade? Liberdade?
Poster idade...

Amanhã, no além ou no aquém,
nos encontraremos?
Ou tudo são flechas perdidas
nos encontros
postergados?

CRÔNICA DA TARDE
   
    Francisco Miguel de Moura
    (Da Academia Piauiense de Letras)

 - Eu?...
 Andei durante esta tarde o mesmo percurso, nenhum ente humano conhecido. Só com  meu pensamento, que nem sei bem o que é. Varia mais que o vento, que a chuva, que o ar que respiro. Emendado, direto, e tão diferente a cada minuto! Se eu falasse! Não falo. Quando chego em casa, meus pensares se foram. Não posso escrevê-los.
 Há dias que me olho ao espelho e me pergunto: "Eu sou eu mesmo?"
 Não me interessa se sou feio ou bonito, se estou alegre ou triste. Tudo o que me pergunto é porque não permaneço - a permanência do homem,  pura ficção, não existe. Portanto, onde fica o "eu"?
 Ele, o espelho, me responde:
 - Queres o teu "eu" de ontem ou o de hoje?
 - O de ontem, quero saber.  E compará-lo com o de agora.
 - Já passam 24 horas, 14.400 minutos,  864.000 segundos (batidas do seu coração) e você quer ser o mesmo?  Quanta ferrugem acumulaste!  Você é o tempo, vive no tempo e para o tempo. Quando a água secar, totalmente mineralizado,  este teu corpo será mais lento, mais tempo. Mas, tempo. Passará.
 A vida não é passatempo, é suicídio. A morte é o único problema do homem. Uns querem resolvê-lo logo que dele tomam consciência, e se suicidam. Outros, os restantes, os mais sensatos, vão-se suicidando devagarinho.
 A angústia existencial é isto: minha existência é que faz a minha essência. Como a existência é curta, os "eus" diários se desmancham como bolhas de sabão. Assim é que o homem vê a vanitude da existência e a inexistência do "eu" enquanto duração,  enquanto futuro.
 O homem vale pelo que faz, pela história, pelo nome, pelo símbolo.
 Eu sou Francisco, acrescido dos nomes de família que fui ganhando na história: Borges, Rodrigues, Sousa, Moura... E de quantos outros que não tive conhecimento. Um pai de família com mulher e sete filhos (cinco do sexo masculino, dos quais um faleceu aos seis meses de idade) e uma do sexo feminino.  Sou um escritor que escreveu e publicou 16 obras e tem mais algumas a publicar - se o futuro, a saúde,  o dinheiro, outras condições permitirem.
 - Para quê?
 - Para que tenha sido. Porque, nas ocasiões-limites ou extremas, não vale o que fui, vale o que serei, o vir-a-ser.
 Logo, o homem é o seu passado mas, sobretudo, o seu futuro, as possibilidades que lhe sobram para viver e esgotar a existência.
 A pergunta mais chata é aquela do médico:
 - Quantos anos?
 Tenha vinte ou setenta. Ali está o seu limite, a sua angústia, a sua dignidade. Porque não há morte digna, não há nem doença digna. Dignos, no homem, são a vida e a saúde, a alegria e a felicidade. Sua razão de ser é aquela possibilidade que se estende por um dia, um mês, um ano, dez ou cem.
 O que importa é o futuro, o tempo presumível  para consumir-se. Tudo mais é balela.
 - Eu sou o que me falta. Por isto anseio, me angustio. Para viver. Para morrer. Para sobreviver. Para esquecer. Para tudo.
 A tarde passou que nem senti. Lembro apenas de uma moça branca que despacha o pão da padaria, hoje tão ocupada com outro cliente. Mas me entregou o seu sorriso, igualzinha das outras vezes. Seus dentes brancos de felicidade.
 Eu existo, sussurrei. Obrigado.
 Você também.
    
     Teresina, 16 de junho de 1996.



FORTUNA CRÍTICA

REBELIÃO DAS ALMAS - BELAS NARRATIVAS CURTAS
Oton Lustosa*

ALFREDO BOSI, professor da USP, que neste março último foi eleito para a cadeira 12 da Academia Brasileira de Letras, um dos mais respeitados historiadores de nossa Literatura, diz que "O conto cumpre a seu modo o destino da ficção contemporânea. Posto entre as exigências da narração realista, os apelos da fantasia e as seduções do jogo verbal, ele tem assumido formas de surpreendente variedade. Ora é o quase-documento folclórico, ora a quase-crônica da vida urbana, ora o quase-drama do cotidiano burguês, ora o quase-poema do imaginário às soltas, ora, enfim, grafia brilhante e preciosa votada às festas da linguagem".
O conto vem de longe... Segundo MASSAUD MOISÉS, remonta aos tempos bíblicos, sendo o relato do conflito entre Caim e Abel um bom exemplo. Em língua portuguesa, o conto aparece em 1575, com narrativas de Gonçalo Fernandes Trancoso, as popularíssimas Histórias de Trancoso, que, publicadas têm o título de Contos e Histórias de Proveito e Exemplo. No século XIX, esta fôrma literária alcança o seu esplendor, com obras de Balzac, Maupassant, Sthendhal, Edgar Alan Poe, Eça de Queirós, Machado de Assis, Anton Tchekov, Katherine Mansfield e outros. De lá para cá, o conto nunca perdeu o seu valor. Nos dias que correm, nesta era da informação, da abundância de editoras e da Internet, o conto permanece no auge. As publicações se multiplicam a cada dia; os sites congregam um número incontável de contistas. O conto e o contista atravessam os tempos. Voltemos ao professor BOSI, que diz: "Em face da História, rio sem fim que vai arrastando tudo e todos no seu curso, o contista é um pescador de momentos singulares cheios de significação."
Diz o respeitado crítico literário WILSON MARTINS, do alto dos seus 80 anos, que "o conto não é um exercício de escalas a fim de que o ficcionista se prepare para escrever romances, assim como o soneto não é a forma embrionária da epopéia. A prova está em que os grandes romancistas são, em geral, contistas medíocres, e insignificantes os romances de contistas." Esta sentença dura do mestre da Crítica Literária é lida no Jornal de Poesia. Mas, ali, em entrevista à jornalista Rosane Pavam, ainda bem que o grande crítico se lembra do nosso inesquecível Joaquim Maria Machado de Assis - contista e romancista a um só tempo! Igualmente bom, excelente mesmo, em ambas as espécies do gênero ficção. Uma pena que ele não tivesse se lembrado, também, do Velho Graça e do seu livro de contos Insônia. Teria sido o grande romancista de São Bernardo, de Vidas Secas e de Angústia, também, um grande contista? Claro que sim.
Pois bem. Nesta manhã, falamos de FRANCISCO MIGUEL DE MOURA - poeta e ficcionista. Para ser mais claro: poeta, romancista e contista! Escreveu "Estigmas", romance de estréia, publicado em 1984; "Laços de Poder", em 1991; e "Ternura", em 1993. Seus romances têm merecido elogios e reconhecimento aqui e alhures. Contista, escreveu "Eu e meu amigo Charles Brown", publicado em 1986. Em 1999, publicou "Por Que Petrônio Não Ganhou o Céu".
CHICO MIGUEL - assim é carinhosamente tratado - é um literato que leva muito a sério a Literatura. Formou-se em Letras e fez pós-graduação em Crítica de Arte e ainda um Curso de Extensão Universitária em "Teoria do Romance". Milita nas lides literárias desde o início dos anos 70. Por longos anos, debaixo da ditadura militar, foi editor da Revista Cirandinha. Ajudou a fundar aqui no Piauí a União Brasileira de Escritores e exerceu a presidência desta entidade. Também, foi um dos fundadores do CLIP - Círculo Literário Piauiense. É membro da Academia Piauiense de Letras, onde ocupa a cadeira 8, que pertenceu a Antônio Chaves, Breno Pinheiro, Celso Pinheiro Filho e Francisco da Cunha e Silva.

Agora calha bem uma pergunta: afinal, está aqui na Casa de Lucídio Freitas o CHICO MIGUEL Poeta? Romancista? Contista? Crítico Literário? Cronista? A indagação é oportuna, porque ele é autor de bons livros de poesia, de ficção (romances, contos, crônicas), ensaios literários e ainda de traduções. Talvez seja esta uma boa resposta: o nosso CHICO MIGUEL é um polígrafo!
Ele, que sabe muito de Teoria Literária, que fez estudo aprofundado, por isso mesmo aplaudidíssimo, da obra do romancista O. G. Rego de Carvalho , vem de escolher-me para apresentar o seu novo livro de contos "Rebelião das Almas", nesta manhã de hoje, em sessão solene de lançamento da obra. Estou certo de que a razão primeira de sua escolha reside em nosso companheirismo aqui na Casa de Lucídio Freitas. Uma outra razão seria o fato de também eu escrever ficção.
Honrado e preocupado, leio e releio "Rebelião da Almas"... Tanto foi o prazer da leitura, que a preocupação se foi... Afinal, o meu testemunho de leitor não será tido como estudo crítico da obra. Mas, direi o que vi e senti a propósito da leitura.
Já no primeiro conto da coletânea, deparo-me com uma história muito interessante, que narra a paranóia da guerra na América Latina: um casal de paraguaios, de origem nipônica, viaja à Guatemala, região de permanente conflito, com o propósito de visitar uma feira de livros... O fantástico e o surreal tomam conta da narrativa, proporcionando-nos gostosa leitura, remetendo-nos à lembrança de Ignácio de Loyola Brandão e suas "Cadeiras Proibidas" .
O conto seguinte - "Ela... Capivara" - encerra uma bela história curta, que envolve três personagens: um bancário idoso, que pela vez primeira visita o parque arqueológico da Serra da Capivara, na companhia do seu amigo Lulu... Viagem de ônibus... O impacto do cenário encantador... O encontro com a recepcionista linda e jovem... O visitante, que é o protagonista da história, extasia-se com a visão da serra e encanta-se com a presença da recepcionista. Rola ali um clima! - como diz a galera nos programas de tevê. Narrativa agradabilíssima, com denso conteúdo artístico. O narrador, que é o autor, como que transforma o seu velho bancário provinciano num quase Dr. Nogueira, aquele jovem de 17 anos às voltas com a presença de D. Conceição, uma balzaquiana, esposa do escrivão Meneses... Tudo quase acontencendo!... E não acontecendo nada, como era do gosto do Bruxo do Cosme Velho, numa noite em que justo tinha de acontecer a Missa do Galo. Ou, talvez, o autor dessa bela historieta da Serra da Capivara, tenha caminhado mais na direção mesma do Vampiro de Curitiba, com aquele Nelsinho, que dá gritinho histérico quando vê carne fresca: "Ai, me dá vontade até de morrer. Veja, a boquinha dela está pedindo beijo - beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. (...) Por que Deus fez da mulher o suspiro do moço e o sumidouro do velho?" . O visitante da Serra da Capivara, personagem miguelina, velhusco, um tanto estropiado da burocracia bancária, finalmente, regressa à Capital e lhe perguntam os amigos: - "O que viu na Serra? E ele responde: - Não vi nada e vi tudo."
Este conto, no meu modo de ver e sentir, atinge em cheio o belo literário.
E as boas histórias se sucedem, todas elas vazadas em narrativa recheada de recursos estilísticos. O autor de Rebelião das Almas, em verdade, não conta casos, não presta depoimento pessoal, não faz relatório circunstanciado de fatos - procedimentos que não condizem com o modus faciendi da boa composição literária. Pelo contrário, o nosso CHICO MIGUEL costura células dramáticas onde nada sobra no tempo, no espaço e na ação das personagens; sem falar no zeloso culto à língua vernácula, que ao longo das histórias vai nacionalizando expressões estrangeiras já meio que incorporadas ao falar cotidiano do povo brasileiro.

Constato, ainda, na boa prosa de CHICO MIGUEL um certo ar de protesto, que remonta à matança de índios desde os primeiros contatos do europeu com o povo autóctone, fazendo-o o autor numa bela metaficção sarcástica à nossa primeira obra literária, a Carta de Pero Vaz de Caminha; seguem-se, nas demais histórias urbanas, contemporâneas, as denúncias de corrupção, violência policial, abandono de menores, fome, sede, miséria urbana e caos social. E nisto anda muito bem o nosso grande contista. A arte é sempre útil. Que fique a denúncia para a posteridade! Fernando Pessoa, que não era apenas e tão-somente poeta, era, também, além de "grande fingidor", um grande pensador. A propósito, bradava: "Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes - tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte vê-se, porque dura." E recomenda: "Deixemos a nossa arte escrita para guia da experiência dos vindouros, e encaminhamento plausível das suas emoções. É a arte, e não a história, que é a mestra da vida."
Mas, o livro Rebelião das Almas encerra, também, grande amor telúrico por esta gleba de Saraiva. Afinal, o contista, que é um vate, e que vive cantando esta cidade em postais poéticos, agora, neste livro de contos - ora rindo ora chorando, amuado, de calundu, dodói do cotovelo -, na pele de personagens convincentes, deita e rola nas ruas e praças desta Cidade Verde. Nas asas da ficção realista, neo-realista ou surrealista; fantástica ou fabulária, depois de longos vôos ao fundão arqueológico da Serra da Capivara e aos grotões do Jenipapeiro, vem, de asinha, prazenteiro, aterrissar nos bares, inferninhos, delegacias de polícia, consultórios médicos... Mergulhar nos rios... Vem subir e descer nos elevadores dos arranha-céus em companhia de uma linda Tiana; vem perambular na companhia de um moleque guardador de carros chamado Zezinho, a quem o Paulinho Perna-Torta , do grande contista João Antônio, fica é longe em sabedoria malandra.
E assim, tranqüilo e feliz, acabo de falar de um livro de contos que li e reli com grande prazer estético; e que me servirá de inspiração para, quem sabe, no futuro, ousar cantar em narrativas curtas a cidade a quem prometi um romance.

A GERAÇÃO DO "CLIP" - ANOS 60

       Francisco Miguel de Moura
          Escritor e membro da APL

Reunidos aqui, em torno da Literatura Piauiense, onde se encontram participando três dos principais membros do Círculo Literário Piauiense (CLIP) - Francisco Miguel de Moura (este que lhes fala), Hardi Filho e Herculano Moraes, - poetas e prosadores que se destacam no cenário literário do Estado e já com divulgação e crítica em vários Estados e no Centro-Sul do país, é o momento de colocar-se os pontos nos ii. Primeiramente com relação à existência e independência do CLIP. Ele foi fundado oficialmente em 2 de abril de 1967, mas antes houve uma preparação que eu diria bastante boa. Praticamente, esse movimento começou com minha aproximação com os escritores Herculano Moraes e Hardi Filho, em 1964, quando eu acabava de fixar residência em Teresina, em virtude de minha transferência como funcionário do Banco do Brasil para nossa Capital. Eu vim acossado pela "revolução de 64", que não queria ninguém com idéias, muito menos socialistas para a compreensão da sociedade. Apresentações feitas pelo teatrólogo e ator Tarciso Prado, que também se integrou a nós, na tarefa de buscar os valores piauienses do passado e incentivar os do presente. Assim, os anos de 1965 e 1966 foram de preparação para a fundação do movimento. Não pensamos em nada que fosse protestar contra a geração anterior simplesmente porque a geração anterior, a da revista "Meridiano", estava praticamente esgotada, com os seus três representantes principais, O.G. Rego de Carvalho, H. Dobal e Paulo Nunes morando fora do Piauí, em Brasília ou Rio de Janeiro, - e a Academia Piauiense de Letras praticamente parada, na mornidão de uma presidência sem projetos, a cargo do Des. Simplício Mendes. Não éramos contra a Academia, éramos contra esse estado de coisas.  Não havia contra quem e o que protestar. Havia um vazio nas letras. Éramos jovens escritores e poetas querendo mostrar nossos livros. Havia Hardi Filho, premiado pela Prefeitura Municipal de Teresina, com seu primeiro livro "Cinzas e Orvalhos"(1964), a seguir publicado, e "Areias", em 1966, de Francisco Miguel de Moura. 
No ano anterior, Herculano Moraes lançara "Murmúrios ao Vento", com uma poesia verde, romântica. O autor viria a amadurecer como poeta mais tarde com "Pregão" e "Seca, Enchente e Solidão", sobre os quais escrevi positivamente. E não sou crítico de escrever sobre o que não é bom. Sou sincero e contundente. Foi o próprio Herculano quem diria mais tarde que o maior acontecimento literário/editorial de 1965, tinha sido o livro de Castro Aguiar, "Caminho de Perdição", confirmação do sucesso anterior de "Adolescente de Rua" (1962), autor que também fez parte do CLIP, assinando seu estatuto.
Que mais havia?  Fontes Ibiapina escrevendo seus contos, dando prefácios aos novos escritores, como foi o caso de "Areias", e J. Miguel de Matos, com os seus "Caminheiros da Sensibilidade", propagando os poetas do passado e do presente, com sua crítica sempre elogiosa. Ambos vinham do movimento "Meridiano". Nada mais a comentar sobre literatura que seja de grande monta, nos anos 60.
Foram os anos da nossa geração.
O CLIP (Circulo Literário Piauiense) foi constituído com os seguintes escritores, poetas, romancistas, contistas, jornalistas, historiadores, cronistas e teatrólogos): Herculano Moraes (presidente), Osvaldo Lemos (vice-presidente), Hardi Filho (secretário), Francisco Miguel de Moura (tesoureiro) e os demais membros: Geraldo Borges, Castro Aguiar, João Henrique de Sousa, Tarciso Prado, Benoni Alencar, Honorato Rocha, Raimundo Vilarinho, Cacilda da Mata, Rosa Maria Castelo Branco, Joaquim Soares, Wagner Lemos e Francisco C. Viana. Ao todo, 16 fundadores. A diretoria foi empossada logo em 9 de abril do mesmo ano de 1967, com festa no Teatro de Arena, na Praça Mal. Deodoro, a cujo evento foram convidadas e compareceram as seguintes autoridades: J. Miguel de Matos, Nerina Castelo Branco, Lucimar Ferreira Sobral, Pedro Lemos e Jofre do Rego Castelo Branco, respectivamente, escritor, acadêmica da APL, Gerente do Banco do Brasil, Delegado Regional do Trabalho e Prefeito Municipal de Teresina. Muita gente, curiosos, estudantes, professores, poetas iniciantes estiveram presentes, lotando o teatro-recém construído. Na ocasião, além dos discursos de praxe, houve os seguintes lançamentos: Nº 1º (que viria a ser o único) do "Jornal do CLIP" e o livro de contos "Flagrantes da Vida", de João Henrique Sousa, e declamação de poemas por Hardi Filho, Herculano Moraes, J.Miguel de Matos e por quem mais quis fazê-lo. O acontecimento foi registrado pelo jornal "O Dia", na sua primeira edição.
O "JORNAL DO CLIP" teve uma edição tranqüila, pois Herculano Moraes era jornalista, enquanto a publicidade comercial fora de minha competência. Angariamos recursos das seguintes firmas: L. Noronha & Irmão, Dist. de Peças e Acessórios Ltda., Livraria M. A. Tote, Papelaria São Francisco,  Agropec-Comércio e Representações,  Loteria Estadual do Piauí, Farmácia Saúde do Povo, Tipografia Antônio Lopes, Editorial Piauí Ltda., Casa Leão (Tajra & Fonseca), Florêncio Bento Bezerra & Cia.   e Editora Artenova Ltda.
Posteriormente juntou-se à turma do CLIP, embora não oficialmente, o contista Magalhães da Costa, que já vinha publicando seus contos no Ceará e no "Almanaque da Parnaíba", os quais viria a reunir, nos livros "Casos Contados", 1970, e "No Mesmo Trilho", 1972.
Portanto, se os anos 50 foram da geração "Meridiano", os anos 60 foram nossos, da geração "clipiana". E continuamos pelos anos 70 até o meado da década, com os seguintes acontecimentos literários: Hardi Filho publica "Gruta Iluminada" (1971); Francisco Miguel de Moura publica "Linguagem e Comunicação em O.G. Rego de Carvalho", pela Artenova, Rio, 1972, lhe valendo a consagração como crítico literário nacional, e "Pedra em Sobressalto", 1974; em 1975, Herculano Moraes publica "A Nova Literatura Piauiense", um ótimo livro de crítica literária sobre nossa geração, especialmente. Mas, além dessas publicações e uma ou outra que não me vem à memória no momento, os "clipianos" ou o movimento "CLIP" traria conseqüências da maior importância para a cultura do Piauí, cite-se, por exemplo, a fundação da UBE-PI (União Brasileira dos Escritores do Piauí), em 21.10.1973 e a fundação da Secretaria de Cultura, no mesmo ano. Naquela, observa-se que o grupo do "CLIP" estava em peso, inclusive assumindo a presidência; e nesta, se consultados os jornais e arquivos de rádio da época, vão observar como lutamos pela idéia, levando-a às autoridades e requerendo sua realização, e depois participando nos principais eventos por ela promovidos, inclusive da revista "Presença".
É inconcebível verdadeira e historicamente que se diga que o "CLIP" não existiu como movimento literário. Apenas no tempo em que se reuniu oficialmente - um ano - no Teatro de Arena, fizemos lançamento de livros, realizamos peças teatrais, recital de poemas e as reuniões de todos os domingos, onde discutíamos o rumo de nossa cultura, de nossa arte. Além disto, cada qual por seu meio, antes e depois da existência oficial mencionada, fazia programas de rádio (naquele tempo aqui ainda não existia canal de tevê), escrevia nos jornais, estava presente a todos os lançamentos, todas as festas da cultura, das artes e das letras. E líamos muito, e estudávamos muito, e tomávamos conhecimento, através dos jornais, do que se passava no Rio e São Paulo, havendo, é claro, uma certa identificação de nossa parte com essas informações que recebíamos. Integrantes do movimento, extraoficialmente, como Gregório de Moraes, de vez em quando vinha do Rio visitar a terra, e então fazíamos reuniões sempre proveitosas. Herculano Moraes chegou a escrever que eu fui o primeiro poeta concretista do Piauí. Realmente, "Areias" já apontava um pouco para isto e em "Pedra em Sobressalto" realizei experiências mais profundas.
Da troca de nossas experiências, resultou que no início Hardi Filho, por exemplo, fazia principalmente sonetos e eu a poesia chamada de "modernista". Tempo depois, Hardi Filho passa a dedicar-se ao verso livre e às pesquisas e eu, a pesquisar e escrever sonetos, sempre buscando conformá-lo com os novos tempos. Já Herculano Moraes avançava no rumo do melhor de sua obra acima apontada e fazia os preparativos para ser o segundo historiador de nossas letras, com "Visão Histórica da Literatura Piauiense - o primeiro, como se sabe, foi João Pinheiro, ainda da geração acadêmica.  
A geração seguinte - "do mimeógrafo, marginal ou dos anos 70" - nos acompanhou. Não se pode dizer que ela nos contestou nem que tenha documentos probatórios de quando começou. Neste sentido é meio aleatória. Mas é herdeira da leitura de Torquato Neto e Mário Faustino, que chegavam (seus livros) bem tarde ao Piauí. Ela também sentiu certa influência do CLIP, através dos seus cultores, os quais inda hoje continuam, por exemplo Francisco Miguel de Moura, Hardi Filho e Herculano Moraes. E isto foi bom. Já havia conflitos demais, os originários da situação política brasileira. A "geração do mimeógrafo", ou dos anos 70 começou mesmo a publicar livros a partir da segunda metade da década. Antes era muito dispersa, sem organicidade, pagando pela dispersão em grupinhos, ou pela situação política. E a última alternativa (a ditadura) não foi "privilégio" somente dela. Nós pagamos caro por isto, também".
Finalizando, afirmo que, desta novíssima geração, há poetas picoenses, cito os mais atuantes e melhores - Ozildo Barros e Vilebaldo Nogueira, vivendo nesta terra gloriosa de Fontes Ibiapina. Uma recomendação final a todos, a qual parte de quem já o fez: Leiam muito, não acredito em cultura e sabedoria de quem não leu romances, em quem não conhece a poesia. Aliás, sabedoria é um atributo dos velhos, que me desculpem os jovens, certamente inteligentes e cheios de vontade. Mas só chegarão à sabedoria se persistirem durante toda a vida. Um  sábio precoce pode ser um exceção que fura a regra.  Jovem e sábio, historicamente, somente Jesus.
Picos possui muitas coisas boas, a ALERP, grupos de teatro, cantores e compositores, poetas, universidades, bibliotecas particulares, progresso em todos os sentidos. Mas lhe falta uma coisa imprescindível: uma biblioteca pública, vejo-me obrigado a declamar. Os picoenses, especialmente a juventude estudiosa e vibrante, professores e intelectuais têm que levar avante a luta pela criação da biblioteca pública. A respeito, sabe-se que no passado recente um prefeito devolveu verba que veio do Ministério da Cultura para que fosse instalada, simplesmente porque não quis preparar a burocracia para tal. Isto é inconcebível. Assim, dos cem por cento das cidades brasileiras consideradas de grande e médio porte, 75% possuem a sua biblioteca, apenas 25% não na tem. Picos está nesta estatística negra. Parabéns, Picos, por tudo o que possui e disse antes, pelo seu povo trabalhador, hospitaleiro, que me recebe sempre com muito carinho. Menos pela falta da biblioteca pública. Parabéns à Academia de Letras da Região de Picos e a sua nova diretoria, que promete escancarar suas portas à sociedade, ao povo picoense e aos visitantes. E está começando muito bem com este movimento literário que aqui acontece neste final de outubro.
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Discurso refeito sobre anotações de palestra pronunciada em Picos, no dia 22-10-2004, no Auditório da Associação Comercial, dentro da programação do III Seminário de Literatura Piauiense.

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*Oton Lustosa, autor deste ensaio, é membro-titular da Academia Piauiense de Letras, contista e romancista.

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Viajando sobre
“Os Estigmas” (II)
Humberto Guimarães*
É aqui onde situamos “Os Estigmas” de CHICO MIGUEL, do ponto de vista literário, ao lado de Kafka e de Albert Camus, Prêmio Nobel, cujos personagens, estonteiam-se entre as malhas de um determinismo trágico, onde se esfacelam amores e se desfazem vidas - tragédias de Sófocles, tragédias de Shakespeare.

Eu disse, no discurso de apresentação, que “Os Estigmas”, o romance, era um samba-canção e, como tal, um livro brega. Ora, gosto de brincar com a semântica das palavras, suas cambiantes consuetudinárias - as distorções, o chulismo, a gíria.

O adjetivo brega, donde vem, o que significa? Vem das coisas de gosto ruim, do pão bregoso, seco, duro, bolorento; no regionalismo nordestino brasileiro estende-se figurativamente à zona do meretrício, às coisas ultrapassadas, às paixões em prantos derramadas; equipara-se à cafonice, ao bocomoquismo, expressões da pseudo-cultura dos salões requintados no chiquismo da superficialidade extensivas aos programas de televisão da pseudo-arte que não passam de incultos coveiros do Lácio ao encherem a boca, apresentadores e convidados, de superlativos extravagantemente vazados em solecismos disssonantes: “gostozésimo”, “lindérrimo”, “estudiozésimo” e assim por diante.

Alan Poe, Baudelaire, Augusto dos Anjos, fizeram atraente literatura, formando do lixo humano, arte irretorquível para o entendimento de quem possui a instrução média/superior. Intelectuais brasileiros de grande sensibilidade, optando pelo popular, desceram à boêmia do bas-fond, do rendez-vous do bolero “Boneca cobiçada” de Biá e Bolinha; de Waldick Soriano, o mesmo de “A carta” e de “Eu não sou cachorro não”, mas também da grande composição, o bolero “Volta”; desceram lá poetas como Orestes Barbosa e Adelino Moreira, e amalgamaram, em puro romantismo ao gosto popular, do miúdo das favelas aos grandes das coberturas de arranha-céus, maravilhas como “Chão de estrelas”, “Santa dos meus amores”, “Vidro vazio”, “Abelha da ironia”, “Ciúme”, “Torturante ironia”, “Palhaço do luar”, “Arranha-céu”, “A mulher que ficou na “Taça” (Orestes), umas interpretadas por Silvio Caldas, algumas por Romualdo Peixoto, a maioria por Francisco Alves.

As de Adelino - “Êxtase”, “Negue”, “Revolta”, “Argumento”, “Escultura”, “Deusa do asfalto”, “Meu dilema”, “Hino ao sol”, exclusivas para Nelson Gonçalves cantar, tendo ambos, Orestes e Adelino, marcado época com o sucesso nos anos 50/60, quando os poemas musicados em melodias que tocavam diretamente os refolhos mais íntimos da afetividade, eram vividos e aplaudidos por jovens e idosos.

Mas, como proclama o soberbo Camões, “valores novos se alevantam”, de modo que se foram rareando boleros , sambas-canções, guarânias, xotes, fox-trotes e baiões, cedendo lugar para a Bossa-Nova, um romantismo jovem, misto de namoros-flertes, “fossas”, alegria, leveza de balanceado, dela destacando-se o tropicalismo baiano em meados dos anos sessenta: era a Música Popular Brasileira dos grandes momentos da televisão Brasileira liderada pelo pioneirismo da Rede Globo de Roberto Marinho, que, no entanto, perdia ibope para a decadente Tupi com o inesquecível Programa de auditório de Flávio Cavalcanti a tomar conta dos Domingos dos anos 70; anos de Leila Diniz, Sergio Bittencourt, maestro Erlon Chaves, Márcia de Windsor, Humberto Reis, Ronaldo Bôscoli, Danuza Leão, Walter Foster, Íris Lettieri e José Messias estreando o famoso júri, terror e esperança dos calouros; tempos de Ellis Regina e Simonal, do pleno reinado de Roberto Carlos, do surgimento singular do singularíssimo Raul Seixas, do irreverente Denner, o pré-Clodovil; tempos da terrível big-sister chamada Censura do governo militar, que se enlouquecia com as piadas do Costinha e os dribles do próprio Flávio; das interpretações românticas de Moaci Franco, do amigo Silvio Santos, o camelô da televisão.

Depois, o vandalismo da licenciosidade, aproveitando-se do fim da censura para expandir regionalismos abusivos de duplos sentidos para a indecência pornofônica até chegar o domínio quase-total da ME, a música eletrônica., uma cacofonia antimelódica, uns barulhos de tum-tum-tuns, estridulências de guitarras a retinir timbres de hienas malcriadas, e urros de marmanjos dos cabelos desgrenhados, roupas desbotadas, apertadas, rasgadas, e tatuagens diabólicas, tocados pelas drogas, imitadores tupiniquins dos galegos ingleses-norteamericanos do wonderground , irreverentes, chocantes, afrontadores dos bons costumes, da inteligência artística, do sentimento estético, desarticuladores da alma sensível, desconjuntadores da harmonia sintonizadora da holística humana, a invadir, pela massificação da mídia desenfreada na avidez do domínio da “opinião pública”, através de todas as vertentes da comunicação - a televisiva, a radiofônica, a escrita -, os lares, os logradouros, desde as casas de espetáculo a todo os espaços existentes, com a estapafúrdia excitação psicomotora libidinosa em curtos-circuitos espasmódicos de convulsões orgásmicas pervertidas e exacerbadas, ora em saltos de acrobacia felina, ora em balanceio de cadência pendular-hipnotizante, sob o jogo de luzes e fumaças no caleidoscópio do ritmo ligeiro-alucinante de todo o espectro do arco-íris esfacelado em explosões psicodélicas e os acicates orgíacos do álcool etílico, do canabismo-cocainismo, “etcoeteraetalismo”.

Da MPB sobressaem-se, para ombrear-se à permanência do rei Roberto da BN, sobressaem-se os valores inolvidáveis, porque sabiam pensar, porque tinham conteúdo cultural e sensibilidade artística, de Antônio Carlos Jobim, Vinícius de Morais e Chico Buarque de Holanda.

Vinícius morreu, perpetuou-se no panteão da glória pela literatura poética; Tom morreu, está no arquivo-vivo do bom-gosto; Chico não morreu, estabiliza-se atualmente na literatura a cultivar a herança intelectual dos seus maiores.
*Humberto Guimarães é membro da Academia Piauiense de Letras

"EM MINHA tERRA ME SINTO fELIZ"

LITERATURA: SE ME PERGUNTAREM, EU DIGO UM poeta jamais será celebrado se seus poemas não o celebrizarem, ou seja, se não escreveu e publicou a melhor poesia entre os de sua época – para todas as épocas, diz um dos nossos críticos e com muita razão. FRANCISCO MIGUEL DE MOURA, na intimidade CHICO MIGUEL, teve a felicidade de publicar uma obra que reúne seu fazer poético de 30 anos, ao qual junta estudo consagrador de Nelly Novaes Coelho, professora da USP e crítica de renome nacional. Mas essa trajetória de 30 anos não conta tudo. Por exemplo, o tempo de gestação do seu primeiro livro «Areias». Ele começou a exercitar a poesia desde os 15 anos. Viveu no interior da Bahia e no Rio de Janeiro, por algum tempo, até voltar para seu Estado de origem e publicar a primeira obra. Apesar do forte acento social e sentimental de seus poemas, como verificou Assis Brasil em «A Poesia Piauiense no Século XX», Chico Miguel não é apenas «um poeta da sua aldeia». Nas suas andanças, se enriquece, torna-se plural. Diante do farto material que o poeta agora apresenta, de fato pode o leitor constatar sua linha estética, sua criação. Carlos Nejar, gaúcho, membro da Academia Brasileira de Letras, escreveu-lhe certa vez: «Poeta, você sabe trabalhar o grito e o cântico das palavras, e ver, através dos silêncios, a estranheza da condição humana.» Henriqueta Lisboa já houvera dito que «os poemas de Francisco Miguel de Moura impressionam pela severidade e justeza de tons.» Enquanto isto, Lygia Fagundes Telles proclama que «Miguel de Moura é originalíssimo, chega a ser insólito». O objetivo do grande poeta é ser único, oferecer beleza e espiritualidade. Se vier a ser imitado, ótimo para ele, não para os imitadores. É que, como o Pã da mitologia grega, sua flauta teve o dom de enfeitiçar e de encantar. Mas, de todos os gêneros, é a poesia que exige maior pureza e menor grau de imitação. Poesia é raiz, ser poeta é ser radical. Daí dizer-se com certa ironia que “todo poeta é o maior poeta de si mesmo”, considera o poeta CHICO MIGUEL bem humorado – o que não deixa de ser uma grande verdade. Na poesia não há personagens senão idealmente. E, assim, toda a ficção poética concentra-se no próprio autor, com as infinitas gradações que o fenômeno pode assumir. Conversando com o poeta, aqui vai o resumo de suas opiniões, um pouco de sua vida e de seu conhecimento da arte da poesia e dos percalços para levá-la ao público. Jornal de Picos - Poeta, por que o título «Poesia in Completa»? CHICO - Com esse título pretendi reunir minha poesia mas não toda. Não é propriamente seleção nem poesia completa. Logo, «poesia incompleta». O «in», separado, diz que ao mesmo tempo que não é completa, é também completa mas com a qualidade «in». Dá pra entender? Dos inéditos, coloquei os poemas que considero melhores, e com eles inicio o livro. Há também um livro que não publiquei na época - 1980 - por questão política, de nome «A(r)fogo», que agora sai, completo, com a explicação correspondente. Jornal de Picos - O que são 30 anos de poesia? CHICO - São toda a minha vida de luta em busca da origem e do destino humanos, através da palavra muda, no papel. Desde que se começa a aprender a falar descobre-se o fio da poesia. A fala é comunicação e expressão juntas. Na poesia, a expressão separa-se da comunicação (ou quase), ganha densidade, finura, e despoja-se dos convencionalismos da prática, assumindo outra vida. Pensamento, palavra e ação vivem juntos, formam sua alma. Porque poesia é também ação, mas uma ação não empírica. Jornal de Picos - E para que serve a poesia? CHICO - Se eu soubesse, não seria poeta. Sei onde está. Sinto o seu cheiro e o seu sabor. Pode estar em tudo. De modo especial nas pessoas despojadas de preconceitos, nas crianças, nas coisas simples, na natureza, nas relações humanas ainda não codificadas pela sociedade. E, essencialmente, na palavra, no dizer substantivo. Está na peça de teatro, no bom filme, na boa propaganda comercial, na música popular mais refinada, na prosa escrita com estilo. A poesia está em nós, nos nossos estados emocionais mais profundos, quando somos felizes sem saber ou quando sofremos o sofrimento alheio. Mas a poesia está melhor ainda nos livros de poesia, quando é forte, quando é boa, quando é profunda e viva. É preciso captá-la pela leitura silenciosa que é quase uma oração. Jornal de Picos - Quantos livros já escreveu? Qual o melhor? Qual o seu preferido? Comente-os. CHICO - Perdi a conta. Somente de poemas, para ficar dentro do assunto, foram oito. Este volume de poesia incompleta, podemos dizer que compreende três: «Poesia in Completa» propriamente dita, «A(r)fogo» e «Seleção» (de todos os livros anteriores). Se há um melhor do que outro, não sei. Quem poderá dizer é a crítica do futuro, a crítica histórica. Como todo autor, gosto mais do último. Jornal de Picos - Por que a crítica do futuro e não a de hoje? Você não acredita na crítica? CHICO - Que irrisão! Pode um crítico não acreditar na crítica? Acredito mais na história. Quando de mim não restar nem osso nem cabelo, se alguém me lembrar será pelo que fiz, pelo que deixei de bom e de bem feito na minha poesia, e, possivelmente, por minhas outras obras, porque sou romancista, contista, escrevo crônicas semanalmente na imprensa. Meu penúltimo livro foi nesse gênero: «E a vida se fez crônica». Quando os inimigos e os concorrentes de hoje também já estiverem no outro lado do mistério, como se diz, daí levantarão a crítica histórica, sem susto. Poderá ser justa. A crítica dos contemporâneos ou é somente de elogios, e neste caso peca por generosidade, ou é muito contrária e injuriosa, e, nesta vertente, se perde por vaidade e pelos interesses (normalmente extraliterários) que o criticador defende. Há ainda um terceiro tipo que fica em cima do muro, cita doutrinas e autores tais e quais, entra por outros caminhos e termina não chegando ao essencial da obra - que é o que interessa. É a crítica dos «enrolões». Jornal de Picos - Você citaria alguns desses críticos, das três categorias, para a gente se situar melhor? CHICO - Não gosto de citar nomes, a gente termina sendo injusto, esquecendo alguém. Na verdade a crítica é uma atividade em baixa, no Brasil e no mundo, em virtude mesmo da descaracterização das culturas, da «internacionalização» dos costumes, da «filosofia» mercadológica, onde o produto humano (a coisa, a mercadoria) vale mais que o produtor, e o produtor já não é mais o homem, porém a máquina. Os valores humanos estão rebaixados e a crítica é ciência do reconhecimento, distinção e caracterização dos valores, na vida como na literatura, e nas outras artes. Acredito que Nelly Novaes Coelho, Fábio Lucas, Fausto Cunha, Assis Brasil, Eduardo Portela, Antônio Cândido, Wilson Martins e Afrânio Coutinho são os melhores, participam da crítica atual com vistas a seu efeito na história, com vistas ao permanente, ao duradouro. Com exceção dos quatro primeiros, os demais estão aposentados ou em caminho de se aposentarem, infelizmente. A crítica é uma atividade que deve ser paga, pois bastante árdua. Qual o jornal que quer e pode manter um crítico literário, hoje? Talvez a «Folha de São Paulo», talvez o «Jornal do Brasil» e nada mais. A revista «Veja» paga escritores para exercitarem a sua vaidade e escreverem umas resenhas que são a contrafação da crítica. Bem que esse órgão poderia escolher outro critério, uma página permanente sobre temas e livros, com rotatividade de autores. Para ser crítico é necessário ser culto, muito culto. E cultura é aquilo que Cossio, um clássico italiano, definiu como «o que resta quando nada mais restar do que se decorou, do que se aprendeu na escola.» Não vejo saída para a crítica. E isto é péssimo para a literatura. Jornal de Picos - No seu modo de entender, o que é literatura? A literatura popular, de cordel, também pode ser arte? E a literatura de massa, esses romances que se vendem nas bancas, chamados outrora de capa e espada? E a ficção científica? E o romance policial? CHICO - É muita pergunta numa só. Vamos por partes. É difícil, numa entrevista, explicar o que é literatura. Há dois sentidos para a palavra «literatura». Literalmente literatura é letra e assim estaria excluída a literatura oral. Agora, quando se fala em literatura é preciso saber se o que se indica é a instituição no seu sentido coletivo, ou se a obra em si, a literatura especificamente. Neste último caso, tenho ainda como correta a definição de Fidelino de Figueiredo, esposada por Soares Amora, Dino del Piño e Massaud Moisés, entre outros. Ou seja, que «a arte literária é ficção, é criação de uma para ou supra-realidade, através da intuição do artista.» A palavra, a língua escrita é o veículo. O ser da literatura é a forma específica que a língua toma na mão dos escritores - a literariedade. Os dados serão sempre singulares e profundos, apanhados da realidade e da mundivivência do artista, de modo que possam transmitir emoções. É uma forma superior de conhecimento, por isto separou-se da ciência e da filosofia. Claro que há outras definições. «Literatura é o texto literário, e somente o texto literário», de Raul Castagnino, por exemplo. Literatura como conjunto de obras, num local e num tempo específico, para estudo comparado nas escolas, é uma instituição coletiva. Nesse caso, não há literatura de um só autor. É sempre um conjunto de autores e obras em linha que apresente similitude, cujo conjunto nasce, cresce, morre e fica como história, com o nome de escola, corrente, geração, movimento... Não creio que a literatura de cordel, primitiva ou atual, misturada com as impurezas da linguagem do quotidiano, feita por gente simples e sem um posterior aprofundamento, possa ser considerada literatura, no sentido específico. Como conteúdo é básica, mas serve a muitos propósitos. Como forma, nunca. As demais espécies literárias citadas - o romance policial e a ficção científica - serão a contrafação da literatura, porque nelas a liberdade de criação fica comprometida, em proveito da informação, do factual. Descarto todos esses gêneros, inclusive os romances de massa. Evidentemente que, num sentido bem amplo, pode-se dizer que «Crime e Castigo», de Dostoiévski, é um romance policial e tem ótima literariedade. Objetarei, entretanto, que «Crime e Castigo» deixa muito a desejar como romance policial, pois desde a primeira página o leitor já sabe quem é o assassino, e mesmo assim a leitura não diminui de interesse. Isto é excelência na arte. Jornal de Picos - Quais são seus poetas e escritores preferidos? CHICO MIGUEL - Procurei ler os melhores. Porém, é bom frisar, o grosso de minhas leituras vem dos vinte anos. Hoje, quase não leio, pelo menos com a gula e a satisfação de antes. Desde quando o interesse crítico me assaltou, nunca mais li um romance despreocupadamente, ou mesmo um livro de poemas. Sempre penso em fazer um trabalho de análise depois. E na maioria das vezes faço, se não me perco em anotações, comparações etc. etc. Mas já sei onde você quer chegar, quer saber quais foram as minhas primeiras leituras, minha formação poética, não é? Então, lá vai: Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias, Castro Alves, Fagundes Varela, Junqueira Freire, Olavo Bilac, Raimundo Correia, Vicente de Carvalho e muitos outros, até chegar ao modernismo, onde me dei com Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, João Cabral de Melo Neto, etc. Não vou citar os mais novos. Em prosa, tenho lido quase tudo, de Joaquim Manuel de Macedo a Érico Veríssimo, passando por Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto, Raul Pompéia, Machado de Assis, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa e muito mais. O primeiro romance que li foi «Inocência», de Visconde de Taunay. Ele me marcou muito. Depois vieram José de Alencar, Eça de Queiroz, Jorge Amado, Vitor Hugo, Flaubert, Balzac, Sartre, Camus, Dostoiévski, G.G. Marquez e, novamente, Machado de Assis. Estrangeiros, tenho lido quase sempre em traduções, pois não consigo ler com desembaraço noutro idioma, exceto em espanhol. Jornal de Picos - E os piauienses? CHICO MIGUEL - Fontes Ibiapina, O. G. Rego de Carvalho e Assis Brasil, são os principais entre os prosadores. Dos poetas, Da Costa e Silva, Celso Pinheiro, Mário Faustino. Mas o último só é piauiense pelo nascimento. É um enorme poeta do Brasil, e seria do mundo se não houvesse sido arrebatado desta vida tão cedo. Os demais escritores piauienses tenho lido esporadicamente, quando solicitado a fazer algum trabalho. Não vou citá-los. Entre os mais novos, da minha geração e da seguinte, a maioria é de amigos meus. Não querendo cometer injustiças nem praticar a política de grupinho a que todos nós somos tentados, o melhor é deixar para momentos mais propícios. Entrevistador - Quando, por exemplo? CHICO MIGUEL - Quando estiver escrevendo o livro de «Literatura do Piauí». Jornal de Picos - Está com medo, fugindo... Não quer falar sobre a atualidade!... CHICO MIGUEL - Não. Não tenho medo de nada. Já falei muito nos nossos valores. Fui censurado, publicamente, por um animador e representante da «novissíssima» geração, de estar fazendo proselitismo, de estar eu mais preocupado em construir igrejinha literária do que em escrever uma obra. Não é verdade. Quero deixar uma obra sólida, um estilo forte, que me identifique como artista da palavra. Fui, quando tinha força e juventude, também animador cultural, mas sem a vaidade de me colocar como mestre ou condutor. Nada disto. Fazer poesia, escrever romances, contos e crônicas, essas coisas não me bastavam. Saí então aliciando os novos para entrarem comigo no jogo, essa grande cachaça que é a literatura. Quem me conhece, sabe: fui brigão, defendia minhas convicções. Participei, com Hardi Filho e Herculano Morais, em 1967, do CLIP (Círcuclo Literário Piauiense), há 30 anos, portanto. Fui um dos fundadores da UBE, no Piauí. Editei uma revista aberta à participação de todos os que tivessem qualidade («Cirandinha», 10 números, de 1979 a 1984), mas não me julgava (nem me julgo) o dono da verdade. A verdade absoluta está com Deus, ou com ninguém. Nós, humanos, quem somos nós para ter orgulho? Jornal de Picos - Mas eu provoco: Que é que você diz de H. Dobal? E de Leonardo das Dores Castelo Branco? Seriam eles o primeiro e último grandes poetas piauienses? CHICO MIGUEL - Não, nada disto. No Piauí houve e há muitos bons poetas. Das antologias dos Estados nordestinos organizadas por Assis Brasil (refiro-me às dedicadas ao Maranhão, Piauí e Ceará), talvez a nossa seja uma das melhores. Melhor que a do Ceará certamente é. Os cearenses, sem dúvida, são melhores na prosa do que na poesia, haja vista a obra de José de Alencar no passado, e, no presente, a de Raquel de Queiroz, a de Nilto Maciel e tantos outros. Na pesquisa histórica, no humor, também eles são ótimos. Já os maranhenses, todos nós sabemos, vão bem com a poesia, de Gonçalves Dias a Ferreira Gullar, escorrem como um rio. Mas quero dizer que não sou «caçador de gênios». Preparo uma história da «Literatura do Piauí» para estudo nas escolas do curso médio e superior, sem o propósito de colocar só os geniais. Gênios são poucos no mundo. Não considero Leonardo de N. S. das Dores Castelo Branco um gênio, como alguns da geração mais nova tentam fazer crer. Ele foi certamente um poeta, o primeiro poeta piauiense, não somente por nascimento. Mas vivia e trabalhava isolado, sua poesia mediana é, hoje, quase ilegível, perdeu a graça (se é que teve graça no seu tempo). Pelas informações que temos, nunca foi festejado, nem antes nem depois de sua morte. Ele é mais personagem da história política que da literatura. Aí, sim, foi realmente digno de figurar entre aqueles que fizeram o melhor. Com relação a H. Dobal, posso dizer que é um grande poeta. Estaria entre os melhores do Brasil, em todas as antologias escolares, em todas as livrarias e bibliotecas, se fosse divulgado nacionalmente. Não posso concordar, entretanto, que seja considerado da «Geração de 45». Sua poesia muito pouco tem a ver com aqueles «formalistas» e, em algum sentido, «passadistas» de 1945. É uma pena a falta de divulgação dos grandes autores. Mas esse é outro problema. Eu me acredito um bom poeta e igualmente bom romancista e cronista, impressão comprovada na crítica positiva que recebo. Mas falta-me oportunidade. Morei no Rio apenas por um ano, atarefado com tratamento de saúde de meu primeiro filho. Poderia ter-me fixado lá. Resolvi o contrário. Se tivesse ficado, quem sabe o que aconteceria?... A vaga de Carlos Drummond de Andrade, no «Jornal do Brasil», foi ocupado por Affonso Romano de SantAnna. Poeta, depois de Drummond, só o João Cabral de Melo Neto, pois o Mário Quintana morava na província e o Affonso Romano de SantAnna pode ser tudo, menos grande poeta. Todos sabemos como são construídas as glórias, os ídolos, a fama: em parte pelo valor, mas também em grande parte pelas circunstâncias e oportunidades. H. Dobal é um ídolo em Teresina, por seu valor, por seu amor, por tudo. Creio que ficará na nossa história. Torquato Neto ficou. Talvez por ter morrido muito jovem e em circunstância muito especial (suicídio). Foi mais poeta como homem do que como escritor, deixou uma obra reduzida. Jornal de Picos - Por que você não quis escrever outros livros de crítica literária como aquele sobre O. G. Rego de Carvalho? Outros piauienses não merecem? CHICO MIGUEL - Cinéas Santos, doublé de editor e escritor, tem um projeto de lançar monografias sobre autores piauienses, à semelhança do que foi feito com os autores nacionais pela Abril Cultural. Até me consultou sobre a possibilidade de escrever sobre Assis Brasil. Sobre Fontes Ibiapina, escrevi um pequeno ensaio, publicado em revista do Piauí, ao qual pretendo acrescentar outros que abarquem o universo de sua linguagem, se algum dia me surgir a oportunidade de publicação. Ficaria, assim, contemplada a trindade piauiense da ficção: O. G. Rego, Assis Brasil e Fontes Ibiapina. Que outros ficcionistas deveriam ser lembrados para isto? Creio que Alvina Gameiro («Curral de Serras») e José Expedito Rego («Né de Sousa»). E acho que são os melhores mesmo. Não desejei tornar-me conhecido apenas como crítico. Foi como crítico que saí nacionalmente primeiro, daí estar registrado na história da «Crítica Literária no Brasil», do Prof. Wilson Martins. Minha estréia, em 1977 (embora o livro tenha saído com data de 1966), foi em poesia, com o livro «Areias», prefaciado por Fontes Ibiapina. São, portanto, 30 anos que estamos comemorando. É bom acrescentar que no meu segundo livro de poemas, «Pedra em Sobressalto», 1974, recebi elogios de O. G. Rego e de H. Dobal. No terceiro, que foi «Universo das Águas», 1979, foi a vez de Drummond tecer comentários, por carta, onde declara que “sua poesia é variada e sugestiva». Partindo de quem partiu, foi o reconhecimento e uma glória. Jornal de Picos - Você apresenta uma trindade de prosadores piauienses (Fontes Ibiapina, Assis Brasil, O. G. Rego de Carvalho) e depois acrescenta outros dois (Alvina Gameiro e José Expedito Rego) como os melhores. E se alguém quisesse juntar você a esse quinteto? CHICO MIGUEL - Ficaria feliz. Tanto sou poeta como prosador, não faço distinção aos que praticam bem a literatura desta ou daquela forma. Aliás, uma das maiores críticas literárias deste país, Nelly Novaes Coelho, num estudo sobre minha «POESIA in COMPLETA», faz um dos maiores elogios ao romance «LAÇOS DE PODER», justo o que obteve o prêmio «Fontes Ibiapina». É ele o da minha preferência, na prosa. Fiquei muito satisfeito. Jornal de Picos - Que coisa não fez nos seus 30 anos de literatura e desejaria fazer ainda? CHICO MIGUEL - Escrever uma peça de teatro. E mais, quando ela fosse representada, gostaria de figurar como ator, nem que fosse numa pontinha de nada. N(entrevistador )- Já tentou? CHICO MIGUEL - Sim, mas não consegui. Tenho uns três projetos iniciados, parados, reiniciados, mas nenhum concluído. Inclusive um monólogo, em poesia. Aquele desejo corresponde a uma frustração de minha juventude. Quando fazia o ginásio, os colegas inventaram de encenar uma peça teatral. Eu peguei o papel de um criado. Não passamos dos dois primeiros ensaios. Não chegou a ser levada a público. Jornal de Picos - E os projetos futuros de romances, contos, crônicas? Não pensa em escrever também suas memórias? CHICO MIGUEL - Um dia desses, conversando com o escritor e amigo, acadêmico William Palha Dias, depois que li seu «Memorial de um lutador obstinado», eu disse que ele já havia escrito minhas memórias, tão semelhante são as nossas vidas de rapazes pobres do interior que vencem na cidade por força da ferrenha vontade. Talvez um romance memorialístico possa vir a escrever. Porque reconheço que não sou personalidade importante para merecer um livro de memórias. Também não me sinto com jeito para contar o factual, o real. Gosto da ficção ou da poesia. Tenho dois romances planejados, «O Crime Perfeito» e «Xicote». Já escrevi a primeira versão deles, mas até chegar no ponto temos um longo caminho. Pronto mesmo, para publicação, tenho um livro de contos, «Por que Petrônio não Ganhou o Céu». Projetos, tenho dois, mas para público restrito: «Miguel Guarani, Biografia de meu Pai» e «Picos, meu Município». N(entrevistador )- O livro de contos que você citou tem alguma coisa a ver com o político Petrônio Portela, Ministro da Justiça do Presidente Geisel e, dizem, principal promotor da abertura política do Regime Militar? CHICO MIGUEL - Nada. Já pensei até em mudar o nome, por causa disto. Mas é tão sugestivo! Não acha? Petrônio é apenas um nome. Ficção mesmo. No conto me sinto mais à vontade para brincar, para o humor. Não se trata de anedota. São histórias mesmo, são contos. Nem sempre realistas. A maioria parece surrealismo ou fantasia. Faço o jogo do perdedor que ganha e do ganhador que perde. Alguns contos foram premiados, outros são inéditos. Dois ou três fazem parte de livros de contos coletivos ou estão incluídos nos meus romances. Jornal de Picos - Você não disse quando nem onde nasceu. Teria sido em Picos, no Estado do Piauí? Quando? CHICO MIGUEL - Você também não perguntou. Nasci no município de Picos, sim, mas num lugarejo chamado «Curral Novo», data Jenipapeiro, hoje município de Francisco Santos - Piauí. Tenho, assim, duas cidadanias: picoense e franciscossantense. Nasci a 16 de junho de 1933. A casa onde nasci já não mais existe, era de taipa, derribaram-na, ou o tempo a consumiu. Nem era casa nem nada, era uma choupana, em cima do alto. Como Manuel Bandeira, guardo-a na imaginação, suspensa no ar. Diferentemente de Bandeira, não sei como a guardo, pois sequer a conheci. Só sei do lugar. Todo poeta busca, de volta, sua aldeia, sua casa, seu útero. Sua mãe. A poesia é iluminadora por isto. Jornal de Picos - Sim, continue. Diga mais sobre a Poesia. CHICO MIGUEL - A poesia é eterna. Em períodos de cansaço ou enjôo a gente diz para si mesmo que vai abandoná-la. Vão-se as noites e os dias, lá uma tarde - eu costumo escrever à tarde e à noite, por isto minha poesia é triste, talvez - lá vem uma tarde com os seus motivos, e então pega-se novamente o papel e a caneta e comete-se a devassa dos sentimentos através da brincadeira do verso, da rima, do som e do silêncio. O crime é novamente cometido, o crime de mexer com a palavra na tentativa de mais uma vez torná-la não apenas veículo mas poesia pura, organicamente tirando-lhe um raio de luz como se acende um fósforo ou uma vela na escuridão. Pode ser um estalido, uma pontada no coração, passos na escada, sombra de alguém não pressentido nem presente como uma velha que se espevita ou uma menina que se encolhe, uma roupa na corda ou uma pedra na vidraça. Tudo dá poesia como tudo dá samba. É preciso que o poeta esteja atento e no seu momento de atirar. Um grito na escuridão. A poesia salva. Jornal de Picos - Fora da poesia não há salvação? CHICO MIGUEL - A literatura salva. Sem poesia, a vida é uma imbecilidade. Sem poesia não há Deus. A utilidade nos massacra. O inútil é divino. É felicidade, prazer, ternura, carinho, compreensão, amor, graça. Viva a poesia! (Publicada originalmente no “Jornal de Picos”, 18 de dezembro de 1998)



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