Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 01 de maio de 2017
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Elmar Carvalho

BIOGRAFIA
BIOGRAFIA DE ELMAR CARVALHO
 
José Elmar de Mélo Carvalho nasceu em Campo Maior – PI, em 09/04/56. Juiz de Direito. Bacharel em Direito e em Administração de Empresas. Presidiu o Diretório Acadêmico “3 de Março”, a União Brasileira de Escritores do Piauí e o Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Foi membro do Conselho Editorial da Universidade Federal do Piauí. Publicou os livros “Rosa dos ventos gerais”, “Cromos de Campo Maior”, “Noturno de Oeiras” e “Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental”. Co-autor do livro “A poesia parnaibana” . Participou de várias antologias, entre as quais “Baião de todos” e “A poesia piauiense no século XX”, organizadas por Cineas Santos e Assis Brasil, respectivamente. Citado em diversos livros e dicionários biográficos. Colaborador de vários jornais e revistas. Membro de diversas entidades literárias e culturais. Detentor de várias honrarias e distinções culturais. Seu livro “Rosa dos ventos gerais” recebeu o prêmio Ribeiro Couto (obra reunida), conferido pela União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro.


AMOSTRAGEM

ALGUNS POEMAS DE ELMAR CARVALHO
AUTOBIOGRAFIA
Após seguir os mais ásperos caminhos,
Napoleão avesso, eu próprio me coroei
com uma coroa de cravos e espinhos.
Subi montes, rompi charcos,
atravessei grutas sem luz,
com os ombros esmagados
ao peso de férrea cruz.
Em noites de névoas e luares
sofri e cantei perdido nos lupanares.
Em dias de sol escaldante e incandescente,
fui casto Dante
e Baudelaire delirante e indecente,
pelas tardes mornas de ressacas e orgias.
No Olimpo a que subi em busca
dos mitos, à procura de Zeus,
pregaram-me numa cruz onde
puseram irônica tabuleta: “Rei dos Judeus”.
Por frígida e pálida manhã,
envolto em solidão e neblina,
rasguei e perdi minha toga purpurina.
Cheio de ódio e de amor,
sorvendo taças e mais taças
de bebida balsâmica e malsã,
nos bordéis de Eros, nos templos de Pã,
e nos palácios dourados de Mefisto,
onde sucumbo e resisto,
no meio de mentira e desengano,
fui Satã,
fui Cristo,
fui Humano.
 
O BÚZIO
                              
o búzio
- pequeno castelo
ou gótica catedral -
sobre a mesa avança
envolto em ondas e vendaval
 
anda ondulante
onda cavalgante
onda ante onda
 
atraído pelo chamado
do mar avança
chamado que carrega
nas espirais e labirintos
de sua concha côncava
     
avança e
lança sobre mim
a tessitura exata
de sua arquitetura
abstrata e surreal
 
avança
unicórnio lendário
protuberante
rinoceronte bizarro
surfista extravagante
em forma de chapéu
 
lentamente
avança co-movido
pelo chamado das ondas
que em si encerra
em seu ventre vazio
onde o vento em voluteios
é a própria voz do mar
 
oh, búzio caprichoso
como as curvas e volutas
de um corpo de mulher...
 
 
 
METAPOEMA
 
As meadas e as palavras
são labirintos e teias.
Nelas os poetas se elevam;
nelas as moscas se enleiam
e se debatem em vão.
Os poetas são.
As moscas, não.
 
 
ENIGMA
 
entre o som
         o sono
         o sonho
         a sombra e a sobra
eu me decomponho
     em escombros
em farpas e agulhas
      escarpas e fagulhas
                                     desfeito enfim
                                     em fogos de artifício
                                     feito estrelas de mim
esfinge autoantropofágica que
não se decifrou e que a si
mesma se devorou
 
 
INSÔNIA
 
No silêncio abissal
da noite estagnada
a engrenagem pesada
do tempo se desenrola
e desaba sobre mim.
 
As botas cadenciadas
das horas marcham
- lentas lesmas –
marcham infinitamente
na noite sem fim...
 
 
NOTURNO EM DOR MAIOR
 
na noite ca’lad(r)a
      um cão ladra
      sem resposta
um galo canta
sem o eco doutro galo
um vaga-
lume vaga
sem lume
vaga-
          rosa/mente
          demente
na noite vaga
uma ave
noctívaga
navega
na vaga
do m’ar sem movimentos
nos cataventos
      sem ventos
e de mirantes
      sem mira/gens
a morte espreita
nos olhos vidrados
do enforcado.       
 
 
EGOCENTRISMO
 
     espirrei
na réstia de luz
da janela de meu quarto
e fiz surgir um
                arco-íris
                arco-do-triunfo
sob o qual
napoleonicamente passei
sobre o qual caminhei
em busca do
                velocino de ouro
coroado com o
                l’ouro
de minha própria
     alquimia.
 
GRAN FINALE
 
Desmanchei
com minhas mãos
que os criara
os deuses em que cria.
Desfiz
a imagem que fizera
da mulher amada.
Perdi a fé em tudo
como quem nada perde.
Depois
gritei, berrei,
chorei gargalhando
e resolvi ficar louco.
Depois de doido
resolvi tentar a sorte
            sal-
                   tan-
                          do de cabeça
do alto do arranha-céu.
 
 
MULHER NA LAGOA DO PORTINHO
                             
Na tarde antiga
de sol e bruma
de luz e penumbra
as dunas mudaram
de cores e formas.
 
Os belos olhos esplendentes –
pálidas  cálidas opalas ou
esmeradas esmeriladas esmeraldas –
da mulher bonita
de sinuosas dunas e viagens
furta-cores furtaram
outros tons e sobretons.
 
Ainda guardo a memória viva
daquela tarde morna e morta
e ainda vejo aqueles olhos vivos
furtando furtivos cores e atenção.
 
E os olhos e as formas curvilíneas
permanecem intactos no tempo
que em mim não passou.
 
E a mulher, acaso passou,
nos escombros das formas
transitórias da beleza?...
 
 
ENCONTRO
 
Em teus olhos mergulhei
para rever
        reviver o já vivido.
Neles me embebi
                embevecido
ao arrebatar do inesquecido
“o que não foi
e que poderia ter sido”.
Colhi nas minhas
o perfume de tuas narinas.
A essência de tuas crinas e resinas
às minhas misturei.
Com os meus, colhi-te
os lábios, entreabertos
em suave espera e ânsia.
Beijei-te os olhos
– fechados para que visses e sentisses
plenamente a magia do momento –
e deles vertias o céu e o mel.
 
 
AUTOBIOGRAFIA ZODIACAL
 
Sou do signo de
         Carneiro
mas meu coração é um
         Touro indomável.
No meu sangue
corre a fúria de
         Leão.
Entre uma Virgem e duas
         Gêmeas
meu coração/bala
         Balança.
Sou um Câncer
nos chifres de
         Capricórnio.
Sou Peixes libertário
sem o cárcere de um
         Aquário.
Sou Sagitário
         a
              r
                  m
                       a
                           arco e flecha
                       d
                  o
             d
         e
( A flecha é uma cauda de Escorpião.)
 
 
A PONTE NA MEMÓRIA
 
O vento passavoante
             pássaro voante
sob o arco-da-velha
sob o arco da ponte.
Baloiça os pés de oitis,
joga confete com suas folhas
e empurra o casario antigo
com suas: arcadas dóricas
                 volutas jônicas
                 ogivas góticas
                 sacadas exóticas
com suas parábolas e abóbadas.
O vento passalígero passalísio
e empurra o casario antigo
que navega parado
no tempo que navega
como um mar que navegasse
sob um navio ancorado
que se deixasse navegar.
Meu sonho de malas prontas
é passageiro e tripulação
do casario – navio que navega
ao se deixar navegar.  
 
 
 
 
 
MARÍTIMA
                                   
Do mar eu trouxe
o vento que dança
em torno de meus cabelos.
Trouxe este meu cheiro
de sal, mariscos e maresia.
Vaqueiro fui e fazendeiro
de estrelas-do-mar que
subiram ao céu para formar
constelações e galáxias.
Nas pontas agudas de meus dedos
cintilam fogos-de-santelmo.
Meus olhos têm o brilho
que roubei das ardentias.
Os relâmpagos das procelas
pousaram nas minhas mãos
e nelas se aninharam.
Do ritmo do mar eu trouxe
os meus gestos e o meu jeito de falar.
Num lance de búzios
joguei minha cartada final
em que fui anjo terminal.
Do mar eu trouxe a cantiga
do vento na voz dos búzios.
Sobre o dorso de alados cavalos-marinhos
pesquei sereias malévolas que me
encantaram e depois fugiram.
No vai-e-vem das ondas
busquei o meu gesto de
posse e devolução.
Trouxe o meu beijo temperado
no salamargo de suas águas.
Trouxe tesouros sepultos
nas covas do coração.
Com o mar aprendi meu modo
de caravela: meus dedos
são filamentos que machucam
sem querer, que ferem
sem ter por quê.
Trouxe caracóis que se (con)fundiram
com os caminhos labirínticos que trilhei.
Louros, nunca os tive,
exceto algas em meus cabelos.
Arrebatado por navios fantasmas
conheci várias e inefáveis dimensões.
Nadei contra as correntes marinhas,
mas a elas cansado me entreguei,
despojado da púrpura e do cetro
com que havia lutado.
Trouxe do mar as conchas ilusórias
    - multiformes e multicores -
 com que minha vida enfeitei.
Mas sobretudo trouxe a vida
na alegria das chegadas
e na tristeza das despedidas.
 
 
PERDIÇÃO
 
Por mares de sargaços e enganos
perdi-me na rota
de estranhos portulanos
feitos por arcanos d’antanho.
Por causa de lábios
que falavam de amor
seguindo incertos astrolábios
soçobrei nas tormentas
de algum cabo Bojador.
Egresso de Sagres
dancei a Dança dos Sabres
no mapa de meu destino.
Nas garras da ventania
joguei um jogo de morte
em que tudo se perdia.
No derradeiro naufrágio
encontrei enigmas e presságios
nos búzios que no abismo havia.
E tudo se findou
num veleiro encalhado
em mar de absoluta calmaria.
 
 
PAISAGEM MARINHA
 
         Fecho os olhos
e encosto a concha do búzio
         na concha de minha orelha
e escuto o ritmo frenético
               do mar
ou lhe ouço o rouco ronco rolado
       de ondas paradas.
Fecho os olhos e escuto
        a voz do búzio
e de dentro de sua concha
de cornucópia surgem
ondas, espumas e areias
peixes, corais e caracóis
alados cavalos-marinhos
e estrelas-do-mar e do ar
em galáxias de a(r)mar.
         (Meu coração
marinho sonha com sereias,
ilhas, coqueiros e veleiros.)
        De dentro
da concha do búzio
     sai um vento
recendente de maresia
      que me
leva/lava/lavra
como se eu fora um
    fruto do mar.
 
 
REALIDADE FANTÁSTICA
 
Velhas borboletas empoeiradas
saídas do fundo dos baús.
Velhas borboletas obsoletas
              e de
              asas
enferrujadas querendo
aprender de novo a arte de
     bor-    bor-       bor-
  bo-    bo-      bo-
       le-      le-         le-
   to-      to-                to-
        a-          a-               a-
                vo-      vo-           vo-
ar.                  ar.                      ar.
              Lâmpadas
votivas destroçadas, estrelas
cadentes geladas, luzes
apagadas pelos inimigos da
          claridade.
Antigos
            alfarrábios cheios
            de traças e cupins
            com as amarelas
            páginas dissecadas
reescritos.
 
 
TRABALHO DE CESTARIA E RENDA
 
tramas e tramóias
arma(dilha) a(r)mada
a(r)mada arma(dilha)
entocadas nas tocaias
 
amantes amadas
amando (tr)amando
entre teias e r’amas
com as armas a(r)madas
 
entre rendas e redes
a engrenada moenda
do amor entrelaçado
 
faz uma teia de renda
em forma de rede de pe(s)car
e me amor(tece) e me amor(daça)
 
 
ELEGIA DO AMOR FINAL
 
Teus braços
que poderiam
tudo me dar
num simples abraço
se fecharam para sempre
para mim.
E teus seios perfumados
teus lindos seios sedosos
não mais me abrigarão
e neles não mais porei
minha boca sequiosa.
E teus olhos que
poderiam devassar e possuir
meu ser interior
mesmo que me fitassem
não mais me veriam porque
para mim para sempre
se fecharam com suas longas
pálpebras de sonho e de medo.
E tuas belas mãos
tuas delicadas mãos para mim
se fecharam e me esmurraram.
E teus lábios
teus lindos lábios
emudeceram e se fecharam
num longo beijo sempre negado.
E teu sexo
me foi sempre uma
concha eternamente fechada.
E teus cabelos
à brisa eram lenço
acenando em despedida.
 
       
A FOME
                    
        I
 
            a fome
que come
e consome
o “home”
         mora
em sua víscera sonora
             e o devora
        como uma flora
               cancerosa
                        rosa carnívora
                    que aflora e o deflora
           de dentro para fora
 
 
 
        II
 
 
a fome é tanta
e tanto espanta
que o ex-grevista de fome
hoje é grevista com fome
–        ou melhor – desempregado
                                   pregado na miséria
                              de ser gado sub/ju/gado
fis/gado                       vis/gado        k/gado
O FAVELADO
 
O favelado, qual filósofo meditava:
sua miséria era tamanha
que tudo enchia e ainda sobrava.
 
 
OLHOS
 
Olhos de lã
       e de lâminas.
Olhos de punhos de seda
       e de punhais de aço.
Olhos de ver
       e de verruma.
Olhos de amar
       e de amargor.
Olhos de fada cruel
       e de fado terno.
Olhos que me deram o céu
      e o inferno.
Olhos de antítese:
eram bálsamo
e me fizeram mal.
 
 
INFLAÇÃO        
 
A inflação está
tão alta que
papel-moeda
virou papel higiênico.
 
E papel higiênico
virou artigo de luxo.
 
 
AUTO-APRESENTAÇÃO
 
Eis como sou
            neste instante único
            (após o qual já
            serei um outro):
 
um homem que rema
            no seco contra
            a corrente das águas
 
um homem que usa
            a gravata como
            se fora um baraço
            nas horas de opressão
 
um homem que escreve
            torto por
            linhas certas
 
um homem que sobe
            e teima contra
            a lei da gravidade
 
            Eu sou aquele
que aprendeu
a pecar para
ter a humildade
de não ter uma
virtude
 
            Eu sou aquele
que jogou roleta
russa com o tambor
cheio de balas e
apostou contra a
sorte
 
            Eu sou aquele
            que lutou para
            não ser
 
 
 
 
EMOÇÃO NO CIRCO
 
                   Para João Miguel e Elmara Cristina
                                                                             
Pelas mãos tenras
de meus filhos
a magia do circo me chegou.
 
Atropelado por emoção e saudade
meu coração foi atirado de
lado              a                         lado
pelas piruetas de
         capetas e palhaços
infiltrou-se nos malabares
e me trouxe meu pai e o circo
encantado de minha infância.
 
As lágrimas escorriam
e eram estrelas e vaga-lumes
que pingavam da cartola
ensopada de um mago...
 
A lembrança de meu pai
assomou da sombra do passado
suavemente sentou-se ao meu lado
tomou-me as mãos
as mãos de uma criança.
                                         
 
   
 
 
 
SEX-APPEAL
 
Movo até o teu
meu amoroso coração
- ânfora de lágrimas e solidão.
 
Teu olhar me revida
com uma impressentida carícia
referta de promessas e delícia.
 
Teus olhos escorregam macios
das penumbras dos cílios armados em cios
e afagam minha pele
eriçada em arrepios.
 
Meus anseios
desvelam tuas vestes
e revelam os empinados penedos
sedosos de teus seios,
sem medos
e sem receios,
e devassam em
tênues e tímidos acessos
os teus mais secretos
úmidos e diletos recessos.
 
E eu te desejo mais que tudo,
mas me contenho e me abstenho
e me deixo ficar inerte e mudo...
 



FORTUNA CRÍTICA

                              A POÉTICA DE ELMAR CARVALHO
 
                                                            M. Paulo Nunes (*)
 
         O celebrado poeta italiano Eugénio Montale, ao ser-lhe concedido o Prêmio Nobel de Literatura, proferiu um famoso discurso a que intitulou “É ainda possível a poesia?”, que traz oportunas considerações sobre o nosso fazer poético. Montale se pergunta sobre o lugar que pode ter “a mais discreta das artes” num mundo em que o “homem civilizado chegou ao ponto de ter horror de si”. Não obstante a presença do “universo das comunicação lingüística e cultural”, para essa poesia  “não há morte possível”.
         O maior atestado da permanência dessa poesia é esta reunião de arte, em que homenageamos três poetas – H. Dobal, Hermes Vieira e Elmar Carvalho, aos dois primeiros concedendo-lhes uma placa de prata, como a significar-lhes um prêmio pelo notável trabalho poético realizado, e ao último, com o relançamento de seu último e apreciado livro Rosa dos Ventos Gerais, que será objeto de um breve comentário.
         O que se nota na atual geração de poetas, após a profunda experiência temático-formal do modernismo de 22 e o da 2ª fase, a partir de 1930, passando pela volta aos modelos formais do neoclassicismo, com o retorno aos poemas de forma fixa, com o pós-modernismo ou a chamada geração de 45, é uma acentuada preocupação com a renovação da palavra como instrumento de novas experimentações no universo poético, de que é exemplo este sugestivo livro de Elmar Carvalho, ao adotar em sua metalinguagem novas formas de expressão poética.
         Na geração de 22 – a de Mário e Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo e, após 1930, Carlos Drummond de Andrade, com a sua poesia pública que se contém, de modo especial, em A Rosa do Povo, de 1945, verificou-se uma acentuada preocupação com os temas sociais, enquanto os novos poetas de que falamos, e Elmar é um deles, foram mais contidos nessa tendência. No entanto, vez por outra, ela também reponta, porquanto a renovação poética é indissociável do drama social de nosso tempo e os poetas, desde os antigos aos atuais – Homero, Virgílio, Dante, Camões, Garrett, Antero de Quental, Antônio Nobre, Fernando Pessoa ou, entre os nossos, Gregório de Matos, Tomaz Antônio Gonzaga, Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac, Bandeira, Drummond, Vinicius de Moraes, H. Dobal, os poetas sempre souberam unir aquele universo do seu sentir pessoal, ou seja, o da poesia lírica e elegíaca, ao da rajada incontida dos ventos da desgraçada condição humana, em todos os tempos e lugares.
         Em Elmar Carvalho, que é um poeta essencialmente lírico, estão presentes essas duas faces do fazer poético. Se em “Encontro” ele é mais derramado e barroco, afastando-se um pouco do ideário dessa nova estética, em “Metapoema” e “A ero moça” que integram com o anterior, a 1ª parte do livro “Cancioneiro do Ar”, utiliza o máximo de contenção em expressar o seu lirismo feito de emoções, desencantos e tensões. Em “Metapoema” há toda uma teoria do poema expressa em poucas palavras.
Vejamos os poemas citados:
 
      Encontro
 
Em teus olhos mergulhei
para rever
        reviver o já vivido.
Neles me embebi
                embevecido
ao arrebatar do inesquecido
“o que não foi
e que poderia ter sido”.
Colhi nas minhas
o perfume de tuas narinas.
A essência de tuas crinas e resinas
às minhas misturei.
Com os meus, colhi-te
os lábios, entreabertos
em suave espera e ânsia.
Beijei-te os olhos
– fechados para que visses e sentisses
plenamente a magia do momento –
e deles vertias o céu e o mel. (Op. cit. p. 50)
 
      Metapoema
 
As meadas e as palavras
são labirintos e teias.
Nelas os poetas se elevam;
nelas as moscas se enleiam
e se debatem em vão.
Os poetas são.
As moscas não. (Op. cit. p. 51)
 
      A ero moça
 
A aeromoça
abre os braços
e mostra as saídas
de emergência...
 
E eu a sonhar
que ela abrisse
as pernas e mostrasse
as entradas de quintessência. (Op. cit. p. 29)
 
         Por outro lado, em “Cancioneiro do Fogo”, 2ª parte do livro que ora comentamos, estão contidos os poemas de conteúdo acentuadamente social, com o que se contempla aquela outra vertente a que atrás nos referimos, presente em poemas como “Galo Magro”, “Cidade Grande”, “Alegoria da Fome”, “Sonata em Dor Maior”, “Moisés” e “A Fome” e todos os subtemas que o completam, e ainda “7 de Setembro” I e II atos.
         Em “Cancioneiro da Terra e da Água”, 3ª parte do livro, releva salientar os poemas de caráter evocativo, como a lembrar o Bandeira de “Evocação do Recife”, a exemplo de “Parnaíba Revisitada”, “Vento na Alma e nos Cabelos”, “Noturno de Oeiras”, já anteriormente publicado, “Flagrantes de Teresina”, “Cromos de Campo Maior”, “Noturno do Cemitério Velho de Oeiras” e sobretudo o belo poema “Amarante”, que aqui transcrevo em homenagem à minha mulher, Clara, que é amarantina e se acha presente a esta festa da poesia.
 
      Amarante
 
doce amaro
        pródigo
        avaro amarante
        ante-amar-te
        anti-amar-te
antes sempre após
agora
sem agouro sem demora
sem pressa e sem presságio
       pé ante pé
       perante tuas casas sonolentas
                                      diante das fráguas das serras
que descerras em cortinas de azuis
      descortinas neblinas
na paisagem – plumagem/brumagem fixada
na retina retentiva redentora do poeta
     amarante
     amaranto de
memórias atávicas de catimbós
murmúrios ancestrais de urucongos
requebros lascivos de velhos congos
resquícios longínquos de quilombos
encravados em abissais cafundós
dos antepassados cativos altivos dos mimbós
      perante ti
      amarante
a água escorre lacrimal
pela sinuosidade do morro da saudade
deságua na desembargador amaral
      e de val em val
      de sal em sal
boceja nas bocas de lobo dos esgotos
gargareja nas gargantas gosmentas dos gargalos
     mergulha e deriva singular
nas águas plurais do parnaíba
     amarante
     perante ti
     imperante
o vento verdeja agreste nos ciprestes
rumoreja aguado nos aguapés
sacoleja sem leste oeste
a copa fagueira das faveiras
          tuas tardes tardas dolentes amaras
                 abres das janelas
                 debruçadas em melancolias
         e alicias e (re)velas
as moças nas modorras mormacentas macilentas
em que delicias cilicias e acalentas...       (Conf. op. cit. p. 93)
 
         Finalmente, na última parte do livro “Cancioneiro dos Ventos Gerais”, a exemplo de Drummond em “A Máquina do Mundo”, de seu livro Claro Enigma, reconstrói o universo conhecido para redefini-lo poética e sensualmente, numa visão ecumênica, através da qual ganha universalidade a sua rica poesia. Encerra-a com os “Poemitos da Parnaíba”, uma saga dos tipos populares daquela cidade por ele tão amada, seguindo a mesma rota de H. Dobal em A Serra das Confusões.
         Que mais dizer do meu caro poeta Elmar Carvalho, pessoa distinta, sensível e fina, senão que é ele também um devotado produtor cultural no mais alto sentido, partícipe dos mais destacados movimentos intelectuais de sua geração, integrante das instituições culturais representativas de nosso meio e detentor de várias distinções honoríficas por relevantes serviços prestados à comunidade piauiense, no campo das artes e das letras?
A ele, por quem tenho o maior apreço e a mais viva admiração, e ao seu belo livro, cuja publicação estimulei e ora aplaudo ao vê-lo impresso, a homenagem da minha simpatia cordial e permanente, fazendo votos para que renove sempre os valores da cultura como o vem fazendo em sua poesia e em seu labor intelectual, porque são estes, em realidade, os altos valores do espírito, aqueles que dão efetivamente significação e dignidade à vida de cada um de nós.
____________________________________________________________________
(*) O autor é membro da Academia Piauiense de Letras, da qual foi presidente, e preside o Conselho Estadual de Cultura, tendo sido Secretário de Cultura do Estado do Piauí.
 
                                A ROSA DOS VENTOS GERAIS
 
                                           Alcenor Candeira Filho (*)
 
         O AUTOR
 
         Para nós é motivo de alegria fazer a apresentação do livro A ROSA DOS VENTOS GERAIS, do poeta piauiense Elmar Carvalho.
Embora o autor dispense apresentação, porque residiu durante vários anos em Parnaíba, onde se formou em Administração de Empresas e publicou poemas em jornais e em antologias,  –  desejamos registrar alguns fatos ligados à sua atividade cultural, no Estado:
         Membro da Academia Parnaibana de Letras;
         Presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí;
         Presidente do Diretório Acadêmico “3 de Março”;
         Editor de literatura do jornal “Inovação”;
         Coordenador da página literária “Textos e Pretextos”, do Suplemento do Diário Oficial do Estado;
         Coordenador de literatura e editoração da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, que publica uma das mais importantes revistas do Nordeste: “Cadernos de Teresina”;
         Participação nas seguintes antologias poéticas: “Galopando”, “Poesia do Campus”, “Salada Seleta”, “Em Três Tempos”, “Poemágico”, “Poemarít(i)mos”, “Poesia Teresinense Hoje”, “Postais da Cidade Verde”, “A Poesia Piauiense no Século XX”.
         Na qualidade de homem de letras, Elmar Carvalho é mais conhecido como poeta, mas não devemos deixar de lembrar sua vocação para a crítica literária. Mesmo não sendo ainda autor de livro no gênero, Elmar já publicou em jornais e revistas vários textos críticos, voltados especialmente para a análise de obras piauienses.
         O trabalho que Elmar Carvalho vem realizando se afasta da velha crítica historicista, que realça os elementos extrínsecos (biográficos, históricos e sociológicos) da obra literária. Ciente de que literatura é acima de tudo “monumento estético”, o escritor tem optado pela chamada “nova crítica”, que valoriza os elementos intrínsecos da obra. Se literatura é a arte da palavra, o texto e a sua interpretação estético-literária  é que importa.                                               
 
     A Rosa dos Ventos Gerais
 
         Elmar Carvalho é um dos melhores poetas piauienses da Geração de 1970, como atesta o livro ora lançado em Parnaíba.
Como obra que abrange toda produção do poeta até agora, é natural que “A Rosa dos Ventos Gerais” ofereça apreciável diversidade temática, variedade que se percebe também em termos de gêneros literários, com versos para todas as preferências e gostos: líricos, sociais, épicos, satíricos.
         A partir dessa diversidade, o poeta dividiu a coletânea em quatro partes, que passaremos a comentar.
 
     1ª PARTE: Cancioneiro do Ar
 
         Os poemas da 1ª parte são líricos. Falam de amores devastadores, como no “Poema da Mulher Amada”, e de amores idos e vividos, como na “Elegia do Amor Final”. Aliás, as coisas idas, vividas e revividas predominam na parte inicial do livro.
O passado não é uma pedra, não é uma campa, por isso nele o poeta mergulha como que em busca do tempo perdido “com seus gemidos/ de fantasmas que/ arrastam correntes/ por entre ais doloridos”.
         Conforme está dito em “Eterno Retorno”, o passado são “emoções redivivas/ e ampliadas/ das sensações/ de nervos expostos/ nas carnes pulsantes.” Na esteira da teoria do tempo circular, o poeta lembra que “o passado poderoso e renitente/ retorna e continua vívido e presente/ se contorcendo se retorcendo/ e se reacontecendo.”
         Já o poema que abre a coletânea – “Autobiografia Zodiacal” – enuncia  uma das características marcantes do poeta Elmar Carvalho: sua vinculação com o concretismo, vanguarda que propõe o aproveitamento de recursos espaciais e geométricos como elementos orgânicos do poema, aproximando-o, assim, das artes plásticas.
         Não obstante a predominância de poemas de forma livre, deparamo-nos nessa parte inaugural do livro com alguns poemas de forma fixa, exatamente seis haicais (nenhum com os rigores métricos do haicai japonês, cujos versos, não mais do que três, correspondem a dezessete sílabas, o primeiro e o terceiro com cinco e o segundo com sete) e um soneto, o único em toda obra do poeta. A propósito, tal soneto nada acrescenta à excelente poesia de Elmar Carvalho, porque não passa de fastidiosos gemidos românticos, com os arrulhos de arapongas nos espinheiros, adornando a solidão enluarada das desertas chapadas.
 
     2ª PARTE: Cancioneiro do Fogo
 
         A miséria humana, observada numa das regiões mais carentes do país, lateja nos versos que compõem o “Cancioneiro do Fogo.”
Certamente não são versos incendiários, porque não incitam a rebelião. São versos utilitários, isto sim, que servem para tornar o ouvido um órgão capaz de ouvir, por exemplo, o ronco sinistro de vísceras famintas:
 
      “a fome
que come
e consome
o “home”
     mora
em sua víscera sonora
      e o devora
como uma flora
          cancerosa
                   rosa carnívora
que aflora e o deflora
de dentro para fora.”
 
         O poeta, sempre interessado na sua época, assume a posição de receptáculo do sofrimento humano, de caixa acústica por meio da qual as pessoas possam tomar conhecimento dos males que as afligem, como neste minúsculo poema “O Favelado”:
 
“O favelado, qual filósofo meditava:
sua miséria era tamanha
que tudo enchia e ainda sobrava.”
 
         O teor público da poética de Elmar Carvalho já foi ressaltado pela crítica. No prefácio que figura na antologia “Poemágico”, declarou Assis Brasil, um dos grandes críticos do país:
 
         “Elmar Carvalho (...) canta uníssono a consciência da vida e dos compromissos humanos. Canta as desigualdades sociais, numa forma (poética), como já acentuamos, muito mais contundente do que uma catilinária oca de deputado. O lado emblemático e realista da sua linguagem se unem para que a poesia, mais uma vez, seja o corte profundo e quente e afiado da denúncia.”
 
         Os poemas do “Cancioneiro do Fogo” são compostos normalmente por versos curtos em que notamos a ausência quase total de pontuação, e uma linguagem sempre solta, leve, livre, direta. Até irreverente e contestatória, às vezes. Tudo porque a preocupação maior é com a mensagem, que se impõe por si mesma.
 
3ª PARTE: Cancioneiro da Terra e da Água
 
         A terceira parte do livro celebra o Piauí. São versos líricos através dos quais o poeta empreende um passeio sentimental por ruas, rios, praças, praias, campos, casas, catedrais e cidades piauienses. Nesse bloco de composições telúricas, destacavam-se, como os mais inspirados e de melhor solução formal, os poemas “Noturno de Oeiras” – resultado de uma viagem física e psicológica que o poeta realizou pelo reino mágico da antiga capital de inúmeras tradições históricas, religiosas e artísticas – , e “Marítimas”, escrito no ritmo oceânico do mar, em cujas ondas o poeta assimilou os gestos e o jeito de falar e de ser:
 
“Do mar eu trouxe
o vento que dança
em torno de meus cabelos.
Trouxe este meu cheiro
de sal, mariscos e maresia.
..........................................
Meus olhos têm o brilho
que roubei das ardentias.
Os relâmpagos das procelas
pousaram nas minhas mãos
e nelas se aninharam.
Do ritmo do mar eu trouxe
os meus gestos e o meu jeito de falar.
..........................................
 
 
Mas sobretudo trouxe a vida
na alegria das chegadas
e na tristeza das despedidas.”
 
         Empregando a técnica do despojamento da linguagem, Elmar Carvalho nos dá em rápidas pinceladas a síntese do Piauí, a partir da região litorânea (“Paisagem Marinha”, “Marítima”, “Lagoa do Portinho”, “Mar(rulho) no Tabocal”, “3 Postais de Parnaíba”, “Vento na Alma e nos Cabelos”), passando pela capital (“Flagrantes de Teresina”), e cidades interioranas (“Noturno de Oeiras”, “Cromos de Campo Maior”, “Elegia a Campo Maior”, “Amarante”, “Livramento: Pedra e Abstração”).
         A linguagem desses poemas da terra contém efeitos fônicos que decorrem principalmente das aliterações. A expediente acústico – ora sutis, ora ostensivos – recorre aliás o poeta ao longo de toda obra. Afinal, como ensina Ezra Pound, poesia é imagem e conceito (fanopéia e logopéia), mas também ritmo (melopéia).
 
     4ª PARTE: Cancioneiro dos Ventos Gerais
 
         A vida, respirada, repisada, repensada e/ou reinventada nos ares do Piauí neste final de século, mas sempre a mesma em qualquer lugar e época, – eis a matéria-prima da poesia reunida na derradeira parte do livro.
A vida em Parnaíba, que o poeta já exaltara em vários poemas inseridos no “Cancioneiro da Terra e da Água”, está sempre presente na série denominada “Poemitos da Parnaíba”, que retratam tipos curiosos, malucos, miseráveis, humanos.
         Dois poemas se destacam, a nosso ver, na parte final do livro, ambos de natureza épica na classificação do próprio autor: “Dalilíada”, baseado na vida e na obra do pintor espanhol Salvador Dali, e “A Zona Planetária”, inspirado num cabaré de Campo Maior.
         Embora o excesso de alusões mitológicas no último poema transmita um clima de exotismo e passadismo, o poeta em verdade está interessado é na vida presente, no Piauí e seus angustiantes problemas sociais, representados no caso por prostíbulos existentes em Campo Maior.
         Num total de 382 versos, distribuídos em dez segmentos, o poeta focaliza a prostituição através de um processo criativo em que mistura a mitologia clássica, a astronomia e a sociologia dos lupanares.
         O início do poema já nos fornece uma visão geral da promiscuidade reinante no ambiente, onde as emoções são alinhadas pedra a pedra ao som de vitrola que embala os “que bebem vinho/ e sangue em frágeis taças de cristal.”
         Há versos admiráveis neste moderno poema épico, seja pela magia musical, seja pela beleza das imagens. Se a linguagem às vezes ganha sabor classicisante para ajustar-se ao referencial mitológico, assume quase sempre expressividade moderna e contundente, como nestes versos de “Marte”, cujo ritmo de rudo açoite parece querer varrer as impurezas da vida instintiva e sublinhar a sublime alvura dos lençóis lavados em lágrimas vertidas nas ressacas das “tempestades do sexo”:
 
“Os satélites Fobos e Deimos,
filhos de Marte e Vênus,
amantes do amor (em)bebido em sangue
em suas fatídicas rondas orbitais
espalham o medo e o terror.
Marte dos amores lav(r)ados
no sangue das Fúrias e do Terror
dos romanescos crimes passionais
dos sexos decepados pelas guilhotinas
ou cortados pelas espadas
dos homens e mulheres ciumentos.
Marte dos mártires
dos grandes amores matadores.
Planetas das amáveis
              das afáveis amazonas
a cavalgarem sequiosas
o enlouquecido cavalo alado
do sexo – Pégaso pegajoso
de esperma e mucosa de vagina.”
 
     CONCLUSÃO
 
         Os comentários ora feitos sobre A Rosa dos Ventos Gerais destinam-se apenas a chamar a atenção do leitor para alguns aspectos dos versos de Elmar Carvalho. Versos a serem digeridos por todos os que ainda crêem na poesia como produto artístico capaz de alimentar o espírito como a chuva amamenta a terra.
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(*) O autor é procurador federal (aposentado), professor de literatura e membro da Academia Piauiense de Letras e da Academia Parnaibana de Letras
 
                                UM FÁCIL PREFÁCIO
 
                                                    Hardi Filho (*)
 
         Fora das lições e dos exercícios de literatura e letras dos cursos acadêmicos, no Piauí praticamente não existe crítica literária. Quase sempre solicitados, tópicos e comentários sobre livros e autores geralmente trazem a marca da condescendência, dirigidos que são a todo custo, no rumo da boa aceitação da obra pelo público. Criou-se até, entre nós, a mítica dos “opinantes de plantão” os quais, de tão assediados, seriam obrigados a ter já grafado ou de memória o que dizer de um que sirva para muitos; se o trabalho não merece, a pessoa do autor recebe elogios e fica contente. Porque é escassa a crítica espontânea, rara é também a autocrítica que, a priori, evita o grosso do problema. Nós, escritores do Piauí, nadamos no alto mar sem pontos de apoio senão aqueles criados ou imaginados pela inteligência e capacidade de cada qual; porisso, ainda, muitos de nós nos perdemos no caminho.
         Literatura não se faz assim à margem da verdade crítica. Carecemos de referências com fundamento paramétrico, contendo indicadores do positivo e do negativo, e que soem como grito de alerta a todos os afoitos.
         Às vezes me acontecem incompreensões porque recuso as oportunidades de desempenho nesse sentido, preferindo permanecer apenasmente como produtor, observador e interessado cultural. Tirante a incompetência, nesse particular talvez eu seja o mais egoísta dos homens, pois nunca faço alguma coisa só para agradar o outro. Primeiro eu me agrado.
         Mas vamos ao que interessa. Do que foi dito acima pode-se inferir que este comentário não serve de orientação para o leitor; e muito menos para o autor em face, que dela não necessita porque afeito à lide das letras dentro e fora das universidades. Vai daí que, conhecendo a produção (escrita) de Elmar Carvalho, dou-lhe, a meu gosto, a por si definidora adjetivação de poética. Isto para mim já diz muito.
         O autor de Rosa dos Ventos Gerais é um participante ativo do nosso meio lítero-cultural onde ocupa lugar de destaque merecidamente. Se poesia é imagem, como dizem os entendidos, não há como negar a presença de um poeta criador de belas imagens, como esta lírica a não mais poder:
 
     “... teus cabelos
     à brisa eram lenço
     acenando em despedida.”
 
         Desde muito jovem, estudante em Parnaíba, Elmar Carvalho já atuava culturalmente, já era dado à literatura, já o seduziam os mistérios da poesia, já cultivava admiração pelos grandes aedos do passado e do presente. De lá até cá, fez seus poemas sem alarde, movido somente pela sensibilidade exacerbada ante as belezas do céu e da terra, e por que não dizer, também ante as agruras do mundo, tudo ao sabor dos embates, encontros e desencontros do sentir humano. Haveria poesia sem a exacerbação da alma e do sentimento?
         Não vou dizer da estrutura deste Rosa dos Ventos Gerais, de como foi dividido em partes subtituladas conforme a visão conteudística do poeta. Isto, a correção de linguagem e a beleza da maioria dos poemas, o leitor verá e sentirá. No exíguo espaço deste comentário o que tem de ser afirmado é o mérito indiscutível do trabalho, que, de modo global, é o resultado de pelo menos quinze anos de contubérnio com as vicissitudes, esperanças e momentos felizes do ambiente piauiense, vivido e sentido no plano íntimo e, sobretudo, no plano que dizem social. O poeta ora se envolve em recordações pessoais; ora passeia pelo passado histórico lembrado por casarões com suas portas e janelas que se abrem e se fecham por mãos invisíveis; ora visita o reino do surreal, espirra na réstia de luz e faz surgir o arco-íris estranho de sua própria alquimia; ora se confessa bebericando em doses pequeninas e letais o amor da mulher amada; ora sobe a escada de Jacó, devassa as vísceras mecânicas da baleia do profeta, e tenta desvendar a gênese do primeiro átomo; ora escuta música longínqua na companhia de um inseto que pousa sobre a mesa, e curte saudades com gosto de maresia; ora perde a fé em tudo, como quem nada perde, e resolve ficar louco. O poeta é assim. Age tal qual um “lobo solitário e maldito”, com “um sonho de malas prontas” para qualquer viagem, mesmo aquelas inspiradas pelo sexo dos anjos.
         Estreante em livro individual, posto que sempre marcou presença em publicações coletivas, folhetos, suplementos, jornais, revistas, etc., Elmar Carvalho, moço e consciente como é, sabe das ilimitadas, infinitas possibilidades da poesia, e sabe das suas próprias, que lhe permitirão passos mais largos e ousados na continuidade de sua produção. Estou certo de que, para isso, energia, vocação, inteligência criadora, lhe sobejam. Elmar Carvalho, já foi dito, é um elemento que participa, que se doa, que colabora diuturnamente com a questão cultural. E aí está um ponto importante de diferenciação entre os que atuam participativamente, ouvindo e discutindo, e os que se aprisionam em seus tugúrios privados, sejam masmorras ou torres de marfim. Como bem notou Cunha e Silva Filho, Elmar tem a vantagem de uma “consciência poética atualizada”, isenta dos bolores que se acumulam no tempo e nos cantos de vivência narcisista, ignorante e autólatra.
         Como se diz vulgarmente, há casos que podem mais do que a lei e diante das quais nos sentimos desafiados como primeiros anunciadores. É o que faço escrevendo este comentário sem requisição e sem método. Acrescente-se o fato de que a experiência de Elmar Carvalho por dois anos como presidente da nossa União Brasileira de Escritores foi boa, extremamente proveitosa para a Entidade, para o Piauí cultural e para nós outros que vimos retribuída com realizações a confiança nele depositada, e confirmado o conceito em que sempre o tivemos. Poeta, amigo, cidadão – um homem em três faces dispensando adjetivos. Salve, portanto, o que tem olhos para o imagismo do espírito e mãos que laboram em cima de verdades eternas!
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(*) O autor é escritor, poeta e membro da Academia Piauiense de Letras. O texto foi publicado como prefácio da 1ª edição
 
                                FRAGMENTOS DE TEXTOS SOBRE ELMAR CARVALHO
 
                                                                                                   Assis Brasil
 
         Elmar Carvalho (...) canta uníssono a consciência da vida e dos compromissos humanos. Canta as desigualdades sociais, numa forma (poética), como já acentuamos, muito mais contundente do que um simples discurso de comício ou uma catilinária oca de deputado. Elmar Carvalho é também um hábil poeta. Joga com as formas mais livres, sem modismos. O lado emblemático e realista da sua linguagem se unem, para que a poesia, mais uma vez, seja o corte profundo e quente e afiado da denúncia como neste belo e inventivo A Fome: a fome/ que come/ e consome/ o “home”/ mora/ em sua víscera sonora/ e o devora/ como uma flora/ cancerosa/ rosa carnívora/ que aflora e o deflora/ de dentro para fora.// a fome é tanta/ e tanto espanta/ que o ex-grevista de fome/ hoje é grevista com fome/ –  ou melhor – desempregado / pregado na miséria/ de ser gado sub/ju/gado/ vis/gado/ k/gado.
         Aqui está todo o domínio poético de Elmar Carvalho e toda a contundência do seu verbo, nessa amostragem piauiense da poesia brasileira e do compromisso do homem com os valores e desvalores da sociedade de hoje.
                 
                    (Assis Brasil, em Teoria e Prática da Crítica Literária)
 
         Nascido na cidade de Campo Maior, no dia 9 de abril de 1956, José Elmar de Mélo Carvalho pertence, estética e cronologicamente, à geração de bons poetas que publicaria seus poemas, em antologias, revistas e outros órgãos culturais, a partir da década de 70. Em Elmar Carvalho a vocação poética surge bem cedo e ainda em Campo Maior, ao lado dos estudos na Escola Valdivino Tito, Ginásio Santo Antônio e Colégio Estadual, publica seus primeiros escritos no jornal A Luta.
                     (...)
         Uma das obras coletivas mais importantes de que fez parte foi a antologia Poemágico / a nova alquimia, onde Elmar Carvalho apresenta alguns de seus melhores poemas, naquela linha de sensibilidade e contenção, linguagem suficiente, com o timbre por vezes contundente da crítica social, no que o poeta se irmana com os pares mais expressivos de sua geração, Alcenor Candeira Filho, Paulo Véras, V. de Araújo, Jorge Carvalho.
                     (...)
        
        (Assis Brasil, no livro A Poesia Piauiense no Século XX)
 
 
A SAGA POÉTICA DE ELMAR (*)
                                                             
                                                                 João Evangelista Mendes da Rocha
                                                                                General/Escrito
r
                                                                 Sem dúvida, é a poesia a mais bela                                                                                                                           expressão dos sentimentos humanos. ( Levy Carneiro )
 
         Da sensibilidade lírica, épica e telúrica de Elmar Carvalho, que já nos brindou com tantos poemas da melhor qualidade, sempre estamos na expectativa de mais uma excelente produção literária, não só na condição de poeta, também como crítico, cronista e contista.
         Depois de CROMOS DE CAMPO MAIOR, em que ele exalta sua terra natal, a velha Província de Campo Maior das numerosas fazendas de gado de 1669 e onde corre o patriota riacho do Jenipapo – testemunha da batalha que leva seu nome e que inspirou o Monumento aos seus heróis, como “símbolo da coragem dos filhos da Terra dos Carnaubais”.
         E, em seguida, presenteando-nos com a excelente plaqueta NOTURNO DE OEIRAS, em que “Negros ainda esperam abolição / absolvição nas cercanias do Rosário / pelos pecados que não pecaram”. Mais comoventemente quando diz: “Atravesso a praça das Vitórias / na hora dolorosa das doze badaladas / punhaladas que também me atravessam”.
         Mas, Elmar não se conteve, em sua inspiração poética, apenas, diante de Campo Maior e Oeiras. Sua saga vai muito além, chega à terra de Da Costa e Silva e “perante ti / Amarante / a água escorre lacrimal / pela sinuosidade do morro da saudade”. Sem esquecer sua Parnaíba dos 3 POSTAIS e também Teresina em seus FLAGRANTES e BARRAS DAS SETE BARRAS, a Terra dos Governadores, afinal, o poeta chega nesse seu roteiro sentimental-romântico, ao Pórtico Triunfal de SETE CIDADES – uma verdadeira ode que mexe com nossa sensibilidade, poetas ou não, sobretudo, dos piracuruquenses, que têm em Sete Cidades como que seu sonho petrificado. Uma “Cidade encantada / sempre desencantada / para novos e mais / deslumbrantes encantos”, nos versos iniciais de Elmar. “Deslumbrantes encantos” que, em seguida, tomam formas,  em Figuras e Mistérios, através de estrofes, umas épicas, outras históricas e mais as de cunho religioso – todas frutos da fértil e calorosa imaginação do poeta.
         Na impossibilidade de suas citações, pelo exíguo espaço permitido para estes comentários, destacaríamos algumas estrofes, como a do Forte: “Um guarda de pedra na guarita / em rigidez mortuária / debalde aguarda / um outro guarda / que nunca chega / para o ato de rendição”. E estas, no Portal das Almas, bem de acordo com o espírito patriótico do autor: “Os fantasmas passam / e sussurram disfarçados / no corpo e na voz do vento / inscrições rupestres / são o vestígio e a denúncia / de um povo espoliado, / trucidado, dizimado”.
         Está dado o recado emocionante do poeta, através do poema SETE CIDADES, que coloca Piracuruca no centro de sua produção lírica, projetando nossa cidade no cenário literário. Cabe a nós, filhos da Terra, assumirmos o papel de reconhecidos e gratos, diante de tamanha explosão de sensibilidade e, quem sabe?, sua publicação pelas autoridades municipais, de um opúsculo, com fotos, a exemplo de CROMOS?
E, para finalizar, nosso agradecimento público pelo envio do poema, “em primeira mão”, o que revela uma outra face de sua sensibilidade: a gentileza para com um velho amante de sua Terra e de sua Gente; o respeito, que só o enobrece, do jovem pelo idoso.
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(*) Texto publicado no jornal O DIA, de 07.02.98, e no livro “Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental”.
 
                                                  PALAVRA DE  LEITORA (*)
 
                                                                     Teresinha Queiroz
 
         Paul Veyne, ao tratar da elegia erótica romana, registra interessante distinção entre a alma do poeta e a dos mortais comuns. Segundo sua afirmação, a alma do poeta é mobiliada por um certo número de sentimentos, assim como a dos outros homens; além disso, nessa mobília há também um espelho, que reflete o resto do mobiliário. Dessa sorte, a alma que contém este móvel de Narciso não é igual a outra que tivesse o mesmo mobiliário, e não tivesse o espelho.
         Esse móvel narcísico e seus reflexos têm sido objeto de especulação permanente no âmbito dos estudos literários. Aqui o que nos interessa não é adicionar algo a essa questão, muito menos sumariá-la, porém, tão somente expressar em rápidas pinceladas nossa visão de como o poeta Elmar Carvalho, em sua obra síntese A Rosa dos Ventos Gerais produz, através da criação poética, o seu mundo e revela, no seu espelho interior, o nosso mundo.
         A vigorosa poesia de Elmar Carvalho desvenda com força extraordinária alguns dos mais profundos ismos de nossa cultura: o narcisismo (do poeta), o erotismo e o lirismo. Marcas indubitavelmente modernas, mas ao mesmo tempo classicamente antigas.
         Se não sou capaz de decodificar as estéticas, devo enfatizar as temáticas. Nesse sentido, o fulcro da modernidade é a tomada da própria poesia, do amor e da paixão, em suas diferentes modalidades, e da política, como objetos de elaboração poética. Todos esses objetos, agressivamente presentes na poesia de Elmar, trazem como expressão comum uma espécie de estética da intensidade. A comunicação dos sentimentos, no mundo moderno, tem sido feita a marteladas, de forma a provocar a dor e, no caso dos registros literários, a agredir da maneira mais íntima a emoção.
         Nesse aspecto, a poesia de Elmar se apropria da emoção do leitor, através de um lirismo intenso, como na “Lírica 2222” e em “Trabalho de Cestaria e Renda”, de contundente crítica política, como está posto em todo o Cancioneiro do Fogo e de um erotismo basilar, que é toda a força vital da natureza, criada poeticamente, porém, no limite, “quase” desveladora das amarras  culturais face à potência da vida. Essa força impetuosa, primordial, está expressa com a maior qualidade artística no notável conjunto poético que é o “A Zona Planetária”.
         Aliás, é através de “A Zona Planetária” que Elmar leva às calendas gregas e nos religa à mais clássica e milenar tradição poética ocidental. Ao atrever-se a resgatar esse universo literário por excelência que é o da Mitologia, associando-se à Astronomia – saber que já teve seus momentos de ser levada a sério, tendo importância similar à da Psicanálise hoje e que continua, apesar de tudo, a ser um dos nossos fundos mentais – e a uma disciplina que o próprio autor denominou “Sociologia dos cabarés”, terminou por realizar trabalho de inusitada audácia criadora. Nesse poema exemplar se encontram aqueles traços já evidenciados do lirismo, da paixão contundente e arrebatadora, do erotismo visceral, sem dúvida traços do sentir moderno. O clássico, e na historiografia a tradição clássica é a greco-romana, é inegável na escolha dos temas, no requinte das imagens, na natureza e teor dos recursos metafóricos.
         A aludida estética da intensidade, que conduz à busca incessante da emoção mais adormecida e resguardada do leitor, neste livro, ganha a forma da comunicação mais forte, mais direta, às vezes até despudorada, mas de um despudor que se explicita quase sempre por um jogo de sentimentos conflitantes, excludentes. Esse jogo de intensidade, que trabalha emoções diferentes, está em vários pontos do livro e a transparente em “Rompimento”, mescla a asco e sublimidade, com passagens rapidíssimas do sujo ao etéreo, ao quase evanescente.
         O jogo especular entre o poeta e o leitor é feito de imagens ricas, poderosas, exemplares. Essa comunicabilidade pode ser conferida na temática do amor e da paixão, em que a simbiose autor-leitor revela-se, a partir do espelho da alma do poeta, em flagrantes quase cotidianos, como em “Encontro”, em “Musa Medusa” e em “Amor”. Deve-se destacar que em quase todos os seus poemas de amor está presente aquele vezo literário que demarca a poesia ocidental moderna – que é o tema do interdito, do proibido, da paixão irrealizada, não consumada. É sabido que o desencontro amoroso, que a frustração dos amantes tem sido a tônica da criação ficcional dos últimos séculos. Exemplo nesse sentido é o “Elegia do Amor Final”, que se conclui com a belíssima imagem:
 
“E teus cabelos
à brisa eram lenço
acenando em despedida.”
 
         A grande densidade lírica de A Rosa dos Ventos Gerais é também em grande medida associada ao erotismo, o que explica e justifica a igualmente forte presença feminina neste livro. Em seu ato de criar e recriar a mulher, o poeta a evidencia como um completo-complexo objeto amoroso. Eis que emergem de seu livro “Olhos”, de lã e de lâminas, de céu e inferno, verdes musgosos, azuis fuzilantes; cabelos de lenço e de loiras algas; mãos que acariciam e esmurram; bocas sequiosas e bocas mudas; curvas femininas que transcendem as curvas da terra e do mar, meras projeções da “poesia selvagem de teu corpo”. Tomando as próprias palavras do poeta, a mulher aqui é retratada “a leste, a oeste, ao vento e ao mar, com a mesma paixão incontida de um gesto feito de raiva.” Devo dizer como leitora, que o poeta sucumbe, se submete, capitula e que apesar da resistência, este livro é de entrega.
         Não creio ser necessário destacar as poesias marcantes do autor e já sobejamente realçadas pelos seus críticos e leitores. É óbvio que também acho encantadoras “Noturno de Oeiras” e “Amarante”, de suave melancolia. “Elegia a Campo Maior”, de versos tão sublimes, sempre me fazem lembrar o Neruda das paixões adolescentes, especialmente do 20 poemas de amor e uma canção desesperada e não apenas pela singular humanização da natureza, como pelas belas imagens construídas e pelo campear melancólico do sonho e da solidão. A mesma sensação me persegue quando leio os diversos poemas marítimos, tão narcisicamente coletivos, de que destaco a quase camoniana “Perdição”.
         Por fim, ler a poesia de Elmar Carvalho, para esta sua leitora circunstancial, tem sido sempre um suave mergulho não só em nossa sensibilidade coletiva, mas igualmente nos arcanos de nossa tradição cultural.
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(*) Texto publicado no Almanaque da Parnaíba, nº 64, 1997. A autora foi professora da Universidade Federal do Piauí. Altamente respeitada, tem mestrado e doutorado em História.
 
                                    ELMAR CARVALHO: UM MALABARISTA DO VERSO (*)
 
                                                                                       Cunha e Silva Filho
 
         Com A Rosa dos Ventos Gerais ( Editora Gráfica da UFPI, Teresina, 1996, 139 p.), vejo confirmadas as qualidades da poesia de Elmar Carvalho, sobre a qual já me pronunciei em 1990 quando conheci o autor, em Amarante. Naquele ano ele me presenteara com algumas produções suas. Li seus versos e logo pude nele identificar uma voz jovem e forte da poesia brasileira, não direi piauiense para que não se pense que ele seja um poeta apenas da província, já que o nível de seu trabalho poético se instala em tendências contemporâneas da poesia brasileira, dados os recursos de que dispõe com o instrumental de seus processos de criação literária.
         A obra em foco traz Prefácio de Hardi Filho, com título que diz muito dessa estréia em livro de Elmar Carvalho: um fácil prefácio. Ou seja, quem melhor do que um poeta para recepcionar um jovem poeta?
         O presente volume é uma espécie de antologia poética de Elmar Carvalho, uma vez que nele estão reunidos poesias publicadas e novos poemas, não sei se já esparsamente publicados recentemente. Pelo menos para este articulista, alguns poemas são inéditos. Irei conferir com o autor. Mas, isso pouco importa diante do evento que é ver consumado um desejo de todo autor, o de editar um livro. Nenhum escritor nasceu para a gaveta. Tampouco julgo uma deficiência de Elmar Carvalho o fato de reunir publicações esparsas e a elas dar o estatuto de livro. Poder-se-ia também alegar que uma obra publicada deva trazer necessariamente embutido um projeto de poesia. Não é bem assim. O projeto poético é resultado de tudo o que antes o escritor publicou esparsamente. Não fez logo em livro porque ao autor não se possibilitou a realização de um desejo. Entretanto, não vejo por que um livro de poesia tenha que ser uno na sua temática e na sua forma. O que permanece para a história literária são os poemas, com a força do talento e da criatividade do artista. Não é a quantidade que pesa sobre a judicatura crítica. Nem todo artista é prolífero, como nem todo crítico tem obra abundante. Esse é, talvez, um dos mistérios da criação literária ou das artes em geral.
         Com a leitura desse volume podemos, agora, nessa reunião de poemas, conhecidos e novos poemas, pelo menos para o resenhista, balizar-lhe a trajetória poética em 18 anos de produção esparsa, o que nos dá também ensejo de vê-lo mais por inteiro, em águas próprias. O analista tem a seu favor o corpus delineado de seu processo de criação, e bem assim de seu aprofundamento e tendências. Tanto melhor para o analista porque um poema da importância de “A Zona Planetária” (p. 101) só agora, vejo impresso por inteiro. Antes, o autor já dele estampara apenas 3 das 10 unidades prometidas. Veja-se a obra coletiva Poemarít(i)mos, antologia poética, lª  edição, 2ª tiragem, Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo, Teresina, 1988, 254 p., p. 139-144.
         Seis anos atrás, observei na poesia de Elmar Carvalho algumas construções temáticas (vide o Posfácio de minha autoria gentilmente incluído pelo poeta em A Rosa dos Ventos Gerais, p. 136-137), mas sobretudo a sua habilidade (de resto, antes mencionada por Assis Brasil) com a palavra poética. Esses traços estilístico-temáticos ainda estão presentes em outros poemas que se encontram em A Rosa dos Ventos Gerais. Os recursos já conhecidos, tão caros ao Concretismo e às Vanguardas, ainda o seduzem. A sua poesia, todavia, se alimenta mesmo é de uma poderosa carga de emoção e sensibilidade, elementos, a meu ver, indissociáveis da natureza intrínseca da tradição lírica universal.
         O livro se compõe de 4 partes sugestivamente denominadas Cancioneiro do Ar (1ª parte), Cancioneiro do Fogo (2ª parte), Cancioneiro da Terra e da Água (3ª parte) e Cancioneiro dos Ventos Gerais (4ª parte). Não atinei, porém, por que o poeta denominou a 2ª parte sob aquele título, pois não consegui ver uma relação entre o título e os temas dos poemas.
         Na primeira parte da obra encontramos uma variedade temática, misturando subjetividade amorosa, memorialismo, surrealismo, hai-kais, sensualismo amoroso e erótico e poemas de conteúdo filosófico-existencial.
         Na Segunda parte, enfeixam-se os poemas sociais e de protesto, com destaque para “Galo Magro” (p. 57-58), “Cidade Grande” (p. 58-59), “Alegoria da Fome” (p. 61-62), lembrando bandeirianamente “O Bicho”, “A fome” I e II (p. 61-62), pequeno poema de vigorosa arquitetura sonoro-semântica com um arremate que assusta o leitor menos afeito à poesia de choque, “Guarita” (p. 62-64) e “7 de Setembro” (p. 66-68).
         Na terceira parte estão os poemas da natureza, onde canta o mar, os elementos submerso, o vento, e sobretudo as cidades piauienses – Teresina, Campo Maior, Parnaíba, Luzilândia, Barras, Amarante, esta última num lindo poema com ressonâncias dacostianas, num tributo retórico (consciente?) ao recurso da aliteração, que foi largamente utilizado por Da Costa e Silva e que tanto deleite provoca nos leitores do velho bardo amarantino. Vale dizer aqui que Elmar Carvalho – poeta atual – é requintado criador de aliterações. Me chamaram ainda a atenção nesta parte “Lagoa do Portinho” (P. 95-96) e “Livramento: Pedra e Abstração” (p. 96-98). O primeiro é um dos mais belos incluídos no livro, feito de cintilações, da combinação harmoniosa de som e imagem, onde tema e forma unidos pelo tecido literário parecem soltar-se do papel e reverberar diante de nossos olhos deslumbrados: O sol joalheiro arranca/ das filigranas da água/ cintilações de jóias e de estrelas nas noitescuras/ sem lua lua luar,/ enquanto em canto/ a brisa dedilha/ na lira lírica/ das palmas dos coqueirais/ músicas de (a)mar e sonh(ar). O segundo é um mergulho na infância do poeta, força emotiva. também aqui ao ouvido atento do analista e do leitor cuidadoso afloram as ressonâncias da tradição literária, nesse “entrelaçar de vozes” (Alberto da Costa e Silva), que nos levam instintivamente aos páramos dacostianos do “Carrossel Fantasma”, com o tópico do ubi sunt, por sua vez, também usado por Manuel Bandeira no poema “Profundamente”. Este poema de Elmar Carvalho é também um dos mais belos no livro: Sinto ainda sempre e agora/ uma ampulheta derramar sobre mim/ o frescor macio da areia e a sombra/ verdoenga da mangueira/ e me trazer intacta e completa/ a minha mais feliz meninice.
         A grande novidade, ponto alto do presente livro, é o poema “A Zona Planetária”, compreendido na última parte, segundo o autor, “inspirado” numa zona de meretrício de nome homônimo da cidade de Campo Maior, berço natal do poeta. Para a feitura desse poema, conforme palavras do autor, foram convocadas “a mitologia greco-romana, a astronomia e a sociologia dos cabarés”. Com este poema só podemos reafirmar estarmos diante de um artista do verso, senhor de seu ofício e consciente de sua engenharia poética. Combinando o perfeito conhecimento da história da mitologia greco-romana, Elmar Carvalho procurou realizar, como ele afirma, à maneira épica, um poema moderno tecido nas malhas dos recursos intertextuais, atingindo a meta pretendida: a de fundir a Antigüidade Clássica na mitologia da modernidade do discurso poético, num trabalho paciente e sem rebaixar o nível de poeticidade. O que foi retrabalhar o poético canônico, as figuras mitológicas, o tema, o andamento do verso, as ações e funções dos personagens. Porém, do amálgama saiu o sinete do artífice, senhor da sua estratégia, malabarista do verso, timoneiro da sua navegação. Não se perdeu na borrasca e na sua “epopéia”. Saiu ileso da empreitada e conseguiu este feito: introduziu, ainda que em doses mínimas, o elemento da modernidade ao nível morfossintático-semântico na roupagem solene e profana da tradição épica, provocando o estranhamento da gramática poética de dicção moderna, i. e., para o discurso convergiram a palavra sacralizada de mistura com o choque da banalidade da palavra apoética: Calipígia, de belas nádegas navegantes/ de bela bunda ondulante.
         Um outro ponto alto do volume seria o poema “Dalilíada”, com intenção, segundo o poeta, de realizar um poema épico, formado de 40 estrofes. A caracterização de épico tanto aqui como na “A Zona Planetária”, mereceria uma análise à parte. Aqui também dá mostras de ousadia e experimentalismo, porque o poeta incursiona pelo surrealismo, através ainda do suporte da intertextualidade, desta vez não oriunda da matéria literária mas da pictórica e da biografia do pintor Salvador Dali. É mais um salto qualitativo na trajetória de Elmar Carvalho. O poema me parece irrepreensível formal e tematicamente. A sua natureza cerebral, dadas as implicações com o movimento de Vanguarda, mereceria estudo à parte.
         Entre o poema “A zona planetária” e “Dalilíada”, há um poema de título “Sexo” (p. 111) que nos prende a atenção. Reúne perícia artesanal discursiva com potencialidade de temática erótica. Jogando com os campos visual e espacial, o poeta consegue um efeito de excelência num entrecruzamento de antíteses, aliterações, paranomásias, onde as alternâncias vocálicas e consonantais, num ludismo morfossintático-semântico-sonoro (traços detectados também em outros poemas do livro), dão um banho de retórica a serviço de estuante modernidade. No final do poema, um achado imagético de fino efeito humorístico: vira e mexe/ mexe e vira/ sobe e cai/ cai e pira/ tira delira/ pinto pinga/ ping pong.   
         Merecem atenção os poemas sob o título “Álbum de Figurinhas” (p. 121-122), “Desastre Ecológico” (p. 122), “Última Cartada” (p. 122-123), “Insônia” (p. 124-125), todos da 4ª parte.
         Os poemas sob o título Poemitos da Parnaíba (p. 125-135) são, contudo, de alcance menor. Reúnem um microcosmo de figuras populares da cidade de Parnaíba, personagens de carne e osso que inspiram risos, lágrimas ou respeito – criaturas marginais, excêntricas ou mesmo de importância cultural ou memorialística. Entretanto, o grupo que daí nos chama mais a atenção é o daquelas figuras caricatas, frutos das deformidades físicas ou morais – mundo de seres que, em qualquer parte, compõem a galeria das (nossas) misérias humanas.
         Com esta obra julgo que Elmar Carvalho tem já reservada uma posição proeminente nos quadros da poesia piauiense da atualidade. Tem repertório próprio e inconfundível. Conhece seu percurso. Só lhe resta multiplicá-lo em novas obras que só enriquecerão a lírica brasileira contemporânea.
         Em edição futura espero que o livro traga um sumário ou índice, para facilidade na localização dos poemas.
 
                                            Rio de Janeiro, junho de 1996
____________________________________________________________________
(*) Texto publicado na revista Cadernos de Teresina, ano X, nº 23, agosto de 1996. O autor é professor universitário de literatura, no Rio de Janeiro - RJ, poliglota, crítico literário, e faz doutorado em sua disciplina.
   
                                               A IMAGEM POÉTICA EM ELMAR CARVALHO
             
                                                                          José Ribamar Neres Costa
                                                           (Professor- Especialista em Literatura Brasileira)
 
         Ezra Pound, em seu livro ABC of Reading, diz que poesia “é a mais condensada forma de expressão verbal” e que “usamos uma palavra para lançar uma imagem visual na imaginação  do leitor ou a saturamos  de um som ou usamos grupos de palavras para obter esse efeito”.  Alfredo Bosi, em seu ensaio  Imagem, Discurso, enfeixado no volume intitulado  O ser e o Tempo da Poesia, deixa claro que “a experiência da imagem, anterior à da palavra, vem enraizar-se no corpo”, acrescentando que “toda  imagem  pode fascinar como uma aparição  capaz de perseguir”. Lendo as palavras  dos mestres supracitados, podemos perceber a importância do jogo imagístico para o poeta que deseja dar a seus textos  uma aura  de sublimação poética.
         O que parece ser lógico, no entanto, não encontra  ressonância na produção literária da maioria dos homens de letras da atualidade. Aos poucos, a poesia  foi perdendo  seu poder  formador de imagens  e começou a assumir um papel burocrático, tornando-se, às vezes, meras descrições ou narrações descaracterizadas pelo uso constante de chavões. No entanto, felizmente, há ainda alguns poetas que fogem ao estilo padronizado e buscam tirar imagens de palavras que poderiam cair em um vazio conteudístico ou apresentar apenas seu sentido mais usual. Entre tais poetas, podemos citar Elmar Carvalho, escritor piauiense nascido em Campo Maior e autor de A Rosa dos Ventos Gerais (Teresina: EDUFPI, 1996).
         Em sua busca de imagens, mas sem esquecer-se da economia verbal, uma das bases da boa poesia, Elmar Carvalho, ao longo do livro supracitado, abusa do uso dos parênteses, utilizando-os como recurso que visa à plurissignificação de algumas palavras, dando-lhes novas conotações de acordo com o contexto. Conforme podemos perceber no exemplo abaixo:
 
tramas e tramóias
arma(dilha) a(r)mada
a(r)mada arma(dilha)
entocadas nas tocaias
          (...)
faz uma teia de renda
em forma de rede de pe(s)car
e me amor(tece) e me amor(daça) (Pág. 25-26)
 
         Notar que nos fragmentos acima os jogos de palavras (arma/armadilha, armada/amada, pecar/pescar, amor/amortece/amordaça) servem para dar à leitura um tom de dubiedade. A palavra “arma” tanto pode ser substantivo como verbo, assim como há o entrelaçamento de termos que imitam a arte anunciada no título – Trabalho de Cestaria e Renda. O mostrar-esconder dos vocábulos remete imediatamente ao próprio ato de tecer cestas e de fazer rendas.
         A metaforização é um outro recurso muito utilizado pelo escritor para passar ao leitor algumas imagens de extrema densidade lírica e de forte poder pictórico. É o caso, por exemplo, do poema Egocentrismo (pág. 25), em que temos novamente o jogo de palavras que, associado a dados históricos e a um trabalho de linguagem, traz um ritmo mesclado de alegoria e introspecção:
 
      espirrei
na réstia de luz
da janela do meu quarto
e fiz surgir um
                 arco-íris
                 arco-do-triunfo
sob o qual
napoleonicamente passei
sobre o qual caminhei
em busca do
                  velocino de ouro
coroado com o
        l’ouro
de minha própria
       alquimia
 
         Muitas outras metáforas também chamam a atenção do leitor, como os seguintes versos de Sal Sol Solidão (pág. 19), em que diz que “A solidão é uma aranha/ tecendo teias de saudade/ onde ela própria se enleia”. Ou ainda esses versos de A Ponte na Memória: “Meu sonho de malas prontas/ é passageiro e tripulação/ do casario – navio que navega/ ao se deixar navegar” (pág. 12).
         Dentre as tantas imagens encontradas no livro, duas merecem um destaque especial. A primeira é a do pequeno poema O Favelado (pág. 62). Em apenas três versos podemos encontrar crítica social, lirismo, angústia e um certo humor contido. Vale a pena ler essas três linhas que são a síntese de uma realidade que não deveria existir:
 
O favelado, qual filósofo meditava:
sua miséria era tamanha
que tudo enchia e ainda sobrava.
 
         O outro texto a ser destacado é Dalilíada – poema épico inspirado na vida e na obra de Dali (pág. 112-121). Um longo poema que abraça alguns pontos surrealistas, numa reprodução da própria arte do genial pintor espanhol, um verdadeiro poeta das linhas e das cores. Os primeiros versos já deixam antever parte (“toda arte’manha manhosa”) do que, aos poucos, ao longo do texto, torna-se comum ao pintor homenageado e ao poeta que executa fragmentariamente uma tela com palavras. A primeira parte do poema (de um total de 40) traz uma “pintura” vocabular e uma idéia geral das características básicas da obra do artista europeu.
 
Com seu recurvo bigode surreal
       – chifre e aguilhão –
Dali touro e toureiro
toureia consigo mesmo.
Dali         Daqui           Dacolá
Daquém                       Dalém
de toda p’arte
de toda arte’manha manhosa
de toda antemanhã maviosa
onde arde uma tarde
dentro da noite/dia surreal
que não é feita de preto e branco
mas de cores (b)errantes
e nunca de pusilânimes
   cores cambiantes
 
         Um outro recurso também muito utilizado por Elmar Carvalho é o artifício de separar palavra em pontos estratégicos, fazendo com que a leitura assuma um duplo sentido. Isso faz com que o leitor tenha de frear a leitura para perceber as diversas nuances exploradas nos textos. O efeito de tal recurso estilístico é semelhante ao do uso dos parênteses, com a vantagem de permitir maior plasticidade ao poema. Como no fragmento a seguir (Noturno em Dor Maior, pág. 24):
 
um vaga-
lume vaga
sem lume
vaga-
         rosa/mente
         demente
na noite vaga
 
         Dezenas de outras belas imagens poéticas povoam as páginas do livro de Elmar Carvalho. O próprio título – A Rosa dos Ventos Gerais – já nos remete a um campo semântico de expectativa de poesia multifacetada, de várias direções a serem seguidas e da esperança de chegada a um ponto ainda indefinido e talvez nunca alcançável. Afinal, como deixa claro o autor, vivemos numa eterna (in)definição, pois todo homem é “aquele/ que ateia fogo/ e dança sobre as brasas/ e sobre as cinzas do caos/ e sonha em não ser/ o ser que é/ e não é”                                   
 
 
CARTA A UM POETA (*)
 
                                                                    Nicodemos Ramos
 
         Em meu nome e no da jornalista Graça Ramos, agradeço-lhe a gentileza com que nos brindou com “Sete Cidades” e “Rosa dos Ventos Gerais”, primorosas obras de sua fabulosa criação poética, a primeira, um roteiro romântico e sentimental àquele “reino encantado em pedra emparedado” e, o segundo, um misto de poemas com extensa diversificação temática, contemporâneos, atuais e modernistas, plantados na dura realidade sociológica de uma sociedade perversa, cruel e exclusivista em que os mais ricos são a cada dia mais ricos e os pobres mais miseráveis, culminando com esses saborosos “Poemitos da Parnaíba”, bela e encantadora pérola do Delta inigualável, cidade que adotei e amo do fundo do coração, tudo mesclado com a invocação de tipos populares que lá conheci e que marcaram época, entre eles Derocy, Pacamão, Maria das Cabras, Marechal, Expedito Maciel e a figura ímpar, humilde e profundamente humana do médico João Orlando de Moraes Correia, um amigo de quem guardo as melhores lembranças e imorredouras saudades.
         É dele o atestado de sanidade física e mental, documento que se encontra arquivado no processo de minha inscrição ao concurso do Ministério Público Federal em Brasília nos idos de 1963 e no qual obtive classificação entre os concorrentes às oito vagas então existentes.
         Pediu-me Gracinha, como minha filha é chamada na intimidade familiar, lhe transmitisse suas impressões altamente elogiosas sobre “Sete Cidades”, já que de retorno ao velho continente, depois de breve estada entre nós, não lhe sobrara tempo para leitura de “Rosa dos Ventos Gerais”.
         Disse-me que leu os poemas de um fôlego só, encantada com a beleza da construção poética do autor, ela que é, como o ilustre vate piauiense, telúrica por natureza e uma eterna apaixonada pela arte em qualquer de suas formas.
         Outra vez, Dr. Elmar, nossos agradecimentos. Abraço fraternal do Nicodemos.
____________________________________________________________________
(*) Carta enviada pelo Dr. Nicodemos Ramos ao poeta Elmar Carvalho, acusando o recebimento dos livros “Rosa dos Ventos Gerais” e “Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental”. Dr. Nicodemos residiu por largos anos em Parnaíba, onde construiu um vasto círculo de amizade. Sua filha Graça Ramos, jornalista e escritora, é parnaibana
 
                                         O MUNDO POÉTICO DE ELMAR CARVALHO
 
                                                                     Cléa Rezende Neves de MeIo
                                                              (Da Academia de Letras do Vale do Longá)
 
         A poesia de Elmar Carvalho caracteriza-se pelo predomínio da imaginação e da sensibilidade.
         Seja qual for o tema abordado por Elmar, surge a marca da tendência à subjetividade, própria de quem ama, do amor que produz a solidão, a evasão do real pela fantasia e o sonho. Nessas poesias, o autor retrata os aspectos do amor que partem dos desejos sensuais, para conjugar-se através dos sentimentos.
         Sua temática romântica se concreta em dois tópicos: o amor e o desengano. Com ele se relacionam a mulher amada, a ilusão, a glória, o fracasso e a mítica dos cabarés.
         As composições líricas,  lembram, às vezes, o sabor neoclássico; embora românticas, as poesias tendem mais para o “amor-razão”.
         Com o espírito também ligado à eloqüência, Elmar, resiste à força maior da sensibilidade.
         Utiliza vários recursos românticos, tais como efeitos sonoros, sonhos, passar do tempo, a natureza e estilísticos com metáforas grandiosas.
         Nota-se que no temperamento romântico do autor, há uma controlada disciplina formal, um tanto parnasiana, talvez, por influência de Olavo Bilac e do francês, Theophile Gauthier, através da recriação do mundo cIássico, retirada dos motivos greco-romanos, de imagens aprazíveis, percebidas em alguns poemas do “Cancioneiro dos Ventos Gerais”.
         É o gosto do autor pelo exótico e o diferente.
         O poeta faz um brilhante passeio pelo surrealismo espanhol, no poema épico, “Dalilíada”, inspirado no artista plástico Salvador Dalí, que com Federico García Lorca e Luís Buñuel, formou a trindade do movimento poético, literário e artístico, na Espanha. Lançado em 1924, por André Breton, pregava o renovamento de todos os valores, inclusive, os morais, políticos, científicos e filosóficos.
         Homem do seu tempo, Elmar, de inspiração variada, enfoca, também, as mazelas modernas, os amores fugazes, a sensualidade da mulher, revelando-lhe a beleza física, a perda irreparável da irmã, os flagrantes cotidianos e, principalmente, os anseios da juventude ainda tão próxima de sua etapa de vida.
         Passear pelo mundo poético de Elmar, foi retornar ao Piauí das minhas lembranças eternas, no talento do jovem vate conterrâneo.
 
                                                Brasília, abril/1997.
 
 
 
                                       



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