Dilson Lages Monteiro Sábado, 24 de junho de 2017
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Assis Brasil

BIOGRAFIA

A OBRA DE ASSIS BRASIL EM ORDEM CRONOLÓGICA

   1. Aventura no mar (Verdes mares bravios), Infanto-juvenil/Melhoramentos, São Paulo, 1955/1986.
   2. Contos do cotidiano triste, Contos/Universitária, Rio de Janeiro, 1955.
   3. Faulkner e a técnica do romance, Ensaio/Leitura, Rio de Janeiro, 1964.
   4. Beira rio beira vida, Romance/O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1965.
   5. A filha do meio-quilo, Romance/O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1966.
   6. Cinema e literatura, Ensaio/Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1967.
   7. O salto do cavalo cobridor, Romance/O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1968.
   8. Pacamão, Romance, Bloch Editores, Rio de Janeiro, 1969.
   9. Graciliano Ramos, Ensaio, Organizações Simões, Rio de Janeiro, 1969.
 10. Adonias Filho, Ensaio, Organizações Simões, Rio de Janeiro, 1969.
 11. Guimarães Rosa, Ensaio, Organizações Simões, Rio de Janeiro, 1969.
 12. Clarice Lispector, Ensaio, Organizações Simões, Rio de Janeiro, 1969.
 13. O Livro de Judas, Novela, Clube do Livro/Atual Editora, São Paulo, 1986.
 14. Ulisses, o sacrifício dos mortos, Novela, Livros do Mundo Inteiro, Rio de Janeiro, 1970.
 15. Carlos Drumond de Andrade, Ensaio, Livros do Mundo Inteiro, Rio de Janeiro, 1971.
 16. Joyce, o romance com forma, Ensaio, Livros do Mundo Inteiro, Rio de Janeiro, 1971.
 17. A nova literatura (O romance), Ensaio, Companhia Editora Americana, 1973.
 18. A volta do herói, Novela, Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1974.
 19. Os que bebem com os cães, Romance, Nórdica, Rio de Janeiro, 1975.
 20. A rebelião dos órfãos, Novela, Artenova, Rio de Janeiro, 1975.
 21. Tiúbe, a mestiça, Novela, Atual Editora, São Paulo, 1975/1986.
 22. A vida não é real, Contos, Clube do Livro, São Paulo, 1975.
 23. A nova literatura (A poesia), Ensaio, Companhia Editora Americana, 1975.
 24. A nova literatura (O conto), Ensaio, Companhia Editora Americana, 1975.
 25. A nova literatura (A crítica), Ensaio, Companhia Editora Americana, 1975.
 26. O aprendizado da morte, Romance, Nórdica, Rio de Janeiro, 1976.
 27. O modernismo, Ensaio, Companhia Editora Americana, 1976.
 28. Deus, o Sol, Sheakespeare, Romance, Nórdica, Rio de Janeiro, 1978.
 29. Redação e criação, Didático, Nórdica, Rio de Janeiro, 1978.
 30. Dicionário prático de literatura brasileira, Paradidático, Ediouro, Rio de Janeiro, 1978.
 31. Tetralogia piauiense, reunindo Beira rio beira vida, A filha do meio-quilo, O salto do cavalo  cobridor e Pacamão, Romances, Nórdica, Rio de Janeiro, 1979.
 32. Vocabuléro técnico de literatura, Paradidático, Ediouro, Rio de Janeiro, 1979.
 33. Os crocodilos, Nórdica, Rio de Janeiro, 1980.
 34.O livro de ouro da literatura brasileira (400 anos de história literária), Paradidático, Ediouro, Rio de Janeiro, 1980.
 35. Um preço pela vida (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Melhoramentos/Salamandra, São Paulo/Rio de Janeiro, 1980/1990.
 36. O primeiro amor (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Melhoramentos, São Paulo, 1980.
 37. O velho feiticeiro (Aventuras de Gavião Vaqueiro) , Infanto-juvenil, Melhoramentos, São Paulo, 1980.
 38. O destino da carne, Romance, Nórdica, Rio de Janeiro, 1982.
 39. A viagem da vida, reunindo O seqüestro, A viagem proibida e A pena vermelha do gavião (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Melhoramentos, São Paulo, 1982.
 40. A técnica da ficção moderna, Ensaio, Nórdica, Rio de Janeiro, 1982.
 41. Tonico e Carniça, Infanto-juvenil, Ática, São paulo, 1982.
 42. Mensagem às estrelas, Infanto-juvenil, Ediouro, Rio de Janeiro, 1983.
 43. Estilos e meios de comunicação, Paradidático, Ediouro, Rio de Janeiro, 1983.
 44. Ciclo de terror, reunindo Os que bebem como os cães, O aprendizado da morte, Deus, o Sol, Sheakespeare e Os Crocodilos, Romance, Nórdica, 1984.  45. O mistério de Kanitei, Infanto-juvenil, Ediouro, Rio de Janeiro, 1984.
 46. Zé Crrapeta, o guia do cego, Infanto-juvenil, Ediouro, Rio de Janeiro, 1984.
 47. O menino-candeeiro, Infanto-juvenil, Ediouro, Rio de Janeiro, 1984.
 48. Dicionário do conhecimento estético, Paradidático, Ediouro, Rio de Janeiro, 1984.
 49. Sodoma ests velha, Romance, Nórdica, Rio de Janeiro, 1985.
 50. Os desafios de Kaíto, Infanto-juvenil, Ediouro, Rio de Janeiro, 1985.
 51. O camelô São Joaquim, Infanto-juvenil, Atual Editora, Rio de Janeiro, 1985.
 52. A fala da cor na dança do beifa-flor, Infanto-juvenil, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1985.
 53. Contatos imediatos dos besouros astronautas (O memino do futuro), Infanto-juvenil, Nórdica/Vigília, 1985/1991.
 54. O destino é cego (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Melhoramentos, São Paulo, 1986.
 55. A primeira morte (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Melhoramentos, São Paulo, 1986.
 56. Na trilha das esmeraldas (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Melhoramentos, São Paulo, 1986.
 57. Neném-Ruço, Infanto-juvenil, Atual Editora, São Paulo, 1986.
 58. Histórias do rio encantado, Contos, FTD, São Paulo. 1987.
 59. O cantor prisioneiro, Infanto-juvenil, Moderna, São Paulo, 1987.
 60. Arte e deformação (Como entender a estética moderna), Ensaio, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1987.
 61. O prestígio do Diabo, Romance, Melhoramentos, São Paulo, 1988.
 62. Pequeno pássaro com frio, Infanto-juvenil, Editora do Brasil, São Paulo, 1988.
 63. Novas aventuras de Zé Carrapeta, Infanto-juvenil, Record, Rio de Janeiro, 1988.
 64. Aventuras de Gavião Vaqueiro, reunindo A primeira morte e Na trilha das estrelas, Infanto-juvenil, Círculo do Livro, São Paulo, 1988.
 65. O mistério da caverna da coruja vegetariana, Infanto-juvenil, RHJ Livros, Belo Horizonte, 1989.
 66. Lobo Guará, meu amigo (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Contexto, São Paulo, 1989.
 67. Nassau, sangue e amor nos trópicos, Romance histórico, Rio Fundo Editora, Rio de Janeiro, 1990.
 68. O mistério do punhal estrela (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Scipione, São Paulo, 1990.
 69. Manuel e João, dois poetas pernambucanos, Ensaio, Imago, Rio de Janeiro, 1990.
 70. Perigo na missão Rondon (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Moderna, São Paulo, 1991.
 71. Os esqueletos do Amazonas (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, José Olympio, Rio de Janeiro, 1991.
 72. Missão secreta na Transamazônica (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, RHJ Livros, Belo Horizonte, 1991.
 73. Villegagnon, paixão e guerra na Guanabara, Romance histórico, Rio Fundo Editora, Rio de Janeiro, 1991.
 74. Caminhos para a imortalidade, Ensaio, Hólon Editorial, Rio de Janeiro, 1991.
 75. Joyce e Faulkner, o romance da vanguarda, reunindo, atualizados, Faulkner e a técnica do romance e Joyce, o romance como forma, Ensaios, Imago, Rio de Janeiro, 1992.
 76. Vocabulário de ecologia, Paradidático, Ediouro, Rio de Janeiro, 1992.
 77. O tesouro da cidade fantasma (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Imago, Rio de Janeiro, 1992.
 78. Tiradentes, poder oculto o livrou da forva, Romance histórico, Imago. Rio de Janeiro, 1993.
 79. Jovita, missão trágica no Paraguai, Romance histórico, Nótyra, Rio de Janeiro, 1992.
 80. Redação para o vestibular, Didático, Imago, Rio de Janeiro, 1994.
 81. A caçadora do Araguaia (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Salamandra, Rio de Janeiro, 1994.
 82. O sábio e andarilho (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1994.
 83. Quatro Orelhas: um guerreiro craô (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Ao Livro Técnico, Rio de Janeiro, 1994.
 84. A poesia maranhense no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1994.
 85. Coração de jacaré (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Salamandra, Rio de Janeiro, 1994.
 86. Os habitantes no espelho, Infanto-juvenil, José Olympio, Rio de Janeiro, 1994.
 87. Os nadinhas, Infanto-juvenil, Scipione, São Paulo, 1995.
 88. A poesia piauiense no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1995.
 89. teoria e prática da crítica literária, Ensaio, Topbooks, Rio de Janeiro, 1995.
 90. Yakima, o menino-onça (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Saraiva, Rio de Janeiro, 1995.
 91. O segredo do galo-madrinha (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Scipione, Rio de Janeiro, 1995.
 92. Paraguaçu e Caramuru: Paixão e morte da nação Tupinambá, Romance histórico, Rio Fundo Editora, Rio de Janeiro, 1995.
 93. A sabedoria da floresta (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Scipione, Rio de Janeiro, 1995.
 94. A poesia cearense no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1996.
 95. Os desafios do rebelde (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Saraiva, Rio de Janeiro, 1996.
 96. A poesia goiana no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1997.
 97. Jeová dentro do judaismo e do cristianismo, Ensaio, Imago, Rio de Janeiro, 1997.
 98. A poesia amazonense no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1998.
 99. A poesia fluminense no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1998.
100. O sol crucificado, Novelas, Imago, Rio de Janeiro, 1998.
101. A poesia norte rio-grandense no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1998.
102. Corisco, o último cavalo selvagem (Aventuras de Gavião Vaqueiro), Infanto-juvenil, Saraiva, Rio de Janeiro, 1998.
103. A poesia mineira no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1998.
104. A poesia sergipana no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1998.
105. A poesia espírito-santense no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1998.
106. A poesia baiana no século XX, Antologia, Imago, Rio de Janeiro, 1999.
107. Bandeirantes, os comandos da morte, Romance histórico, Imago, Rio de Janeiro, 1999.
108. Edição conjunta: Paraguaçu e Caramuru/origens obscuras da Bahia e Villegagnon/paixão e guerra na Guanabara, Romances históricos, Imago, Rio de Janeiro, 1999.
109. Edição conjunta: Nassau, sangue e amor nos trópicos e Jovita, a Joana DArc brasileira, Romances históricos, Imago, Rio de Janeiro, 2000.
110. A vida pré-humana de Jesus - O mistério da imortalidade, Ensaio, Imago, Rio de Janeiro, 2001.
111. Apocalipse - A espécie terminal, Ensaio, Imago, Rio de Janeiro, 2001.
112. Mário Faustino: Do Piauí para o mundo, Ensaio, Jornal Meio Norte, Teresina, 2001.
113. Herberto Sales: Regionalismo e utopia, Ensaio, Academia Brasileira de Letras (Coleção Austregésilo de Athayde), Rio de Janeiro, 2002.

 

FONTE: htpp://assisbrasil.org/



FORTUNA CRÍTICA

 

ASSISA DIALÉTICA DISCURSIVA NO ROMANCE A FILHA DO MEIO QUILO

Por Francigelda Ribeiro

Conjecturar um sujeito falante como autônomo é obliterar a condição social inerente ao discurso, visto que é no conjunto das inter-relações que os enunciados são construídos. Esse pensamento, basilar em toda a produção teórica do russo Mikhail Bakhtin, expressa sua concepção a respeito do dinamismo da linguagem e, em corolário, sua objeção às imposições autônomas e aos comandos lingüísticos que, relutando às características processuais que lhes são próprias, tendem a expungir o caráter dialético que lhe é próprio. Do consentimento à interdição, na complexidade da linguagem viva, o que resistiria vernáculo? Bakhtin expõe o conceito de dialogismo, ponderando o tecido cambiante dos discursos, uma vez que estes são constituídos numa rede múltipla de diálogos. “A orientação dialógica é naturalmente um fenômeno próprio a todo discurso. Trata-se da orientação natural de qualquer discurso vivo” (BAKHTIN, 1990, p.88).
Para Bakhtin, essa multiformidade está legitimada no romance, ao passo que representa, literariamente, a linguagem e suas reais possibilidades de funcionamento através da inserção de interesses sociais divergentes, de grupos diferenciados, enfim da coexistência de discursos centralizadores ou forças centrípetas e discursos descentralizadores ou forças centrífugas. É esse vértice da teoria bakhtiniana que embasa o presente artigo, cujo objetivo é demonstrar como se constrói, no contexto da obra A filha do meio-quilo , do escritor piauiense
Assis Brasil, a dinâmica das relações sociais com as inevitáveis transgressões e interdições impulsoras da dialética discursiva, condição sine qua non do princípio dialógico da composição.
 Bakhtin observa que a literatura é um espaço que contempla a pluridiscursividade, por isso, além de pesuisas sobre a linguagem, dedicou-se a estudar a prosa literária. Segundo Tzvetan Todorov (2003), em prefácio à primeira edição francesa do livro Estética da criação verbal, de Mikhail Bakhtin, a contribuição teórica deste irrompe em um momento em que a pesquisa literária, liderada pelos formalistas, desvelava a obra como autônoma, expungindo a relação entre literatura e contexto. Bakhtin recusa-se a essa proposição por tomá-la como reificadora do discurso poético, à medida que menospreza os elementos do ato da criação na sua totalidade, reduzindo-os a questões puramente internas. Para ele, o centro da pesquisa estética não poderia ser só a forma, mas a construção, a “arquitetônica” - a interação entre forma e conteúdo.
Nos seus primeiros escritos, nos quais se volta para a relação entre autor e personagem, chegou a defender a superioridade do autor em relação às personagens como imprescindível à criação literária, todavia ao ler Dostoievski, que primou em suas produções por desconsiderar qualquer excedente sobre as personagens, Bakhtin passou a reprovar o excedente (exotopia) do autor antes defendido, verberando-o sob a denominação de escrita monológica, centralizadora, enquanto a ausência dessa relação assimétrica patentearia a escrita dialógica, descentralizadora. Bakhtin admite a visão exotópica do autor, desde que não consista em uma superioridade a ponto de tomar as personagens como objeto. Conforme predica Todorov, o reconhecimento dessa transcendência se faz presente na crítica dialógica de Bakhtin, todavia de modo original, não ocorrendo verticalizada, mas horizontalizada, pois, como defende o teórico russo, nada tem em comum nem com o dogmatismo, nem com o relativismo, visto que este torna o diálogo inútil, e aquele, impossível.
No romance de Dostoievski, pela coexistência dos diversos discursos próprios da dinâmica social, tornar-se-iam inexeqüíveis verdades absolutas. Não reduzir suas personagens a uma consciência única é o que contigua Dostoievski a Bakhtin, cujos estudos têm por fulcro a concepção de que as relações mútuas são constitutivas do homem. Segundo Tzvetan Todorov, esse aspecto é tratado por Bakhtin, ao longo de quatro períodos: 1) Período fenomenológico – volta-se para a relação entre autor e herói, considerada como uma particularidade da relação humana.  Conclui que a pluralidade humana só encontra lógica na relação mútua na qual cada indivíduo é o complemento necessário do outro. 2) Período sociológico e marxista - opõe-se à psicologia e à lingüística subjetivas, visto que se voltam para o homem como se ele vivesse isolado. Bakhtin e seu círculo apontam a linguagem e o pensamento como instâncias intersubjetivas. 3) Período lingüístico – constitui uma proposta em que focaliza a enunciação e não mais o enunciado, mostrando como as diversas vozes sociais são refletidas na voz do sujeito da enunciação. 4) Período histórico-literário - marcado por duas obras, uma sobre Goethe e outra sobre Rabelais, é o momento em que Bakhtin, comprova que a pluralidade de vozes sempre marcou a prosa literária, fato que o leva à pesquisa de outras manifestações culturais como as festas populares, o carnaval e a história do riso.
Para Todorov, Bakhtin busca a síntese desses quatro períodos ao longo de um quinto, já que todos fazem parte de um projeto comum, cujas bases estão em relacionar literatura e história da cultura (os discursos distintos de uma época, descentralizados) e não mais na austera busca da sua especificidade, aspecto pelo qual primavam os formalistas. O dialogismo presente na elaboração estética da prosa romanesca ocorre através da enunciação discursiva. “Os personagens existem para que se possam enunciar as palavras – cada personagem de um romance é um ideólogo, que traz para o texto sua própria valoração, positiva ou negativa, da realidade social” (PRABHAKARA JHA apud LOPES, 2003, p.71). 
Em pesquisa à estilística do romance, Bakhtin afirma que há uma combinação de estilos na formação do estilo do romance, pois este emaranha um sistema de línguas, na formação de sua linguagem.

 

O romance é uma diversidade social de linguagens organizadas artisticamente, às vezes de línguas e de vozes individuais. ... E é graças a este pluralismo social e ao crescimento em seu solo de vozes diferentes que o romance orquestra todos os seus temas, todo seu mundo objetal, semântico, figurativo e expressivo (BAKHTIN, ibid. , p.74).

 

 

 

Apesar de divergências teóricas, sobretudo quanto ao papel do sujeito social, é possível destacar, no que tange ao aspecto supracitado, a concepção de Michel Foucault, em A arqueologia do saber, obra em que aclara que um livro “além de sua configuração interna e da forma que lhe dá autonomia, está preso a um sistema de remissões a outros livros, outros textos, outras frases: nó em uma rede” (FOUCAULT, 2002, p.26). Ademais, o autor assegura que a unidade de um livro é relativa e variável, por resultar de um campo complexo de discursos. Nessa perspectiva, os posicionamentos são confluentes, pois se para Bakhtin “todo texto é absorção e transformação de outro texto” (KRISTEVA apud LOPES, 2003, p.71), para Foucault, “todo discurso manifesto repousaria secretamente sobre um já-dito” (op. cit., p.28). 
Bakhtin enfatiza que é através do discurso do autor, dos discursos dos narradores e das personagens e dos gêneros intercalados que o plurilingüismo se revela no romance, introduzindo uma multiplicidade de vozes sociais que singularizam a estilística específica desse gênero literário. Assim, a estilística tradicional, inclinada para os gêneros unilíngües e monoestilísticos, comete equívocos por privilegiar uma unidade centralizadora em detrimento do diálogo social das diversas linguagens presentes no romance, fato que a torna incapaz “de dar conta das particularidades literárias do discurso romanesco e da sua existência específica” (BAKHTIN, op. cit., p.77). Para o teórico russo, a literatura é essencialmente estratificada, nela não há apenas centralização, mas também há a descentralização por força do plulingüismo social e histórico. As pesquisas de Bakhtin evidenciam o romance como um espaço de inter-relação dialógica.
Conforme José Luís Fiorin, o que caracteriza o romance de acordo com postulados bakhtinianos “é que nele diferentes vozes sociais se defrontam, se entrechocam, manifestando diferentes pontos de vista sociais sobre um dado objeto” (FIORIN, 2003, p.204). A obra A filha do meio-quilo foi eleita como centro desta discussão pelo que viabiliza de intercâmbio entre fluxos discursivos antagônicos ancorados em recorrências conservadoras e em recorrências iconoclastas. Para uma demonstração mais consistente do modo como esses discursos se entrecruzam, será priorizado o espaço que possibilita a formação do discurso revolucionário da personagem central, Cota – a filha do meio-quilo – constituído como réplica a uma seqüência gradativa de coibições advindas do meio social, repleto de vozes coercitivas e monopolizadoras, contra as quais Cota trava um ferrenho enfrentamento. A cada etapa de sua vida, um novo conflito, fato que promove uma multiplicidade discursiva na esteira da sua incansável refração às imposições ideológicas do meio, canalizadas e refletidas na reacionária voz do pároco da cidade, padre Gonçalo.
O eixo descentralizador presente no discurso de Cota ocorre, em outra dimensão, na prática social do seminarista Ricardo, cujo engajamento social se contrapõe ao dogmatismo de padre Gonçalo, que representa a voz da elite conservadora da cidade. Tais divergências reputam a multidiscursividade não preterida pela prosa romanesca de orientação dialógica.
A cidade de Parnaíba, na década de 40 do século XX, conforme se pode observar na obra, contava com algumas modernizações, tais como luz elétrica, veículos motorizados, embora não dispusesse ainda do sistema de águas e esgotos - déficit que fomentará a carreira profissional da personagem Rafael, que se casará com Alzira, enteada mais nova de Cota. As famílias preservavam o estigma do patriarca, na pessoa do industrial, do banqueiro, do lojista, etc., sem dispensar a presença do clérigo, a fim de direcionar e sustentar os valores morais e éticos fundamentais àquele sistema, recebendo a devoção das mulheres e o respeito dos senhores, bons contribuintes da igreja. O delegado, por seu turno, não poderia falhar aos desígnios das elites manipuladoras da política e mantenedoras da “ordem” econômica.
Esse contexto, no romance A filha do meio-quilo, é palco não indiferente pelo qual, inquietas, transcorrem as personagens de uma trama senão lancinante, mas, inexoravelmente, contumaz. No que tange à narrativa, em primeira escala, surge Cota, apresentada em três planos familiares: primeiro, vivendo com o pai e com a madrasta; depois, em companhia de Tomás, primeiro esposo; e, finalmente, ao lado de Romualdo, segundo esposo e das duas enteadas: Lucília e Alzira. Com procedência modesta, quem poderia imaginar que Cotinha, filha de um barraqueiro do mercado, pudesse incomodar a tranqüilidade de pessoas consideradas tão superiores na cidade? Era uma adolescente pobre como outra qualquer do mercado, acompanhava o pai e a madrasta na lida diária - encarregava-se da venda dos abacates e, nas entressafras, o pai lhe entregava os muricis. Tinha entre treze e quatorze anos, quando chamou a atenção do seminarista Ricardo, filho de família abastada: “Ricardo parava sua máquina na barraca do meio quilo, que ainda não era meio quilo, e sim Nhôzinho (...) ele não só comprava abacates, puxava conversa com Cotinha” (BRASIL, 1966, p.68).
E, assim foi que em certa ocasião, ela apareceu mais arrumada diante daquele rapaz que andava disparado nas ruas em sua motocicleta. Travaram-se as primeiras conversas entre os dois e o transtorno foi despertado - “todo mundo, não só os rapazes, dizia que Cotinha estava ‘virando a cabeça do seminarista’ (...) nas barbas do padre e das famílias de respeito” (op. cit., p.69).
A partir de tal acontecimento, todos os passos de Cota, suas peripécias de adolescente intrigavam “os fiscais gratuitos de sua vida”. Seus muitos namorados, seu primeiro emprego fora do mercado, o noivado com Tomás, rapaz rico com quem se casara, causaram incômodos crescentes - “Nunca se conformou em escolher um rapaz de seu meio. Quantos namorados arranjou no mercado?”(op. cit., p.74). Não cessavam as imposições das fronteiras delineadoras do espaço que cada indivíduo deveria ocupar no seio daquela sociedade. Cota, ainda adolescente, começou a reagir às delimitações impostas, infundindo seu repúdio à exclusão.
Padre Gonçalo, desde cedo, implicara com Cota. Sua primeira investida foi criticá-la em um sermão, acusando-a de roubo, embora ela, ainda criança, redargüisse que pensava que aquela lata de biscoito, estando ali no meio da rua, não tivesse dono. Devolveu-a, em seguida, aos meninos que brincavam de cabra-cega. “Não posso esquecer (...) do seu sermão. Pois desde aquela época Parnaíba me tem olhado de lado (...) Fiquei marcada, como se na minha testa houvesse gravado uma cruz” (op. cit., p.138).
Durante a adolescência, Cota foi separada de Ricardo, o amigo seminarista, por ação do mesmo padre que escreveu ao diretor do seminário, solicitando que mandasse Ricardo para longe, com permissão apenas para celebrar sua primeira missa em Parnaíba (a Matriz ficou lotada), alegando como uma das inconveniências para que o novo padre permanecesse na cidade, sua estranha amizade com Cota, “considerada por ele no caminho de satanás” (op. cit., p.151).
Uma vez que a prosa romanesca representa as condições reais do dinamismo discursivo entre sujeitos sociais não monádicos, mas múltiplos, constituídos a partir do diálogo com os outros, segundo postulados bakhtinianos, pode-se considerar que o discurso iconoclasta de Cota se construiu num ato de refração ao tolhimento premente. Se sua amizade com Ricardo gerou comentários que lhe reputavam imprudência e comportamento desregrado, sua reação foi de desacato aos tabus, incitando ruídos de desordem, um contraponto ao discurso oficialmente estabelecido. Sua inserção oblíqua no meio social proporcionou uma ruptura à unicidade tão cara àquela gente, configurada por uma ousadia crescente.

 


Em suma, no pensamento bakhtiniano nenhuma voz, jamais fala sozinha. E não fala sozinha não porque estamos, vamos dizer, mecanicamente influenciados pelos outros - eles lá, nós aqui, instâncias isoladas e isoláveis - mas porque a natureza da linguagem é inelutavelmente dupla. O que, em princípio, parece apenas uma classificação teórica aplicável à literatura ou à lingüística, um instrumento neutro, na verdade é uma visão de mundo (TEZZA, 1997, p.221).

 

 

 

Cota, embora adolescente, resolveu ir além das enraizadas fronteiras das regras comportamentais. Em perspectiva distinta, mas também em desarmonia com o projeto pré-estabelecido socialmente, destaca-se a conduta de Ricardo, no interior do romance. Ambos com discursos divergentes das ostentações tradicionais afrontaram as imposições e lutaram por um locus, forçando a expansão do campo dominante das forças centrípetas. Ricardo, não obstante pertencesse à elite, manteve contato com os marginalizados, era seu intento um trabalho voltado para o proletariado tão logo se ordenasse, visto que Pe. Gonçalo seria promovido a um posto mais elevado na diocese, e ele passaria a dirigir a paróquia. Ricardo, olhando os desfavorecidos socialmente, dizia: “-Espero que esse seja o meu rebanho”.  Cota, em ocasião futura, dirá a padre Gonçalo: “Ricardo era homem bom (...) Aproximou-se de mim, como se aproximou de todas as pessoas que ele julgava desamparadas em Parnaíba - por isso tinha aquela moto para visitar os subúrbios” (op. cit., p.148).
Pe. Gonçalo se eximiu da promoção e tratou de afastar Ricardo, pois sendo ele um tipo popular e engajado, por certo, traria desconforto à minoria privilegiada da cidade, que metódica, desejava-se inalterável. O discurso de Ricardo não estando enquadrado no estatuto oficial, deveria ser banido. Padre Gonçalo nutria profundo temor pela bravura de Ricardo e pelas conseqüências que suas ações poderiam trazer, portanto afastá-lo era eliminar a possibilidade de um líder, realmente, admirado pelo povo. A amizade dele com Cota foi o motivo mais facilmente justificável, contando que as cartas que trocavam, durante o período em que Ricardo se ausentava da cidade para estudos no seminário, sobressaltavam a bisbilhotice da sociedade. Pe. Gonçalo não se conformava com as atitudes do seminarista escorregadias às suas injunções. Quando Cota ia ao confessionário, ele a indagava:

 


... “tem recebido cartas, minha filha”? Como dissesse apenas que sim, Insistia: “tem recebido cartas imorais, minha filha?”
Nunca recebi cartas imorais na minha vida, padre.
Minha palavra não era bastante, a dúvida continuaria até nova confissão vingativa: “veja se não está pecando lendo aquelas cartas imorais” (op. cit., p.152).
 

 


A oportunidade de constrangê-la era elevada a sentenças repressoras, pois se tratava de um ser nocivo, que deveria ser contido, assim o decurso da confissão se fazia povoado de arbitrariedades. Inadmissível era que um discurso como o de Cota circulasse desimpedido, afinal ela transgredia as irrefragabilidades doutrinárias e não se rendia aos grupos de crença ortodoxa. Embora, a princípio, ela tenha tentado se adequar como uma católica dedicada, as incoerências do padre e das comissões paroquianas repeliram-na de toda devoção. As práticas sacramentais lhe repercutiram divergentes, sentia-se invadida e desrespeitada. E, paulatinamente, foi desacreditando do rito que atraía as mulheres e que representava a busca de uma vida com retidão.

 


... pode-se atribuir ao confessionário, nas sociedades patriarcais em que se verifique extrema reclusão ou opressão da mulher, função utilíssima de higiene, ou melhor, de saneamento mental. Por ele se teria escoado, sob a forma de pecado, muita ânsia, muito desejo reprimido, que doutro modo apodreceria dentro da pessoa oprimida e recalcada (FREYRE, 2002, p.805-6).

 


Se ao contexto histórico representado na obra, a confissão era um alívio aos pensamentos que se esvaíam das práticas socialmente corretas, o autor enfatiza a exceção.  Cota buscou o confessionário, obedecendo à rotina comportamental, como as demais mulheres o procuravam, mas este lhe foi ressignificado, inversamente, aos padrões da fé. Ademais, foram marcas atrozes que se lhe impregnaram, desde a experiência no ritual da primeira eucaristia:

 


“Já fez alguma coisa feia?” “Já fez alguma coisa feia?” Nunca achou desumanas essas inquirições? “Já teve ódio de seus pais, minha filha?” Eu tive vontade de chorar, gritar desamparada. ... Como me desiludi em minha primeira comunhão, padre (op. cit., p.157).

 


A confissão deixou de ser tomada como sacramento, passando a ser, futuramente, uma arma de vingança, um aparato na rejeição aos dogmas, uma forma de refração ao discurso autoritário e manipulador do padre, representante de um clero sem os privilégios de outrora, mas com o carregado anelo de se manter em vantagem. “E passei até algum tempo apaixonada pelas minhas confissões; esperava excitada pelos momentos em que lhe contaria coisas não esperadas” (op. cit., p.139).
 Pe. Gonçalo não admitia obstáculos aos seus comandos. Cota e Ricardo, não se adaptando à estagnação, deveriam ser silenciados, mormente pela irregularidade diante da plenitude comportamental almejada. Ricardo queria a igreja sob a verdadeira codificação cristã, inclinada para a população marginalizada. Padre Gonçalo, detendo a voz representativa da minoria dominante, opunha-se ao ideal do seminarista resistente à quietude histórica e não esquivo às dinâmicas sociais. O discurso religioso se bipolariza, engendrando, através do enredo, uma discussão voltada par relação entre o discurso da fé e o discurso da sociedade, polêmica não recente no processo histórico da igreja. Na obra, padre Gonçalo, não obstante à exasperação caricatural, representa o dogmatismo ortodoxo, contrário a práticas como a de Ricardo, pelo risco de “profanação do templo”, dado seu conseqüente laicalismo.
Pe. Gonçalo representa a voz da classe dominante, enquanto a personagem Ricardo empunha a luta por uma “igreja dos espoliados”, para usar uma expressão do ex-frade brasileiro, Leonardo Boff, um nome a ser destacado dentro da histórica polêmica transposta para o enredo da obra.  No livro Igreja: carisma e poder, Leonardo Boff trata do desempenho da igreja na luta das classes subalternas contra a dominação:

 

Percebe-se sem dificuldade que o nosso tipo de sociedade em moldes capitalista, dependente, associada, elitista não foi feito para esses despossuídos; nada funciona em função deles, nem as leis, nem os juízes, nem o aparato policial, nem os meios de comunicação. São, realmente, espoliadas; até há pouco, eram objeto de misericórdia da Igreja e da sociedade. Não contavam positivamente, constituindo apenas matéria de manobra política e número para engrossar as festas populares (BOFF, 2005, p.241).

 

 

 

O embate social entre posturas antagônicas na igreja católica representado, na obra, através das posturas de padre Gonçalo e de Ricardo conclama a dissensão do corpo eclesial diante do seu ministério. Da realidade histórica à ficção, é oportuno considerar que foi a partir da década de 1960, segundo Leonardo Boff, que teve início “em quase todos os países latino-americanos uma crescente conscientização acerca dos reais mecanismos produtores do subdesenvolvimento” (op. cit., p.33). Muitas organizações sindicais, religiosas e partidárias se envolveram nessa causa que suscitava novas práticas políticas. No âmbito religioso, surgiam reflexões na base de uma nova eclesiologia, denominada de teologia da libertação, termo cunhado pelo teólogo peruano, Gustavo Gutierrez. “Não se trata de uma libertação apenas do pecado (do qual sempre nos devemos libertar), mas de uma libertação que também possui dimensões históricas (econômicas, políticas e culturais)” (BOFF, op. cit., p.35).
No enredo da obra A filha do meio quilo, com lançamento em 1966, foram contemplados fios desse debate que dividiu opinião entre os intelectuais da época. Ademais, “é crucial ver a totalidade constituída do contexto de emergência - ou da ‘situação’ - de cada obra, já que no mundo da inteligência não há atores isolados nem produções singulares” (LOPES, op. cit., p.70). A personagem Ricardo almejava a concreção de uma igreja formada pelas classes dominadas, queria vê-la como o veículo através do qual vozes oprimidas se fizessem expressas.
Em Cota, o percurso da descentralização se configura na busca de espaço para a representação da mulher. Contrária aos tabus e às normas machistas, apoderou-se de um discurso incongruente ao meio, cuja meta era subverter valores arraigados.
À guisa de vanguarda, revolucionou parâmetros femininos datados: namorou publicamente, trocou de namorado em espaço de tempo inconcebível a uma moça de respeito, preconizou os abraços e beijos no cinema, (mais tarde outras moças tiraram-lhe a exclusividade), arremessou a moda da minissaia, negou-se a uma vida casta antes do casamento. A aversão da sociedade não lhe tardou, foi perseguida, implacavelmente. Quando arranjou o primeiro emprego e passou a demonstrar, além da independência financeira, intimidades com o gerente, Godofredo Rainho, “(...) formou-se uma comissão, para ir na firma Casa-Duíno Representações reclamar, em nome da dignidade ultrajada da cidade, contra aquela união de um seu funcionário com uma filha da terra” (op. cit., p.123). Julgavam que Cota se tornara amante de um homem casado, já que ele não a pedira em casamento. A comissão, apesar de verificar através de documentos pessoais de Godofredo que ele era solteiro, argumentou que o escândalo não repercutiria menor, pois as viagens que faziam juntos à praia de Amarração era uma afronta à Igreja e às famílias que visitavam o local. Tal acontecimento devastou as novas expectativas de Cota, diante do primeiro emprego. Lançavam sobre ela o labéu da luxúria, era a unilateralidade autárquica refratando seu discurso reformador, e o resultado foi Godofredo transferido e Cota desempregada. “Mais uma vez Parnaíba lavava o peito e se punha em expectativa” (op. cit., p.125).
O discurso conservador se agigantava numa tentativa de interdição à voz iconoclasta de Cota, que se contorcia em busca de um espaço. Foi nesse contexto de reclusão que ela reencontrou Tomás que havia viajado para estudar engenharia. De volta a Parnaíba, passou a ajudar o pai em uma requintada loja. Belo e cobiçado pelas moças da cidade, certa feita, surpreendeu Cota ao confessar-lhe: “-Sabe, Cota, que você é a única pessoa sem máscaras nessa cidade?” (op. cit., p.165). O discurso de Tomás refletiu às avessas diante das acusações que recebera em tantas cartas anônimas: “ela viveu com ele Godofredo sem se casar” (op. cit., p.130). A sociedade não concebia como ocorrera aquela identificação entre Tomás, rico e educado, e Cota, pobre e difamada. Casou-se de véu e grinalda, desmantelando apostas que se haviam feito pela cidade. O vestido com meias-mangas e saia curta contrariava os padrões e surpreendia os apostadores do seu fracasso.

 


Minha maior vingança foi mentir perante seus cochichos no confessionário. ... Assustou-se, padre Gonçalo, ao lhe dizer, quando me confessei para o casamento com Tomás, que era virgem? ... Também não se faz uma pergunta daquela, “você já dormiu com um homem, minha filha?” (op. cit., p.139).

 

 

 

Tomás afinou-se à autenticidade de Cota e, por sua posição social, fez com que a acolhessem nas festas do Cassino (o clube freqüentado pelas famílias respeitadas) e pelas doações feitas à igreja, Cota foi aceita nos grupos organizadores das quermesses. Contralegitimando, assim, a atitude moral dos seus opositores que declinavam das injúrias de outrora. O casamento com Tomás debilitou os preconceitos que impediam sua integração social. Tomás adotou uma consciência de repúdio ao preconceito e se vinculou às práticas reformadoras de Cota. Fez-se dissolutor de um machismo ortodoxo, reforçando o capital ético e humano relegado pela obstinação do grupo conservador; inserindo-se, assim, no processo de descentralização do discurso oficial.
Tomás faleceu nos braços da esposa. O casamento, embora amadurecido, contava com a mesma intensidade amorosa dos primeiros encontros. Cota agiu conforme o desejo do esposo: não queria que ninguém o visse morto, mais gravemente, não queria ser enterrado no cemitério, onde todos são jogados numa vala comum. “Gostaria que minha morte fosse privada, e se possível que ninguém soubesse, que ninguém me visse” (op. cit., p.168). Sozinha, enterrou Tomás embaixo do jasmineiro do quintal, conforme era sua vontade. Vestiu-se com uma roupa dele e forjou sua fuga. Quando revelara o desaparecimento do marido, alguns confirmaram que o viram passar pela rua, durante a madrugada.
Posteriormente, casou-se Romualdo, funcionário que contratou para vender água na cidade. Ele, um camponês simples, foi abandonado pela esposa que lhe deixou duas filhas. Estas cresceram aos cuidados de Cota, que embora tivesse sido feliz no primeiro casamento, não alcançara a realização da maternidade. Importava-lhe, agora, a companhia do novo esposo e a dedicação às crianças, acolhidas como uma dádiva de inestimável valor. Padre Gonçalo se recusou a casá-la na Igreja, pois não era certo que o marido já havia morrido. Cota e Romualdo assinaram o contrato civil, causando mais um desconforto social. “Uma afronta”, casar-se com o próprio empregado que vende água em lombos de burros. Cota se sentia feliz e mais uma vez transtornava a rotina da cidade, causava impacto à estagnação dos costumes, à unilateralidade das convenções. Alargava as possibilidades de realização de uma mulher que não se acomodava ao leito de Procusto que as tradições misóginas lhe impunham.
Foi condenada pelo assassinato de Tomás, quinze anos mais tarde, quando os escavadores de um poço encontraram uma ossada humana em seu quintal. Cota silenciou, nada falou em defesa própria. As acusações não abalaram sua tranqüilidade. Anos depois, em conseqüência do suicídio Lucília, a enteada mais velha, chamou padre Gonçalo e revelou sua versão dos fatos. A velhice abateu a altivez do seu silêncio. O gesto, porém, não distorceu seus preceitos, o padre tomaria conhecimento da resistência das suas decisões, fato que não reduziria a polaridade entre seus discursos. Persistia sua autenticidade, Cota não lutara em uma oposição domesticável, mas contra o domínio das hierarquias, o que legou imponência ao seu trajeto vital.
A dicotomia do joio e do trigo foi emoldurada pelas imposições dogmáticas. O contra-senso da ortodoxia oficial permaneceu no firme propósito de privar a colheita futura e, por conseguinte, suas consectárias. Padre Gonçalo, sem fugir às manifestações do sistema, cumpriu e tornou ainda mais rígidas as regras mantenedoras da ordem social vigente, afinado com a elite monopolizadora, buscou neutralizar a ação subversiva de Ricardo e de Cota. Ricardo sucumbiu, após bravura reconhecível, foi tolhido pelas lâminas do sistema ao ser deposto da cidade. Cota, após anos de enfrentamento, reforçados pelo poder aquisitivo de Tomás, foi detida. No entanto, o altivo silêncio substituiu seu discurso reformador, não declinou da postura de autenticidade que sempre mantivera. A declaração de sua inocência feita ao padre, certamente, viria a abalar o gratificante senso de justiça cumprida com o qual ele se deleitava.
Assis Brasil, através da obra, desvela sua posição ideológica sobre os problemas sociais característicos do contexto histórico da cidade de Parnaíba, na primeira metade do século XX. As vozes que se entrechocam e que se constroem em torno da dicotomia: conservadorismo versus inovação, na base dos mecanismos que orientam as relações sociais na cidade, demonstram uma visão “do conflito de classe tradicional e o autodeterminismo socioeconômico predatório, relatado através de múltiplos pontos de vista e justaposição cronológica”. E conforme se observa na obra, a voz conservadora se agiganta, agregando elite e poder clerical em recusa às inovações advindas de vozes dissonantes, sobretudo, das de Cota e Ricardo, que, embora com atuações em campos diferentes, demonstraram resistência aos ideais reacionários.
A discussão focalizada na obra reflete um autor preocupado com as coerções sociais, aspecto marcante nos quatros livros que compõem sua Tetralogia piauiense, avançando na apreensão dos discursos que se entrecruzam no embate das construções sócio-culturais. É esse olhar exotópico horizontalizado que confere sentido estético à representação das interfaces discursivas contempladas na urdidura do texto. Outorga-se o extra-oficial, as interferências às práticas monológicas, tomando as vozes dissonantes como contraponto, constituinte-mor da alteridade, credenciando o curso das “forças centrífugas”, supérstites das dragas hegemônicas. 
A ação não é concentrada em torno de uma única consciência, aspecto imprescindível para o tecido heterogêneo do texto. O processo narrativo se faz a partir de quatro pontos de vista, com dois narradores externos e dois narradores internos ao núcleo da trama. São externos o ponto de vista do narrador impessoal, também denominado de narrador observador nos manuais de teoria literária, e o ponto de vista de Clotilde, que narra o que sua mãe lhe conta e o que outros contemporâneos de Cota dizem ter testemunhado. São internos o ponto de vista de Lucília, enteada de Cota, e o da própria Cota, cuja narração explica a origem de acontecimentos tratados pelos demais narradores. Todas as abordagens narrativas ocorrem por meio de uma construção híbrida, em que se misturam à voz do narrador os discursos populares, a opinião pública, as idéias correntes a respeito do conflito entre Cota e a cidade. No entanto, para tratar dessa construção híbrida far-se-ia necessário um estudo à parte. Importa acusar sua existência por ser um dos vetores que possibilita a multidiscursividade, aqui, abordada.
A dialética discursiva, contemplando diversificados fulcros ideológicos na urdidura das vozes concorrentes na obra possibilita a multitextualidade, fator que reforça a premissa bakhtiniana de que “o sentido de uma obra literária é fruto de uma construção dialógica” (LOPES, op. cit., p.70). Portanto, sem exaurir as conseqüências do confronto entre as instâncias discursivas abordadas ao longo do texto, o autor privilegiou mecanismos que conferem a dialogicidade da obra, no contexto plurilingüístico que a tornou patente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Referências Bibliográficas

 


BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Hucitec, 1990.
BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. Rio de Janeiro: Record, 2005.
BRASIL, Assis. A filha do meio-quilo. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1966.
FIORIN, José Luís. O romance e a simulação do funcionamento real do discurso. In: BRAIT, Beth (org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1997.
FOULCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de janeiro: Forense Universitária, 2002.
FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002. (Intérpretes do Brasil, v.2)
LOPES, Edward. Discurso literário e dialogismo em Bakhtin. In: BARROS, Diana Luz & FIORIN, José Luiz (orgs). Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade. São Paulo: Edusp, 2003.
MARQUES, Maria Celeste Said. Bakhtin: apontamentos temáticos. Disponível em: Acesso em: 10 de fev. 2006.
SILVERMAN, Malcolm. Protesto e o novo romance brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
TEZZA, Cristovão. A construção das vozes no romance. In: BRAIT, Beth (org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1997.
TODOROV, Tzvetan. Prefácio à edição francesa. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.


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A ALIENAÇÃO NO PROCESSO DAS RELAÇÕES SOCIAIS EM BEIRA RIO BEIRA VIDA

Por Francigelda Ribeiro

Em uma realidade cerceada pela aura do atual capitalismo e por todas as suas imponentes conseqüências, falar em marxismo exige um adentramento maior à teoria que, trivialmente, passou a ser identificada apenas como a decadente política que vigorou na antiga URSS. O sistema global vigente com sua onipotência mantenedora de atualidades faz parecer anacrônica qualquer voz que queira se sustentar em postulados de viés marxista. Críticos modernos, conforme predica Atílio Boron(2003), julgam que “o marxismo jaz inerte sob os escombros do Muro de Berlim”, julgam-no esgotado tal qual a União Soviética, como se tudo convergisse em similar identidade, num constante imbróglio entre os postulados de Marx e os sistemas políticos de inspiração marxista.
O presente ensaio emerge da tentativa de demonstração da validade de conceitos desenvolvidos por Karl Marx, mediante sua adaptação enquanto mediadores para a análise da obra Beira Rio Beira Vida, do escritor piauiense Assis Brasil. Sabendo, pois, que a teoria desenvolvida por Marx em conjunto com Friedrich Engels erigiu da análise empreendida no sentido de compreender o sistema capitalista, evidenciando sua forma de contradição e exploração, serão aludidos de tal teoria apenas alguns aspectos que configuram como escudo para amparar a visada crítica que se pretende refletir acerca da obra em questão.
Marx desenvolveu princípios de caráter totalizador e universal, peculiaridade que se projeta, inclusive, sob a questão da tão polemizada objetividade científica. Para o filósofo alemão, tal objetividade só poderia ser atingida enquanto consciência crítica. Assim, o conhecimento científico só será objetivo – e não ideológico – mediante uma visão crítica da realidade. A objetividade não se torna, pois, uma questão de método, mas de como a ciência se insere no contexto das relações de produção e na história. (COSTA, 1997).  Nesse sentido, pode-se ressaltar que uma obra artística também só poderá saltar a uma análise marxista caso reflita uma consciência crítica da realidade e não oblitere a situação de exploração entre as classes sociais.
Para Georg Lukács, o grande escritor caracteriza-se pelo apetite de realidade, que tem preponderância sobre seus preconceitos, sobre suas intenções. Segundo Jean-Yves Tadié(1992), foi assim que Lukács se dirigiu ao texto de Engels sobre Balzac, no qual afirmava que este havia conseguido analisar “as estruturas da sociedade de seu tempo”, pois as personagens se desenvolvem não segundo os desígnios do autor, mas de acordo com ‘a dialética interna de sua existência social e psicológica’. Tal consideração se coaduna à realidade exposta no conjunto das obras que compõem a Tetralogia Piauiense: Beira Rio Beira Vida(1965), A Filha do Meio-quilo(1966), O Salto do Cavalo Cobridor(1968) e Pacamão(1969). São tessituras que engendram sem disfarces as diversas formas de opressão de um povo.
Ao se reportar à Tetralogia, no prefácio do livro Pacamão, Assis Brasil predica:
A idéia da Tetralogia nasceu de uma necessidade urgente de voltar às minhas raízes telúricas e a experiência existencial foi a matéria-prima para o levantamento de um mundo ficcional”. Ainda acrescenta: “A Tetralogia Piauiense é a minha volta às minhas fontes, às minhas raízes. Deixei de lado os contos e novelas cerebrais, ideológicos, de teses, e me voltei para o homem, para a sua condição, onde tudo está implícito: ideologias, teses e supostas mensagens.
Em meio a essa empreitada, enleva-se a cosmovisão do escritor que no transcurso da conjuntura do seu tempo não poupou recursos para colocar em evidência a real situação social do seu povo. A evolução social converteu-se nas linhas da ficção que mimetiza o homem explorado no dialético embate das personagens com o meio e a pungente perfomance do seu devoramento pelas engrenagens do capitalismo. “São quatro romances e uma única intenção: a de denúncia. E a denúncia não pode ser cristalizada através de uma forma que compactue com a estagnação social” – declara o autor.
A Tetralogia situa, irremissivelmente, os problemas sócio-político-culturais que constituem o legado do nosso passado – são fatos transportados à ficção que vertem o amargo de forças repressivas e polarizadoras. Em cada obra, um conjunto de elementos ambientais vêm à tona e vão sugando o leitor ao questionamento visceral da problemática abordada.
Beira Rio Beira Vida(1965) é o primeiro livro da série denominada Tetralogia Piauiense, situa a cidade de Parnaíba, retratando o cotidiano do cais – os embarcadiços, as prostitutas, os “desvalidos”. É no domínio de tal obra que se buscará uma interpretação dos agentes sociológicos que se configuram como elementos estéticos do livro e determinantes para a sua real compreensão. Perquirição elucidada, devidamente, nas palavras de Antonio Candido:

 

... saímos dos aspectos periféricos da sociologia, ou da história sociologicamente orientada, para chegar a uma interpretação estética que assimilou a dimensão social como fator de arte. Quando isto se dá, ocorre o paradoxo assinalado inicialmente: o externo se torna interno e a crítica deixa de ser sociológica, para ser apenas crítica. O elemento social se torna um dos muitos que interferem na economia do livro, ao lado dos psicológicos, religiosos, lingüísticos e outros. (CANDIDO, 2000, p.7)

 


O valor estético é fator preponderante para a compreensão da obra em si mesma. Segundo Lucien Goldmann, “uma análise estética imanente separará o significado objetivo da obra, que o crítico, a seguir, coloca em relação com os fatores econômicos, sociais e culturais da época” (GOLDMANN apud TADIÉ, 1992, p.173). No âmbito da obra selecionada, o intento é seguir uma abordagem ancorada nessa perspectiva despertada por teóricos como Lukács, Goldmann, Antonio Candido – o externo intricado na economia interna da obra, portanto indispensável para a sua compreensão.
As obras da Tetralogia apontam para uma análise do sujeito humano no seu percurso social, para seu inquietante posicionamento diante do contexto prático-político e para a esfera das relações coletivas. A discussão de alguns conceitos sociológicos no campo estético proporcionará a base teórica para este ensaio. A condução será delineada, sobretudo, pela verificação de como se processa na obra a alienação e a reificação, princípios operantes dos postulados marxistas.
Foi a partir da obra A Essência do Cristianismo(1841), de Ludwig Feuerbach, que Karl Marx desenvolveu o termo alienação, vocábulo que, por seu turno, já fora citado por Hegel, relacionando-o às formas diferentes em que o indivíduo aparecia no processo dialético. Feuerbach utilizou-o, a fim de sistematizar sua crítica à teologia e, mormente, à religião judaico-cristã. Para ele, o homem havia criado um ser infinito e atribuído a ele a criação de si; colocando, assim, sua essência em outro sujeito, passaria a pertencer a outrem. A religião seria o meio para essa alienação – a teoria feuerbachiana exerceu influência sobre o pensamento filosófico do séc. XIX. Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos(1844), Marx afirma que a alienação religiosa não é mais que uma conseqüência da alienação do trabalho – o objeto produzido pelo trabalhador lhe é estranho no sistema capitalista – fonte primária de onde fluem as outras formas de alienação. A apropriação do objeto pelos detentores dos meios de produção é o que caracteriza a alienação econômica. Esse aspecto destitui o indivíduo das suas aspirações, ocasionando a projeção dos seus anseios para uma outra realidade de valores eternos. Apesar de Marx iniciar seus escritos retomando Feuerbach, em escritos ulteriores, ataca o pensamento do filósofo, acusando-o de estar preso a questões idealistas, relegando a práxis. Em 1845, em Teses sobre Feuerbach, Marx assinala sua crítica acerca do idealismo dos postulados feuerbachianos.
A questão de atribuir ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas sim uma questão prática. É na práxis que o homem precisa provar a verdade, isto é, a realidade e a força, a terrenalidade do seu pensamento. A discussão sobre a realidade ou irrealidade do pensamento – isolado da práxis – é puramente escolástica. (MARX, 1998, p.100)
Para Marx, o sentimento religioso está vinculado a condições histórico-sociais, negando-lhe qualquer razão supra-humana. O indivíduo é um ser pertencente a uma sociedade deformada pela exploração do capitalismo, assim a questão não seria apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo. “Feuerbach ... converte a essência religiosa em essência humana. Mas ... ela é o conjunto das relações sociais”(id., ibid., p.101). Não obstante, Marx e Engels defenderam o materialismo, segundo a concepção de Feuerbach, como humanismo naturista, ou seja, o homem sendo visto como ser natural. E, ao reelaborarem a dialética hegeliana – “não sendo a consciência determinante da vida, mas a vida determinante da consciência” – chegaram a uma nova concepção filosófica: o materialismo dialético. O caráter germinativo de toda a obra marxista perpassa, inexoravelmente, por uma discussão sociológica, condição sine qua non para uma análise crítica da história da humanidade. Diante disto, a alienação suplantaria todo idealismo e, desnudada, revelar-se-ia como a ferramenta magna para a manutenção do sistema capitalista, cuja base se faz na exploração do trabalhador pelos detentores dos meios de produção.
Sendo o trabalho humano o fundamento da História, conforme defende Wanderley Codo (2004, p.9); sua evolução segue, de certo modo, maculada pela sua alienação. Não tendo o homem acesso aos bens que produz, o trabalho surge como atividade forçada: o indivíduo não se desenvolve enquanto ser humano, apenas se envolve na crueldade da troca da sua força de trabalho pela subsistência. O sistema econômico nega, veementemente, o direito à dignidade humana. “O capital rouba do homem a sua própria transcendência, a sua historicidade, o reconhecimento de si mesmo como ser universal e histórico” (CODO, p.34). Vale ressaltar que tamanha é a dominação do trabalhador, que a alienação chega a tomar forma de um corpo diáfano, muitos nem sequer se identificaram como seres explorados e alienados, achando natural a hostil relação com o trabalho. Produto separado do trabalhador, trabalhador separado da História e todos, atropelados pelo “tornado” do capitalismo, jazem como entes mercadológicos, indistintamente. Marx adverte que o próprio trabalhador se transforma em uma mercadoria mais barata à medida que gera bens para os “não-trabalhadores”, que elevam o valor dos produtos na exploração da mais-valia, desvalorizando o “mundo humano”. Para Marx, toda forma de servidão humana é tão somente corolário da relação do trabalhador com a produção.
Assis Brasil, conforme já fora mencionado anteriormente, absorveu à sua práxis literária a intenção de denúncia, operando-a artisticamente, sobretudo, nas suas obras de maior envergadura. No caso específico de Beira Rio Beira Vida, o autor utilizou-se das contradições do sistema capitalista e de todo o processo de desumanização expelido pela ardilosa luta de classes, projetando-a num universo fragmentado e, substancialmente, conspurcado para a apresentação de personagens degradadas, mas “historicamente” concretas na luta pela subsistência.
Parnaíba, cidade litorânea do Piauí, por volta da primeira metade do século XX, época das embarcações em auge é tomada como cenário pelo autor. O cais do rio Parnaíba, na época, era palco de incansáveis transações comerciais – receptáculo de manufaturas que atravessavam o Atlântico e ponto de partida de matérias primas que se destinavam por valores irrisórios aos exploradores das riquezas da terra. Por aquelas imediações do cais não se abrigavam as “boas” famílias, que detinham certo poder aquisitivo. Naquelas ruas úmidas e descuidadas, firmava-se o ponto dos desempregados, dos que mendigavam um “bico”, dos estivadores, dos canoeiros, das prostitutas que ganhavam a vida através do suor e da solidão dos marinheiros de água doce. Nada idílico, o cenário que abriga os marginais da sociedade parnaibana. O narrador, com engenhosa percepção, despoja-se à cata de detalhes que conduzem o leitor a vislumbrar melhor a descrição daquela “beira de vida”:
A sineta dos navios-gaiola, o apito mais grosso de uma barca, o grito dos canoeiros, o barulho seco do arroz e feijão pisados no cais, pareciam varrer com a brisa a calçada escura, cheia de lembranças. Alguns flocos de algodão, caídos dos fardos ou das barcas, acompanhavam a correnteza barrenta, os postes traziam a luz fraca da esquina. (BRASIL, s/d, p.7)
No emaranhado daquelas pedras, são apresentadas, ulteriormente, as mulheres basilares da trama: Cremilda que mãe de Luíza que é mãe de Mundoca, cuja indiferença com a vida trouxe-lhe a ruptura com a dinastia de prostituição característica às mulheres da família. Todo aquele sofrimento era justificado por uma maldição lançada por uma antepassada, também mulher do cais: presa por um crime que não cometeu, durante toda a gravidez chorou e gritou na cadeia. Quando a criança nasceu, amaldiçoou o futuro da menina: haveria de penar, pegar barriga de marinheiro e “teria uma filha que pegaria barriga de marinheiro, e a filha de sua filha pegaria barriga de marinheiro” (id., Ibid., p.35). Mundoca, ensimesmada, destoante em relação aos lascivos gestos da avó e da mãe, seguia outra rota vital, não menos explorada, não menos sofrida, mas contrariando àquele comércio de ilusões, com cuja renda fora criada; optou, então, por vender sua força de trabalho aos que detinham o monopólio do comércio da cidade. Sem embargo, todas, indistintamente, jamais se desviariam da reificação do processo das relações de produção. Vale ressaltar que, por uma questão de recorte, não se tratará, aqui, da personagem Jessé (adotado por Cremilda), que por sua força representativa na obra, torna-se merecedor de um estudo à parte.
Houve uma época em que Cremilda tornara-se uma industrial promissora (como chamavam na cidade). Herdou de um amante uma pequena fábrica de pilar arroz. Com a morte do velho, reformou o ambiente, dando-lhe um aspecto de limpeza e aos poucos os empregados passaram a receber um ordenado em vez da antiga comissão. A empreitada surtia efeito: “eu ganhava dinheiro, era uma mulher de negócio, cheguei até mesmo a esquecer quem era” (id., ibid., p.18). Certa feita, em uma alta do arroz, comprara um pilador novo de alta resolução. “Outros negociantes a convidaram para se estabelecer na cidade, mudando de ramo, aquele negócio era incerto, ninguém podia garantir chuva para a cheia do rio”(id., ibid., p. 38). Não quis abandonar o cais, era o seu espaço, identificava-se com sua gente, aquele era o seu grupo social. Por algum tempo, voltou-se apenas para os negócios do armazém. Um ano, comprou arroz demais, mas o rio estava seco, as barcas não podiam passar para Tutóia, os navios encalhavam. O arroz passou a ficar encalhado, os trens cobravam uma quantia exorbitante para uma pequena negociante. “E foi o fim da ‘dona Cremilda, a mulher de negócio da beira do rio, aquela que inventou tanta história até herdar o armazém do velho Santana’” (id, ibid, p.18). Desnudada do charme de uma mulher de negócio, lamentava em gritos a falência, chorava, enquanto leiloavam suas máquinas e sua casa. Engoliu as lágrimas, juntou o pouco que lhe sobrou e tentou, inutilmente, comprar uma casa na cidade – “Um deles disse: ‘Mesmo a senhora não pode se mudar pra cidade’. Foi o que um deles disse, Luíza, e os outros acharam graça” (op. cit., p.24). Foi em um barraco de madeira, no cais, que passou a morar e a continuar sua vida de prostituição, em um cotidiano sem sonhos e sem esperanças, mergulhada no seu ofício, num emaranhado de risos e desprezo. O sexo que, via de regra, é uma necessidade humana metamorfoseia-se em puro valor de troca, cuja venda solidifica ainda mais a reificação da sua existência.
Sem projeção futura, analfabeta, Luíza segue a mesma “sina”, caminho que considerava já traçado, assim ajudaria a mãe com as despesas domésticas. Era apenas mais uma adesão esperada com ansiedade pelos marinheiros no mercado do sexo. Homens massacrados pelo peso das sacas, pelo calor escaldante, talvez não conseguissem mais que uma ejaculação “despersonalizada”, acompanhada por uma mísera quantia que era o preço da ”carne”, dos risos, dos anônimos afagos. Após o pagamento da mercadoria, “todo o carinho, todas as fantasias ... são reduzidas, literalmente, até a eliminação de todo seu significado” (CODO, 2004, p.62). Não havendo encontro, o gesto se apresenta como estranho, alienado.
 Ao pilar o arroz, pagando aos poucos operários, Cremilda interagia socialmente, identificava-se com um grupo, autorealizava-se. Com a perda dos meios de produção, viu-se alienada da sua auto-estima, das suas aspirações; expropriada, passou a vivenciar mais que a pauperização econômica, mas o envilecimento da própria condição humana. Cremilda e Luíza seguiam seus “destinos” na vida do cais que, a cada noite, parecia tornar mais aguda as diferenças entre elas e as “outras da cidade”. Mundoca, de recém-nascida à adolescente, presenciara a entrada daqueles homens para os encontros com a avó e com a mãe; sua apatia, no entanto, era, inexoravelmente, inabalada. Primeiro a morte da avó, depois o envelhecimento da mãe. Malgrado tamanha abnegação, a indiferença cedeu espaço à problemática da subsistência:

 

-Preciso arranjar emprego, mãe.
-Pra quê?
-Os homens estão indo embora. Com pouco não entra mais dinheiro nessa casa.
Mundoca reparava tudo, embora distante. (BRASIL, op. cit., p.85)

 


Mundoca almeja um trabalho, um salário, quiçá, não alvejasse a dimensão dos preconceitos, inalteravelmente, fixos do sistema patriarcal. Faria parte de um proletariado disposto a vender sua força de trabalho por qualquer preço, a conformar-se como ser descartável em meio à exploração sexual; contudo, ser-lhe-ia mais compensador viver sob o jugo da exaustão comercial do que se resignar à desvalida rotina à qual sempre estiveram subjugadas as mulheres da sua família.

 

Mundoca ... nunca terá um marinheiro nos braços, uma filhinha no colo. Que fim levou a maldição do rio? ... Tudo teria um fim com Mundoca, aquela dinastia do cais. Aquele destino do cais (id., ibid., p.76).

 


A madrinha de Mundoca arranjou-lhe um emprego da loja de tecido do marido. Em nome da caridade, ou melhor, da vaidade, divulgava o fato de ter prestado socorro à Luíza, a “infeliz” abandonada, na hora do parto, e por proporcionar um trabalho à filha, uma miserável do cais. “Se não fossem essas desvalidas que assunto ela teria pra se vangloriar?” (id., ibid., p.31). Outros negociantes chegaram a questionar se a loja virara instituição de caridade. Apesar da “boa ação” do casal proprietário, a loja só voltou à movimentação normal, após a transferência da “filha da Luíza” para o armazém dos fundos, assim sua presença não incomodaria às clientes nem as outras funcionárias, que eram moças de família.
Mundoca convivia com o preconceito de clientes e colegas de trabalho, nem mesmo os salários recebidos recompensavam o sofrimento, posto que não modificaram as privações pelas quais passava juntamente com a mãe.

 

Comprei uma cordinha de peixe hoje, Mundoca. É só botar pra ferver. Aquele dinheiro que você me deu foi bem aproveitado ... Comprei uma caixa de fósforo,uma penca de banana e meio litro de querosene. Seu Mundico me deu um punhado de farinha ... fiquei de olho comprido foi na rapadura que seu Mundico recebeu. Como não me deu, não disse nada. Se você ainda tem dinheiro do mês, Mundoca, compre uma banda de rapadura pra gente aproveitar essa farinha. (id., ibid., p.61)

 

Os sonhos amordaçados, o futuro coibido na extensão do cais - abrigo e labéu – único mundo que conhecia, um mundo que projetava fragmentos de vidas alienadas, sempre oprimidas pelo sistema dominante que lhes impulsionava para aquém da totalidade e dignidade humanas; e, portanto, margeavam a existência – na beira do rio, na beira da vida – reificada na trivialidade da lida cotidiana.
Lumpemproletários, irremissivelmente, hauridos pelas engrenagens do irreplegível capitalismo. Carregavam “o dia inteiro saca de arroz, fardo de algodão, quatro arroba de carnaúba de uma vez. Um ou outro, de vez em quando, não agüentava o rojão, ficava cuspindo sangue por aí”. (id., ibid., p.9). No cais, a identidade humana era reduzida à subsistência; sob o signo da dominação, convertiam-se em mercadorias manipuláveis e de baixo custo. As aspirações poderiam ultrapassar as pedras do cais, mas a escalada aplacava-se pela repressão, num pesadelo ideológico sem válvula de escape para aquele exército dominado.
Em 1844, nos Manuscritos Econômico-filosóficos, Marx já assinalava que a distinção entre capitalistas e latifundiários e entre trabalhador agrícola e operário desapareceria, ficando o conjunto da sociedade dividido apenas em duas classes distintas: “possuidores de propriedades e trabalhadores sem propriedades”. Malgrado as tautologias engendradas para disfarçar a exploração da classe trabalhadora, numa tentativa, por parte dos proprietários, de ornamentar a alienação, disfarçando o caráter deformador que trabalho adquiriu, as palavras de Marx confirmam-se na hodierna práxis social.
Sendo a primeira classe detentora dos meios de produção, alarga proporcionalmente suas riquezas, à medida que o trabalhador sucumbe na “desvalorização do mundo humano”. O que passa a ser valorizado é apenas o objeto, produto do seu trabalho, cuja existência se lhe impõe como um “ser estranho”, uma vez que é apropriado pelo capitalista. O produto do trabalho surge como independente, com características materiais próprias, tornando-se mercadoria com um valor estabelecido por convenção social. A isso Marx denomina fetichismo: “no mundo dos produtos para a troca, está a mão humana”. A partir de tal situação, a esfera das ralações sofreu uma transformação abrupta.

 


As relações em si tornam-se ‘materialidades’, o que é necessariamente humano nelas desaparece por trás das inúmeras coisas tornadas mercadorias e, em toda a parte, onde elas surgem, são inconscientemente consideradas segundo a ótica do ser-mercadoria e tratadas de forma correspondente (BICCA, 1987, p.106)

 

A visão fetichizada da mercadoria passou a ser determinante da forma de pensar dos indivíduos. O valor mercadológico atingiu uma proporção tal, que o homem, na sociedade capitalista, passou a ser tão “coisificado” quanto os objetos. É, pois, no âmbito quantificável que são tomados sujeito e objeto no processo de produção.
Marx procede à análise da alienação, buscando meios para a sua supressão, primando por uma ação humana individual e coletiva, na qual “o livre desenvolvimento de cada um seja a condição para o livre desenvolvimento de todos” (MARX apud COUTINHO, 1967, p.144). Nesse sentido, reconhece não apenas a alienação como resultado da relação direta do trabalhador com o produto do seu trabalho, mas também como conseqüência da própria atividade produtiva: a auto-alienação. O trabalho transformou-se em uma atividade que não proporciona a auto-realização, mas a negação do ser. Assim, o trabalhador caracteriza-se por “um sentimento de sofrimento em vez de bem-estar, por não desenvolver livremente suas energias mentais e físicas, mas por ficar fisicamente exausto e deprimido” (MARX & ENGELS, 1844).
Para Georg Lukács, o romance representa o novo gênero épico que eclodiu em meio à sociedade capitalista. E representa “uma investigação degradada, pesquisa de valores autênticos num mundo também degradado” (GOLDMANN, 1990, p. 8). Segundo Lukács, essa busca de valores autênticos será sempre malograda, pelo fato de não existir mais uma comunidade humana autêntica, haja vista o domínio da alienação. Todavia, em meio ao ciclo de dominação, irrompem sujeitos que almejam valores autênticos, que na forma estrutural do romance é denominado por Lukács de herói problemático. É nesse contexto que, nas entranhas da sociedade eleita por Assis Brasil para sublevar suas personagens, surge Mundoca como indivíduo problemático. É sob o signo da sua resistência, que tentará romper com a prostituição determinante de suas antepassadas, ousará a busca de outros valores. Tentando desviar-se dos preconceitos letais, empenha-se na conquista de uma existência que não a abrasasse na mesma fornalha que sempre aquecera os marinheiros alojados pelo cais e adulterados pelo massacre dos dias. No entanto, sua consciência é demasiada estreita em relação à complexidade do mundo, conforme a caracterização que Lukács faz do herói típico do “romance do idealismo abstrato”, a partir da tipologia que ele estabelece do gênero romanesco.
Lutando contra a alienação “na carne”, Mundoca torna-se vítima da auto-alienação. Trabalhando o dia inteiro na loja de tecidos – sonhava em ter vestidos novos, mas a frustração, o infortúnio, a inércia do tempo sem felicidade, sem alterações.

 

“Quanto corte de fazenda tem ficado aí no baú esperando por linha … Por mim a gente voltava lá pro Igarapé. … Você se lembra, Mundoca, nossa chegada em casa era como uma festa, carregada de coisa, peixe, caranguejo ... A gente nem reparava que só comia uma vez por dia. O que sobrava a gente vendia pra comprar querosene, farinha, fumo e rapadura. Agora é essa danação de falatório, de alegação – o dinheiro dela da madrinha não é igual ao nosso? E não é tanto assim – desde quando a gente não pode comprar um tamanco? Uma panela nova?” (op. cit., p.55)

 

 

 

Havia uma diferença naquela alienação, todavia sua condição reificada petrificava qualquer perspectiva de realização humana por sob os musgos da repetição dos dias e das madrugadas vazadas de sonhos. Na janela do seu barraco, embalada pela fumaça do cachimbo, Mundoca assistia aos passos nômades de tantas identidades mutiladas como a sua. “... assim nada mudava, todos sabiam e aceitavam, a vida era aquela, botar os passos no rumo e pronto. Eles nasceram na cidade para dar esmolas, elas nasceram no cais para receber” (id., ibid., p.34).
Veio a velhice de Luíza, fantasiada pela boneca Ceci (companheira desde a sua infância) que ganhava vestidos novos diariamente, enquanto aguardava a filha voltar do emprego.

 


-Vamo indo, mãe.
-já voltou do emprego, Mundoca?
-Ora, não está vendo que é noite?
-Estou perdendo a luz, minha filha.
(id., ibid., p.42)

 


Mundoca, sempre apática, talvez nunca tentara compreender o sentido de sua vida, mas conseguira romper com trágico destino da prostituição que subjugara sua procedência. Sua peculiaridade permitiu-lhe novas perspectivas, cujo alcance suas antepassadas não tentaram chegar. Morava no cais, mas nunca desejou ser chamada de “mulher do cais”. Sua existência jamais se desvinculara daquela facção de mundo que moldurava sua impotência diante de uma real transformação rumo aos valores autênticos, conforme escreveu o crítico Fausto Cunha: “uma comunidade sufocada pelo primitivismo capitalista, um mundo em que a sociedade se estratificou implacavelmente.... As dobradiças do sistema estão, porém, de tal modo enferrujadas que a fuga é praticamente impossível.” (s/d). Mundoca, quiçá sonhara com uma forma de vida sem tamanhas privações, tivera talvez uma ilusão ou, provavelmente, nem uma esperança de fato, mas tentou, ao seu modo, fugir de uma práxis que julgara inautêntica. O futuro, o mesmo barraco, as mesmas necessidades podem não lhe ter chegado como mediadores para uma compreensão da inalterabilidade em relação à condição alienante da sua existência, todavia lhe bastava não pertencer ao mesmo ciclo de dominação no qual se confinara a sua solitária família.
Assis Brasil, com Beira Rio Beira Vida, surpreendeu tanto no que tange às inovações técnicas – uma vez que a obra possui arranjos estéticos vanguardistas que o aproxima de escritores tais como Faulkner, Henry James, Joyce, dentre outros, que empreenderam audaciosas técnicas com o romance – quanto na abordagem da temática, explorando o indivíduo na sua relação orgânica com o meio, diante da complexidade dialética das problemáticas sociais.
E sem fetichismos recriou o universo das mulheres do cais cruamente expostas às adversas circunstâncias que lhes impedem de uma autêntica experiência de vida. Condenada à luta solitária contra as hostilidades sociais, permaneceu Mundoca, cuja determinação lhe trouxe não mais que a comprovação de uma vivência alienada e, conseqüentemente, reificada. A solidão e o silêncio de Mundoca caracterizam também a luta de outras personagens que habitam o conjunto da Tetralogia, encontrando sempre um tratamento despojado de quaisquer joguetes de disfarces.
Constitui um traço do potencial literário de Assis Brasil transmutar em palavras o doloroso processo de fragmentação do indivíduo quando da sua busca por uma totalidade já distanciada pela degradação do espaço no qual está inserido. O autor – em consciente oposição à alienação capitalista, ao massacre advindo das diferenças de classes sociais – denuncia os reflexos da exploração do próprio destino humano impedido de transcendências, desmontando os desdobramentos ideológicos através do universo de romances capazes de subjugar o domínio da alienação, retratando a luta pela conquista de valores mantenedores da dignidade humana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

 


BICCA, Luiz. Marxismo e Liberdade. São Paulo: Loyola, 1987.
BORON, Atílio. Filosofia Política Marxista. São Paulo: Cortez, 2003.
BRASIL, Assis. Beira Rio Beira Vida. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.
BRASIL, Assis. Pacamão. Rio de Janeiro: Bloch, 1969.
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. São Paulo: T. A. Queiroz, 2000.
CODO, Wanderley. O que é alienação. São Paulo: Brasiliense, 2004.
COSTA, Cristina. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Moderna, 2004.
COUTINHO, Carlos Nelson. Literatura e Humanismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
GOLDMANN, Lucien. A Sociologia do Romance. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
LUKÁCS, Georg. A Teoria do Romance. São Paulo: Editora 34, 2003.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Cortez, 1998.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
TADIÉ, Jean-Yves. A Crítica Literaria no Século XX. Tradução: Wilma Freitas R. de Carvalho. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992.

 

 BRASIL - Mapeamento literário e histórico
por Ronaldo Cagiano


No panorama da literatura brasileira contemporânea, o nome de Assis Brasil desponta como um dos mais dedicados às nossas Letras. Autor prolífico, natural do Piauí e radicado no Rio de Janeiro, com mais de uma centena de obras, vem, ao longo de sua caminhada literária promovendo a literatura nacional nas mais diversas instâncias. Além de seus projetos pessoais - contendo novelas, romances, ensaios, prosa infanto-juvenil, todos muito bem recebidos pela crítica - ainda dedica-se a mapear a produção literária e sistematizar conceitualmente em seus romances, importantes fases de nossa História política e social.

Vale ressaltar que há algum tempo vem dando ênfase a um trabalho de notória importância, catalogando, em densas antologias, os principais poetas do século em diversos estados. Dessa iniciativa de fôlego concretizou uma dezena de antologias a que deu o título de "Poesia do Século XX", aí incluídas, a Fluminense, a Mineira, a Goiana, a Sergipana, a Potiguar, a Baiana, a Cearense, a Piauiense,a Maranhense, a Capixaba, numa pesquisa que pretende cobrir todas as unidades da federação, o que, a final, vai se constituir num completo mapeamento de importantes autores e obras que marcaram este século, aí consideradas todas as escolas e tendências estéticas, numa empreitada sem similrar.

Por outro lado, dedica-se Assis Brasil a outra também fascinante experiência estética, de grande envergadura. Trata-se da "Coleção Brasil 500 anos: Das Origens à República", uma preciosa releitura de relevantes fatos históricos, que, na pena deste autor tarimbado, adquire uma nova perspectiva no campo da compreensão de nossa realidade. Com sua habitual acuidade intelectual, Assis Brasil repassa situações emblemáticas de nossa formação social e histórica e, sem perder o senso de fidelidade dos acontecimentos, tece com esmero essas tramas sob a ótica do romancista, sempre cuidadoso na observação de detalhes e situações, muitas vezes negligenciados pela históriografia oficial. Debruçado sobre nosso passado, produziu 4 volumes: "Bandeirantes - Os Comandos da Morte"; "Paraguaçu e Caramuru: Origens Obscuras da Bahia & Villegagnon: Paixão e Guerra na Guanabara"; "Tiradentes: Poder Oculto o Livrou da Forca"; e "Nassau, Sangue e Amor nos Trópicos & Jovita, a Joana DArc Brasileira", todos com selo da Imago Editora, do Rio.

Estes ciclos históricos são revisados com precisão de informações e a leitura dessas obras dão-nos uma nova dimensão de nossos heróis e dos nossos acontecimentos, com a sensiblidade de um escritor experiente que também enxerta certa ironia em sua prosa. Além disso, podemos notar que certos episódios e protagonistas, muita vezes ignorados, ou secundários para os historiadores, adquirem uma outra projeção, com uma visão mais abrangente de nosso malcontado projeto civilizatório, que tantas vezes escondeu a verdade e criou falsos mitos. Nesses livros, a História é romanceada com poesia e se nos apresenta suas lições. Como diz o escritor Nertan Carneiro, "os romances de Assis Brasil, em síntese, são um alerta pra o nosso futuro - é como se o escritor dissesse com todas as letras: se repetirmos os nossos erros, o país, que já anda à deriva, sucumbirá de vez, perdendo o seu perfil de nação e a sua grandeza como povo: Fernão Dias Paes, João Ramalho, Borba Gato, Tibyriçá, Caramuru, Paraguaçu, Villegagnon, Bartyra, Tiradentes, Nassau, Jovita Alves Feitosa são testemunhas da tragédia da conqusita e da derrota".


Ronaldo Cagiano
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ASSIS BRASIL, A CORAGEM E SUAS ANTOLOGIAS
por Soares Feitosa

Sapatos, ele os compra na secção infanto-juvenil, marrons e de borracha rangideira. Beirando o metro-e-meio, peso de um bode magro, assim o "gigante" piauí-cearense, o escritor Assis Brasil, hoje morando numa bela cobertura no Rio de Janeiro, um vozeirão como se medisse 2,29m de altura, cento e tantos livros publicados, e já há alguns anos "antologiando poetas" por este país afora..., e atrás dele um monte de inimigos.

Ah que baixim corajoso esse Assis Brasil! Agora mesmo, maio de 1999, ele acaba de lançar a Antologia da Bahia, e na Bahia [também!] já está jurado de morte.

O Carlos Eduardo da Rocha, o Ivan Americano da Costa, o Clóvis Lima, o Epaminondas Costa Lima, poetas da gloriosa, egrégia e excelsamente magna, venerável e veneranda Academia de Letras da Bahia; pois eles ficaram de fora! É doido esse Assis, uma injustiça! Ainda da ALB, o Oldegar Franco Vieira, condecorado hacaísta pelo Império do Sol Nascente, diretamente pelas mãos de Sua Majestade Imperial: também rejeitado o Oldegar pelo antologista Assis. Um dia, o pendão auriverde tremulou no Japão, e não era a Carla Peres saracoteando o "tchan", nem o Pelé ensebando as canelas; era o Oldegar, baiano e poeta, declamando um haicai!

Também de fora, completamente ao relento e à intempérie, o próximo acadêmico, poeta Aramis Ribeiro Costa. Com que direito esse piauiense de uma figa contesta a ALB?! Porque se o gigante Assis Brasil amanhecer soterrado por uma dessas muitas pirambelas dos morros baianos, eu, daqui do Ceará, serei um dos primeiros a dizer um bem feito, seu Assis! Bem feito, seu bichim, você é um louco!

E a Judith Grossmann?! E os velhos poetas da Baixinha [movimento parnasiano, década de 40], o Nonato Marques e o Bráulio de Abreu? E a Gerana Damulakis, e o Epaminondas, e o Carlos Eduardo da Rocha, e a Elizabeth Hazin? A Hazin não é uma das antologiadas do Pedro Lira? De que, então, vale a antologia anterior? E o Carlos Cunha, e a Aninha Franco, e o Almandande, e o Geraldo Maia, e o Carlos Verçosa, o Verçosa, o poeta mais premiado da Bahia? E o Gramacho, e a Gerana, e o Alberto Luiz Barauna, e o Geraldo Maia, e o Oldegar, e a Grossmann, e o Zeca Magalhães, e o Verçosa, e a Maria Antônia, e o Antônio Short, Almandrade, e o Clóvis Lima, e a Hazin? E a Aninha [a Franco], com seu livro premiado pela COPENE; e o Nonato Marques, e o Bráulio de Abreu, e o Epaminondas; e a Judith, esta também da COPENE? E o Geraldo Maia, e toda a turma dos poetas ditos da-praça; e mais todos os poetas ditos do grupo pórtico; e eu também, que também sou "baiano"?!

Assis, acho melhor você ir logo embora daí!

Assis prometeu, hoje, 22.05.1999, por telefone ao Jornal de Poesia que, se conseguir retornar com vida ao escritório no Rio de Janeiro, vai mandar um monte de recortes de jornal sobre o disse-que-disse das diversas antologias que andou editando até agora.

Aqui no Ceará fizeram um artigo, "poeta de mais, poesia de menos", descendo a ripa nos apaniguados do AB e nele próprio. Claro que o dono do artiguete ficara de fora da Antologia do Ceará do dito cujo AB! Bem feito, haja fogo, enxofre e muito piolho, cobras e jacarés nos cabelos desse gigante, Assis.

Em suma: tudo isto é uma beleza, uma grande festa, uma grande algazarra, o circo completo, o grande Coliseu, com direito às feras, ret-ret-ret, Nero, cristãos e gladiadores, rangindo osso pra todos os lados!

Liguei para o poeta Luis Antonio Cajazeira Ramos, um dos antologiados — e merecidamente antologiado o Cajazeira — e perguntei:

— Ô Luis, é verdade que o AB corre perigo de vida?

Ele disse:

— Corre, sim, mas é pela montanha de acarajés de pimenta com refresco de tamarindo que o "gigante" está consumindo... porque se for por desfeita dos poetas-não-saídos, tem uma imensa legião dos poetas-saídos aqui para defendê-lo, eu incluso.

E gritou:

— Viva o Assis Brasil!

O Wally, o Caetano e o Gil não estão na Antologia do AB. Porém, o Capinã está. Ou os três primeiros não são baianos, ou...

— Assis, você confirma?

E Assis Brasil:


— Não são poetas.

Sei não, seu Assis, o senhor é mesmo muito raçudo!

 

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 Poetas da gloriosa Poesia Baiana no Século XX,  
 Assis Brasil, Antologia, 1999, Editora Imago 

Adelmo Oliveira 
Affonso Manta 
Aleilton Fonseca 
Álvaro Reis 
Anne Cerqueira 
Antônio Brasileiro 
Antônio Risério 
Artur de Sales 
Claudius Portugal 
Camilo de Jesus Lima 
Carlos Anísio Melhor 
Carlos Roberto Santos Araújo 
Carvalho Filho 
Cid Seixas 
Cyro de Mattos 
Durval de Moraes 
Elieser Cesar 
Eugênio Gomes 
Euricles de Matos 
Eurico Alves 
Fernando Batinga de Mendonça 
Fernando da Rocha Peres 
Fernando Sales 
Firmino Rocha 
Florisvaldo Mattos 
Francisco Mangabeira 
Francklin Dória 
Fred Souza Castro 
Galdino de Castro 
Godofredo Filho 
Helena Parente Cunha 
Hélio Simões 
Hermenegildo José Bastos Iderval Miranda 
Ildásio Tavares 
Jacinta Passos 
João Carlos Teixeira Gomes 
Jehová de Carvalho 
Jorge Medauar 
José Carlos Capinan 
José de Oliveira Falcón 
José Maria Leoni 
Juraci Dórea 
Luís Antonio Cajazeira Ramos 
Luís Pimentel 
Marcos A. P. Ribeiro 
Maria da Conceição Paranhos 
Melo Morais e Filho 
Mirella Márcia 
Myriam Fraga 
Pedro Kilkerry 
Pethion de Vilar 
Pinheiro Viegas 
Raymundo Amado Gonçalves 
Roberval Pereyr 
Rubens Alves Pereira 
Ruy Espinheira Filho 
Sérgio Mattos 
Silva Dutra 
Sosígenes Costa 
Telmo Padilha 
Valdelice Soares Pinheiro 
Walker Lima 
Washington Queiroz 
Wilson Pereira de Jesus 
Wilson Rocha

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A POESIA EM PÂNICO

in jornal A Tarde,
Rio de Janeiro, 22-05-1999

O escritor piauiense Assis Brasil vem cumprindo uma tarefa goliesca desde 1994, quando lançou a primeira antologia de uma série, A poesia maranhense no século XX, já agora (1999) com mais 10 antologias publicadas na Coleção: Piauí, Ceará, Goiás, Rio de Janeiro, RioGrande do Norte, Minas Gerais, Amazonas, Sergipe, Espírito Santo e Bahia. A referência a Golias é para fazer o paralelo com um David difuso e anti-bíblico que tem ameaçado o projeto do escritor ou seja, a indiferença da mídia, além de outra mais funda, a do mercado, para com o escritor, de modo geral, que não é tratado com a mínima dignidade. Mas Assis Brasil vai em frente, lembrando que, até agora, com 11 antologias editadas, com merecidos aplausos de um desvão da crítica, o projeto de mapeamento da poesia brasileira não mereceu uma única linha dos jornais de São Paulo...

Assis Brasil é um dos mais prolíficos e prestigiosos escritores da literatura brasileira atual. Crítico, dramaturgo, ficcionista e antologista, começou muito cedo no Jornal do Brasil, cujo suplemento dominical acompanhava a atualidade literária e artística internacional e difundia o melhor das vanguardas brasileiras. Com mais de dez títulos publicados, este batalhador das letras, em meio à pesquisa deste conjunto de antologias poéticas, achou tempo para publicar o romance O sol crucificado, que tem tido boa repercussão na crítica, e acaba de lançar mais um de sua série de romances históricos, Bandeirantes/Os comandos da morte, também pela Imago.

Na entrevista ao Cultural de A TARDE - do Rio de Janeiro, feita por fax e que reproduzimos abaixo, o escritor esclarece alguns pontos historiográficos e estéticos na organização das antologias.


Florisvaldo Mattos

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A TARDE - Como surgiu a idéia de mapear a poesia brasileira do século XX e publicá-la em antologia?
ASSIS BRASIL - Em 1993 eu estava em Fortaleza, passando as férias de minha mulher (eu não tiro férias), quando recebi telefonema de um poeta maranhense me convidando para organizar uma antologia com os "melhores" poetas do Maranhão. Topei parada e fui lá fazer as pesquisas; como esse negócio de "melhor", "melhores" ia provocar polêmicas e era algo abstrato, optei por A poesia maranhense no século XX; até hoje alguns críticos não perceberam que se trata de um panorama da poesia dos estados, no que os poetas têm de representativos no século (história literária e sistema de obras), incluindo até alguns epígonos (bons) que marcaram sua época. Como sou piauiense, achei que poderia fazer a antologia de lá, a essa altura já sendo cobrado pelos conterrâneos. Como disse um crítico, com segundas intenções, depois vendí a idéia para outros estados e a coisa foi crescendo, com as dificuldades de praxe no país dos economistas, que nunca acertaram com a inflação..., somando aí os poetas umbilicais e algumas entidades públicas culturais: basta dizer que Amazonas e Minas Gerais foram co-editados fora dos estados.

A TARDE - Qual é a filosofia básica desta pesquisa e publicação?
ASSIS BRASIL - Algo já está dito lá atrás. Como conheço nosso mundo literário por dentro e por fora, e como sei que a nossa literatura é feita em "guetos" culturais estanques - incluindo Rio e São Paulo -, o prejudicado foi sempre o escritor, mortos, semi-mortos ou vivos: daí que sempre - com sacrifício da minha própria obra, como agora - procurei dar espaço aos escritores, principalmente os mais novos, através de dicionários, hitórias literárias, ensaios e, agora antologias. E sempre destaquei os escritores enclausurados na província; basta pegar o meu Dicionário prático de literatura brasileira. As antologias, pois as antologias são mais um espaço para suprir a lacuna. A "filosofia básica"? A divulgação, pois as antologias estão sendo distribuídas em todo o Brasil, e com as dificuldades de praxe. Poesia em tempo de crise? Perguntou Otávio Paz. Sim, para sensibilizar o homem e torná-lo melhor. Um crítico, que dirigiu um Suplemento de grande jornal, me perguntou há pouco por que eu estava fazendo as antologias... Pergunte ao Oscar Niemeyer, respondi. Sabemos o que ele respondeu naquela CPI sobre os gastos da construção de Brasilia, quando lhe perguntarm como conseguir viver viajando para a Europa...

A TARDE - Quais são os critérios para a inclusão de um poeta?
ASSIS BRASIL - Os critérios não são bem individuais, como já está dito atrás: aquele sistema de obras foi a melhor coisa que um crítico (Antônio Cândido) intuiu sobre a história literária. Você não pode medir a linguagem literária. Quando eu estava no ginásio perguntei ao professor de português o que era a literatura. Eu nunca me esqueci da resposta, citando o Marques da Cruz, um autor de livro didático: "é um conjunto de conhecimentos, falados ou escritos, que despertam o sentimento do belo e a perfeição da forma". O difícil é você medir isso depois da dessacralização da poesia... Um outro professor, mais tarde, à mesma pergunta, me disse: "Quanto mais o escritor sai da norma da língua, mais ele está fazendo literatura". E o coloquialismo de 22? E o chulo de certa poesia da década de 70 em alguns estados? Os críticos de hoje - é só observar - quando comentam livro de poesia - crítico, não resenhista - só falam sobre o assunto, sobre o tema de tal livro, nunca dizem - porque não sabem - como o poeta faz, organiza seus poemas. Todorov, que certa época estava na moda - nós já o divulgávamos em 1996 no JB - Jornal do Brasil - disse que falar de obra de arte leva à mesma desconfiança quanto às possibilidades de explicar a beleza. Então aquele método do sistema de obras, de série literária, é o melhor.

A TARDE - Como têm reagido os órgãos oficiais ao seu projeto?
ASSIS BRASIL - Também já disse algumacoisa sobre isso. É difícil convencer os presidentes de fundações, secretários de cultura e outros da importância do projeto. Alguns descartam logo a idéia sem mais papo, como no Amazonas e Minas Gerais, mas consegui as duas por outros meios; a primeira pelo próprio Ministério da Cultura, via Biblioteca Nacional, e a segunda, por um particular anônimo ... Essas coisas existem.

A TARDE - E no caso da Bahia? Foram muitos os percalços? A antologia baiana impressiona pela abrangência com poucas omissões significativas?
ASSIS BRASIL - Começando pelo fim, como já foi dito, não existem "omissões significativas". Já me perguntaram aqui no Rio por que não coloquei na antologia fluminense o Vicente Celestino... Bem, tenho álbum de recortes e cartas de cada estado antologiado ou vir a ser. No da Bahia há um artigo de Myriam Fraga, de A TARDE, de 27 de abril de 1997, com o título "Poesia brasileira no século XX". Depois de falar nas quatro antologias que já tinham saído, Maranhão, Piauí, Ceará e Goiás, ela diz: "No momento Assis Brasil, está debruçado sobre os poetas baianos e, em breve, estará pronta a antologia... Desde aí - acho que organizei logo a antologia - fiquei na gangorra atrás da Secretaria de Cultura, através da Fundação Cultural da Bahia, à procura de viabilizar a co-edição, que só agora saiu. Burocracia. Sempre disse que preciso, nos estados, de um guru local para tentar a aproximação com as entidades...Os professores, os poetas, de modo geral se omitem. Reconheço que o ataque final foi dado pelo poeta Ildásio Tavares.

A TARDE - Como tem reagido a crítica a seu projeto? Alguma repercussão da antologia baiana?
ASSIS BRASIL - Tenho álbum de recortes de cada antologia editada: as antologias circulam, são vistas, vendem. A da Bahia já está tendo boa repercussão: tenho aqui boa matéria que saiu no jornal Hoje em dia, de Belo Horizonte, e no jornal Tribuna de Petrópolis; outros artigos virão. O famigerado eixo Rio/São Paulo? Quem há de...? É que aqui no Rio tem uma "igrejinha", e outra lá. Há o caso de um poeta que processou um antologiatra (já me chamaram assim) porque ele compareceu com menos poemas do que o Aristóteles, por exemplo.

A TARDE - Como você situa a antologia baiana no contexto das demais?
ASSIS BRASIL - Como hoje tenho uma visão geral da poesia brasileira feita nos "guetos" literários, é surpreendente uma certa unidade de valores estéticos de pesquisa. Em cada estado temos aqueles poucos que, por alguma razão misteriosa, extrapolaram as fronteiras provincianas. Me arrisco a citar os baianos: Pedro Kilkerry, Sosígenes Costa, Jorge Medauar, Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos (Eugênio Gomes por via de seu ensaio: ele é exemplo de nome emblemático do estado que, também poeta, não fica fora do sistema...), Myriam Fraga, Cyro de Mattos, Ildásio Tavares, Capinam, Antonio Brasileiro, Ruy Espinheira Filho... Quando fui lançar em Fortaleza a antologia cearense, na fala de apresentação eu esqueci de mencionar o poeta Luciano Maia, um dos "gurus" locais que tinham feito pressão para a Fundação de lá co-editar a antologia; resultado: ele ficou de mal comigo e nunca mais me mandou o seu jornal O Pão, o que é uma escatologia poética...

A TARDE - Pode-se estabelecer alguma linha evolutiva ou espinha dorsal na poesia baiana deste século?
ASSIS BRASIL - Não só na poesia baiana, mas na de outros estados. Os professores de Letras - não sei se estudam os poetas novos brasileiros - deveriam atentar para o fato de que há uma coerência estadual na evolução das formas poéticas do inteiro Brasil. Impressionante como "todo mundo" tomou conhecimento do Parnasianismo, Simbolismo no começo do século - alguns se mantiveram leais e epigônicos até ao Modernismo, mas é assim mesmo. Neo-Parnasianismo, Neo-Simbolismo, Pré-Modernismo, Modernismo - as gerações são bem demarcadas - alguns se atrasam, não querem saber das mudanças, mas mesmo assim a série literária não pode deixar alguns desses retardatários do lado de fora ou no olvido total. As décadas de 60/70, com aquela mistura de vanguarda com mimeógráfo e alternativos, repercutiu em toda parte, a despeito da mídia não tomar conhecimento de coisa alguma.. É surpreendente que a maioria dos poetas tomou conhecimentos em meio à precariedade de meios. O panorama geral das antologias estaduais marca bem isso: a poesia brasileira, de agora em diante, não ficará mais dividida, resultado dessa amostragem exemplar. E tal panorama ganha tempo para os omissos e omitidos...

A VOLTA DE ASSIS BRASIL À CRÍTICA

Academia Brasileira de Letras lança a 112ª obra do escritor, "Herberto
Sales, Regionalismo e Utopia", abrindo novas perspectivas na literatura.

Podemos dizer, nesta altura de sua carreira, que o escritor piauiense Assis Brasil "volta" ao seu leito natural, ou seja, está de volta, com o livro "Herberto Sales, Regionalismo e Utopia", à crítica literária e ao ensaísmo de idéias, de que sempre foi um aficionado. Isto não quer dizer que os livros anteriores sejam menos importantes, como é o caso dos três projetos literários que desenvolveu por toda a década de 1990: uma coleção extraordinária de antologias (11 até aqui) poéticas estaduais; uma Trilogia Teocrática, revelando, inclusive a existência pré-humana de Jesus Cristo; e o conjunto de seus seis romances históricos, agrupados em quatro volumes, com o inédito "Bandeirantes, os comandos da morte", tudo lançado pela Imago Editora.

Agora, a "volta", incluindo este "Herberto Sales, Regionalismo e Utopia" no conjunto de seus ensaios literários, que destacam estudos sobre Clarice Lispector, Adonias Filho, João Guimarães Rosa, Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Mello Neto. Com suas histórias literárias e seus dicionários, nenhum outro escritor brasileiro se dedicou mais a analisar a nossa literatura, sempre com competência e dando destaque para os escritores mais novos. A sua visão critica é positiva em relação ao que produzimos na área, e desses seus livros, a literatura sai ganhando em projeção maior.

Bem, "Herberto Sales, Regionalismo e Utopia", que teve uma bela edição da Academia Brasileira de Letras, chama a atenção para a obra do escritor baiano, que sempre se queixou de que a mídia nunca lhe deu a atenção devida, obra também carente de estudos mais profundos como este de Assis Brasil, que resgata o escritor para as novas gerações de estudantes de letras. Toda a ficção de Herberto Sales é analisada com profundidade, simplicidade e não menor objetividade, como saliente, em prefácio ao livro, o atual presidente da Academia Brasileira de letras, o poeta Alberto da Costa e Silva.

Dividindo a obra ficcionada de de Herberto Sales em dois números historiográficos e estéticos, Assis Brasil mostra novas facetas do nosso regionalismo, e no caso do escritos baiano, um passo à frente dos regionalistas do Nordeste, em destaque Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, Jorge Amado, José Lins do Rego. É saliente, no ensaio de Assis Brasil, a colocação que ele faz do significado regionalista da literatura, tudo a ver com o uso, estilizado, da linguagem oral, e nada a ver com movimento literário ou estético, um equívoco, sempre renovado, dos nossos professores e historiadores que lidam, na cátedra ou no jornal, com fenômeno da literatura. Por tudo isso, em síntese, o ensaio de Assis Brasil chega mesmo a abrir perspectivas novas em relação aos estudos literários. Este é o livro de nº 112 do escritor piauiense de Parnaíba.

Artigo de Clóvis A. Lins, professor de literatura e escritor, Diário de Povo, Teresina, 22/11/02, pag. 18.

Apresentação de "Bandeirantes", de
Assis Brasil, na Academia de Letras

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Por Francisco Miguel de Moura

Primeiro pensei em falar apenas sobre o livro “Bandeirantes – Os Comandos da Morte”, Editora Imago, Rio, 1999, Volume I da série “500 Anos da Descoberta do Brasil”. São 224 pgs. da epopéia do bandeirismo. De Borba Gato a Garcia Pais, Raposo Tavares, Fernão Dias e muitos outros personagens da História, sem contar os inventados.

- Não! - disse comigo mesmo, pois não se deve dizer muito sobre o livro no dia do lançamento, é indiscrição. Sugerir sua leitura, sim, é melhor homenagem ao escritor.

Depois pensei em falar sobre o Autor, Francisco de Assis Almeida Brasil, ou somente ASSIS BRASIL. Mas lembrei-me logo: São 106 livros publicados, contando com “Bandeirantes”, marca até então somente superada, ao que sei, por Coelho Neto. A singularidade de sua construção romanesca foi outra alternativa que me ocorreu. Mas não calha bem para o momento. Uma análise merece paciência e tempo mais do que me é dado.

Situemos, pois, a contribuição de ASSIS BRASIL como escritor. Depois que Jorge Amado parou de produzir, quem seriam os melhores romancistas deste país? Citam-se Rubem Fonseca, Ana Miranda e Assis Brasil. Para meu gosto, o primeiro é um grande contista mas deixa muito a desejar como romancista. Ana Miranda escreveu três romances bons, mas anda longe de possuir a versatilidade de Assis Brasil, que é, sem dúvida, o maior escritor vivo e em exercício, levando-se em conta quantidade e qualidade, sem esconder que Assis Brasil é também o maior crítico literário que possui o Brasil.

Resta dizer o óbvio. Que saiu muito jovem de Parnaíba, onde nasceu, que enfrentou o mundo no peito e na raça, e venceu, continuando os estudos em Fortaleza, onde começa a trabalhar. E que depois vai para o Rio, onde continua a luta maior, faz-se escritor, participa dos melhores grupos de sua geração, é vanguarda, e torna-se grande. Grande sem vaidade, sem orgulho tolo. Como homem realizado no ofício de escritor, vem-lhe o desejo natural de participar da Academia de Letras de seu Estado e vai eleito, assume, participa, aqui lança seus livros, aqui convive. Embora não tenha exatamente um espírito acadêmico.

Em se falando de Academia, permitam-me uma indiscrição. Na última carta que me fez, Assis Brasil informa: “Ontem fui à posse da Stella Leonardos na Academia Carioca de Letras. Ela é esforçada, quer sair da marginália, mas comete o erro de tentar se afirmar pela periferia... A coisa é complicada. Passou 15 anos levando bolinhos e chás para os acadêmicos da ABL: Aurélio, Montelo, et caterva, e aplaudiam-na. Era uma festa. Quando se sentiu segura para candidatar-se a uma vaga – merecia – não entrou. Agora, o inexpressivo Murilo Melo Filho, bava-ovo do Bloch... Bem, a Stella teve um voto... Nem a prima Rachel votou nela.”

Depois da morte de Carlos Castelo Branco, nosso Estado ficou sem a representação que possuía na Academia Brasileira de Letras. Assis Brasil bem merece participar da ABL. O falecimento de Dias Gomes abriu uma vaga. Creio que ele teria mais que o voto que teve minha amiga, a escritora Stella Leonardos. Assis Brasil merece muito mais, já venho dizendo e escrevendo há muito tempo. E por que não o Prêmio Nobel de Literatura para o Brasil e para Assis Brasil? Por que nasceu no Piauí, não merece? Merece, sim. Outros escritores brasileiros também merecem. Mas no momento seria oportuno e justo que alguma entidade cultural o lançasse.

Para nós, é uma alegria tê-lo como amigo, a Academia Piauiense de Letras se orgulha de tê-lo em seu quadro. O Piauí deve orgulhar-se disto. Os brasileiros devem orgulhar-se da sua inteligência, capacidade e operosidade, do trabalho que faz para que a literatura cresça e prospere. Porque um povo sem literatura é um povo incompleto. Um povo com uma literatura fraca é um povo fraco. Uma língua sem literatura é uma língua fadada a morrer.

Numa época de dificuldades econômico-financeiras como a que atravessamos, é um milagre tanto estímulo para escrever, para publicar, e existir quem dispense tanta atenção como Assis Brasil dispensa à literatura e aos demais colegas, embora reconheça que muitos “coleguinhas” têm ciúme do seu sucesso e porque publica muito. Ora, ora, vão-se às capembas!

Não posso mencionar todos os livros que escreveu. Quanto a “Bandeirantes”, aviso que a introdução de ensaios didáticos, necessários, é bem elaborada. Tendo paciência, aprende-se. É neste ponto que lembramos de “Os Sertões”, com seus capítulos iniciais de geografia, geologia e ciências sociais, antes de entrar propriamente na epopéia de Canudos. E o livro Euclides da Cunha é padrão em nossa literatura. Também não custa referir-me a uma obra internacional, “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, que possui longa introdução teórico-filosófica. É a tendência universal, pós-moderna, do romance. Os romances históricos de Assis Brasil são assim, muito especialmente “Bandeirantes”.

Com base em historiadores de peso, uns mais criativos e outros mais anotativos, a Assis Brasil não lhe faltam boa matéria e imaginação. O imaginário para o romance histórico americano começa quando se sabe que não se sabe nada da origem dos povos primitivos da América, especialmente os do Brasil. Mas Assis Brasil investiga minuciosamente e coloca muitas perguntas de pé: se somos descendentes de asiáticos, dos atlantis, dos víquingues, dos fenícios, dos árabes ou autóctones. No final do capítulo introdutório, o Autor chega a uma conclusão. É quando escreve que “Ninguém, na realidade, sabe de onde viemos ou de onde se originaram os tupinambás (...) ...mas é simpático e curioso sabermos – talvez pelos desvãos mitológicos da História – que tupis e guaranis, em algum momento teriam exercido o papel de guarda-costeira dos vikings, do rio da Prata ao Amazonas e delta do Parnaíba. Na cidadezinha de Pedra do Sal, no Piauí, existiria um túnel viking, construído para a defesa da colônia e acesso a regiões mais seguras. Cremos que um dia será encontrado. No entanto, é estimulante para o romancista, cuja matéria prima é a imaginação, compartilhar da opinião de alguns pesquisadores que têm ligado a Àsia às Américas e seguido as pegadas dos enigmáticos migrantes, primeiro até a região central dos Estados Unidos, e depois até Monte Alegre, no Pará. Poderiam ter sido duas ‘pinças’ que, afinal, se encontraram. Mas, para os arqueólogos detalhistas, há diferença cultural entre os dois grupos a partir mesmo da ponta das flechas... Admitindo ainda os estudiosos do passado americano e brasileiro que poderiam existir outros povos nesse cadinho de especulação científica e histórica, resta saber quem eram os ‘intermediários’ entre os amazonenses e os norte-americanos.”

Por curiosidade, vão mais estas passagens, diante do que a gente se espanta com a crueldade daqueles homens, colonizadores e bandeirantes: a) - Que Domingos Jorge Velho “recebeu francos elogios do arcebispo da Bahia por ter trazido, numa de suas entradas, 260 pares de orelhas de índios”; b) - que “os homens santos (jesuítas), em 1549, assistiram à cruel demonstração de força do comandante português (Governador Geral, Tomé de Sousa), ao estraçalhar, na boca dos canhões, o corpo de alguns índios velhos... e rebeldes”; c) – que “os membros da Companhia de Jesus, como José de Anchieta, diziam coisas tais como estas: Para este gênero de gentes (os índios) não há melhor pregação do que espada e vara de ferro” .

“Bandeirantes”, de Assis Brasil, é um livro caleidoscópico no sentido próprio e no figurado, pois que apresenta seus personagens no presente, em ação. Claro que se trata de uma paráfrase, mas justo onde desponta a criatividade que falta à História, presa a documentos muitas vezes fictícios, forjados, apócrifos – especialmente a nossa. É justamente isto que se admira em Assis Brasil: não repetir-se na estruturação, enquanto escreve tanto, usando da técnica estilística da repetição. Forma, fórmula e fôrma. Assis é adepto da forma, abjura as fórmulas porque é criador, e da fôrma, nem falar, visto que quem a usa é o artesão. Primeiramente, como referi, vêm os ensaios. O romance começa mesmo lá pela pag. 71, com personagens da História que se transformam em personagens de romance, de drama, de tragédia. São eles João Ramalho, Borba Gato, Garcia Pais, Raposo Tavares, Fernão Dias Pais, Maria Betim, Maria Leite, Bartyra, Tanyyá, Tibiriçá, Brás Cubas e outros, em episódios diversos, sendo principais a fundação de São Paulo de Piratininga e Ipiroig. Mas aí já é a estória da História, a qual nenhum bom apresentador conta, quando muito aponta, para que os leitores fiquem de água na boca.

Assis Brasil é um bandeirante das letras, no melhor sentido, enquanto caçador de pedras preciosas, com aquele ímpeto e a coragem indomável de quem sabe que busca o caminho da verdade, da beleza e das virtudes mais humanas.

Finalizando, refiro-me a um pequeno e comovedor episódio de “Bandeirantes”, do capítulo “Estranho Leilão”. O capitão Matias Cardoso e Fernão Dias Pais se encontram, descem de seus cavalos, abraçam-se e conversam sobre os entreveros com os índios mapaxós. Fernão Dias preocupa-se com os filhos José Dias e Garcia Pais e por um instante fica pensativo, coça a longa barba branca e diz que o primeiro “é veterano no combate e no matar” mas Garcia Pais, embora animado, é inexperiente. Terá coragem de matar no fragor da batalha, mas, a sangue frio, que acontecerá? E se, chegado o momento, ele fracassar?

Matias Cardoso, entretanto, lhe assegura que Garcia Pais matará, “se é que já não matou”. E acrescenta que o menino traz essa vocação no sangue.

Mas, inconformado, Fernão Dias contrapõe: - “Sei que não é hora nem tempo para tal assunto, primo Matias. Nunca conversaria sobre isso com Borba Gato ou com José Dias. Eles já estão macerados pelo que viveram e presenciaram de violência e de matança. O meu jovem Garcia Pais, sei, tem algo que os outros não têm... ou que já tiveram. É o lado bom da mãe dele. Não, não gostaria de vê-lo perder a face de misericórdia e de perdão. Tampouco posso dizer isso para Garcia Pais. Tenho me feito durão, frio, calculista perante ele. É que já fui como meu filho...”

Para os que acham que a arte não tem nada a ver com a moral, o episódio do romance de Assis Brasil sirva de lição. Até àqueles homens turbulentos, cruéis, assassinos, o remorso chega pela pena do romancista: é uma luz na escuridão dos espíritos.

Esta foi a minha leitura, vocês farão outras, certamente. A literatura é o reino da liberdade. E o romance é o melhor gênero para exercê-la. Leiam o romance de Assis Brasil, é a melhor homenagem que podemos prestar a um autor.
 

 

 

Entrevista com Assis Brasil Sapiência - Ultimamente,com o incremento dos cursos de pós-graduação na área de Letras, sua obra tem sido objeto de vários estudos acadêmicos. O senhor tem acompanhado esses trabalhos? Assis Brasil - Tenho acompanhado, e isso em vários Estados. O primeiro trabalho saiu em Niterói (RJ) quase que em cima da publicação do Beira Rio Beira Vida. As teses são boas em modo geral. É bom que os estudantes de Letras saibam da importância da literatura, pois sem arte uma sociedade não sobrevive. Tomamos conhecimento de vários países através de sua arte, e não da sua política ou economia... Sapiência - Em 1912, o poeta Lucídio Freitas, realizou, através do jornal Diário do Piauí, uma enquete a respeito da literatura piauiense. Uma das questões propostas era : “Que papel representa o Piauí no momento literário do País?” Se a pergunta fosse dirigida ao senhor, hoje, qual seria sua resposta? Assis Brasil - No momento literário do País, o nosso Piauí representa muito, e também de um ponto de vista mais abrangente culturalmente. E sei que tenho participação ativa nesse processo. Tenho destacado, não só nos meus livros como em conversa com intelectuais, a ação preponderante do Estado no complexo cultural do País. O Piauí edita revista, publica livros, a Academia Piauiense de Letras tem participação forte, como outras entidades culturais. Só precisamos cobrar do Governo uma ação mais dinâmica. O que é isso? Melhores verbas para essas entidades, que vivem de pires na mão. E a despeito disso, funcionam. Sei que a nossa Academia Piauiense sobrevive com dificuldade. Um país se faz com homens e livros, disse Monteiro Lobato, e Castro Alves exaltou a sua importância. Sei que o Piauí se esforça para fazer o melhor, como esse Salão do Livro do Piauí, uma verdadeira bienal do livro, ao nível das do Rio e São Paulo. É comovedor ver as crianças folheando e comprando livros, como vi no ano passado em Teresina. Os governantes também precisam se comover e abrir os cofres. Tomei conhecimento de que a Secretaria de Cultura da minha terra, Parnaíba, não tem dinheiro nem pra comprar água mineral... Sapiência - A partir dos anos 70, a produção literária destinada ao público infanto-juvenil cresceu de forma extraordinária, no Brasil, não só pelo aparecimento de autores novos, mas também porque muitos autores já consagrados começaram a publicar literatura infanto-juvenil. No seu caso, por que passou a escrever para crianças? Assis Brasil - No meu caso comecei com a publicação de um livro infanto-juvenil, Verdes Mares Bravios / Aventura no Mar. E não poderia ter sido o contrário, pois eu o escrevi com apenas 15 anos de idade. Muitos anos depois fiz uma adaptação e a Editora Melhoramentos o publicou. A “volta foi curiosa”- além de receber, dos editores muitos pedidos de livros para a área, uma noite tive um sonho, que era uma história completa para crianças e jovens. Quando amanheceu, me sentei na máquina e escrevi o primeiro episódio de uma série narrando as peripécias de um aventureiro e ecologista, amigo dos índios. Chama-se, o personagem central, das narrativas infanto-juvenis, Gavião Vaqueiro, nascido em Piracuruca, no Piauí. Escrevi perto de 30 histórias com o mesmo personagem, em episódios autônomos. A editora Melhoramentos publicou 9 narrativas, sempre com ampla aceitação entre professores (1º e 2º graus) e alunos. Depois publiquei mais histórias por inúmeras outras editoras, creio que no total mais de 20. O Herculano Moraes está com uma dessas histórias inéditas para publicar em Teresina. Depois os outros livros para a área vieram automaticamente – creio que, no total, publiquei mais de 40. Gosto de escrever para crianças e jovens, me sinto bem. Quando estou trabalhando em livros mais complexos (ensaios/romances), costumo dizer que volto de vez em quando a escrever para jovens me faz mais jovem e descanso das engrenagens mais envolventes do meu cérebro. Sapiência - Algumas de suas importantes obras tem virado tese de mestrado. Qual de suas tantas publicações mais gosta e por que? Assis Brasil - Minha mente trabalha em dois setores, um mais racional e outro mais sensível. A minha Tetralogia Piauiense cobre as duas áreas. Mas escrevi dois romances, passados no Ceará, que me atingem muito emocionalmente: A Volta do Herói e Zé Carrapeta, o Guia de Cego. Do ponto de vista da técnica narrativa, destaco o romance histórico, Villegagnon, Paixão e Guerra na Guanabara e o romance O Prestígio do Diabo. Publicado originalmente em Sapiência - informativo da Fapepi - maio de 2006

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